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Nota do digitalizador: Este livro foi digitalizado e corrigido por Lucas
Maia, para uso exclusivo de deficientes-visuais, de acordo com a lei
brasileira de direitos autorais, que segue abaixo: "Lei 9.610, de 19 de
fevereiro de 1998, sobre "Direitos autorais. Alteracao, atualizacao e
consolidacao da legislacao". TITULO III - Dos direitos do autor.
Capitulo IV - Das limitacoes aos direitos autorais. Art. 46 - Nao
constitui ofensa aos direitos autorais: I - A reproducao: d)  De obras
literarias, artisticas ou cientificas, para uso exclusivo de deficientes
visuais, sempre que a reproducao, sem fins comerciais, seja feita
mediante o sistema BRAILLE ou outro procedimento em qualquer suporte
para esses destinatarios;" *Para a correo desse texto, foi usado o
editor de textos do sistema DOSVOX; por tanto, o texto pode conter erros
de diagramao e outros. *O nmero das pginas  acompanhado pelo sinal
#, para facilitar a leitura. Abriu de 2002.   Fim da nota **** Um mundo
mgico... Um universo de fantasias onde os daemons correm pelas ruas de
Oxford e Londres... onde um redemoinho de poeira misteriosa est por
toda parte, tornando possvel s crianas conhecerem segredos que os
adultos dariam tudo para desvendar. Primeira parte da trilogia
Fronteiras do Universo, A Bssola Dourada  um romance de aventuras
surpreendentes criado por Philip Pullman. Neste volume, a jovem Lyra se
lana numa busca desesperada quando seu amigo Roger desaparece. Quem
est por trs dessa trama que ameaa jovens e crianas? Como lutar
contra essa fora poderosa e maligna? So perguntas que Lyra ter de
responder para descobrir o mistrio que envolve o desaparecimento de
Roger. Na paisagem rida do norte, Lyra enfrenta terrveis obstculos.
Ursos de armaduras dominam a regio. As bruxas-rainhas sobrevoam a
paisagem gelada e sombria. Uma mulher misteriosa acompanhada de seu
macaco dourado dedica-se a experincias indescritveis e assustadoras.
Sempre rodeada por perigos, Lyra no se intimida, ir aonde for preciso
para descobrir o que aconteceu a Roger... mesmo que tenha que ir alm
dos limites do planeta. Philip Pullman  autor consagrado entre o
pblico infanto-juvenil e elogiado pela crtica especialisada. Traduzida
em mais de 17 idiomas, A Bssola Dourada vem liderando a lista dos mais
vendidos nos EUA. Comparado  obra de Tolkien, este livro foi indicado
pela Publishers Weekly como um dos livros do ano de 1996. A BSSOLA
DOURADA Prmio Guardian Prmio Carnegie Melhor livro juvenil de 1996
FRONTEIRAS DO UNIVERSO I A BSSOLA DOURADA "Realmente grandioso... Fora
e beleza, cena aps cena." New York Times "A obra mais ambiciosa desde O
Senhor dos Anis. Intelectualmente emocionante e narrativa magnfica."
New Statesman "A histria se passa em vrios nveis (...) uma aventura
emocionante, com muita ao, por vezes violenta, em que a herona
adolescente possui mais do que simples semelhanas com Huckleberry Finn.
(...) um texto belo, chocante, comovente, intelectualmente engraado, de
uma inventividade magnfica. Simplesmente uma grande histria capaz de
agradar a todas as idades." The London Times - Educational Supplement "A
Bssola Dourada agrada a leitores dos oito aos 80. (...) adultos
experientes podem adivinhar que o bem triunfar no final. No entanto, a
criana que existe em cada um de ns acompanha a histria com a
respirao suspensa e se v perplexa diante da expectativa aterrorisante
das ltimas pginas. Por sorte, ainda h esperanas na promessa do
prximo livro da srie." The Standard "O enredo intricado combina
fantasia, suspense, mistrio e uma busca repleta de demnios, viles e
crianas inocentes, porm maliciosas. O pano de fundo para esta aventura
 Oxford, Londres e Escandinvia. A BSSOLA DOURADA  daqueles livros
que o leitor no consegue fechar at chegar  ltima pgina. Uma
histria envolvente, sedutora, repleta de surpresas." The Scotsman ****
PHILIP PULLMAN FRONTEIRAS DO UNIVERSO VOLUME UM A BSSOLA DOURADA
Traduo de Eliana Sabino OBJETIVA Ttulo original HIS DARK MATERIALS 1:
NORTHERN LIGHTS Direitos em lngua portuguesa para o Brasil adquiridos
por EDITORA OBJETIVA LTDA., rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro -RJ -
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Cristina Aleixo Umberto Figueiredo Pinto 1998 109876 5432 Nesse abismo
selvagem, seio da natureza, e, talvez, seu tmulo, nesse abismo que no
 nem mar, nem terra, nem ar, nem fogo, mas todos esses elementos
confusamente misturados nas suas causas fecundas, que devem lutar sempre
assim, a menos que o todo-poderoso Criador ordene aos seus negros
materiais que criem novos mundos; nesse abismo selvagem, Satans, o
cauteloso inimigo, mantm-se  beira do inferno, contempla-o algum
tempo, refletindo sobre a sua viagem... John Milton: Paraso Perdido,
Livro II (traduo de Conceio G. Sotto Maior -Clssicos de Bolso
-Ediouro -pg. 52) A BSSOLA DOURADA  a primeira parte de uma histria
em trs volumes. O primeiro volume  situado num universo como o nosso,
porm diferente em vrias coisas. O segundo volume  situado no universo
que conhecemos. O terceiro volume ir movimentar-se entre os dois
universos. Observao: A palavra "daemon"  latina, portanto deve ser
pronunciada "dmon". Sumrio Primeira Parte Oxford 1. A Garrafa de Tokay
13 2.A Idia do Norte 28 3. A Jordan de Lyra 45 4. O Aletmetro 80 5. A
Festa 96 6. As Tarrafas 114 7. John Faa 127 8. Frustrao 147 9. Os
Espies 158 Segunda Parte Bolvangar 10. O Cnsul e o Urso 179 11. A
Armadura 199 12. O Menino Perdido 221 13. Esgrima 232 14. As Luzes de
Bolvangar 249 15. Os Daemons nas Caixas de Vidro 266 16. A Guilhotina
Prateada 283 17. As Bruxas 298 Terceira Parte Svalbard 18. Gelo e
Neblina 325 19. O Cativeiro 343 20.  Outrance 362 21. As Boas-vindas de
Lorde Asriel 379 22. A Traio 397 23. A Ponte para as Estrelas 407 ****
Primeira Parte OXFORD 1 A GARRAFA DE TOKAY LYRA e seu daemon*
atravessaram o Salo, j bastante escuro, tomando cuidado para seguirem
junto  parede, fora de vista da Cozinha. As trs mesas grandes ao longo
do Salo j estavam arrumadas e os bancos compridos estavam afastados,
esperando os comensais. No alto, ao longo das paredes, os retratos de
antigos Reitores estavam na penumbra. Lyra chegou ao tablado e voltou-se
para olhar a porta aberta da Cozinha; no vendo ningum, subiu para
junto da mesa principal. Ali os talheres eram de ouro, no de prata, e
os 14 lugares no eram num banco de carvalho, mas sim em cadeiras de
mogno com almofadas de veludo. Lyra parou junto  cadeira do Reitor e
deu um peteleco de leve na taa maior; o som percorreu todo o Salo.
-Voc est de brincadeira. Comporte-se! -cochichou o daemon. * A palavra
daemon pertence  lngua latina e originou em portugus a palavra
"demnio", cujo significado atual no equivale ao da lngua original nem
ao usado nesta obra. (N.T.) #13 O nome do daemon era Pantalaimon, e, no
momento, ele tinha a forma de uma mariposa marrom para no se destacar
na penumbra do Salo. -L na Cozinha esto fazendo barulho demais -Lyra
cochichou de volta. -E o Administrador s aparece depois do primeiro
sino. Deixe de ser ranzinza. Mas, em todo caso, ela colocou a palma da
mo sobre o cristal que vibrava; Pantalaimon esvoaou  frente dela,
atravessando a extenso do tablado, e entrou pela porta entreaberta da
Sala Privativa, no outro extremo. Logo depois tornou a aparecer. -Est
deserta -sussurrou. -Mas temos que agir depressa. Quase agachada,
escondida pela mesa, Lyra venceu rapidamente a distncia e entrou na
Sala Privativa, onde tornou a ficar de p e olhou em volta. A nica luz
vinha da lareira; a pilha de lenha em brasa desabou enquanto ela estava
olhando, fazendo subir uma coluna de fascas pela chamin. Ela havia
passado a maior parte da vida na Faculdade, mas nunca tinha visto a Sala
Privativa; s os Catedrticos e seus convidados podiam entrar ali, e
nunca uma mulher. Nem as criadas entravam para limpar; esse trabalho s
quem fazia era o Mordomo. Pantalaimon acomodou-se no ombro dela. -Est
satisfeita agora? Podemos ir? -cochichou. - No seja medroso! Ainda
quero dar uma espiada! Era uma sala ampla, com uma mesa oval de madeira
vermelha encerada e sobre ela vrias garrafas e taas de cristal, e uma
tabaqueira de prata com uma pequena estante de cachimbos. Num aparador
vizinho, havia um pequeno aquecedor de pratos e uma cesta com botes de
papoula. - Eles se tratam bem, hein, Pan? -ela comentou baixinho. E foi
sentar-se numa das poltronas de couro verde, to funda que ela ficou
quase deitada, mas endireitou-se e encolheu #14 as pernas. Depois ps-se
a examinar os retratos nas paredes: mais Catedrticos, com certeza;
barbados e melanclicos, de dentro de suas molduras, eles lanavam
olhares de solene desaprovao. -Que acha que eles conversam aqui? -a
garota perguntou, ou comeou a perguntar, pois, antes de terminar a
frase, ela ouviu vozes do lado de fora da porta. -Para trs da poltrona.
Depressa! -sussurrou Pantalaimon. Como um raio, Lyra pulou da poltrona e
foi se esconder atrs dela. No era o melhor esconderijo: ela havia
escolhido logo a poltrona que ficava bem no meio da sala, e se no
ficasse quietinha... A porta se abriu, e a iluminao da sala mudou: um
dos recm-chegados trazia uma lamparina, que ele colocou sobre o
aparador. Lyra via as pernas dele, as calas verde-escuro e os sapatos
pretos bem encerados: um criado. Ento uma voz grossa perguntou: -Lorde
Asriel j chegou? Era o Reitor. Lyra prendeu a respirao ao ver o
daemon do criado (um co, como os daemons de todos os criados) entrar
trotando e sentar-se em silncio aos ps dele, e ento os ps do Reitor
ficaram visveis tambm, metidos nos sapatos velhos que ele sempre
usava. -No, Reitor -disse o Mordomo. -Tambm no chegou notcia das
Docas Areas. -Imagino que ele vai chegar com fome. Leve-o direto para o
Salo, est bem? -Est bem, Reitor. -E j separou um pouco do Tokay
especial? -J, sim, Reitor. O 1898, como o senhor mandou. Lorde Asriel
aprecia muito essa safra, se bem me lembro. -timo. Agora v, por favor.
-Vai precisar da lamparina, Reitor? #15 -Sim, pode deix-la a. Durante
o jantar, venha ajeitar o pavio, est bem? O Mordomo fez uma mesura leve
e virou-se para sair, e seu daemon seguiu-o obedientemente. De seu
precrio esconderijo, Lyra ficou observando enquanto o Reitor ia at um
grande armrio de carvalho a um canto da sala, tirava a sua beca de um
cabide e vestia-a com dificuldade -o Reitor tinha sido um homem muito
forte, mas agora tinha bem mais de 70 anos e seus movimentos eram
rgidos e lentos. O daemon do Reitor era uma fmea de corvo, e assim que
ele terminou de vestir a tnica o daemon saltou de cima do armrio e foi
se acomodar no seu lugar de costume: o ombro direito dele. Lyra sentia a
aflio de Pantalaimon, embora este no emitisse um nico som. Ela
prpria estava achando delicioso aquele friozinho na barriga... Lorde
Asriel, o visitante mencionado pelo Reitor, era tio dela, um homem a
quem ela muito admirava... e temia. Diziam que ele estava envolvido em
altas polticas, exploraes secretas, guerras distantes, e ela nunca
sabia quando ele ia aparecer. Ele era muito bravo; se a apanhasse ali,
ela seria severamente castigada, mas conseguiria agUentar. Porm, o que
ela viu em seguida mudou completamente as COISas. O Reitor tirou do
bolso um papel dobrado e colocou-o sobre a mesa. Tirou a rolha de uma
garrafa que continha um vinho quase dourado, desdobrou o papel e deixou
cair l dentro um jorro fino de p branco; depois amassou bem o papel e
jogou-o no fogo da lareira. Ento tirou um lpis do bolso e mexeu o
vinho at dissolver todo o p, e depois recolocou a rolha. Seu daemon
soltou um grasnido curto; o Reitor respondeu num murmrio, e olhou em
volta com os olhos semicerrados e severos, antes de sair pela porta por
onde tinha entrado. Lyra cochichou: #16 -Viu isso, Pan? -Claro que vi!
Agora saia depressa, antes que o Administrador chegue! Mas, enquanto ele
falava, ouviu-se um sino tocando uma badalada na outra ponta do Salo.
- o sino do Administrador! -Lyra exclamou. -Pensei que a gente Ia ter
mais tempo... Pantalaimon esvoaou at a porta do Salo e voltou
correndo. -O Administrador j est l -avisou. -E voc no vai poder
sair pela outra porta... A outra porta, aquela por onde o Reitor tinha
entrado e sado, abria-se para o movimentado corredor entre a Biblioteca
e a Sala de Estar dos Catedrticos. A essa hora do dia, esse corredor
estava cheio de homens indo vestir suas becas para o jantar, ou correndo
para deixar papis ou pastas na Sala de Estar antes de ir para o Salo;
sabendo disso, Lyra tinha planejado sair por onde entrara, contando com
mais alguns minutos antes do sino do Administrador . Se ela no tivesse
visto o Reitor colocar aquele p no vinho, poderia at ter desafiado a
clera do Administrador ou tentado passar despercebida no corredor
movimentado. Mas estava confusa, e isso fez com que hesitasse. Ento
ouviu passos pesados sobre o tablado: era o Administrador vindo
verificar se a Sala Privativa estava pronta, com as papoulas e o vinho
que os Catedrticos beberiam depois do jantar. Lyra correu para o
armrio de carvalho, abriu-o e escondeu-se l dentro, puxando a porta
bem no momento em que o Administrador entrou. Ela no se preocupou com
Pantalaimon: a sala era toda de cores escuras, e ele podia muito bem
entrar debaixo de uma poltrona. Ela escutou o resfolegar forte do
Administrador e, pela fresta da porta, viu-o ajeitar os cachimbos na
estantezinha junto  #17 tabaqueira, lanando um olhar de relance para
os frascos de bebida e as taas. Depois alisou os cabelos sobre as
orelhas com ambas as mos e disse algo ao seu daemon. Era um criado, de
modo que ele era uma cadela; mas um criado de alta categoria, de modo
que o co tambm era superior -um settervermelho. O daemon parecia
suspeitar de alguma coisa e ficou olhando em volta como se sentisse uma
presena intrusa, mas no foi at o armrio, para grande alvio de Lyra.
Ela temia muito o Administrador, que duas vezes lhe dera uma sova. Lyra
ouviu um sussurro bem fraquinho; obviamente Pantalaimon tinha se enfiado
no armrio. -Agora vamos ter que ficar aqui. Por que voc nunca escuta o
que eu digo? Lyra s respondeu depois que o Administrador saiu. Cabia a
ele supervisionar os que serviam a mesa principal; ela ouviu os
Catedrticos entrando no Salo, o murmrio de vozes, o arrastar de ps.
-Ainda bem que no escutei -ela cochichou em resposta. -Seno no
teramos visto o Reitor colocar veneno no vinho. Pan, era o Tokay que
ele tinha pedido ao Mordomo! Vo assassinar Lorde Asriel! -Voc no sabe
se aquilo  veneno. -Claro que ! Voc no se lembra? Ele esperou o
Mordomo sair da sala; se fosse inocente, no se importaria que o Mordomo
visse. E eu sei que est acontecendo alguma coisa. Alguma coisa
poltica. Os criados s falam sobre isso. Pan, ns podamos impedir um
assassinato! -Nunca ouvi tamanha bobagem -cortou ele. -Como acha que vai
conseguir ficar quatro horas imvel neste armrio apertado? Deixe que eu
v vigiar o corredor; quando estiver deserto, eu aviso. Ele voou do
ombro dela, e ela viu a sombra minscula aparecer na fresta de luz. #18
-No adianta, Pan, vou ficar aqui -declarou. -H outra tnica ou sei l
o que aqui dentro; vou colocar isto no cho do armrio e me acomodar.
Tenho que ver o que eles fazem! At ento ela estava agachada; ficou em
p com cuidado, tateando  procura dos cabides para no fazer barulho, e
descobriu que o armrio era maior do que pensara. Havia vrias becas
acadmicas e capuzes, alguns orlados de pele, a maioria com forro de
seda. -Ser que so todos do Reitor? -ela sussurrou. -Quando ele recebe
diplomas honorrios de outros lugares, talvez eles lhe dem becas que
ele guarda aqui para usar... Pan, voc acha mesmo que aquilo no vinho
no  veneno? -No; assim como voc, eu acho que  veneno. E acho que
isso no  da nossa conta. E acho que interferir seria a mais idiota de
todas as coisas idiotas que voc j fez na sua vida. No temos nada a
ver com isso. -No seja estpido! -Lyra exclamou. -No posso ficar aqui
sentada vendo darem veneno a ele! -Ento v para outro lugar. -Voc  um
covarde, Pan. -Claro que sou. Posso perguntar o que voc pretende fazer?
Vai dar um salto e arrancar a taa dos dedos trmulos dele? Qual  a sua
idia? -No tenho idia, e voc sabe muito bem -ela respondeu em voz
baixa. -Mas agora que vi o que o Reitor fez, no tenho escolha. Pensei
que voc conhecesse a existncia da conscincia. Sabendo o que vai
acontecer, como  que eu posso ir me sentar na Biblioteca ou em qualquer
outro lugar e ficar tamborilando os dedos? Isso eu no pretendo fazer,
juro! -Era isso que voc queria o tempo todo -ele disse depois de um
momento. -Queria se esconder aqui e assistir a tudo. Por que eu no
percebi antes? #19 -Est certo, eu quero mesmo -ela confessou. -Todo
mundo sabe que eles vm fazer uma coisa secreta. Tm um ritual, ou
alguma coisa assim. E eu s queria saber o que . -No  da nossa conta!
Se eles querem ter seus segredinhos, voc devia apenas se sentir
superior e deix-los em paz. Esconder-se, espiar, tudo isso  coisa de
criana boba. -Sabia que voc ia dizer isso. Agora pare de resmungar. Os
dois ficaram em silncio por algum tempo, Lyra desconfortvel no cho
duro do armrio e Pantalaimon pousado num cabide com ar contrariado,
vibrando suas antenas temporrias. Lyra sentia vrios pensamentos
brigando dentro da sua cabea e adoraria poder compartilh-los com o seu
daemon, mas era tambm orgulhosa e achou melhor tentar clarear os
pensamentos sem a ajuda dele. O que predominava era a aflio, e no por
si prpria -de tanto passar por situaes difceis, j estava
acostumada. Dessa vez, estava aflita por causa de Lorde Asriel, e do que
aquilo tudo queria dizer. Ele no costumava visitar a Faculdade, e o
fato de estarem numa poca de alta tenso poltica significava que ele
no estava vindo simplesmente para comer, beber e fumar com um punhado
de velhos amigos. Ela sabia que tanto Lorde Asriel quanto o Reitor eram
membros do Conselho do Gabinete, que era o rgo especial de assessoria
ao Primeiro-ministro, de modo que a visita podia ter alguma coisa a ver
com isso; mas as reunies do Conselho do Gabinete eram feitas no
Palcio, no na Sala Privativa da Faculdade Jordan. Alm disso, havia o
boato que estava provocando cochichos entre os criados da Faculdade:
dizia-se que os trtaros tinham invadido Moscvia e estavam avanando
rumo ao Norte, para So Petersburgo, de onde poderiam dominar o Mar
Bltico e acabar conquistando todo o oeste da Europa. E Lorde Asriel
estivera no Extremo Norte: na ltima vez em que ela o vira, ele estava
preparando uma expedio para a Lapnia... #20 -Pan... -ela cochichou.
-Que ? -Voc acha que vai haver guerra? -Ainda no. Lorde Asriel no
estaria jantando aqui se a guerra fosse explodir na semana que vem. - o
que eu acho. Mas depois? -Psiu. Vem vindo algum. Ela sentou-se ereta e
encostou o olho na fresta da porta. Era o Mordomo, entrando para
verificar o pavio da lamparina, como o Reitor ordenara. A Sala de Estar
e a Biblioteca eram iluminadas por luz anbrica*, mas, na Sala
Privativa, os Catedrticos preferiam as lmpadas de nafta, mais antigas
e mais suaves. Isso no mudaria enquanto o Reitor estivesse vivo. O
Mordomo aparou o pavio e colocou outra acha de lenha na lareira, depois
escutou cautelosamente junto  porta antes de surrupiar um punhado de
folhas da tabaqueira. Mal tinha recolocado a tampa quando a maaneta da
outra porta girou, e ele deu um pulo, sobressaltado. Lyra tentou no
rir. O Mordomo enfiou s pressas as folhas de fumo no bolso e virou-se
para o recm-chegado. -Lorde Asriel! -exclamou. Um arrepio de surpresa
gelou as costas de Lyra. Ela no conseguia v-lo e tentou dominar a
vontade de mudar de posio para avist-lo. -Boa noite, Wren -disse
Lorde Asriel, naquela voz spera que Lyra sempre escutara com uma
mistura de prazer e apreenso. -Cheguei atrasado para o jantar. Vou
esperar aqui. O Mordomo parecia constrangido; s se entrava na Sala
Privativa a convite do Reitor, e Lorde Asriel sabia disso. Mas o *
Anbrica: traduo literal de anbaric, palavra inexistente na lngua
inglesa; a ocorrncia da letra "n" antes da letra "b" inexiste tanto em
portugus quanto em ingls -o Webster registra uma nica exceo. (N.
T.) #21 Mordomo viu tambm o olhar de Lorde Asriel fixo em seu bolso
estufado e resolveu no protestar. -Devo avisar ao Reitor que o senhor
chegou? -No seria mau. Pode me trazer caf. -Muito bem, senhor. O
Mordomo saiu apressado, seu daemon trotando obedientemente atrs. O tio
de Lyra foi at a lareira e estendeu os braos por cima da cabea,
espreguiando-se e bocejando como um leo. Estava usando roupas de
viagem. Como sempre acontecia quando tornava a v-lo, Lyra lembrou-se de
quanto ele a assustava. Agora estava fora de questo sair sem ser
percebida; ela teria que esperar e torcer. O daemon de Lorde Asriel, uma
pantera branca, postou-se logo atrs dele. -Vai mostrar as projees
aqui? -ele perguntou em voz baixa. -Vou. Vai ser menos confuso do que
irmos para o Auditrio. Vo querer ver os espcimes tambm; daqui apouco
vou mandar chamar o Porteiro. So tempos ruins, Stelmaria. -Voc devia
descansar . Ele esticou-se numa das poltronas, de modo que seu rosto
ficou escondido de Lyra. -, sim. E tambm mudar de roupa; com certeza,
existe alguma regra de etiqueta que permite que eles me dem uma multa
de uma dzia de garrafas por entrar aqui sem estar vestido
adequadamente. Eu precisava dormir uns trs dias. Mas o caso  que...
Houve uma batida na porta, e o Mordomo entrou, trazendo um bule de cate
e uma xcara numa bandeja de prata. -Obrigado, Wren -disse Lorde Asriel.
-Aquilo ali sobre a mesa  Tokay? -O Reitor mandou separ-lo
especialmente para o senhor -informou o Mordomo. -H s trs dzias de
garrafas do 98. #22 -No h bem que sempre dure. Deixe a bandeja aqui ao
meu lado. Ah, pea ao Porteiro para mandar as duas caixas que deixei na
Portaria. -Para c, senhor? -Sim, para c, ora. E vou precisar de uma
tela e uma lanterna de projeo, tambm aqui, tambm agora. O Mordomo
mal conseguia segurar o queixo de surpresa, mas conseguiu engolir a
pergunta ou o protesto. -Wren, voc est esquecendo o seu lugar -disse
Lorde Asriel. -No me questione; apenas faa o que eu lhe ordeno. -Muito
bem, senhor -replicou o Mordomo. -Se posso dar uma sugesto, senhor,
talvez seja melhor avisar o Sr. Cawson do que o senhor est planejando,
senhor, seno ele ficar um tanto perplexo, se  que me entende. -Est
bem. Avise a ele, ento. O Sr. Cawson era o Administrador. Havia uma
rivalidade antiga e bem-estabelecida entre ele e o Mordomo; o
Administrador era mais graduado, porm o Mordomo tinha mais
oportUnidades de insinuar-se com os Catedrticos, e aproveitava cada uma
delas. Ele ia adorar a oportunidade de mostrar ao Administrador que
sabia mais do que ele sobre o que acontecia na Sala Privativa. Fez uma
mesura e saiu. Lyra observou o tio servir-se uma xcara de caf, beb-la
de uma vez e servir-se outra, que passou a beber mais devagar. Ela
estava perplexa: caixas de espcimes? Uma lanterna de projeo? Que
teria ele de to urgente e importante para mostrar aos Catedrticos?
Ento Lorde Asriel levantou-se e virou as costas ao fogo. Ela o viu de
corpo inteiro, e maravilhou-se com o contraste que ele fazia com o
Mordomo gorducho, os Catedrticos curvados e lnguidos: Lorde Asriel era
um homem alto, de ombros largos, fisionomia soturna e feroz, olhos que
pareciam cintilar com um humor selvagem. Tinha o rosto de uma pessoa a
quem se obedecia ou combatia -nunca poderia ser tratada como inferior ou
digna #23 de compaixo. Todos os seus movimentos eram largos e possuam
um equilbrio perfeito, como os de um animal selvagem; dentro de um
aposento como aquele, ele parecia uma fera presa numa jaula pequena
demais. No momento, sua expresso era distante e preocupada. O daemon
aproximou-se e encostou a cabea na cintura dele, e ele baixou os olhos
para a pantera com um olhar enigmtico, antes de voltar-lhe as costas e
encaminhar-se para a mesa. Lyra de repente sentiu o estmago dar um n,
pois Lorde Asriel havia tirado a tampa do frasco de Tokay e estava
enchendo uma taa. -No! O grito abafado saiu antes que ela pudesse
cont-lo. Lorde Asriel ouviu-o e virou-se imediatamente. -quem est a?
Ela no conseguiu controlar-se: saltou para fora do armrio e correu
para arrancar a taa das mos dele. O vinho voou, molhando aborda da
mesa e o tapete, e a taa caiu e despedaou-se. Ele agarrou a menina
pelo pulso, torcendo-o com fora. -Lyra! Que diabos est fazendo aqui?
-Me solte e eu lhe conto! -Primeiro vou lhe quebrar o brao. Como ousa
entrar aqui? -Acabei de salvar a sua vida! Por um segundo os dois
ficaram imveis, ela a se retorcer de dor e fazendo uma careta para
reprimir os gemidos, ele inclinado sobre ela, de testa franzida, como um
trovo anunciando tem pestade. -Que foi que disse? -ele perguntou, em
voz mais baixa. -O vinho est envenenado -ela resmungou, quase sem abrir
a boca. -Vi o Reitor colocar um p branco dentro dele. Lorde Asriel
soltou-a e ela caiu no cho; nervoso, Pantalaimon esvoaou para o ombro
dela. O tio baixou os olhos com uma raiva controlada, e ela no ousou
encar-lo nos olhos. #24 -Entrei s para ver como era esta sala -ela
contou. -Sei que no devia ter feito isso. Ia sair antes que algum
entrasse, mas o Reitor apareceu e fiquei encurralada. O armrio era o
nico esconderijo. E vi quando ele colocou o p no vinho. Se eu no
tivesse... Bateram na porta. -Deve ser o Porteiro -disse Lorde Asriel.
-Volte para o armrio. Se eu ouvir o menor barulho, vou fazer voc ter
vontade de morrer . Ela correu a se esconder, e mal fechara a porta do
armrio quando Lorde Asriel falou em voz alta: -Pode entrar! Como ele
tinha dito, era o Porteiro. -Coloco aqui, senhor? Lyra viu o velho
parado  porta com ar indeciso, e atrS dele a ponta de um grande
caixote de madeira. -Isto mesmo, Shuter. Traga as duas para dentro e
coloque no cho perto da mesa. Lyra acalmou-se um pouquinho e
permitiu-se sentir a dor no ombro e no pulso. Ela teria chorado de dor
se fosse outro tipo de menina; mas s o que fez foi cerrar os dentes e
movimentar de leve o brao at senti-lo mais leve. Ento ouviu o rudo
de vidro quebrado e o borbulhar de um lquido que se derramava.
-Maldio! Shuter, seu velho descuidado! Veja o que voc fez! Lyra
conseguia ver mal e mal. O tio dera um jeito de derrubar a garrafa de
Tokay, fazendo parecer que tinha sido o Porteiro. O velho pousou com
cuidado o caixote no cho e comeou a se desculpar. -Sinto muito, mesmo,
senhor. A mesa estava mais perto do que eu pensava... -Arrume alguma
coisa para lim par esta sujeira. V depressa, antes que o tapete fique
impregnado! #25 O porteiro e seu jovem ajudante saram apressados. Lorde
Asriel aproximou-se do armrio e falou num cochicho: -J que est a,
pode fazer alguma coisa til. Vigie atentamente o Reitor. Se me contar
alguma coisa interessante a respeito dele, vou impedir que voc tenha
mais problemas do que os que j vai ter. Entendeu? -Sim, tio. -Se fizer
um barulho sequer a dentro, no vou ajud-la. Voc est por sua conta.
Ele afastou-se, e estava novamente parado de costas para a lareira
quando o Porteiro voltou com uma vassoura e uma p para os cacos de
vidro, alm de um pano e uma tigela para o lquido. -S posso pedir
desculpas mais uma vez, senhor; juro que no sei o que me... -Limpe isto
a e pronto. Enquanto o Porteiro enxugava o vinho do tapete, o Mordomo
bateu e entrou com o criado de Lorde Asriel- um homen chamado Thorold.
Os dois carregavam um caixote pesado, de madeira encerada e alas de
bronze. Viram o que o porteiro estava fazendo e estacaram. -Era o Tokay,
sim -disse Lorde Asriel. -Uma pena. A lanterna est a? Coloque-a perto
do armrio, Thorold, por favor. A tela vai ficar no outro lado. Lyra
percebeu que pela fresta da porta conseguiria ver a tela e o que fosse
projetado nela, e ficou curiosa em saber se o tio tinha feito de
propsito. Protegida pelo barulho que o criado fazia ao desenrolar o
linho rgido e montar a tela e sua armao. ela cochichou: -Est vendo?
No valeu a pena? -Pode ser que sim... -disse Pantalaimon em tom severo,
com sua vozinha de mariposa- ...e pode ser que no -completou. #26 Lorde
Asriel ficou parado perto da lareira bebericando o resto do caf e
observando com ar sisudo enquanto Thorold abria a caixa da lanterna de
projeo e desencapava as lentes antes de verificar o tanque de leo.
-H bastante leo, senhor -disse. -Quer que eu mande chamar um tcnico
para fazer a projeo? -No, eu mesmo farei isso. Obrigado, Thorold.
Eles j terminaram o jantar, Wren? -Creio que esto quase terminando,
senhor -respondeu o Mordomo. -Se entendi direito o que o Sr. Cawson
disse, o Reitor e seus convidados vo se apressar quando souberem que o
senhor est aqui. Posso levar a bandeja do caf? -Pode levar. -Muito
bem, senhor . Com uma mesur leve, o Mordomo pegou a bandeja e saiu, e
Thorold foi com ele. Assim que a porta se fechou, Lorde Asriel olhou
diretamente para o armrio no outro lado da sala, e Lyra sentiu a fora
daquele olhar quase como se ele tivesse uma forma fsica, como se fosse
uma flecha ou uma lana. Ento ele desviou os olhos e falou baixinho com
seu daemon. A pantera veio sentar-se calmamente ao lado dele, alerta,
elegante e perigosa, os olhos verdes examinando o aposento antes de se
voltarem, como os olhos negros dele, para a porta que dava para o Salo,
no momento em que a maaneta girou. Lyra no conseguia ver a porta, mas
escutou uma respirao profunda quando o primeiro homem entrou. -Estou
de volta, Reitor -disse Lorde Asriel. -Por favor , traga os seus
convidados; tenho algo muito interessante para mostrar. #27 2 A IMAGEM
DO NORTE -LORDE Asriel! -o Reitor exclamou em tom alto, e avanou para
apertar-lhe a mo. De seu esconderijo, Lyra observava os olhos do
Reitor, e de fato, por um segundo, eles foram at a mesa onde o Tokay
estivera. Lorde Asriel falou: -Reitor, cheguei Lorde demais, no quis
atrapalhar seu jantar, de modo que me acomodei aqui. Ol, Vice-reitor. 
bom v-lo com to boa aparncia. Perdoem-me os trajes, acabei de chegar.
Sim, Reitor, o Tokay se foi. Acho que o senhor est parado em cima dele.
O Porteiro derrubou-o da mesa, mas a culpa foi minha. Ol, Capelo. Li
seu ltimo artigo com grande interesse... Ele afastou-se com o Capelo,
deixando a Lyra uma viso perfeita do rosto do Reitor. Este estava
impassvel, mas o daemon em seu ombro arrepiava as penas e movia-se
inquietamente de um p para o outro. Lorde Asriel j estava dominando o
ambiente, e, embora tivesse o cuidado de ser corts com o Reitor no
territrio do prprio Reitor, era bvio onde estava o poder. Os
Catedrticos saudaram o visitante e espalharam-se pela sala, alguns indo
sentar-se em volta da mesa, outros procurando as poltronas, e logo o
zumbido das conversas enchia o ar. Lyra percebia que eles estavam muito
intrigados com a caixa de #28 madeira, a tela e a lanterna de projeo.
Conhecia muito bem os Catedrticos: o Bibliotecrio, o Vice-reitor, o
Inquiridor e o resto. Durante toda a vida, ela convivera com esses
homens; eles a ensinavam, a castigavam, a consolavam, davam-lhe
presentinhos, proibiam-na de chegar perto das frutas no Pomar; eram toda
a sua famlia. Ela podia at am-los como se fossem mesmo a sua famlia
se soubesse o que era uma famlia, embora nesse caso fosse mais provvel
que ela sentisse isso pelos criados da Faculdade; os Catedrticos tinham
coisas mais importantes a fazer do que dar afeto a uma garota meio
selvagem, meio civilizada, que o acaso colocara entre eles. O Reitor
acendeu o pavio sob o pratinho de prata e aqueceu um pouco de manteiga
antes de abrir com uma faca meia dzia de botes de papoula e jog-los
no prato. Depois de um jantar, sempre se servia papoula; ela clareava a
mente e estimulava a lngua, favorecendo a riqueza da conversa. A
tradio era o prprio Reitor torr-las. Sob o chiar da manteiga no
calor e o zumbido das conversas, Lyra mexeu-se, procurando uma posio
mais confortvel. Com enorme cuidado, ela tirou do cabide uma das becas
-uma tnica de pele que ia at o cho -e estendeu-a no cho do armrio.
-Voc devia usar uma velha e spera -sussurrou Pantalaimon. -Se ficar
confortvel demais, vai pegar no sono. -Se isso acontecer, voc tem
obrigao de me acordar -ela respondeu. Sentou-se e ficou a ouvir a
conversa. U ma conversa bastante chata, por sinal; quase toda sobre
poltica, e ainda por cima poltica de Londres, nenhum assunto excitante
como os trtaros. O cheiro agradvel de papoula fritando na manteiga e
de folha de tabaco penetrava pela fresta da porta do armrio, e mais de
uma vez Lyra percebeu que estava quase cochilando. Finalmente, porm,
ouviu que algum dava pancadinhas na mesa. As vozes silenciaram, e ento
o Reitor falou. #29 -Cavalheiros, tenho certeza de que falo por todos ao
dar as boas-vindas a Lorde Asriel. As visitas dele so raras, porm
imensamente preciosas, e sei que esta noite ele tem algo de grande
interesse para nos mostrar. Como todos sabemos, estamos numa poca de
grande tenso poltica; Lorde Asriel tem que estar amanh cedo em White
Hall, e h um trem esperando com a caldeira cheia de vapor para lev-lo
a Londres assim que tivermos terminado esta conversa; portanto, devemos
utilizar o tempo com sabedoria. Imagino que quando ele terminar de falar
haver algumas perguntas; por favor, que sejam breves e relevantes.
Lorde Asriel, gostaria de comear? -Obrigado, Reitor -disse Lorde
Asriel. -Para comear, tenho alguns fotogramas para lhes mostrar.
Vice-reitor, acho que vai enxergar melhor daqui. Talvez o Reitor queira
sentar-se ali perto do armrio. O velho Vice-reitor era quase cego, de
modo que era uma questo de cortesia arranjar-lhe um lugar perto da
tela, e isso fez com que o Reitor acabasse sentado ao lado do
Bibliotecrio, a menos de um metro do armrio onde Lyra estava
acocorada. Ela ouviu o Reitor murmurar enquanto se acomodava na
poltrona: -Esse demnio! Ele sabia do vinho, tenho certeza. O
Bibliotecrio cochichou de volta: -Ele vai pedir dinheiro. Se forar uma
votao... -Se ele fizer isso, temos que nos opor, com toda a eloqncia
que pudermos. A lanterna comeou a chiar enquanto Lorde Asriel
bombeava-a com fora. Lyra moveu-se ligeiramente para conseguir enxergar
a tela, onde agora brilhava um crculo branco. Lorde Asriel pediu:
-Algum pode diminuir a luz da lamparina? Um dos Catedrticos
levantou-se para fazer isso, e o aposento escureceu. Lorde Asriel
comeou: #30 -Como alguns de vocs j sabem, h doze meses parti para o
Norte numa visita diplomtica ao Rei da Lapnia. Pelo menos  o que eu
fingia que ia fazer. Minha verdadeira inteno era chegar ainda mais ao
norte, at o gelo, para tentar descobrir o que aconteceu com a expedio
Grumman. Uma das ltimas mensagens de Grumman para a Academia em Berlim
falava de um certo fenmeno natural que s  visto nas terras do Norte.
Eu estava decidido a investigar isso, e tambm a descobrir o que pudesse
sobre Grumman. Mas a primeira figura que vou lhes mostrar no se refere
a qualquer dessas coisas. E ele colocou o primeiro slide na armao e
deslisou-o para trs da lente. Um fotograma circular em preto e branco
bem contrastado apareceu na tela. Tinha sido tirado  noite, sob alua
cheia, e mostrava um casebre de madeira a meia distncia, as paredes
escuras contra a neve que o rodeava e jazia espessa no telhado. Ao lado
do casebre, havia uma srie de instrumentos filosficos que aos olhos de
Lyra eram como alguma coisa do Parque Anbrico na estrada para Yarnton:
antenas, fios, isoladores de porcelana, tudo brilhando ao luar e
pesadamente coberto de gelo. Um homem envolto em peles, o rosto mal
visvel pela abertura do capuz, postava-se em primeiro plano, com a mo
erguida como numa saudao. Ao lado dele, podia-se observar uma figura
menor. A lua banhava tudo na mesma claridade plida. -Este fotograma foi
feito com uma emulso padro, de nitrato de prata -Lorde Asriel
informou. -Quero que vejam outro, tirado no mesmo local apenas um minuto
depois, com uma nova emulso, de preparo especial. Ele retirou o
primeiro slide e colocou outro no lugar. Esse era bem mais escuro; era
como se o luar tivesse sido bloqueado por um filtro. O horizonte ainda
estava visvel, com a sombra escura do casebre e o telhado coberto de
neve clara destacando-se, porm a complexidade dos instrumentos estava
oculta na escurido. Mas o homem havia mudado inteiramente: estava
banhado #31 em luz, e uma fonte de partculas cintilantes parecia jorrar
da sua mo erguida. -Esta luz est subindo ou descendo? -perguntou o
Capelo. -Est descendo -respondeu Lorde Asriel. -Mas no  luz.  P.
Alguma coisa no modo como ele disse isso fez Lyra imaginar "P" com
letra maiscula, como se no fosse uma poeira comum. A reao dos
Catedrticos confirmou sua sensao, porque as palavras de Lorde Asriel
provocaram um silncio sbito e coletivo, seguido por exclamaes de
incredulidade. -Mas, como... - claro que... -No se pode...
-Cavalheiros! -fez-se ouvir a voz do Capelo. -Vamos deixar Lorde Asriel
explicar. - P -repetiu Lorde Asriel. - registrado como luz porque as
partculas de poeira afetam essa emulso como os ftons afetam a emulso
de nitrato de prata. Foi em parte para testar isso que a minha expedio
ao Norte foi montada. Como podem perceber, a figura do homem est
perfeitamente visvel. Agora quero que observem a figura  esquerda
dele. Indicou a sombra desfocada da figura menor . -Pensei que era o
daemon do homem -disse o Inquiridor. -No. O daemon estava enrolado no
pescoo dele em forma de serpente. A figura que os senhores no
conseguem ver muito bem  uma criana. -Uma criana seccionada?
-perguntou algum; a maneira como essa pessoa se interrompeu mostrava
que ela sabia que aquilo era uma coisa que no devia ter sido dita.
Houve um silncio intenso. Ento Lorde Asriel disse calmamente: #32 -Uma
criana completa. O que, dada a natureza do P,  exatamente o xis da
questo, no ? Durante vrios segundos ningum falou. Ento ouviu-se a
voz do Capelo. -Ah -fez ele, como um homem sedento que, tendo acabado
de beber  vontade, baixa o copo para poder soltar a respirao que
estava prendendo enquanto bebia. -E os rios de P... -Caem do cu e o
banham no que parece ser luz. Podem examinar este fotograma com toda
mincia. Vou deix-lo com vocs. Estou mostrando agora para demonstrar o
efeito dessa nova emulso. Mas gostaria de lhes mostrar outro. Ele mudou
o slide. O fotograma seguinte tambm tinha sido tirado  noite, mas
dessa vez sem lua. Mostrava um grupo de tendas em primeiro plano,
vagamente delineadas contra o horizonte baixo, e atrs delas um monte de
caixotes e um tren. Mas o maior interesse da figura estava no cu.
Jorros e vus de luz pendiam como cortinas, enlaando-se e enfestoando
ganchos invisveis com centenas de quilmetros de altura ou deslizando
de lado no sopro de um vento inimaginvel. -Que  aquilo? -fez a voz do
Vice-reitor . - um retrato da Aurora Boreal. - um lindo fotograma
-disse o Catedrtico de palmeriano.* -Dos melhores que j vi. -Perdoe
minha ignorncia -interps a voz trmula do Diretor do Coral. -Mas se eu
algum dia j soube o que  a Aurora Boreal, j esqueci.  o que eles
chamam de Luzes do Norte? -. Ela tem muitos nomes.  composta de
tempestades de partculas carregadas e raios solares de fora intensa e
extraordinria. * "Palmeriano" deve referir-se  Pennsula Palmeriana,
antigo nome da Pennsula Antrtica. No caso, presume-se que "palmeriano"
seria um idioma ensinado na Faculdade Jordan. (N.T.) #33 So invisveis,
mas provocam esta irradiao luminosa quando interagem com a atmosfera.
Se houvesse tempo, eu teria mandado pintar este slide para lhes mostrar
as cores; verde e rosa claros, na maior parte, com um toque de escarlate
ao longo da borda inferior daquela formao que parece uma cortina. Isto
foi tirado com emulso comum. Agora quero que vejam uma imagem tirada
com a emulso especial. Ele retirou o slide. Lyra ouviu o Reitor dizer
baixinho: -Se ele forar uma votao, podemos tentar invocar a clusula
de residncia. Ele ficou fora da Faculdade durante 30 das ltimas 52
semanas. -Ele j tem o apoio do Capelo... -murmurou em resposta o
Bibliotecrio. Lorde Asriel colocou um novo slide atrs da lente. A cena
era a mesma: como acontecera com o outro par de fotos, muitas coisas
visveis  luz comum eram muito mais escuras neste, assim como as
cortinas de luz no cu. Mas, no centro daAurora, bem acima da paisagem
sombria, Lyra distinguia alguma coisa slida. Pressionou o rosto na
fresta para ver melhor e constatou que os Catedrticos perto da tela
tambm se inclinavam para a frente. Seu assombro cresceu ao ver ali no
cu o contorno inconfundvel de uma cidade: torres, domos, muralhas...
prdios e ruas, suspensos no ar! Ela quase engasgou-se de susto. O
Catedrtico de cassington* comentou: -Aquilo ali parece... uma cidade!
-Exatamente -confirmou Lorde Asriel. -U ma cidade em outro mundo, sem
dvida? -o Decano falou, em tom de desprezo. * Cassington: disciplina
aparentemente imaginria, pois no foi encontrada qualquer referncia a
ela. (N .T .) #34 Lorde Asriel ignorou-o. Havia um frmito de excitao
entre alguns Catedrticos, como se, tendo escrito tratados sobre a
existncia do unicrnio sem jamais terem visto um, lhes fosse
apresentado um exemplar vivo, recm-capturado. - aquele negcio do
Barnard-Stokes? -quis saber o Catedrtico de palmeriano. -, sim, no ?
- isto que eu quero descobrir -disse Lorde Asriel. Ele postou-se a um
lado da tela iluminada. Lyra via seus olhos escuros observando os
Catedrticos que contemplavam o slide da Aurora; ela via tambm, ao lado
dele, o brilho verde dos olhos de seu daemon. Todas as cabeas
venerveis estavam eretas, os culos brilhando; apenas o Reitor e o
Bibliotecrio estavam recostados em suas poltronas, com as cabeas muito
juntas. O Capelo estava dizendo: -O senhor diz que estava procurando
notcias da expedio Grumman, Lorde Asriel. O Dr. Grumman tambm estava
investigando este fenmeno? -Acredito que sim, e acredito tambm que
conseguiu bastante informao sobre isso. Mas ele no vai poder nos
contar , porque est morto. -No! -exclamou o Capelo. -Infelizmente
sim, e eu tenho a prova aqui comigo. Uma onda de excitada apreenso
percorreu a Sala Privativa enquanto, sob ordens de Lorde Asriel, dois ou
trs Catedrticos mais jovens carregaram a caixa de madeira para a
frente da sala. Lorde Asriel retirou o ltimo slide, mas deixou a
lanterna acesa e, no brilho teatral do crculo de luz, inclinou-se para
abrir a caixa com um p-de-cabra. Lyra ouviu o rangido de pregos saindo
de madeira mida. O Reitor ficou de p para enxergar, tapando a viso de
Lyra. O tio dela tornou a falar: -Se vocs se lembram, a expedio de
Grumman desapareceu h dezoito meses. A Academia Alem mandou-o avanar
para o norte at chegar ao plo magntico, e ali fazer vrias #35
observaes astronmicas. Foi durante essa viagem que ele observou o
curioso fenmeno que acabamos de ver. Logo depois, ele desapareceu;
supe-se que tenha tido um acidente, e seu corpo esteja todo esse tempo
cado numa fenda qualquer. Na verdade, no houve acidente algum. -Que 
que voc tem a? -perguntou o Decano. - um saco de lixo de um aspirador
de p? Lorde Asriel no respondeu logo. Lyra ouviu o estalido de
presilhas de metal e um sibilo de ar penetrando num objeto, e depois
houve silncio. Mas o silncio no durou muito; depois de um instante,
Lyra ouviu uma exploso de exclamaes confusas: gritos de horror,
protestos veementes, vozes alteadas de raiva e medo. -Mas o que... -no
 humano... -ele foi... -Mas que foi que aconteceu com ele? A voz do
Reitor calou todas as outras: -Lorde Asriel, em nome de Deus, que  que
o senhor tem a? -Esta  a cabea de Stanislaus Grumman -a voz de Lorde
Asriel disse. Acima do rudo de vozes, Lyra ouviu algum ir tropeando
at a porta e sair, soltando gemidos incoerentes. Ela desejou poder ver
o que eles estavam vendo. Lorde Asriel continuou: -Encontrei o corpo
dele conservado no gelo perto de Svalbard. Os assassinos fizeram isto na
cabea dele. Reparem no padro de escalpelo caracterstico. Acho que o
senhor deve estar familiarizado com isto, Vice-reitor . A voz do ancio
era firme ao responder: -J vi os trtaros fazerem isso.  uma tcnica
encontrada entre os aborgenes da Sibria e do Tungusk.* De l,
naturalmente, * Tungusk: possivelmente a bacia Tungusca, na Sibria, ou
a regio onde habitavam os tungues, tambm na Sibria. (N. T.) #36 essa
prtica espalhou-se para as terras dos escraelingues,* embora eu
acredite que ela agora esteja proibida na Nova Dinamarca. Posso examinar
de perto, Lorde Asriel? Depois de um silncio breve, ele tornou a falar
. -Minha viso no  muito ntida, e o gelo est sujo, mas me parece que
h um buraco no alto do crnio. Estou certo? -Est, sim. -Uma
trepanao? -Exatamente. Isso provocou um murmrio de excitao. O
Reitor saiu da frente, e Lyra tornou a enxergar a cena. O velho
Vice-reitor, no crculo de luz do lampio, segurava um pesado bloco de
gelo bem perto dos olhos, e Lyra conseguiu ver o objeto dentro dele: uma
bola sanguinolenta quase irreconhecvel como uma cabea humana.
Pantalaimon esvoaou em volta de Lyra, e sua aflio perturbou-a. -Psiu,
escute -ela sussurrou. -O Dr. Grumman j foi Catedrtico nesta Faculdade
-disse o Decano em tom veemente. -Cair nas mos dos trtaros... -Mas to
ao norte? -Eles devem ter penetrado mais do que se imaginava! -Ser que
ouvi o senhor dizer que o encontrou perto de Svalbard? -perguntou o
Decano. -Isso mesmo. -Ento est querendo dizer que os panserbjornes tm
algo aver com isto? Lyra no reconheceu aquela palavra, mas obviamente
os Catedrticos sim. * Escraelingues: traduo literal de skraelings,
nome dado pelos antigos exploradores escandinavos aos ndios
norte-americanos ou aos esquims. (N.T.) #37 -Impossvel -disse o
Catedrtico de cassington com firmeza. -Eles nunca se comportariam
assim. -Ento no conhece Iofur Raknison -retrucou o Catedrtico de
palmeriano, que tinha feito ele prprio vrias expedies s regies
rticas. -No me surpreenderia que ele tenha comeado a escalpelar as
pessoas  moda dos trtaros. Lyra tornou a olhar para o tio, que
observava os Catedrticos com um brilho de humor sardnico, sem nada
dizer. -Quem  Iofur Raknison? -algum perguntou. -O rei de Svalbard
-esclareceu o Catedrtico de palmeriano. -Sim,  isso mesmo, um dos
panserbjornes. Ele  uma espcie de usurpador; chegou ao trono atravs
de truques, pelo que sei; mas  uma figura poderosa, nem um pouco tolo,
apesar de suas afetaes ridculas: construir um palcio de mrmore
importado, criar o que ele chama de uma universidade... -Para quem? Para
os ursos? -interps outra pessoa, e todos riram. Mas o Catedrtico de
palmeriano prosseguiu: -Eu lhes digo que Iofur Raknison seria capaz de
fazer isso a Grumman. Ao mesmo tempo, a poder de lisonjas, pode-se fazer
com que ele se comporte de maneira bem diferente. -E o senhor sabe fazer
isso bem, no , Trelawney? -comentou o Decano com zombaria. -Claro que
sei. Quer saber o que ele deseja acima de tudo? At mais do que um
diploma honorrio? Ele quer um daemon! Se algum descobrir um meio de
lhe dar um daemon, ele far qualquer coisa. Os Catedrticos riram com
vontade. Lyra acompanhava isso tudo com perplexidade: o que o
Catedrtico de palmeriano tinha dito no fazia sentido. Alm disso, ela
estava impaciente para ouvir mais sobre o escalpelamento, e as Luzes do
Norte, e aquele P misterioso. Mas ficou decepcionada, pois Lorde Asriel
havia terminado de mostrar suas #38 relquias e suas fotos, e a conversa
logo se transformou num debate acadmico sobre a convenincia ou no de
lhe dar dinheiro para outra expedio. Os argumentos eram disparados de
um lado para outro, e Lyra sentiu os olhos pesarem. Logo estava dormindo
a sono solto, com Pantalaimon enrolado em seu pescoo, na sua forma de
dormir favorita: como um arminho. Ela despertou com um susto quando
algum a sacudiu pelo ombro. -Quieta! -ordenou o tio. A porta do armrio
estava aberta, e ele estava agachado na frente da luz. -Foram todos
embora, mas ainda h alguns criados por a. V para o seu quarto agora,
e cuide para no falar a ningum sobre isso. -Eles resolveram lhe dar o
dinheiro? -ela perguntou com voz sonolenta. -Sim. -Que  P? -ela
continuou, esforando-se para ficar de p depois de passar tanto tempo
apertada. -No lhe interessa. -Interessa, sim -ela retrucoU. -Se queria
que eu fosse uma espi no armrio, devia me contar sobre o que eu estou
espionando. Posso ver a cabea do homem? A alva pelagem de arminho de
Pantalaimon arrepiou-se; ela sentiu ccegas no pescoo. Lorde Asriel
soltou uma risada curta. -No seja mrbida -disse, e comeou a guardar
os slides e a caixa de espcimes. -Vigiou o Reitor? -Sim, e ele procurou
o vinho antes de qualquer outra coisa. -timo. Por enquanto eu o
derrotei. Agora faa o que mandei, v para a cama. -Mas para onde o
senhor vai? -De volta para o Norte. Parto em dez minutos. -Posso ir
Junto? #39 Ele interrompeu o que estava fazendo e olhou-a como se fosse
a primeira vez. Seu daemon tambm voltou para ela os enormes olhos
verdes de pantera, e, sob os olhares concentrados de ambos, Lyra
enrubesceu. Mas encarou-os com firmeza. -Seu lugar  aqui -disse o tio
finalmente. -Mas por qu? Por que meu lugar  aqui? Porque no posso ir
para o Norte com o senhor? Quero ver as Luzes do Norte, os ursos, os
icebergs e tudo mais. Quero conhecer o P. E aquela cidade no ar.  um
outro mundo? -Voc no vai, garota. Tire isso da cabea; estamos numa
poca perigosa demais. Faa o que lhe mando e v para a cama; se se
comportar, trago-lhe uma presa de leo-marinho entalhada pelos esquims.
No discuta mais, ou vou ficar muito zangado. E o daemon dele rosnou com
tal ferocidade que Lyra de repente tomou conscincia de como seria
sentir aqueles dentes na garganta. Lyra apertou os lbios e olhou de
cara feia para o tio. Ele estava retirando o ar do compartimento de
vcuo e no percebeu; era como se j a tivesse esquecido. Sem uma
palavra, mas com os lbios apertados e o olhar furibundo, a garota e seu
daemon saram e foram para a cama. O Reitor e o Bibliotecrio eram
velhos amigos e aliados, e tinham o costume, depois de um episdio
difcil, de beber uma taa de BrantWijn* e consolar-se mutuamente.
Assim, depois que se despediram de Lorde Asriel, eles foram at os
aposentos do Reitor e se acomodaram no escritrio dele; com as cortinas
fechadas e o fogo na lareira reforado, seus daemons nos lugares de
costume, * BrantWijn  uma corruptela de brandewijn. hoje grafado brandy
-em portugus "conhaque". (N.T.) #40 sobre o joelho ou o ombro, eles se
prepararam para conversar a respeito do que acabara de ocorrer .
-Acredita mesmo que ele sabia do vinho? -perguntou o Bibliotecrio.
-Claro que sabia! No imagino como, mas ele sabia, e derrubou a garrafa.
Claro que foi. -Perdo, Reitor, mas no consigo deixar de me sentir
aliviado. No estava gostando da idia de... -De envenen-lo? -Sim. De
assassinato. -Acho que ningum gosta disso, Charles. O caso era se fazer
isso seria pior do que as conseqncias de no fazer. Bom, alguma
Providncia interveio, e no aconteceu. S lamento ter perturbado voc
com essa informao. -No, no -protestou o Bibliotecrio. -Mas eu
queria que o senhor tivesse me contado mais. O Reitor ficou em silncio
por um instante, antes de dizer: -, talvez eu devesse mesmo. O
aletmetro* avisa que as conseqncias sero funestas se Lorde Asriel
continuar com sua pesquisa. Alm do mais, a criana ser envolvida e
quero mant-la a salvo enquanto for possvel. -As atividades de Lorde
Asriel tm alguma coisa a ver com essa nova iniciativa do Tribunal
Consistorial de Disciplina? Aquele tal de... como  mesmo o nome?
...Conselho de Oblao? -Lorde Asriel... no, no. Pelo contrrio.
Tambm o Conselho de Oblao no est totalmente subordinado ao Tribunal
Consistorial.  uma iniciativa semiprivada; est sendo dirigida por
algum que no gosta de Lorde Asriel. Entre os dois, Charles, eu tremo.
* Aletmetro: traduo literal de"alethiometer", palavra inexistente
composta do grego aleths, que significa "verdade" ou "realidade", e do
grego mtron, significando "medir"; assim, "aletmetro" significa
"medidor da verdade" (ou "da realidade"). (N. T.) #41 o Bibliotecrio
ficou calado. Desde que o Papa Joo Calvino havia transferido a sede do
Papado para Gnova e criado o Tribunal Consistorial de Disciplina, o
poder da Igreja sobre todos os aspectos da vida tinha sido absoluto. O
prprio Papado fora abolido aps a morte de Calvino, e em seu lugar
crescera um emaranhado de tribunais, colegiados e conselhos, conhecidos
coletivamente como o Magisterium. Esses rgos nem sempre eram unidos;
s vezes crescia entre eles uma amarga rivalidade. Durante grande parte
do sculo anterior, o mais poderoso deles tinha sido o Colegiado dos
Bispos, porm, nos anos mais recentes, o Tribunal Consistorial de
Disciplina tinha se tornado o mais atuante e o mais temido de todos os
rgos da Igreja. Mas era sempre possvel que entidades independentes
crescessem sob a proteo de outra faco do Magisterium, e o Conselho
de Oblao mencionado pelo Bibliotecrio era uma dessas. O Bibliotecrio
no sabia muita coisa sobre ele, mas as coisas que ouvira causavam-lhe
desagrado e temor, de modo que ele compreendia perfeitamente a aflio
do Reitor . -O Catedrtico de palmeriano citou um nome -disse, depois de
um instante. -Barnard-Stokes? Que negcio  esse de Barnard-Stokes? -Ah,
no  da nossa esfera, Charles. Pelo que entendi, a Santa Igreja ensina
que existem dois mundos: o mundo de tudo que podemos ver, ouvir e tocar,
e outro mundo, o mundo espiritual do cu e do inferno. Barnard e Stokes
eram dois telogos... como posso dizer?.. dois telogos renegados, que
postulavam a existncia de vrios outros mundos como este aqui, nem cu
nem inferno, mas materiais e pecaminosos. Esto aqui, bem prximos, mas
invisveis e inatingveis. Naturalmente a Santa Igreja desaprovou essa
heresia abominvel, e Barnard e Stokes foram silenciados. Mas,
infelizmente para o Magisterium, parece haver slidas provas matemticas
a favor dessa teoria dos #42 outros mundos. Eu prprio nunca as estudei,
mas o Catedrtico de cassington me disse que so muito slidas. -E agora
Lorde Asriel tirou uma foto de um desses outros mundos -completou o
Bibliotecrio. -E ns lhe demos financiamento para ir procur-los.
Entendo. -Isso mesmo. O Conselho de Oblao e seus protetores poderosos
iro pensar que a Faculdade Jordan  um antro de apoio  heresia. E
entre o Tribunal Consistorial e o Conselho de Oblao, Charles, tenho
que manter o equilbrio; enquanto isso, a criana est crescendo. Sei
que no a esqueceram; mais cedo ou mais tarde, ela seria envolvida, mas
ser arrastada agora, com ou sem a minha proteo. -Mas, pelo amor de
Deus, como  que o senhor sabe disso? Foi o aletmetro de novo? -Foi,
sim. Lyra tem um papel importante a desempenhar . A ironia  que ela tem
que fazer tudo sem saber o que est fazendo. Mas pode ser ajudada, e se
meu plano com o Tokay tivesse dado certo, ela ficaria em segurana por
mais algum tem po. Eu gostaria de lhe poupar uma viagem para o Norte.
Acima de tudo, eu queria poder explicar a ela... -Ela no ia prestar
ateno -contraps o Bibliotecrio. -Conheo muito bem o jeito dela. Se
algum tentar lhe dizer qualquer coisa sria, ela escuta mal e mal por
cinco minutos e a comea a se distrair. E no adianta lhe fazer
perguntas depois, porque ela ter esquecido tudo. -E se eu conversasse
com ela sobre o P? No acha que ela iria prestar ateno? O
Bibliotecrio fez um rudo indicando at que ponto achava isso
improvvel. -Por que ela iria prestar ateno? -perguntou. -Por que um
enigma teolgico distante interessaria a uma criana cheia de sade e de
instintos? #43 -Por causa do que ela ter que viver. Inclusive uma
grande traio... -Quem  que vai atraio-la? -No, no, essa  que  a
coisa mais triste: ela  quem vai trair, e a experincia ser terrvel.
 claro que ela no pode saber disso, mas no h uma razo para ela no
saber sobre o problema do P. E voc pode estar enganado, Charles; ela
pode muito bem interessar-se, se lhe for explicado de maneira simples. E
pode ser que isso a ajude depois. Certamente ajudaria a diminuir a minha
ansiedade. -Este  o dever dos velhos: ter ansiedade por causa dos
jovens -comentou o Bibliotecrio. -E o dever dos jovens  desdenhar a
ansiedade dos velhos. Depois de algum tempo, os dois se despediram, pois
era tarde e eles eram velhos e ansiosos. #44 3 AJORDAN DE LYRA A
Faculdade Jordan era a mais imponente e mais rica faculdade de Oxford.
Era provavelmente a maior, tambm, embora ningum tivesse certeza disso.
Os prdios, agrupados ao redor de trs quadrilteros irregulares,
datavam de todos os perodos, do incio da Idade Mdia at meados do
sculo XVIII. Sua arquitetura no tinha sido planejada; ela crescera aos
poucos, com o passado e o presente misturando-se a cada esquina, e o
efeito final era de uma imponncia confusa e decadente. Sempre havia uma
parte quase desabando, e, durante cinco geraes, a mesma famlia -os
Parslow -trabalhava para a Faculdade em tempo integral, como pedreiros.
O Sr. Parslow atual estava ensinando a profisso ao filho; os dois, com
mais trs empregados, subiam como formigas pelos andaimes que tinham
erigido na esquina da Biblioteca, ou sobre o telhado da Capela, e
puxavam para cima blocos de pedra, rolos de chumbo brilhante, vigas de
madeira. A Faculdade possua fazendas e propriedades por toda a
Britnia. Dizia-se que era possvel caminhar de Oxford a Bristol, numa
direo, ou de Oxford a Londres, em outra, e nunca sair das terras da
Jordan. Em toda parte do reino, havia fornos a lenha #45 e tanques de
tintura, florestas e oficinas de naves atmicas que pagavam aluguel 
Jordan, e todo primeiro dia de cada trimestre o Tesoureiro e seus
funcionrios somavam tudo, anunciavam o total ao Concilium e
encomendavam um par de cisnes para o Banquete. Parte do dinheiro era
reinvestida -o Conselho acabara de aprovar a compra de um prdio de
escritrios em Manchester -, e o resto era usado para pagar os modestos
salrios dos Catedrticos e os salrios dos criados (e dos Parslow, e de
mais de uma dzia de famlias de artesos e comerciantes que serviam 
Faculdade), para manter a adega bem provida de vinhos, para comprar
livros e anbargrafos para a imensa Biblioteca -que ocupava um lado
inteiro do Quadriltero Melrose e se estendia, como a toca de uma
toupeira, por vrios andares no subsolo -e tambm para comprar o
equipamento filosfico mais moderno para a Capela. Era importante manter
a Capela na vanguarda do progresso, porque a Faculdade Jordan no tinha
rival, na Europa ou na Nova Frana, como centro de teologia
experimental. Lyra sabia disso, pelo menos. Tinha orgulho da
proeminncia da sua Faculdade e gostava de se vangloriar disso com os
vrios moleques com quem brincava junto ao Canal ou nos Barreiros; e
olhava para os eruditos e professores visitantes com desprezo e piedade,
porque eles no pertenciam  Jordan, portanto deviam saber menos,
coitados, do que o mais humilde Professor-assistente da Jordan. O que
era essa teologia experimental, Lyra sabia to pouco quanto os moleques
da rua. Tinha formado a idia de que era algo relacionado  magia, aos
movimentos das estrelas e planetas, a minsculas partculas de matria
-mas tudo isso era apenas palpite, na verdade. Com certeza, as estrelas
tinham daemons, como os humanos, e na teologia experimental
conversava-se com eles. Lyra imaginava o Capelo falando solenemente,
escutando os comentrios dos daemons das estrelas e depois assentindo
com ar sbio, ou sacudindo a cabea com tristeza. Mas o que se passava
entre eles ela no conseguia imaginar. #46 E nem estava particularmente
interessada. De certo modo, podia-se dizer que Lyra tinha alma de
moleque; o que ela mais gostava de fazer era subir nos telhados da
Faculdade com Roger, o ajudante da cozinha que era seu amigo, para
cuspir caroos de ameixa nas cabeas dos Catedrticos que passavam l
embaixo, ou piar como corujas do lado de fora da janela de uma sala de
aula, ou apostar corrida nas ruas estreitas, roubar mas no mercado,
brigar. Assim como ela no tinha conscincia das foras polticas
ocultas que agiam sob a superfcie do cotidiano da Faculdade, tambm os
Catedrticos, por sua parte, no conseguiriam enxergar o caldo
fervilhante de alianas, inimizades, guerras e acordos que era a vida de
uma criana em Oxford. Crianas brincando juntas: que cena agradvel!
Existe alguma coisa mais inocente e encantadora que isso? Na verdade,
Lyra e seus amiguinhos estavam travando uma guerra mortal, naturalmente.
Primeiro, as crianas de uma faculdade -serviais jovens, filhos de
criados, Lyra -declaravam guerra s de outra, mas essa inimizade era
esquecida quando as crianas da cidade atacavam uma criana de
faculdade; ento todas as faculdades uniam-se e lutavam contra as
crianas da cidade. Essa rivalidade tinha cem anos e era bastante
profunda e apreciada. Mas at isso era esquecido quando outros inimigos
ameaavam. Um inimigo era eterno: os filhos dos oleiros, que viviam
perto dos Barreiros e eram desprezados tanto pelas crianas das
faculdades como pelas da cidade. No ano anterior, Lyra e algumas
crianas da cidade tinham concordado numa trgua provisria e atacaram
os Barreiros, atirando grandes pedaos de argila sobre os filhos dos
fabricantes de tijolos e derrubando o castelo de barro que eles haviam
construdo; depois rolaram cada um deles na substncia pegajosa de onde
eles tiravam o sustento, at que todos -vencidos e vencedores -ficaram
parecendo um bando de bonecos animados. #47 o outro inimigo regular
tinha sua poca: as famlias de gpcios*, que moravam em balsas, iam e
vinham com as feiras de primavera e outono, e estavam sempre dispostos a
brigar. Havia uma famlia em particular que voltava regularmente para
seu atracadouro na parte da cidade conhecida como Jeric, com quem Lyra
vinha lutando desde a primeira vez que conseguiu jogar uma pedra. Na
ltima vez em que essa famlia esteve em Oxford, ela, Roger e alguns dos
outros ajudantes da cozinha da Jordan e da Faculdade St. Michael's
prepararam uma emboscada, jogando lama na barcaa pintada de cores
brilhantes, at que a famlia inteira desembarcou para expuls-los -e
nesse momento o esquadro de reserva, sob as ordens de Lyra, invadiu o
barco e desatracou-o da margem, deixando que a embarcao flutuasse
canal abaixo, atrapalhando os barcos que passavam, enquanto os soldados
de Lyra revistavam a barcaa de uma ponta  outra, procurando a rolha
-Lyra acreditava firmemente nessa rolha e assegurou  sua tropa que se a
puxassem o barco afundaria no mesmo instante; no a encontraram, e
tiveram que abandonar o barco quando os gpcios apareceram; acabaram
fugindo, pingando gua e em meio a gritos de triunfo, pelas ruas
estreitas de Jeric. Aquele era o mundo e o reino de Lyra. Na maior
parte do tempo, ela era uma selvagenzinha ambiciosa e grosseira, porm
sempre tivera uma sensao vaga de que aquele no era o seu mundo
inteiro, que uma parte de si pertencia  solenidade e aos rituais da
Faculdade Jordan; e que, em algum lugar de sua vida, havia uma ligao
com o elevado mundo da poltica representado por Lorde Asriel. Essa
intuio apenas fazia com que ela se desse * Gpcio: no original,
gyptian, que parece derivar do ingls egyptian (egpcio), que por sua
vez derivado grego rgipcim, que originou tambm a palavragipsy (cigano),
pois pensava-se que os ciganos eram originrios do Egito. De fato as
caractersticas atribudas ao povo gpcio nesta obra o colocam muito
perto dos ciganos. (N. T .) #48 ares de superioridade e mandasse nos
outros moleques; nunca lhe ocorrera tentar descobrir alguma coisa sobre
isso. De modo que assim, como um gato selvagem, ela passara a infncia.
A nica variao em seus dias acontecia nas visitas irregulares de Lorde
Asriel  Faculdade. Ter um tio rico e poderoso era muito bom para se
vangloriar, mas o preo disso era ter que ser agarrada pelo Catedrtico
mais gil e levada  Governanta para ser lavada e vestida num traje
limpo, sendo em seguida acompanhada (com vrias ameaas)  Sala de Estar
dos Decanos para tomar ch com Lorde Asriel. Alguns Catedrticos mais
velhos tambm eram convidados. Lyra, rebelde, jogava-se numa cadeira at
o Reitor lhe ordenar severamente que se sentasse direito, e ela ento
fazia uma cara to zangada que at o Capelo achava graa. Essas visitas
formais e constrangedoras nunca variavam; depois do ch, o Reitor e o
punhado de Catedrticos convidados deixavam Lyra e o tio a ss, e ele a
chamava para ficar de p  sua frente e contar o que aprendera desde a
ltima visita dele. Ela ento resmungava tudo que conseguia recordar
sobre geometria, ou rabe, ou histria ou anbarologia, e ele, recostado,
pernas cruzadas, observava-a enigmaticamente at ela ficar sem palavras.
No ano anterior, antes da expedio ao Norte, ele tinha perguntado
tambm: -E como voc passa o tempo quando no est estudando
esforadamente? E ela respondeu: -Eu brinco, s isso. Por a pela
Faculdade. S... brincadeira. Ele ento pediu: -Deixe-me ver suas mos,
garota. Ela estendeu as mos para serem inspecionadas, e ele as virou,
para ver as unhas. Seu daemon estava deitada como uma #49 Esfinge no
tapete, sacudindo a cauda ocasionalmente e encarando Lyra sem
pestanejar. -Sujas -declarou Lorde Asriel, empurrando as mos dela.
-Aqui neste lugar no lhe fazem tomar banho? -Sim, mas as unhas do
Capelo esto sempre sujas. At mais que as minhas. -Ele  um homem
culto. Qual  a sua desculpa? -Devo ter sujado depois que lavei. -Onde 
que voc brinca, para se sujar tanto assim? Ela o encarou com suspeita.
Tinha o palpite de que subir ao telhado era proibido, embora ningum
tivesse lhe dito isso com todas as letras. -Em algumas salas velhas
-respondeu afinal. -E onde mais? -Nos Barreiros, s vezes. -E? -Em
Jeric e Port Meadow. -Mais algum outro lugar? -No. -Est mentindo.
Ontem mesmo vi voc no telhado. Ela mordeu o lbio e ficou calada. Ele a
observava ironicamente. -Quer dizer que brinca no telhado tambm?
-continuou. -Costuma entrar na Biblioteca? -No. Mas encontrei um corvo
no telhado da Biblioteca. -Foi mesmo? E o pegou? -Ele tinha uma pata
machucada. Eu ia matar e assar ele, mas Roger disse que tnhamos que
cuidar dele. Ento lhe demos restos de comida e um pouco de vinho, e ele
melhorou e fugiu voando. -Quem  Roger? -Meu amigo. O ajudante da
Cozinha. -Entendo. Ento voc andou pelo telhado inteiro... #50 -No o
telhado inteiro. No d para chegar no Prdio Sheldon porque  preciso
dar um pulo da Torre do Peregrino, por cima de um buraco. H uma
clarabia que se abre para l, mas no tenho altura para alcan-la.
-Voc andou pelo telhado inteiro, exceto o Prdio Sheldon; e quanto aos
subterrneos? -Subterrneos? -Para baixo do cho a Faculdade  to
grande quanto para cima. Estou surpreso de ver que voc ainda no tinha
descoberto isso. Bem, j estou de partida. Voc parece bastante
saudvel. Tome aqui. Tirou do bolso um punhado de moedas, de onde
separou e entregou a ela cinco dlares de ouro. -No lhe ensinaram a
agradecer? -perguntou. -Muito obrigada -ela resmungou. -Voc obedece ao
Reitor? -Ah, sim. -E respeita os Professores? -Sim. O daemon de Lorde
Asriel riu baixinho. Era o primeiro som que ele fazia, e Lyra
enrubesceu. -Ento v brincar -disse Lorde Asriel. Lyra virou-se e
disparou para a porta, aliviada, lembrando-se de parar e dizer at logo.
Assim tinha sido a vida de Lyra antes do dia em que ela resolveu
esconder-se na Sala Privativa e pela primeira vez ouviu falar no P. E
naturalmente o Bibliotecrio estava enganado ao dizer ao Reitor que ela
no prestaria ateno; ela teria ouvido ansiosamente quem quer que
pudesse lhe falar do P. Nos meses seguintes, iria ouvir muita coisa
sobre o assunto, e finalmente iria #51 saber mais sobre o P do que
qualquer outra pessoa no mundo; mas, enquanto isso, havia toda aquela
variada vida da Jordan desenrolando-se  sua volta. De qualquer maneira,
havia outra coisa para se pensar. Nas ltimas semanas, um boato vinha se
espalhando pelas ruas -um boato que fazia algumas pessoas rirem e outras
silenciarem, assim como algumas pessoas riem de fantasmas e outras os
temem: sem que qualquer pessoa pudesse imaginar o motivo, estavam
comeando a desaparecer crianas. Eis como acontecia: ao longo da margem
oriental da grande rodovia que  o Rio sis, apinhado de barcaas de
tijolos, asfalto ou milho navegando devagar, abaixo de Henleye
Maidenhead at Teddington, onde a mar do Oceano Germano alcana, e
ainda bem mais abaixo at Mortlake, passando pela casa do grande mago
Dr. Dee, por Falkeshall, onde os parques-jardins ostentam seus
chafarizes e suas bandeirolas durante o dia, e seus lampies nas rvores
e seus fogos de artifcio  noite; e passando pelo Palcio de White
Hall, onde o Rei comanda semanalmente o Conselho de Estado; pela Torre
Shot, a pingar seu infindvel chuvisco de chumbo derretido nos barris de
gua escura; e ainda mais abaixo, at onde o rio, agora largo e imundo,
faz uma grande curva para o sul. Ali fica o bairro de Limehouse, e l
est a criana que vai desaparecer.  um menino chamado Tony Makarios. A
me pensa que ele tem nove anos de idade, mas ela tem memria fraca,
destruda pela bebida; ele deve ter oito, ou dez. Seu sobre-nome 
grego, porm, assim como a idade, trata-se de mero palpite da me dele,
porque ele parece mais chins que grego, e pelo lado da me tem sangue
irlands, escraelingue e lascar.* Tony no  muito * Lascar: marinheiro
indiano empregado em navio europeu. (N.T.) #52 inteligente, mas tem uma
espcie de ternura desajeitada que s vezes o leva a dar um abrao rude
na me e plantar um beijo pegajoso em seu rosto. A pobre mulher
geralmente est tonta demais para tomar uma iniciativa dessas, mas
corresponde com carinho, quando percebe o que est acontecendo. No
momento, Tony est vagando pelo mercado na rua Pie. Est com fome;  de
noitinha e ele no vai encontrar comida em casa. Tem no bolso um xelim
que um soldado lhe deu para levar um recado  sua garota favorita, mas
Tony no vai desperdiar seu dinheiro em comida, quando se pode
conseguir tanta coisa de graa. De modo que ele vagueia pelo mercado com
seu pequeno daemon -uma pardoca -no ombro observando tudo, por entre as
barracas de roupas usadas e as de papis-da-sorte, os vendedores de
fruta e o vendedor de peixe frito; e quando uma barraqueira e seu daemon
esto ambos olhando para o outro lado, a pardoca d o sinal, e as mos
de Tony vo  frente e voltam para dentro da camisa larga com uma ma
ou um punhado de castanhas, e finalmente com um pastelo quentinho. A
barraqueira o v e d um grito, e seu daemon-gato salta, mas a pardoca
de Tony est voando, e o prprio Tony j est quase na esquina.
Palavres e pragas o acompanham, mas no at muito longe; ele pra de
correr junto  escada do Oratrio de Santa Catarina, onde se senta e
pega seu trofu quente e amassado, deixando um rastro de molho na
camisa. E ele est sendo observado; uma dama usando um casaco longo de
pele de raposa amarela e vermelha, uma linda jovem, cujos cabelos
castanhos brilham delicadamente dentro da sombra de seu capuz forrado de
pele, est parada  porta do Oratrio, alguns degraus acima do garoto.
Talvez o ofcio esteja terminando, pois pela porta atrs dela jorra luz,
l dentro um rgo est tocando, e a dama est segurando um livro de
oraes ornado de pedras preciosas. #53 Tony nada percebe. Feliz, com o
rosto enterrado no pastelo, os dedos dos ps curvados para dentro e as
solas juntas, ele mastiga e engole enquanto seu daemon se transforma
numa ratazana alisando os bigodes. O daemon da jovem dama est se
destacando do casaco de pele de raposa. Ele tem a forma de um macaco,
mas no um macaco comum: tem os plos compridos e sedosos, de um tom
dourado forte e lustroso. Com movimentos sinuosos, ele desce lentamente
a escadaria na direo de Tony e se senta no degrau acima do garoto.
Ento a ratazana percebe alguma coisa e se transforma outra vez em
pardoca, virando a cabecinha de lado e saltando dois degraus. O macaco
observa a pardoca; o pssaro observa o macaco. O macaco estende a mo
devagar. Tem a mo pequena e preta, as unhas so garras perfeitas e
resistentes, os movimentos so suaves e convidativos. A pardoca no
consegue resistir; aproxima-se com mais alguns saltos e ento esvoaa
para a mo do macaco. O macaco a ergue e a estuda de perto antes de se
levantar e voltar para junto do seu ser humano, levando consigo o
daemon-pardoca. A dama baixa a cabea perfumada para lhe sussurrar
alguma coisa. E ento Tony se vira; no consegue evitar. -Rateira!
-chama, de boca cheia, com certo susto. -Ol! -diz a linda dama. -Qual 
o seu nome? -Tony . -Onde  que voc mora, Tony? -Na alameda Clarice.
-De que  este pastelo? -De carne. -Gosta de chocolate? -Gosto! #54
-Por acaso tenho mais chocolate do que poderia beber. Quer vir me ajudar
a acabar com ele? Tony j est perdido -desde o momento em que seu
daemon insensato saltou para a mo do macaco. Ele acompanha a jovem e o
macaco dourado ao longo da rua Dinamarca. passando pelo Cais do
Enforcado e descendo a Escadaria do Rei George, at uma portinhola verde
na parede de um armazm de teto alto. Ela bate, a porta  aberta; eles
entram, a porta se fecha. Tony nunca mais sair -pelo menos por aquela
entrada; e nunca mais vai ver a me; e ela. pobre bbada, vai pensar que
o filho fugiu, e, quando pensar nele, vai achar que a culpa foi sua e
vai se desmanchar em lgrimas. O pequeno Tony Makarios no foi a nica
criana capturada pela mulher com o macaco dourado. No poro do
depsito, ele encontrou uma dzia de outras, meninos e meninas, nenhuma
delas com mais de doze anos -apesar de que, tendo todos eles uma
infncia parecida, ningum tinha certeza da prpria idade. O que Tony
no percebeu, naturalmente, era o fator que todos tinham em comum:
nenhuma criana naquele poro quentinho tinha chegado  puberdade. A
gentil dama acomodou-o num banco ao longo da parede e lhe mandou, por
uma criada silenciosa, uma caneca de chocolate tirado da panela sobre o
fogo de ferro. Tony comeu o resto do pastelo e bebeu o lquido quente
e doce sem prestar muita ateno ao que o cercava, como tambm o que o
cercava no prestava muita ateno nele: era pequenino demais para ser
uma ameaa e demasiado imperturbvel para desempenhar satisfatoriamente
o papel de vtima. Foi outro menino quem fez a pergunta bvia. -Ei.
dona! Por que trouxe todos ns para c? #55 Era um moleque de ar duro,
com um bigode de chocolate e uma ratazana preta e magricela como daemon.
A dama estava parada perto da porta, conversando com um homem corpulento
com ar de capito de navio; quando se virou para responder, ela tinha
uma aparncia to angelical  luz sibilante da lamparina a nafta que
todas as crianas silenciaram. -Queremos a sua ajuda -ela disse. -Vocs
no se importam em nos ajudar, no ? Ningum conseguia dizer uma
palavra. Tmidos de repente, limitavam-se a contempl-la. Nunca tinham
visto uma mulher assim; ela era to graciosa, simptica e boazinha que
elas sentiam que no mereciam tamanha sorte, e fariam com prazer tudo
que ela pedisse, apenas para ficar mais um pouco na presena dela. Ela
revelou que iam fazer uma viagem; as crianas seriam bem alimentadas e
vestidas, e aquelas que quisessem poderiam mandar uma mensagem para a
famlia dizendo que estavam em segurana. Logo o Capito Magnusson as
levaria para o seu navio, e quando a mar estivesse propcia, iam sair
velejando rumo ao Norte. Logo as poucas crianas que queriam mandar um
recado para casa estavam sentadas em volta da linda dama, que escrevia o
que elas lhe ditavam e deixava que desenhassem um X desajeitado no
final, dobrava a folha, colocava-a dentro de um envelope perfumado e
escrevia nele o endereo que lhe davam. Tony teria gostado de mandar
alguma coisa para a me, mas era realista: a me no ia conseguir ler.
Deu um puxo na pele da manga do casaco da dama e cochichou que queria
que ela dissesse  sua me aonde ele estava indo; ela inclinou a cabea
graciosa para bem perto do corpinho malcheiroso do menino, acariciou-lhe
a cabea e prometeu levar o recado. Ento as crianas se amontoaram para
despedir-se. O macaco dourado acariciou os daemons de todas, e todas
elas tocaram na pele de raposa para dar sorte, ou como se estivessem
recebendo #56 alguma fora ou esperana ou bondade emanando da mulher, e
ela despediu-se de todas e levou-as at uma lancha a vapor parada no
cais, deixando-as aos cuidados do valente capito. O cu j estava
escuro, o rio era uma massa de luzinhas saltitantes. A dama ficou parada
no cais acenando at no conseguir mais ver os rostos das crianas.
Ento voltou para dentro do depsito, com o macaco dourado aninhado em
seu seio, e jogou a pequena pilha de cartinhas na fornalha antes de sair
por onde tinha entrado. Era muito fcil atrair as crianas dos bairros
miserveis, mas finalmente comeou-se a perceber, e a polcia teve que
entrar em ao, embora com relutncia. Por algum tempo, no houve mais
desaparecimentos. Mas o boato tinha nascido e, aos poucos, foi mudando,
crescendo e se espalhando, e quando, passado algum tempo, umas crianas
desapareceram em NolWich, e depois em Sheffield, e depois em Manchester,
as pessoas nesses lugares que sabiam dos desaparecimentos em outras
cidades acrescentavam novos fatos  histria, dando-lhe novo vigor. E
assim cresceu a lenda de um misterioso grupo de feiticeiros que roubavam
crianas. Alguns diziam que o chefe era uma linda mulher, outros falavam
num homem alto, de olhos vermelhos, ao passo que uma terceira verso
falava num rapaz que ria e cantava para suas vtimas, que o seguiam como
carneirinhos. Quanto ao local para onde levavam essas crianas perdidas,
no havia duas verses que concordassem. Alguns diziam que era para o
Inferno, para o subsolo, para aTerra Encantada. Outros afirmavam: para
uma fazenda onde as crianas eram confinadas e engordadas para serem
servidas  mesa. Outros diziam que as crianas eram vendidas como
escravas para trtaros ricos... Mas uma coisa em que todos concordavam
era o nome desses raptores invisveis. Tinham que ter um nome, ou ento
#57 no poderiam ser mencionados, e falar sobre eles -especialmente para
quem estava a salvo em casa, ou na Faculdade Jordan -era delicioso. E o
nome com que eles aparentemente foram batizados, sem que ningum
soubesse por qu, foi os Papes. -No fique fora at tarde, seno os
Papes vo pegar voc! -Minha prima em Northampton conhece uma mulher
cujo filho foi roubado pelos Papes... -Os Papes estiveram em
Stratford. Dizem que eles esto vindo para o sul! E inevitavelmente:
-Vamos brincar de crianas e Papes! Foi o que Lyra disse a Roger, o
ajudante de Cozinha da Faculdade Jordan. Ele a teria seguido at o fim
do mundo. -Como  que se brinca disso? -Voc se esconde e eu o encontro
e o abro ao meio, como os Papes fazem. -Voc no sabe o que eles fazem.
Pode ser que no faam nada disso. -Voc est com medo deles. Estou
vendo! -disse ela. -No estou. Alis, nem acredito neles. -Eu acredito
-ela retrucou com firmeza. -Mas tambm no tenho medo. Fao o que o
titio fez na ltima vez que veio a Jordan. Eu vi. Ele estava na Sala
Privativa e havia um convidado que no foi delicado, e titio s fez
olhar para ele com fora, e o homem caiu morto na hora, espumando pela
boca. -Duvido -fez Roger em tom de dvida. -Nunca falaram sobre isso na
Cozinha. De qualquer maneira, voc no pode entrar na Sala Privativa.
-Claro que no falaram. Eles no iam contar esse tipo de coisa aos
criados. E eu estive na Sala Privativa, sim. De qualquer modo, titio
est sempre fazendo isso. Fez com uns trtaros que o #58 agarraram certa
vez. Amarraram o meu tio e iam tirar as tripas dele, mas, quando o
primeiro se aproximou com uma faca, titio olhou bem para ele, e ele caiu
morto, ento veio outro, e titio fez a mesma coisa, e no final s sobrou
um. Titio disse que ia deixar o homem escapar se ele o desamarrasse, e
foi o que ele fez, e ento titio matou ele mesmo assim, para lhe dar uma
lio. Roger duvidava desse caso ainda mais do que dos Papes, mas era
uma histria boa demais para ser desperdiada, de modo que os dois se
revezaram sendo Lorde Asriel e os trtaros que iam morrer; em lugar da
espuma, os dois usaram sorvete. No entanto, houve uma interrupo. Lyra
estava concentrada fazendo o papel dos Papes e tinha conseguido
encurralar Roger na adega do poro, onde eles entraram com o chaveiro de
reserva do Mordomo. Juntos atravessaram os grandes domos onde o Tokay e
o Canary da Faculdade, o Burgundye o brantwijn jaziam sob as teias de
aranha de muitos anos. Os antigos arcos de pedra erguiam-se acima deles,
apoiados em colunas grossas como dez rvores juntas; o cho era de
pedras irregulares, e por toda parte havia estantes de garrafas e
barris. Era fascinante. Esquecendo-se dos Papes, as duas crianas foram
de uma ponta  outra, cautelosamente, segurando uma vela com dedos
trmulos, tentando enxergar em cada canto escuro, com uma nica pergunta
cada vez mais forte na mente de Lyra: qual era o gosto do vinho? Havia
um modo fcil de responder. Lyra -apesar dos protestos veementes de
Roger -escolheu a garrafa mais velha, retorcida e verde que conseguiu
encontrar, e, no tendo como extrair a rolha, quebrou a garrafa no
gargalo. Encolhidos no canto mais escondido, os dois bebericaram o
lquido prpura, curiosos para ver quando ficariam embriagados e como
saberiam que estavam. Lyra no gostou muito do sabor, mas tinha que
admitir que era um sabor solene e complicado. O mais engraado era
observar os dois daemons, que pareciam ficar cada vez mais tontos:
caam, davam risadinhas sem sentido e mudavam de #59 forma imitando
monstros, cada um tentando ficar mais feio que o outro. Finalmente, e
quase ao mesmo tempo, as crianas descobriram como era ficar embriagado.
-Eles gostam disso? -ofegou Roger, depois de vomitar copiosamente.
-Gostam, sim -disse Lyra, nas mesmas condies. -E eu tambm
-acrescentou teimosamente. A nica coisa que Lyra aprendeu nesse
episdio foi que brincar de Papes levava a lugares interessantes.
Lembrou-se das palavras do tio na sua ltima conversa e comeou a
explorar o subsolo, pois o que havia acima do solo era apenas uma
pequena frao do todo; como um enorme fungo cujas razes se estendem
por muitos quilmetros, a Jordan, ao se ver brigando por espao com a
Faculdade St. Michael's de um lado, a Faculdade Gabriel do outro e a
Biblioteca da Universidade atrs, comeara, ainda na Idade Mdia, a
espalhar-se por baixo do solo. Tneis, poos, domos, pores, escadarias
-tudo isso tinha escavado tanto a terra abaixo da Jordan e por centenas
de metros ao redor dela que havia quase tanto ar debaixo da terra quando
acima dela; a Faculdade Jordan ficava sobre uma espcie de espuma de
pedra. Tendo provado o gostinho de explorar o subsolo, Lyra abandonou
seu territrio de costume, os Alpes irregulares que eram os telhados da
Faculdade, e mergulhou com Roger no limbo. Brincar de Papes foi
substitudo por ca-los, pois o que seria mais provvel do que haver
Papes escondidos no subsolo,  espreita? De modo que certo dia ela e
Roger desceram para a cripta sob o Oratrio. Era ali que as geraes de
Reitores tinham sido enterradas, cada um em seu caixo de carvalho
forrado de chumbo. Os caixes ficavam dentro de nichos ao longo das
paredes de #60 pedra. Uma placa de pedra abaixo de cada um dava os nomes
deles: Simon Le Clerc, Reitor 1765-1789 Cerebaton Requiescant in pace
-Que quer dizer isso? -Roger perguntou. -A primeira linha  o nome dele,
e a segunda  romano. Eas datas no meio da linha so quando ele foi
Reitor. E o outro nome deve ser o daemon dele. Saram caminhando ao
longo da cripta silenciosa, lendo mais inscries: FrancisLyall Reitor
1748-1765 Zohariel Requiescant in pace Ignatius Cole, Reitor 1745-1748
Musca Requiescant in pace Lyra achou interessante constatar que, em cada
caixo, uma placa de bronze trazia uma imagem diferente: num era um
basilisco; no outro, uma mulher loura; no outro, uma serpente; no outro,
um macaco. Percebeu que eram imagens dos daemons dos mortos. Quando as
pessoas chegavam  idade adulta, seus daemons j tinham perdido o poder
de transformar-se e ficavam com uma forma nica e permanente. -Esses
caixes tm esqueletos dentro! -Roger sussurrou. -Carne em putrefao
-Lyra sussurrou de volta. -E vermes, lombrigas se retorcendo nos buracos
dos olhos deles... -Deve ter fantasmas por aqui... -disse Roger,
arrepiando-se prazerosamente. Atrs da primeira cripta, eles encontraram
um corredor orlado de prateleiras de pedra. Cada prateleira era dividida
em quadrados, e em cada quadrado descansava uma caveira. #61 o daemon de
Roger, com o rabo entre as pernas, estremeceu de encontro a ele e soltou
um uivo breve e fraco. -Psiu! -fez ele. Lyra no enxergava Pantalaimon,
mas sabia que, em sua forma de mariposa, ele estava descansando em seu
ombro e com certeza arrepiado tambm. Estendendo a mo, ela pegou a
caveira mais prxima e tirou-a do lugar. -Que  que est fazendo? No
pode tocar nelas! -Roger protestou. Sem lhe dar ateno, ela ficou
girando a caveira nas mos. De repente alguma coisa saiu pelo buraco na
base do crnio, passou entre os dedos dela e caiu no cho ruidosamente.
Com o susto, ela quase deixou cair a caveira. - uma moeda! -Roger
exclamou, tateando no cho. -Pode ser um tesouro! Ele ergueu a moeda 
luz da vela e ambos a contemplaram de olhos arregalados. No era uma
moeda, e sim um pequeno disco de bronze com uma entalhe grosseiro
representando um gato. -Como os dos caixes -disse Lyra. - o daemon
dele. S pode ser. - melhor levar de volta -Roger, inquieto,
aconselhou. Lyra girou a caveira e deixou o disco cair de volta em seu
lugar imemorial antes de recoloc-la na prateleira. Os dois descobriram
ento que cada um dos crnios tinha sua moeda-daemon mostrando a
companheira da vida do dono ainda perto dele na morte. -Que acha que
estes eram quando estavam vivos? -Lyra perguntou. -Provavelmente
Catedrticos, imagino. S os Reitores ganham caixes. Com certeza, foram
tantos Catedrticos durante todos esses sculos que no haveria lugar
para enterrar todos, de modo que eles cortam a cabea e guardam.  mesmo
a parte mais importante deles... #62 No encontraram Papes, mas as
catacumbas sob o Oratrio mantiveram Lyra e Roger ocupados durante
muitos dias. Certa vez, ela tentou fazer uma brincadeira com alguns dos
Catedrticos mortos, trocando os discos dentro dos crnios, dando-lhes
daemons errados; Pantalaimon ficou to agitado com isso que se
transformou num morcego e ps-se a voar para cima e para baixo soltando
gritos agudos e batendo as asas no rosto dela, mas ela no deu ateno;
a brincadeira era boa demais. Porm ela pagou por isso mais tarde. Na
cama, em seu quartinho apertado no topo da Escadaria Doze, ela foi
visitada por uma assombrao e acordou gritando por causa das trs
figuras de tnica paradas  cabeceira da cama apontando os dedos ossudos
antes de jogar para trs os capuzes e mostrar os tocos sangrentos onde
deveriam estar as cabeas. S quando Pantalaimon transformou-se num leo
e rugiu foi que eles recuaram, fundindo-se  matria da parede at que
s restavam de fora os braos, depois as mos engelhadas, cinzentas,
depois os dedos em contores, depois nada. De manh, a primeira coisa
que ela fez foi correr para as catacumbas e devolver as moedas-daemons
para seus lugares, sussurrando "Perdo! Perdo!" s caveiras. As
catacumbas -eram muito maiores do que a adega, mas tambm tinham um
limite. Depois que Lyra e Roger exploraram cada canto delas e se
certificaram de que no havia Papes por l, voltaram a ateno para
outra coisa -mas no antes de terem sido vistos saindo da cripta pelo
Intercessor, que os chamou ao Oratrio. O Intercessor era um ancio
gorducho conhecido como Padre Heyst. Sua funo era dirigir todos os
ofcios da Faculdade, pregar, orar e ouvir confisses. Tinha se
interessado pelo bem-estar espiritual de Lyra quando ela era criana,
tendo sido desencorajado pela indiferena e pelos arrependimentos
hipcritas dela. Finalmente chegara  concluso de que espiritualmente
ela no era promissora. #63 Ouvindo o chamado dele, Lyra e Roger
viraram-se com relutncia e se encaminharam, arrastando os ps, para
dentro do Oratrio com sua penumbra recendendo a mofo. Aqui e ali
tremulavam chamas de velas diante das imagens dos santos; um rudo suave
e distante vinha do poo do rgo, onde alguns reparos estavam sendo
efetuados; um criado polia o plpito de bronze. Padre Heyst, na porta da
sacristia, acenou-lhes. -Onde estiveram? -perguntou-lhes. -J vi vocs
saindo de l mais de uma vez. Que  que esto tramando? Seu tom no era
de acusao; ele parecia genuinamente interessado. Empoleirado em seu
ombro, seu daemon estendeu para eles a lngua de lagarto. Lyra
respondeu: -Queramos ver a cripta. -Por que motivo? -Os... os caixes.
Queramos ver todos os caixes -ela disse. -Mas por qu? Ela deu de
ombros -sua resposta costumeira quando se sentia pressionada. -E voc?
-ele continuou, voltando-se para Roger. O daemon do rapaz ps-se a
balanar a cauda, tentando acalm-lo. -Qual  o seu nome? -Roger, Padre.
-Se  um criado, onde trabalha? -Na Cozinha, Padre. -No devia estar l
agora? -Sim, Padre. -Ento v. Roger virou-se e saiu correndo. Lyra
arrastou o p de um lado para o outro no cho. -Quanto a voc, Lyra,
fico contente em ver que est se interessando pelas coisas do Oratrio.
 uma menina de sorte, por ter tanta Histria  sua volta. #64 -Hum -fez
ela. -Mas me espanta a sua escolha de companheiros.  uma criana
solitria? -No -ela disse. -Sente... sente falta da companhia de outras
crianas? -No. -No estou falando de Roger, o ajudante da Cozinha.
Estou falando de crianas como voc. Crianas de bero nobre. Gostaria
de ter alguns companheiros desse tipo? -No. -Outras meninas, talvez...
-No. -Sabe, nenhum de ns quer que voc perca todos os prazeres e
divertimentos comuns da infncia. As vezes penso que sua vida aqui deve
ser solitria, no meio dos velhos Catedrticos. Sente isso? -No. Ele
juntou os polegares sobre os outros dedos entrelaados, incapaz de
pensar em outra coisa para perguntar quela criana obstinada. -Se
estiver com algum problema, sabe que pode me contar -disse finalmente.
-Espero que sempre saiba disso. -Sim. -Tem feito suas oraes? -Sim.
-Muito bem. Agora v. Com um suspiro de alvio maldisfarado, ela
virou-se e saiu. No tendo conseguido encontrar Papes debaixo da terra,
Lyra voltou para as ruas. Era onde se sentia em casa. Ento, quando ela
tinha quase perdido o interesse neles, os Papes apareceram em Oxford.
#65 A primeira notcia que ela teve foi quando sumiu um menino de uma
famlia gpcia que ela conhecia. Foi na poca da Feira de Cavalos, e a
bacia do canal estava apinhada de barcos e barcaas, com mercadores e
viajantes, e os trapiches ao longo do cais em Jeric cintilavam com os
arreios brilhantes e ressoavam com o rudo de ferraduras e o clamor das
barganhas. Lyra sempre gostara da Feira de Cavalos; alm da chance de um
passeio clandestino em algum cavalo mal vigiado, havia inmeras
oportunidades para provocar uma batalha. E esse ano ela forjara um timo
plano; inspirada pela captura do barco no ano anterior, dessa vez ela
pretendia navegar um pouco mais antes de ser escorraada. Se ela e os
amigos das cozinhas das faculdades pudessem chegar at Abingdon,
poderiam fazer uma grande baguna no dique... Mas nesse ano no haveria
guerra. Enquanto percorria a borda do estaleiro de Pon Meadow ao sol da
manh com dois moleques, passando um para o outro um cigarro roubado e
soprando a fumaa com bastante ostentao, ela escutou um grito e
reconheceu a voz. -Bem, que foi que fez com ele, seu bunda-mole? Era uma
voz poderosa, voz de mulher -mas uma mulher com pulmes de couro e
cobre. Lyra na mesma hora virou-se  procura dela, pois tinha
reconhecido a voz de Me Costa, que, em duas ocasies, tinha deixado
Lyra quase desmaiada com uns pescoes, mas em trs dera-lhe pezinhos
quentes, e cuja famlia era famosa pelo luxo e pela imponncia de seu
barco. Eram prncipes entre os gpcios, e Lyra admirava muito Me Costa,
mas pretendia passar ainda algum tempo cautelosa, pois era deles o barco
que ela havia roubado. Um dos moleques companheiros de Lyra pegou
automaticamente uma pedra no cho quando ouviu a gritaria, mas Lyra
ordenou: #66 -Pode ir soltando. Ela est nervosa. Pode quebrar voc ao
meio como um graveto. Na verdade, Me Costa parecia mais ansiosa do que
zangada. O homem com quem falava, um mercador de cavalos, dava de ombros
e espalmava as mos. -Bom, eu no sei -dizia ele. -Ele estava aqui e no
minuto seguinte tinha sumido. No cheguei a ver para onde ele foi...
-Ele estava ajudando voc! Estava segurando seus malditos cavalos! -Bom,
ele devia ter ficado aqui, no ? Sair correndo no meio do trabalho... O
homem no chegou a terminar a frase, pois Me Costa lhe pregou um
tremendo tabefe na lateral da cabea, acompanhado de tantos xingamentos
e safanes que ele berrou e virou-se para fugir. Os outros mercadores de
cavalos zombaram, e um potro assustadio empinou, sobressaltado. -Que 
que est acontecendo? -Lyra perguntou a um menino gpcio que a tudo
assistia, boquiaberto. -Por que ela est com tanta raiva? - o filho
dela -explicou o menino. -Billy. Com certeza, ela acha que os Papes
pegaram o garoto. E pode ser verdade, mesmo. Eu no vejo o Billy
desde... -Os Papes? Ento eles chegaram a Oxford? O menino gpcio
deu-lhes as costas para gritar para os amigos, que estavam observando
Me Costa: -Ela no sabe de nada! Nem sabe que os Papes esto aqui!
Meia-dzia de moleques viraram-se para ela com expresso de desprezo, e
Lyra jogou fora o cigarro, reconhecendo a deixa para uma boa briga. No
mesmo instante, os daemons de todos se prepararam para a guerra: cada
criana era acompanhada por dentes, ou garras, ou plos eriados, e
Pantalaimon, desprezando #67 a imaginao limitada daqueles daemons
gpcios, transformou-se num drago do tamanho de um co veadeiro. Antes,
porm, que a batalha comeasse, Me Costa se imiscuiu, empurrando dois
gpcios e confrontando Lyra como se fosse uma lutadora profissional.
-Sabe dele? -ela interpelou Lyra. -Viu o Billy? -No. Acabamos de
chegar. No vejo o Billy h meses. O daemon de Me Costa fazia crculos
no ar acima da cabea dela -um falco de olhos amarelos e ferozes que
olhavam para todos os lados sem piscar .Lyra ficou com medo; ningum se
preocupava quando uma criana sumia por algumas horas, principalmente
uma gpcia: no mundinho dos barcos gpcios, todas as crianas eram
preciosas e intensamente amadas, e cada me sabia que, se seu filho
estivesse longe de sua vista, no estaria longe da vista de outra me,
que o protegeria instintivamente. No entanto, ali estava Me Costa,
rainha entre os gpcios, aterrorizada pela ausncia de uma criana. Por
qu? Me Costa olhou sem ver o grupinho de crianas, virou-se e saiu
tropeando por entre a multido, indo na direo do ancoradouro, sempre
gritando pelo filho. No mesmo instante, as crianas esqueceram a briga,
diante daquele sofrimento. -Esses Papes so o qu, afinal? -perguntou
Simon Parslow, amiguinho de Lyra. O primeiro menino gpcio respondeu:
-Voc sabe. Eles esto roubando crianas por toda parte. So piratas...
-Eles no so piratas -corrigiu outro gpcio. -So canibais.  por isso
que o nome deles  Papes. -Eles comem crianas? -perguntou outro amigo
de Lyra: Hugh Lovat, ajudante de Cozinha na St. Michael's. -Ningum sabe
-disse o primeiro menino. -Levam a criana e ningum mais tem notcia
dela. #68 -Isso ns todos sabemos -disse Lyra. -H meses estamos
brincando de crianas e Papes, antes de vocs. aposto. Mas aposto que
ningum j viu um Papo. -J viram -disse um garoto. -Quem? -Lyra
insistiu. -Voc j viu? Como  que sabe que no  s uma pessoa?
-Charlie viu eles em Banbury -disse uma menina gpcia. -Eles ficaram
falando com uma mulher enquanto outro homem tirou o filho dela do
jardim. -, eu vi eles fazerem isso! -confirmou Charlie, um menino
gpcio. -Como  que eles eram? -Lyra quis saber . -Bom, eu no vi
direito -Charlie confessou. -Mas vi o caminho deles -acrescentou. -Eles
chegam num caminho branco. Colocam o menino no caminho e saem
disparados. -Mas por que o nome deles ficou sendo Papes? -Lyra
insistiu. -Porque eles papam as crianas -disse o primeiro garoto
gpcio. -Nos contaram l em Northampton. Eles estiveram por l. Tinha
uma garota em Northampton, levaram o irmo dela e ela disse que os
homens que levaram ele disseram que iam comer ele. Todo mundo sabe
disso. Eles comem as crianas. Uma menina gpcia comeou a chorar alto.
- a prima de Billy -Charlie informou. Lyra perguntou: -Quem viu o Billy
por ltimo? -Eu! -uma dzia de vozes exclamou. -Eu vi o Billy segurando
aquele pangar do Johnny Fiorelli. -Eu vi ele perto do vendedor de ma
caramelada. -Eu vi ele se balanando no guindaste... Depois que
conseguiu destrinchar aquilo, Lyra ficou sabendo que Billy tinha sido
visto mais de duas horas antes. #69 -Ento, nas ltimas duas horas, os
Papes estiveram por aqui... Todos olharam em volta, estremecendo,
apesar do sol quente, do porto apinhado, do cheiro familiar de alcatro,
cavalos e folha-de-fumo. O problema era que, j que ningum sabia como
eram esses Papes, qualquer pessoa podia ser um Papo, como Lyra
declarou ao bando de crianas perplexas, todas elas -as das faculdades e
as gpcias -j agora sob o seu domnio. -Eles tm que parecer pessoas
comuns, seno seriam logo descobertos -ela explicou. -Se s aparecessem
 noite, podiam ter qualquer aparncia. Mas, se aparecem  luz do dia,
tm que parecer gente normal. Ento qualquer pessoa aqui pode ser um
Papo... -No so, no -disse um gpcio em tom hesitante. - Conheo elas
todas. -Est certo, no estas aqui, mas qualquer outra -disse Lyra.
-Vamos procurar os Papes! E o caminho branco tambm! Aquilo provocou
um estouro de boiada. Outros logo se juntaram aos primeiros, e, em pouco
tempo, havia umas trinta ou mais crianas gpcias correndo de uma ponta
 outra dos ancoradouros, entrando e saindo dos estbulos, subindo pelos
guindastes para dentro dos ptios, saltando por cima da cerca para junto
da margem, 15 crianas ao mesmo tempo agarradas  corda que se usava
para atravessar o rio de guas verdes, e correndo a toda pelas ruas
estreitas de Jeric, por entre as casinhas de tijolos, e entrando no
grande oratrio de St. Barnabas, o Qumico, com sua torre quadrada.
Metade delas no sabia o que estavam procurando e achava que se tratava
apenas de uma brincadeira, porm as mais prximas a Lyra sentiam medo e
aflio de verdade cada vez que avistavam uma figura solitria num beco
ou na penumbra do Oratrio: seria um Papo? #70 Mas, naturalmente, no
era. Finalmente, sem sucesso e com a sombra do desaparecimento
verdadeiro de Billy pesando sobre todo mundo, o entusiasmo foi
desvanecendo. Quando Lyra e os dois jovens das faculdades saam de
Jeric perto da hora do jantar, viram os gpcios reunidos no ancoradouro
vizinho quele em que o barco dos Costa estava atracado. Algumas
mulheres choravam em voz alta, e os homens, furiosos, formavam
grupinhos; todos os seus daemons estavam agitados, erguendo-se em vos
nervosos ou rosnando para as sombras. -Aposto que os Papes no teriam
coragem de vir aqui -Lyra disse a Simon Parslow quando os dois
atravessavam a soleira do grande saguo da Jordan. -No... -ele
concordou com hesitao. -Mas sei que sumiu uma garota do Mercado.
-Quem? Lyra conhecia a maioria das crianas do Mercado, mas no tinha
ouvido essa notcia. -Jessie Reynolds, da selaria. Ontem ela saiu s
para buscar um pedao de peixe para o ch do pai, mas na hora de fechar
ainda no tinha aparecido. E ningum viu ela. Procuraram no Mercado
inteiro e em toda parte. -Ningum me contou isso! -disse Lyra indignada.
Achava um lapso deplorvel de seus sditos no a manterem sempre
informada de tudo. -Bom, foi ontem que aconteceu. Ela pode j ter
aparecido. -Vou perguntar -disse Lyra, virando-se para tornar a sair.
Mas ainda no tinha passado pelo porto quando o Porteiro a chamou.
-Venha c, Lyra! Voc no pode sair esta noite. Ordens do Reitor. -Por
que no? #71 -J disse, ordens do Reitor. Ele disse que se voc
voltasse, para no sair de novo. -Ento me pegue -ela o desafiou, e saiu
correndo. Atravessou em disparada a rua estreita e entrou no beco onde
os caminhes descarregavam mercadoria para o Mercado Coberto. Sendo hora
de fechar, havia poucos caminhes por ali, mas um grupinho de jovens
fumava e conversava perto da porta central, em frente ao alto muro de
pedra da Faculdade St. Michael's. Lyra conhecia um deles, um rapaz de 16
anos, a quem ela admirava porque ele conseguia cuspir mais longe que
qualquer outra pessoa que ela conhecia; foi at l e ficou esperando
humildemente que ele apercebesse. -Ei, que  que voc quer? -ele
finalmente perguntou. -AJessie Reynolds sumiu? -Foi. Por qu? -Porque um
menino gpcio sumiu hoje, e tudo. -Esto sempre sumindo esses gpcios.
Depois de toda Feira de Cavalos eles somem. -Os cavalos tambm -comentou
um dos amigos dele. -Mas  diferente -Lyra protestou. -Era um menino.
Ficamos procurando ele a tarde toda, e as outras crianas disseram que
os Papes pegaram ele. -Os qu? -Os Papes -ela repetiu. -Nunca ouviu
falar dos Papes? Aquilo era novidade tambm para os outros rapazes, e,
com exceo de alguns comentrios grosseiros, eles escutaram com ateno
o que ela lhes contou. -Papes... -fez o conhecido de Lyra, cujo nome
era Dick. -Que coisa idiota. Esses gpcios vivem com essas idias
idiotas. -Disseram que os Papes apareceram em Banbury h poucas semanas
e levaram cinco crianas -Lyra insistiu. - #72 Com certeza, vieram para
Oxford agora para pegar as nossas. Devem ter sido eles que pegaram a
Jessie. -Sumiu um menino l para as bandas de Cowley - contou um dos
rapazes. -Agora me lembro. Minha tia, ela veio aqui ontem, porque vende
peixe e batata frita numa barraquinha, e ouviu contar isso... Um menino
pequeno... Mas no sei dessa histria de Papes. No existem Papes. 
s uma histria. -Existem sim! -contestou Lyra. -Os gpcios j viram
eles. Acham que eles comem as crianas que eles pegam e... Ela parou a
frase no meio, porque de repente tinha se lembrado de uma coisa. Durante
aquela noite estranha que ela passara escondida na Sala Privativa, Lorde
Asriel tinha mostrado um slide de um homem segurando um basto com
jorros de luz entrando nele; e ao lado do homem havia uma figura pequena
com menos luz em volta; e Lorde Asriel tinha dito que era uma criana; e
algum perguntara se era uma criana seccionada, e o tio tinha dito que
no, que essa era a questo. Lyra sabia que "seccionada" queria dizer
cortada. E ento uma coisa lhe atingiu o corao: onde estava Roger? Ela
no o via desde de manh... De repente ficou com medo. Pantalaimon, como
um leo em miniatura, saltou para os seus braos e grunhiu. Ela se
despediu dos rapazes junto ao porto e caminhou de volta para a rua
Turl, depois correu o mais que podia at a Faculdade Jordan, entrando
pela porta um segundo antes do daemon, agora em forma de leopardo. O
Porteiro mostrou-se severo. -Tive que ligar para o Reitor e contar a ele
-declarou. -Ele no gostou. Eu no queria estar no seu lugar, mocinha,
por dinheiro nenhum. -Onde est o Roger? -ela quis saber. -No vi. Ele
tambm vai levar. Ah, quando o Sr. Cawson o pegar... #73 Lyra correu
para a Cozinha e penetrou naquela agitao barulhenta e fumegante. -Onde
est o Roger? -berrou. -Some daqui, Lyra! Estamos ocupados! -Mas onde 
que ele est? Voc deve saber! -Lyra gritou para o Chefe da Cozinha, que
lhe deu um tapa na orelha e expulsou-a de l. Bernie, o Confeiteiro,
tentou acalm-la, mas no conseguiu. -Eles pegaram o Roger! Aqueles
Papes malditos, algum devia pegar e matar eles! Eu odeio eles! Vocs
no se importam com o Roger... -Lyra, todos ns nos importamos com o
Roger... -No, porque seno paravam o trabalho e iam procurar por ele
nesse instante! Odeio vocs! -Podia haver muitos motivos para o Roger
ter sumido. Escute a voz da razo. Temos o jantar para preparar e servir
em menos de uma hora; o Reitor tem convidados na Residncia e ele tambm
vai jantar l, o que significa que o Chefe da Cozinha vai ter que mandar
a comida para l bem depressa, para no esfriar; com uma coisa e outra,
Lyra, a vida tem que continuar. Tenho certeza de que o Roger vai
aparecer... Lyra saiu correndo da Cozinha, derrubando uma pilha de
tampaS de bandeja de prata e ignorando o rugido de raiva que isso
provocou. Correndo, desceu os degraus e atravessou o Quadriltero,
passou entre a Capela e a Torre Palmer's e entrou no Quadriltero
Yaxley, onde ficavam os prdios mais antigos da Faculdade. Pantalaimon
corria de um lado para o outro na frente dela como um leopardo em
miniatura e disparou escada acima at o ltimo andar, onde ficava o
quarto de Lyra. A menina abriu a porta de sopeto, arrastou a cadeira
cambaleante para perto da janela, abriu a persiana e passou para o lado
de fora. Logo abaixo #74 da janela havia uma calha de pedra forrada de
chumbo com uns 30Cm de largura, para recolher a gua da chuva; de p
sobre ela, Lyra virou-se e subiu pelas telhas at chegar  cumeeira do
telhado. Ali ela abriu a boca e gritou. Pantalaimon, que sempre se
transformava em pssaro quando estava no telhado, voava em crculos ao
redor dela, acompanhando-a com seu grasnar agudo de gralha. O cu do
final de tarde tingia-se de cores -pssego, abric, creme, delicadas
nuvens de sorvete num largo cu alaranjado. As torres e os campanrios
de Oxford erguiam-se em volta deles, na mesma altura; os bosques verdes
de Chteau -Vert e White Ham mostravam-se a cada lado -um a leste, outro
a oeste. Em algum lugar, havia gralhas grasnando e sinos tocando, e dos
Currais dos Bois as batidas ritmadas de um motor a gs anunciavam a
decolagem diria do zepelim do Correio Real para Londres. Lyra ficou
vendo-o subir acima do campanrio da Capela da St. Michael's, a
principio do tamanho da ponta do dedo mindinho dela quando ela estendia
o brao, depois ficando cada vez menor, at virar um pontinho no cu
perolado. Ela virou-se e baixou o olhar para o Quadriltero envolto em
sombras, onde os Catedrticos, vestindo suas becas pretas, j comeavam
a chegar, sozinhos ou aos pares, para a Dispensa, seus daemonscaminhando
ou voejando ao lado deles, ou ento calmamente empoleiradas em seus
ombros. Estavam acendendo as luzes no Salo; ela via os vitrais da
janela comeando a brilhar um a um  medida que um criado percorria o
aposento acendendo as lamparinas sobre as mesas. O sino do Administrador
ps-se a tocar, anunciando a meia hora antes do jantar. Aquele era o
mundo dela. Ela queria que ele permanecesse a mesma coisa para sempre,
mas ele estava mudando ao seu redor , pois algum l fora estava
roubando crianas. Ela se sentou na cumeeira do telhado, o queixo
apoiado nas mos. - melhor irmos socorrer o Roger, Pantalaimon -
declarou. #75 Ele respondeu da chamin, com sua voz de gralha: -Vai ser
perigoso. -Claro! Eu sei disso. -Lembre-se do que eles disseram na Sala
Privativa. -O que foi? -Alguma coisa sobre uma criana l no Artico.
Aquela que no estava atraindo o P. -Disseram que era uma criana
completa... E da? -Pode ser isso que vo fazer com o Roger, os gpcios
e as outras crianas. -Como ? -Bom, que  que completa quer dizer? -Sei
l. Com certeza, cortam elas no meio. Acho que elas viram escravas. Isso
seria mais til. Com certeza, eles tm minas por l. Minas de urnio
para as naves atmicas. Aposto que  isso. Se mandassem adultos para o
fundo das minas, eles morreriam, de modo que usam crianas porque elas
so mais baratas. Foi isso que fizeram com ele. -Eu acho... Mas a
opinio de Pantalaimon teve que esperar; porque uma voz que vinha de
baixo comeou a gritar: -Lyra! Lyra! Desa da neste instante! Algum
batia na janela. Lyra reconheceu a voz e a impacincia: era a Sra.
Lonsdale, a Governanta. Impossvel esconder-se dela! De rosto tenso,
Lyra escorregou pelo telhado at a calha e tornou a entrar pela janela.
A Sra. Lonsdale estava enchendo de gua uma pequena bacia descascada,
com o acompanhamento de gemidos e batidas que o sistema hidrulico
produzia. -Quantas vezes j lhe disseram para no ir ao telhado... Veja
o seu estado! Veja esta saia: est imunda! Tire a roupa imediatamente e
se lave enquanto eu procuro alguma coisa decente que no esteja rasgada.
No sei por que voc no consegue ficar limpa e arrumada... #76 Lyra
estava deprimida de mais at para perguntar por que tinha que se lavar e
se vestir, e nenhum adulto fornecia uma razo por iniciativa prpria.
Ela puxou o vestido pela cabea e deixou-o cair sobre a cama estreita, e
ps-se a se lavar com m vontade enquanto Pantalaimon, agora um canrio,
saltava cada vez mais para perto do daemon da Sra. Lonsdale, um
impassvel co de caa, tentando em vo implicar com ele. -Veja o estado
deste guarda-roupa! Faz semanas que voc no pendura um vestido! Veja
como este est amassado... Veja isso, veja aquilo... Lyra no queria
ver. Ela fechou os olhos enquanto esfregava o rosto com a toalha fina.
-Vai ter que usar este assim mesmo. No d tempo de passar. Deus me
perdoe, menina, veja os seus joelhos, veja o estado deles... -No quero
ver nada -Lyra resmungou. A Sra. Lonsdale deu-lhe um tapa na perna.
-Lave -ordenou com ferocidade. -Tire toda esta sujeira. -Por qu? -Lyra
finalmente perguntou. -Eu nunca lavo os joelhos. Ningum vai olhar para
os meus joelhos. Por que tenho que fazer isso tudo? A senhora tambm no
liga para o Roger, igual ao Cozinheiro Chefe. Eu sou a nica que...
Outro tapa, na outra perna. -Chega dessa bobagem. Sou uma Parslow, como
a me do Roger. Ele  meu primo em segundo grau. Aposto que no sabia
disso, porque aposto que voc nunca perguntou, Srta. Lyra. Aposto que
isso nunca lhe passou pela cabea. No me acuse de no gostar do menino.
Deus sabe que eu gosto at mesmo de voc, que me d poucos motivos para
isso e nenhuma gratido. Ela pegou a flanela e esfregou os joelhos de
Lyra com tanta fora que deixou a pele rosada e ardendo, porm limpa. -O
motivo disso  que voc vai jantar com o Reitor e os convidados dele.
Peo a Deus que voc se comporte. Fale somente #77 quando falarem com
voc, seja discreta e educada, sorria e nunca diga "Sei l" quando lhe
perguntarem alguma coisa. Ela enfiou o melhor vestido de Lyra no corpo
magro da menina, ajeitou-o, pescou na confuso de uma gaveta uma fita
vermelha e escovou os cabelos dela com uma escova de cerdas duras. -Se
tivessem me avisado antes, eu podia ter lavado os seus cabelos. Bom, 
uma pena. Tomara que no olhem muito de perto... Pronto. Agora sente-se
direito. Onde esto aqueles sapatos bons, de verniz? Cinco minutos mais
tarde, Lyra estava batendo na porta da Residncia do Reitor, a casa
imponente e um pouco lgubre que se abria para o Quadriltero Yaxley e
dava fundos para o Jardim da Biblioteca. Pantalaimon, que por polidez se
transformara num arminho, esfregou-se na perna dela. A porta foi aberta
por Cousins, criado do Reitor e velho inimigo de Lyra; mas ambos sabiam
que aquilo era uma trgua. -A Sra. Lonsdale disse para eu vir -Lyra
explicou. -Sim -fez Cousins, pondo-se de lado. -O Reitor est na Sala de
Estar. Ele a levou para o aposento amplo que dava para o Jardim da
Biblioteca. Os ltimos raios de sol ali entravam atravs do vazio entre
a Biblioteca e a Torre Palmer's, e iluminava os quadros pesados e a
prataria severa que o Reitor colecionava. Iluminava tambm os
convidados, e Lyra entendeu por que no iam jantar no Salo: trs deles
eram mulheres. -Ah, Lyra! Que bom que pde vir! -exclamou o Reitor.
-Cousins, arranje uma coisa que ela possa beber. Dama Hannah, acho que
no conhece Lyra... A sobrinha de Lorde Asriel, a senhora sabe. Dama
Hannah Relf, Diretora de uma das faculdades femininas, era uma senhora
de cabelos grisalhos cujo daemon era um sagi. Lyra cumprimentou-a com
toda educao e depois foi #78 apresentada aos outros convivas, que
eram, como Dama Hannah, estudiosos de outras Faculdades e bastante
desinteressantes. Ento o Reitor chegou ao ltimo convidado. -Sra.
Coulter, esta  a nossa Lyra. Lyra, venha cumprimentar a Sra. Coulter.
-Ol, Lyra -disse a Sra. Coulter. Era linda e jovem. Os cabelos negros e
lisos emolduravam o rosto dela, e seu daemon era um macaco dourado. #79
4 O ALETMETRO -EspERO que seu lugar no jantar seja ao meu lado -disse a
Sra. Coulter, abrindo espao para Lyra no sof. -No estou acostumada
com o luxo da Residncia de um Reitor. Vai ter que me mostrar quais
garfos e facas devo usar. -A senhora  uma Professora? -Lyra perguntou.
Ela considerava as Professoras com o desdm prprio a uma pessoa da
Jordan: essas pessoas existiam, porm, coitadinhas, nunca seriam levadas
a srio -no mais que animais vestidos de gente, representando uma pea.
A Sra. Coulter, por outro lado, no se parecia com qualquer Professora
que Lyra j tivesse visto e certamente no como as duas senhoras idosas
e srias que eram as outras convidadas. Lyra havia feito essa pergunta
esperando uma resposta negativa, pois a Sra. Coulter tinha um ar
elegante que encantou a garota; Lyra mal conseguia tirar os olhos dela.
-Na verdade, no -respondeu a Sra. Coulter. - Perteno  faculdade da
Dama Hannah, porm a maior parte do meu trabalho  feita fora de
Oxford... Fale-me sobre voc, Lyra. Sempre morou na Faculdade Jordan?
#80  Cinco minutos depois, Lyra tinha contado a ela tudo da sua vida
meio selvagem: seus caminhos favoritos pelos telhados, a batalha dos
Barreiros, a ocasio em que ela e Roger tinham apanhado e assado uma
gralha, sua inteno de capturar um barco dos gpcios e ir velejando at
Abingdon, etc. Contou-lhe at (depois de olhar em volta, e baixando a
voz) sobre a brincadeira dela e de Roger com as caveiras na cripta. -E
os fantasmas apareceram no meu quarto, sabe, sem cabea! No conseguiam
falar, s faziam uns barulhos de gorgolejo, mas eu sabia muito bem o que
eles queriam. Ento no dia seguinte fui at l embaixo e coloquei as
moedas de volta. Seno eles podiam at me matar. -Quer dizer que voc
no tem medo do perigo? -disse a Sra. Coulter em tom de admirao. A
essa altura j estavam jantando; como a Sra. Coulter esperava, estavam
sentadas juntas. Lyra ignorou completamente seu outro vizinho -o
Bibliotecrio -e passou a refeio inteira conversando com a Sra.
Coulter . Quando as senhoras se retiraram para o caf, a Dama Hannah
disse: -Diga-me, Lyra, vo mand-la para a escola? -Sei l... Eu no sei
-ela corrigiu a tempo. -Provavelmente no -acrescentou, com segurana.
-Eu no ia querer dar esse trabalho a eles -continuou, em tom de
santinha. -E essa despesa. Certamente  melhor que eu continue morando
na Jordan, sendo educada pelos Catedrticos daqui quando eles tm um
tempinho livre. Como j esto aqui, certamente vai ser de graa. -E seu
tio, Lorde Asriel, tem algum plano para voc? - perguntou a outra
senhora, que era uma Professora na outra faculdade feminina. -Acho que
sim -disse Lyra. -Mas no uma escola. Ele vai me levar para o Norte na
prxima viagem. #81 -Eu me lembro, foi o que ele me contou -disse a Sra.
Coulter. Lyra pestanejou. As duas Professoras sentaram-se ligeiramente
mais eretas, embora seus daemons, por boa educao ou por preguia, se
limitassem a olhar de relance um para o outro. -Ns nos encontramos no
Rgio Instituto do Plo rtico -continuou a Sra. Coulter. -Alis,  em
parte por causa desse encontro que estou aqui hoje. -A senhora tambm 
exploradora? -Lyra perguntou. -De certo modo, sim. Estive vrias vezes
no Norte. No ano passado, fiquei trs meses na Groelndia fazendo
observaes da Aurora Boreal. Foi o que bastou; da em diante, para Lyra
nada -e ningum mais -existia. Ela contemplava a Sra. Coulter com
respeitoso deslumbramento e escutava atenta e extasiada as descries da
construo de iglus, das caadas de focas, das negociaes com as bruxas
da Lapnia. As duas Professoras no tinham coisas to interessantes para
contar e ficaram sentadas em silncio at a chegada dos homens. Mais
tarde, quando os convidados se preparavam para partir, o Reitor disse:
-Fique mais um pouco, Lyra; eu gostaria de conversar um minutinho com
voc. V para o meu escritrio, sente-se e espere por mim l. Intrigada,
cansada e excitada, Lyra obedeceu. O criado Cousins levou-a ao
escritrio e deixou a porta aberta propositalmente para poder ver do
saguo -onde ajudava os convidados a vestir os abrigos -o que ela
estaria fazendo. Lyra procurou a Sra. Coulter com o olhar, mas no a
viu, e ento o Reitor entrou no escritrio e fechou a porta. Sentou-se
pesadamente na poltrona junto  lareira. Seu daemon esvoaou para as
costas da cadeira e empoleirou-se perto #82 da cabea do Reitor, fixando
em Lyra os velhos olhos semicerrados. A lamparina sibilava baixinho. O
Reitor disse: -Bem, Lyra, voc andou conversando com a Sra. Coulter;
gostou de ouvir o que ela dizia? -Gostei! - uma dama notvel. -
maravilhosa.  a pessoa mais maravilhosa que j conheci. O Reitor
suspirou. Com seu terno e gravata pretos, ele se parecia com o seu
daemon, e de repente ocorreu a Lyra que um dia no muito distante ele
seria enterrado na cripta sob o Oratrio, e um artista iria gravar o
daemon dele na placa de bronze para o caixo, e o nome do daemon
constaria ao lado do dele. -Eu j devia ter arranjado tempo para ter uma
conversa com voc, Lyra -ele comeou, depois de um instante. -Estava
pretendendo mesmo fazer isso, mas parece que j passou mais tempo do que
eu imaginava. Voc sempre esteve segura aqui na Jordan, minha cara. Acho
que tem sido feliz. No lhe foi fcil nos obedecer, mas gostamos muito
de voc, e voc nunca foi uma criana m. H muita bondade e ternura na
sua natureza, e muita determinao. Voc vai precisar de tudo isso. No
mundo l fora, esto acontecendo coisas das quais eu gostaria de
proteger voc, prendendo-a aqui na Jordan, porm isso no  mais
possvel. Ela o encarou sem falar. Ento iam mand-la embora? -Voc
sabia que um dia teria que ir para a escola -o Reitor continuou. -Ns
aqui lhe ensinamos algumas coisas, mas no muito bem, nem de maneira
organizada. Nosso conhecimento  de outro tipo. Voc precisa aprender
coisas que homens idosos no tm condies de lhe ensinar,
principalmente na sua idade. Voc certamente sabia disso. No  filha de
criados, no poderamos entreg-la para ser adotada por uma famlia da
cidade. Eles poderiam cuidar de voc em certas coisas, mas as suas
necessidades so diferentes. O que estou querendo dizer, Lyra,  #83 que
esta parte da sua vida dentro da Faculdade Jordan est chegando ao fim.
-No, no! -ela protestou. -No quero sair da Jordan! Gosto daqui. Quero
ficar aqui para sempre! -Quando a gente  jovem, pensa que as coisas
duram para sempre. Infelizmente, elas no duram. Lyra, no falta muito
tempo, no mximo um par de anos, para voc se tornar uma moa, no mais
uma criana. Uma senhorita. Pode acreditar, a voc vai achar a
Faculdade Jordan um lugar muito difcil para se morar. -Mas  o meu lar!
-Tem sido o seu lar. Mas agora voc precisa de outra coisa. -Escola,
no. Eu no vou para a escola. -Voc precisa de companhia feminina. De
orientao feminina. A expresso "orientao feminina" fez Lyra pensar
nas Professoras, e ela fez uma careta involuntria. Ser exilada da
imponncia da Jordan, do esplendor e fama de seu ensino, para uma
faculdade num prdio de tijolos parecendo uma penso no subrbio de
Oxford, com Professoras desmazeladas que cheiravam a repolho e
naftalina, como aquelas duas! O Reitor percebeu a expresso dela e viu
piscarem em vermelho os olhos de gamb de Pantalaimon. Perguntou: -E se
por acaso fosse a Sra. Coulter? No mesmo instante, o plo de Pantalaimon
mudou de marrom-escuro para puro branco. Lyra arregalou os olhos. -De
verdade? -Ela  conhecida de Lorde Asriel. O seu tio, naturalmente, est
muito preocupado com o seu bem-estar, e quando a Sra. Coulter ouviu
falar de voc, ela no mesmo instante se ofereceu para ajudar. Alis, ela
 viva. O marido morreu num acidente muito triste h alguns anos; de
modo que voc se lembre disso antes de perguntar alguma coisa. #84 Lyra
assentiu ansiosamente e perguntou: -E ela vai mesmo... tomar conta de
mim? -Voc gostaria? -Sim! Lyra mal conseguia ficar sentada. O Reitor
sorriu. Isso acontecia to raramente que ele tinha perdido a prtica, e
quem estivesse prestando ateno (coisa que Lyra no estava em condi
es de fazer) pensaria que se tratava de uma careta de desagrado. -Bem,
ento  melhor convid-la para vir conversar sobre isso -disse. Ele saiu
do escritrio e quando voltou, um minuto depois, com a Sra. Coulter,
Lyra estava de p, excitada demais para ficar sentada. A Sra. Coulter
sorriu, e seu daemon mostrou os dentes brancos numa expresso travessa e
satisfeita. Ao passar por Lyra a caminho de uma poltrona, a Sra. Coulter
tocou de leve seus cabelos e Lyra sentiu uma onda de carinho cobri-la, e
enrubesceu. Depois que o Reitor serviu branrwijn  Sra. Coulter, ela
disse: -Bem, Lyra, quer dizer que vou ter uma assistente? -Sim -disse
Lyra simplesmente. Teria dito "sim" a qualquer coisa. -Preciso de ajuda
em muita coisa. -Posso trabalhar! -E talvez tenhamos que viajar. -No me
importo. Vou a qualquer lugar. -Mas pode ser perigoso. Podemos ter que
ir para o Norte. Lyra ficou sem fala. Finalmente conseguiu perguntar:
-Logo? A Sra. Coulter riu e disse: -Talvez. Mas sabe que vai ter que
trabalhar muito. Vai ter que aprender matemtica, navegao, geografia
celeste. -A senhora vai me ensinar? -Vou. E voc vai ter que me ajudar
tomando notas, arrumando meus papis, fazendo vrios clculos bsicos,
etc. E #85 como vamos visitar algumas pessoas importantes, temos que
arrumar roupas bonitas para voc. H muito que aprender, Lyra. -No me
importo. Quero aprender tudo. -Tenho certeza de que vai conseguir.
Quando voltar  Jordan, ser uma viajante clebre. Agora, vamos partir
muito cedo amanh de manh, pelo zepelim da madrugada, de modo que 
melhor voc ir dormir. Vejo voc no caf da manh. Boa noite! -Boa noite
-retribuiu Lyra. Lembrando-se da pouca etiqueta que conhecia, ela
virou-se da porta e disse: -Boa noite, Reitor. Ele assentiu. -Durma bem.
-E obrigada -fez Lyra, dirigindo-se  Sra. Coulter. Ela finalmente
conseguiu dormir, embora Pantalaimon no tivesse sossegado at ela
ralhar com ele, e ele ento se transformou em porco-espinho de pura
m-criao. Ainda estava escuro quando algum a sacudiu. -Lyra...
psiu... No se assuste... acorde, garota! Era a Sra. Lonsdale. Estava
segurando uma vela; ela inclinou-se e falou baixinho, segurando Lyra com
a mo livre. -Escute. O Reitor quer falar com voc antes de voc se
encontrar com a Sra. Coulter no caf da manh. Levante-se depressa e
corra at a Residncia. Entre no jardim e bata na porta-janela do
escritrio. Entendeu? Completamente acordada e fervendo de curiosidade,
Lyra assentiu e enfiou os ps nos sapatos que a Sra. Lonsdale colocou no
cho para ela. -No se preocupe em se lavar. Pode fazer isso depois.
Agora v direto e volte direto. Vou comear a arrumar sua bagagem e
separar alguma coisa para voc usar. Agora se apresse. #86 O
Quadriltero escuro ainda estava cheio do ar frio da noite. No cu as
ltimas estrelas ainda estavam visveis, mas a luz que vinha do leste
gradualmente ocupava o cu acima do Salo. Lyra correu para o Jardim da
Biblioteca e ficou por um momento parada na imensa quietude, olhos
erguidos para os pinculos de pedra da Capela, a cpula verde-perolada
do Prdio Sheldon, o lampio pintado de branco da Biblioteca. Agora que
ia deixar aquele ambiente, perguntou-se se sentiria muita saudade.
Alguma coisa se moveu na porta-janela do escritrio e um brilho de luz
cintilou por um instante. Ela lembrou-se do que tinha que fazer e bateu
na porta de vidro, que se abriu de imediato. -Muito bem. Entre depressa.
No temos muito tempo - disse o Reitor, fechando a cortina sobre a
janela assim que ela entrou. Ele estava inteiramente vestido de preto,
como de costume. -Quer dizer que eu no vou, afinal? -Lyra perguntou.
-Vai, sim. No posso im pedir -disse o Reitor, sem que Lyra percebesse
na ocasio que aquilo era algo estranho de se dizer. -Lyra, quero lhe
dar uma coisa, mas voc vai ter que prometer que no vai contar a
ningum. Voc jura? -Juro -fez Lyra. Ele foi at a escrivaninha e tirou
de uma gaveta um pacotinho embrulhado em veludo preto. Quando ele
desdobrou o pano, Lyra viu uma coisa como um relgio de pulso grande, ou
um relgio de parede pequeno: um disco espesso de bronze e cristal.
Podia ser uma bssola ou algo assim. -O que  isso? -ela perguntou. -
um aletmetro. S existem seis no mundo, Lyra, e novamente eu aviso:
mantenha-o em segredo. Seria melhor se a Sra. Coulter no soubesse. O
seu tio... -Mas que  que isso faz? -Diz a verdade. Quanto  maneira de
operar, voc vai ter que descobrir sozinha. Agora v, est clareando.
Corra de volta ao seu quarto antes que algum a veja. #87 Ele dobrou o
veludo sobre o instrumento e colocou-o nas mos dela. Era
surpreendentemente pesado. Ento ele colocou as mos de cada lado da
cabea da menina e segurou-a de leve por um instante. Ela tentou erguer
os olhos para ele e perguntou: -Que era que o senhor ia dizer do meu tio
Asriel? -O seu tio presenteou-o  Faculdade Jordan h alguns anos. Ele
podia... Antes que ele pudesse terminar a frase, ouviu-se uma batida
leve na porta. Ela sentiu as mos dele estremecerem. -V depressa,
agora, criana -ele disse baixinho. -Os poderes deste mundo so muito
grandes. Homens e mulheres so movidos por ondas muito mais violentas do
que voc pode imaginar, que nos arrastam a todos na correnteza. V em
paz, Lyra. Seja discreta. -Obrigada, Reitor -ela disse em tom formal.
Apertando o pacote de encontro ao peito, ela saiu do escritrio,pela
porta para o jardim, olhando de relance para trs e vendo o daemon do
mestre observando-a do peitoril da janela. O cu j estava mais claro;
havia um cheiro novo no ar. -Que  isso a? -perguntou a Sra. Lonsdale,
fechando a pequena e maltratada mala. -O Reitor me deu. Ser que vai
caber na mala? -Tarde demais. No vou tornar a abrir. Seja o que for,
vai ter que ir no bolso do seu casaco. V depressa para a Cantina; no
faa os outros esperarem... S depois de se despedir dos poucos criados
que estavam acordados e da Sra. Lonsdale foi que ela se lembrou de
Roger, e ento sentiu-se culpada por no ter pensado nele uma s vez
depois que conhecera a Sra. Coulter. Como as coisas tinham acontecido
depressa! #88 E agora ela estava a caminho de Londres; sentada junto 
janela num zepelim, com as pequenas e afiadas garras das patas traseiras
de arminho de Pantalaimon enfiadas em sua coxa, enquanto as patas
dianteiras do seu daemon apoiavam-se na vidraa atravs da qual ele
espiava. Ao lado de Lyra, a Sra. Coulter trabalhava em alguns papis,
mas logo guardou-os e se ps a conversar. Que conversa interessante!
Lyra ficou deslumbrada; dessa vez a conversa no era sobre o Norte, mas
sobre Londres, os restaurantes e sales de baile, as festas nas
Embaixadas e nos Ministrios, as fofocas entre White Hall e Westminster.
Para Lyra a conversa rivalizava em fascnio com a paisagem mutante vista
da aeronave. O que a Sra. Coulter estava dizendo parecia ser acompanhado
de um perfume de "adultez", alguma coisa ao mesmo tempo perturbadora e
atraente: era o cheiro do luxo. A aterrissagem em Falkeshall Gardens, a
viagem de barco atravessando o rio marrom, o quarteiro de manses
imponentes no Embankment, onde um mensageiro corpulento (uma espcie de
carregador de bagagem condecorado)* cumprimentou a Sra. Coulter e piscou
para Lyra, que o estudou com expresso impassvel. E depois o
apartamento... Lyra s fazia abrir a boca. Em sua curta vida, ela j
havia visto muita beleza, mas era uma beleza jordaniana, uma beleza
oxfordiana -imponente, ptrea, masculina. Na Faculdade Jordan, muita
coisa era grandiosa, mas nada era mimoso; no apartamento da Sra. Coulter
tudo era mimoso. Ele era cheio de luz, pois as janelas largas eram *
Houve em Londres um servio de mensageiros e carregadores de bagagens
leves desempenhado por soldados veteranos de guerra. (N. T.) #89 viradas
para o sul, e as paredes eram cobertas de um delicado papel listado em
branco e dourado. Quadros encantadores em molduras douradas, um espelho
antigo, arandelas interessantes servindo de base para luminrias
anbricas com cpulas embabadadas; e babados nas almofadas, tambm, e
sanefas estampadas de flores escondendo o trilho das cortinas, e um
macio tapete verde estampado de folhas; e aos olhos inocentes de Lyra
parecia que cada superfcie estava coberta de lindas caixinhas, pastoras
e arlequins de porcelana. A Sra. Coulter sorriu da admirao da menina.
-, Lyra, h tanta coisa para lhe mostrar! Tire o casaco e vou lev-la
at o banheiro. Voc pode se lavar, depois vamos almoar e fazer
compras... O banheiro era outra maravilha. Lyra estava acostumada a
lavar-se com um grosseiro sabo amarelo numa bacia trincada, onde a gua
que pingava das torneiras nunca ficava mais do que morna, e muitas vezes
vinha pintalgada de ferrugem; mas ali a gua era quente, o sabo era
cor-de-rosa e as toalhas eram felpudas e macias como nuvens. E em volta
da borda do espelho fum havia pequenas luzes cor-de-rosa, de modo que
quando Lyra olhou-se ao espelho ela viu uma figura iluminada suavemente,
bem diferente da Lyra que ela conhecia. Pantalaimon, que procurava
imitar a forma do daemon da Sra. Coulter, estava agachado na beirada da
bacia, fazendo caretas para ela. Ela o empurrou para dentro da gua
ensaboada e de repente lembrou-se do aletmetro no bolso do casaco.
Tinha deixado o casaco numa cadeira na sala. Tinha prometido ao Reitor
guardar segredo da Sra. Coulter... Ah, aquilo era confuso. A Sra.
Coulter era to boa e sbia, ao passo que Lyra tinha visto o Reitor
tentando envenenar tio Asriel. A qual dos dois ela devia mais
obedincia? Enxugou-se s pressas e correu de volta para a sala, onde
seu casaco ainda estava intocado, naturalmente. #90 -Pronta? Acho que
podemos ir almoar no Rgio Instituto do Plo rtico. Sou uma das poucas
mulheres membros, de modo que  melhor usar os privilgios que tenho.
Uma caminhada de vinte minutos levou-as a um imponente prdio com
fachada em pedra, onde elas se sentaram num amplo salo de refeies com
toalhas brancas como neve e talheres de prata brilhante sobre as mesas,
e comeram fgado de vitela e bacon. -O fgado de vitela no faz mal, e
nem o de foca, mas se voc ficar sem comida no Artico, no deve comer
fgado de urso. Ele  cheio de um veneno que mata em poucos minutos.
Enquanto comiam, a Sra. Coulter comentava sobre alguns dos membros nas
outras mesas. -Est vendo aquele senhor idoso, de gravata vermelha?  o
Coronel Carborn. Ele fez o primeiro vo de balo por cima do Plo Norte.
E o homem alto perto da janela, aquele que acaba de se levantar,  o Dr.
Flecha Partida. -Ele  escraelingue? -, sim. Foi ele quem mapeou as
correntes ocenicas do Grande Oceano rtico... Lyra contemplou todos
aqueles grandes homens com curiosidade e respeito. Eram estudiosos, sem
dvida, mas eram exploradores tambm. O Dr. Flecha Partida sabia sobre o
fgado dos ursos; ela duvidava que o Bibliotecrio da Jordan soubesse.
Depois do almoo, a Sra. Coulter mostrou-lhe algumas das preciosas
relquias do Artico na Biblioteca do Instituto: o arpo que matara a
grande baleia Grimssdur, a pedra com a inscrio numa linguagem
desconhecida encontrada na mo do explorador Lorde Rukh, morto por
congelamento na solido da sua barraca, um acendedor de fogo usado pelo
Capito Hudson em sua famosa viagem  Terra de Van Tieren. Ela contou a
histria de cada relquia, e Lyra sentiu o corao fremir de admirao
por aqueles grandes heris corajosos e distantes. #91 Depois foram s
compras. Tudo naquele dia extraordinrio era uma experincia nova para
Lyra, mas fazer compras foi a mais estonteante. Entrar num prdio enorme
cheio de roupas lindas, onde as pessoas deixavam a gente experimentar,
onde a gente se olhava nos espelhos... E as roupas eram to
bonitinhas... As roupas de Lyra tinham vindo atravs da Sra. Lonsdale, e
muitas delas eram usadas e bastante remendadas. Ela raramente teve
alguma coisa nova, e quando tinha, era uma roupa escolhida pela
praticidade, no pela aparncia; ela nunca escolhera alguma coisa para
si. E agora, com a Sra. Coulter sugerindo isto, elogiando aquilo e
pagando tudo, e mais ainda... Quando terminaram, Lyra estava corada e
tinha os olhos brilhantes de cansao. A Sra. Coulter instruiu que a
maior parte das roupas fosse embalada e entregue em sua casa, mas levou
uma ou duas coisas consigo quando ela e Lyra caminharam de volta para o
apartamento. Depois, um banho com espuma espessa e perfumada. A Sra.
Coulter entrou no banheiro para lavar os cabelos de Lyra, e ela no
esfregava e arranhava como a Sra. Lonsdale. Ela era delicada.
Pantalaimon observava com intensa curiosidade at que a Sra. Coulter
olhou para ele, que entendeu o que ela queria dizer e virou-se de
costas, desviando pudicamente o olhar daqueles mistrios femininos, como
o macaco dourado estava fazendo. Ele antes disso nunca tinha precisado
desviar os olhos de Lyra. Ento, depois do banho, um leite quente com
ervas; e uma camisola nova de flanela com estampado de flores e bainha
recortada, e chinelos de l de carneiro tingida de azul-claro; e depois
para a cama. To macia, aquela cama! To delicada, a luz anbrica na
mesa-de-cabeceira! E o quarto to aconchegante, com as pequenas
mesas-de-cabeceira e a penteadeira e a cmoda onde seriam #92 guardadas
suas roupas novas, e um tapete de uma parede  outra, e lindas cortinas
cobertas de estrelas, luas e planetas! Lyra, tensa, estava cansada
demais para dormir, encantada demais para questionar qualquer coisa.
Depois que a Sra. Coulter lhe desejou uma boa noite e saiu do quarto,
Pantalaimon puxou-lhe o cabelo. Ela o afastou com um gesto, mas ele
sussurrou: -Onde est o negcio? Ela sabia o que ele queria dizer. O
casaco velho e humilde estava pendurado no armrio; segundos depois ela
estava de volta na cama, sentada de pernas cruzadas  luz da luminria,
com Pantalaimon observando atentamente enquanto ela desdobrava o veludo
preto e contemplava aquilo que o Reitor lhe dera. -Como foi que ele
chamou? -ela cochichou. -Aletmetro. No adiantava perguntar o que isso
significava. O objeto pesava nas mos dela, a face de cristal brilhando,
o corpo de bronze primorosamente usinado. Era muito parecido com um
relgio, ou uma bssola, pois havia ponteiros apontando para lugares em
volta do mostrador, mas em vez de horas ou pontos cardeais havia vrias
figuras pequeninas, todas pintadas com preciso extraordinria, como se
fosse em marfim com o mais fino e delicado pincel de visom. Ela girou o
mostrador nas mos para observar todas elas. Havia uma ncora; uma
ampulheta encimada por uma caveira; um touro, uma colmeia... Ao todo
eram 36 desenhos, e ela nem imaginava o que significavam. -H um boto,
olhe -Pantalaimon avisou. -Veja se consegue dar corda nele. Na verdade,
havia trs pequenos pinos giratrios facetados, e cada um movimentava um
dos trs ponteiros menores, que se moviam em volta do mostrador numa
srie de pequenos estalidos. Podiam ser apontados para qualquer uma das
figuras; e #93 uma vez entrando em posio, apontando exatamente para o
centro de cada uma, eles no podiam ser movidos. O quarto ponteiro era
mais comprido e fino, e parecia ser feito de metal menos brilhante do
que os outros trs. Lyra no conseguiu controlar o movimento dele; ele
ia para onde queria, como a agulha de uma bssola, mas no parava. -O
final "metro" significa "medida" -Pantalaimon declarou. -Como
termmetro. O Capelo nos ensinou isso. -, mas essa  a parte fcil
-ela respondeu num cochicho. -Para que ser que serve? Nenhum dos dois
conseguiu adivinhar. Lyra passou muito tempo movendo os ponteiros para
apontar para um ou outro smbolo (anjo, elmo, golfinho; globo, bandolim,
bssolas; vela, raio, cavalo) e observando o ponteiro grande mover-se de
modo errtico e ,incessante; embora no tenha entendido coisa alguma,
ela ficou intrigada e deliciada com a complexidade e o detalhamento.
Pantalaimon transformou-se num rato para poder chegar mais perto e
descansou as patas minsculas na borda, os olhinhos redondos negros de
curiosidade enquanto ele observava os movimentos do ponteiro. -Que  que
acha que o Reitor quis dizer sobre o tio Asriel? -ela perguntou. -Talvez
a gente tenha que manter isto em segurana e depois entregar a ele. -Mas
o Reitor ia envenenar tio Asriel! Talvez seja o contrrio. Talvez ele
fosse dizer: no entregue ao seu tio. -No -contradisse Pantalaimon. -
dela que temos que manter isto escondido... Ouviram-se batidas leves na
porta. A Sra. Coulter disse: -Lyra, se eu fosse voc, apagava a luz.
Voc est cansada, e teremos muito trabalho amanh. #94 Lyra tinha
depressa enfiado o aletmetro debaixo das cobertas. -Est certo, Sra.
Coulter -disse. -Ento boa noite. -Boa noite. Ela deitou-se e apagou a
luz. Antes de adormecer, enfiou o aletmetro debaixo do travesseiro, por
medida de segurana. #95 5 A FESTA NOS dias que se seguiram, Lyra foi a
toda parte com a Sra. Coulter, quase como se ela prpria fosse um
daemon. A Sra. Coulter conhecia muita gente, e as duas frequentavam
vrios tipos de lugares. De manh podia haver uma reunio de gegrafos
no Rgio Instituto do Plo rtico, a que Lyra assistia; depois a Sra.
Coulter podia almoar com um poltico ou um clrigo num restaurante
elegante, onde todos eram muito simpticos com Lyra e lhe ofereciam
pratos especiais, e ela aprendeu a comer aspargos e o sabor de tripas de
carneiro. A tarde talvez fossem s compras, pois a Sra. Coulter estava
preparando sua expedio -era preciso comprar peles, lonas e botas 
prova d' gua, assim como sacos de dormir, facas e instrumentos de
desenho que deliciaram Lyra. Depois disso talvez fossem tomar ch com
algumas damas to bem vestidas quanto a Sra. Coulter, embora no to
belas ou elegantes: eram mulheres to diferentes das catedrticas, ou
das mes de famlia dos barcos gpcios, ou das criadas das faculdades,
que quase pareciam ser de um sexo diferente, com perigosos poderes e
qualidades tais como elegncia, charme e graa. Lyra vestia-se com apuro
para essas ocasies, e as damas a paparicavam, #96 incluindo-a em suas
conversas sutis e agradveis, que eram sempre sobre pessoas: um artista,
um poltico, dois amantes. E quando chegava a noite, a Sra. Coulter
talvez levasse Lyra ao teatro, onde tambm haveria muitas pessoas
elegantes com quem conversar e por quem ser admirada, pois parecia que a
Sra. Coulter conhecia todas as pessoas importantes de Londres. Nos
intervalos de tantas atividades, a Sra. Coulter ensinava-lhe os
rudimentos de geografia e matemtica. A cultura de Lyra tinha grandes
lacunas, como um mapa-mndi rodo pelos ratos, pois na Jordan
ensinavam-lhe desordenadamente: designavam um Professor-assistente para
ensinar-lhe certas matrias e ela comparecia s aulas relutantemente
durante uma semana, mais ou menos, at que "se esquecia" de aparecer,
para grande alvio do Professor. Ou ento um Catedrtico esquecia-se do
que deveria ensinar a ela e lhe aplicava um curso intensivo sobre a sua
pesquisa na poca, qualquer que fosse; assim, no  de admirar que seu
conhecimento se assemelhasse a uma colcha de retalhos. Ela conhecia
alguma coisa sobre tomos e partculas elementares, cargas
anbaromagnticas, as quatro foras fundamentais e mais um ou outro item
da teologia experimental, mas nada sobre o sistema solar. Na verdade,
quando a Sra. Coulter percebeu isso e lhe explicou que aTerra e os
outros cinco planetas giravam ao redor do sol, Lyra riu da piada. No
entanto estava ansiosa para mostrar que sabia algumas coisas, e quando a
Sra. Coulter estava lhe falando dos eltrons, ela afirmou, com ar de
sapincia: -, so partculas com carga negativa. Um pouco parecidos com
o P, mas o P no tem carga. Assim que ela disse isso, o daemon da Sra.
Coulter ergueu a cabea para olhar para ela, e todos os plos dourados
eriaram-se, como se eles prprios fossem carregados. A Sra. Coulter
pousou a mo no dorso do daemon. -P? -ecoou, em tom de pergunta. #97
-Sim. Do espao, a senhora sabe. Aquele P. -Que  que voc sabe sobre
isso, Lyra? -Ah, que ele vem do espao e acende as pessoas, se a gente
tiver uma cmera especial para filmar. Mas as crianas no. Ele no
afeta as crianas. -Onde foi que aprendeu isso? A essa altura, Lyra
percebia que havia uma forte tenso no ar, porque Pantalaimon tinha se
esgueirado como um arminho para o colo dela, e tremia violentamente.
-Uma pessoa l na Jordan -disse a menina em tom vago. -No me lembro
quem. Acho que foi um dos Catedrticos. -Foi durante uma aula? -, pode
ter sido, ou ento pode ter sido dito de passagem. , acho que foi isso.
Aquele Professor, acho que ele era da Nova Dinamarca, ele estava
conversando com o Capelo sobre o P, eu estava passando e achei
interessante. Ento tive que parar e escutar. Foi isso. -Entendo -fez a
Sra. Coulter . -Est correto o que ele me disse? Eu entendi errado?
-Bem, no sei. Tenho certeza de que voc sabe muito mais que eu. Vamos
voltar para os eltrons... Mais tarde Pantalaimon disse: -Lembra quando
o daemon dela arrepiou-se todo? eu estava atrs dele, e ela agarrou a
pele dele com tanta fora, que os ns dos dedos dela ficaram brancos.
No dava para voc ver. Demorou muito at ele voltar ao normal. Pensei
que ia pular em cima de voc. Aquilo era estranho, sem dvida; mas
nenhum deles tinha idia do porqu. E finalmente havia outro tipo de
aulas, dadas com sutileza que no pareciam aulas: como lavar os cabelos,
escolher as cores que a favoreciam, como dizer no de maneira to
encantadora que no causasse ofensa, como passar batom, p, #98 perfume.
 verdade que a Sra. Coulter no ensinou estas ltimas artes
diretamente, mas sabia que Lyra estava observando enquanto ela se
maquilava, e tomava cuidado para que Lyra visse onde ela guardava os
cosmticos e para lhe proporcionar um tempo livre para explor-los e
experiment-los. O tempo passou, e o outono comeou a virar inverno. De
vez em quando Lyra pensava na Faculdade Jordan, que lhe parecia pequena
e sossegada, em comparao com a vida agitada que ela levava agora. De
vez em quando, pensava em Roger, tambm, e ficava inquieta, mas havia
sempre uma pera, ou um vestido novo, ou uma visita ao Rgio Instituto
do Plo rtico, e ela tornava a esquecer-se dele. Quando j havia cerca
de seis semanas que Lyra morava l, a Sra. Coulter resolveu dar uma
festa. Lyra tinha a impresso de que havia uma coisa a ser comemorada,
embora a Sra. Coulter no dissesse o que era. Ela encomendou flores,
debateu drinques e canaps com a firma do buf, passou horas com Lyra
decidindo quem convidar. -Temos que chamar o Arcebispo. No posso
deix-lo de fora, embora ele seja um velho odiento e esnobe. O Lorde
Boreal est na cidade; ele  divertido. E a Princesa Postnikova. Acha
que seria correto convidar Erik Andersson? No sei se j est na hora de
admiti-lo... Erik Andersson era o mais recente danarino da moda. Lyra
no tinha idia do que significava "admitir", mas mesmo assim gostava de
dar sua opinio. Anotou todos os nomes que a sra. Coulter sugeriu, com
muitos erros de ortografia, depois riscava-os quando a Sra. Coulter
resolvia no convid-los. Quando Lyra foi deitar-se, Pantalaimon
cochichou-lhe: -Ela nunca ir para o Norte! Vai nos prender aqui para
sempre. Quando  que vamos fugir? #99 -Vai, sim -Lyra cochichou de
volta. - que voc no gosta dela. Bem, azar o seu; eu gosto dela. E por
que ela ia nos ensinar navegao se no pretende nos levar para o Norte?
-Para que voc no fique impaciente, s por isso. Voc, na verdade, no
vai querer ficar plantada na festa sendo simptica e bonitinha. Ela est
fazendo de voc um bichinho de estimao. Lyra virou-lhe as costas e
fechou os olhos. Mas o que Pantalaimon tinha dito era verdadeiro: ela
vinha se sentindo presa e oprimida por aquela vida de etiqueta, por mais
luxuosa que fosse. A garota daria qualquer coisa por um dia com seus
amigos moleques de Oxford, com uma batalha nos Barreiros e uma corrida
ao longo do canal. A nica coisa que lhe fazia ser educada e atenta com
a Sra. Coulter era a tentadora esperana de ir para o Norte -talvez
encontrassem Lorde Asriel, talvez ele e a Sra. Coulter se apaixonassem,
se casassem e adotassem Lyra, e salvassem Roger dos Papes. Na tarde da
festa, a Sra. Coulter levou Lyra a um cabeleireiro da moda, onde seus
rebeldes cachos louros foram amaciados e penteados, e suas unhas foram
lixadas e pintadas; aplicaram-lhe at um pouco de maquilagem nos olhos e
nos lbios, para ensinar como fazer isso. Depois elas foram buscar o
vestido que a Sra. Coulter tinha mandado fazer para Lyra, e compraram
sapatos de verniz; ento chegou a hora de voltar para o apartamento,
verificar as flores e vestir-se. Lyra saiu do quarto radiante com a
sensao da sua prpria formosura. -A bolsa a tiracolo, no, querida
-disse a Sra. Coulter . Lyra tinha o hbito de levar sempre consigo uma
bolsinha a tiracolo de couro branco, para ter o aletmetro sempre perto.
A Sra. Coulter, ajeitando um buqu de rosas que tinha sido mal colocado
dentro de um vaso, viu que Lyra no se movia, e olhou fixamente para a
porta. -Ah, por favor, Sra. Coulter, eu adoro esta bolsa! #100 -No
dentro de casa, Lyra.  absurdo usar uma bolsa a tiracolo em sua prpria
casa. Guarde-a imediatamente e venha me ajudar a verificar essas
taas... No foi apenas o tom irritado como tambm as palavras "em sua
prpria casa" que fizeram Lyra resistir com teimosia. Pantalaimon voou
para o cho e imediatamente tornou-se um gamb, arqueando as costas
contra as meias soquetes brancas que ela usava. Assim encorajada, Lyra
disse: -Mas ela no vai atrapalhar. E  a nica coisa que eu gosto mesmo
de usar. Acho que ela realmente combina com... Ela no terminou a frase,
pois o daemon da Sra. Coulter saltou do sof como um raio dourado e
prendeu Pantalaimon no tapete antes que esse pudesse se mover. Lyra
soltou uma exclamao de susto, depois de medo e dor, enquanto
Pantalaimon se contorcia, guinchando e rosnando, sem conseguir soltar-se
das garras do macaco dourado. Poucos segundos depois, o macaco tinha uma
das patas negras em volta da garganta de Pantalaimon e as duas patas
traseiras prendendo as pernas do gamb; com a outra pata dianteira o
macaco agarrou uma das orelhas de Pantalaimon e ps-se a pux-la como se
quisesse arranc-la. No parecia fazer aquilo com raiva, mas com uma
fora fria que era horrvel de ver e ainda pior de sentir. Lyra chorava
de terror. -No! Por favor! Pare de nos machucar! A Sra. Coulter ergueu
os olhos das flores. -Ento faa o que eu mando -disse. -Eu prometo! O
macaco dourado largou Pantalaimon, como se de repente se sentisse
entediado. Pantalaimon voou para Lyra, que o pegou no colo para
acarici-lo e beij-lo. -Agora, Lyra -disse a Sra. Coulter . Lyra
virou-se de costas, foi para seu quarto batendo a porta atrs de si, mas
esta no mesmo instante tornou a abrir-se; a Sra. Coulter estava parada a
menos de um metro. #101 -Lyra. se voc se comportar desta maneira
grosseira e vulgar, vamos brigar, e eu vou vencer. Largue esta bolsa
imediatamente. Desmanche esta careta desagradvel. Nunca mais bata uma
porta, na minha presena ou longe dela. Agora, os primeiros convidados
vo chegar em poucos minutos, e vo achar voc simptica, encantadora,
inocente, educada, de comportamento impecvel. Este  o meu desejo, est
me entendendo, Lyra? -Sim, Sra. Coulter. -Ento me d um beijo. Ela
inclinou-se e ofereceu a face; Lyra teve que ficar na ponta dos ps para
beij-la. Notou a maciez da pele e o cheiro leve e curioso da carne da
Sra. Coulter: perfumado, mas um pouco metlico. Ela afastou-se e colocou
a bolsa sobre a penteadeira, antes de seguir a Sra. Coulter de volta 
sala. -Que  que est achando das flores, minha cara? -a Sra. Coulter
perguntou como se nada tivesse acontecido. -Escolher rosas  garantia de
no errar, mas o exagero pode ficar feio... Ser que o pessoal do buf
trouxe gelo suficiente? Faa-me esta gentileza, v verificar. Bebida
quente  horrvel... Lyra achou muito fcil fingir estar alegre e
simptica, embora o tempo todo estivesse consciente da contrariedade de
Pantalaimon e do dio dele pelo macaco dourado. Finalmente soou a
campainha da porta, e logo o aposento estava repleto de senhoras
vestidas no rigor da moda e cavalheiros bonites ou elegantes. Lyra
movia-se entre eles oferecendo canaps ou sorrindo com doura e dando
respostas bonitinhas quando falavam com ela. Ela se sentia um bichinho
de estimao universal; e no instante em que pensou isso, Pantalaimon
estendeu suas asas de pintassilgo e piou bem alto. Ela sentiu a
satisfao dele ao perceber esses sentimentos dela. e ficou um pouco
mais retrada. -E quando  que vai para a escola, minha cara? -perguntou
uma dama idosa, examinando Lyra atravs de um pincen. #102 -No vou
para a escola -disse-lhe Lyra. - mesmo? Pensei que sua me ia mand-la
para a escola dela. Um lugar bastante satisfatrio... Lyra ficou
perplexa, at entender o equvoco da velha senhora. -Ah, ela no  minha
me! Eu sou s a assistente dela. Sou a secretria -disse, em tom
importante. -Entendo. E quem so seus pais? Mais uma vez Lyra teve que
raciocinar para entender o que ela queria dizer, antes de responder: -Um
conde e uma condessa. Morreram num acidente aeronutico no Norte. -Que
conde? -O Conde Belacqua. Ele era irmo do Lorde Asriel. O daemon da
dama, uma espcie de papagaio vermelho, mexeu-se de um p para o outro,
como se estivesse irritado. A velha senhora estava comeando a mostrar
forte curiosidade, de modo que Lyra sorriu com doura e seguiu em
frente. Estava passando por um grupo de homens e uma mulher jovem perto
do sof grande quando ouviu a palavra "P". A essa altura, ela j
conhecia suficientemente a sociedade para perceber quando homens e
mulheres estavam flertando, e observava fascinada o processo, embora
ficasse mais fascinada pela meno ao P, e deixou-se ficar por ali para
escutar. Os homens pareciam ser Catedrticos; pelo modo como a moa os
interrogava, Lyra concluiu que ela era estudante. -Quem descobriu foi um
moscovita, um homem chamado Rusakov -dizia um homem de meia-idade,
enquanto a moa o contemplava com admirao. -Se j souber dessas
coisas, me avise. Bom, elas costumam ser chamadas de Partculas de
Rusakov, por causa dele. Partculas elementares que no interagem com
outras de maneira alguma. Muito difceis de serem detectadas. #103 Mas o
extraordinrio  que parece que elas so atradas pelos seres humanos.
- mesmo? -fez a jovem, arregalando os olhos. -Ainda mais
extraordinrio: alguns seres humanos mais do que outros -prosseguiu ele.
-Os adultos as atraem, mas no as crianas. Pelo menos no muito, e s
depois da adolescncia. Alis, foi exatamente por isso... -Ele baixou a
voz e chegou mais perto da moa, colocando a mo no ombro dela. -Foi
exatamente por isso que o Conselho de Oblao foi criado. Alis, como a
nossa boa anfitri poderia lhe contar. - mesmo? Ela est envolvida com
o Conselho de Oblao? -Minha cara, ela  o prprio Conselho de Oblao.
O prOjeto  inteiramente dela... O homem ia contar mais alguma coisa
quando reparou em Lyra. Ela o encarou sem pestanejar, e talvez ele tenha
bebido um pOUCO demais, ou talvez estivesse ansioso para impressionar a
moa, pois disse: -Esta senhorita sabe tudo sobre isso, aposto. Voc
est a salvo do Conselho de Oblao, no est, minha cara? -Ah, sim
-disse Lyra. -Aqui estou a salvo de todo mundo. Onde eu morava, em
Oxford, havia todo tipo de coisas perigosas. Havia os gpcios, eles
roubam crianas e vendem como escravos para os turcos. E em Port Meadow
na lua cheia h um lobisomem que sai do velho convento em Gostow. Uma
vez eu escutei o uivo dele. E tambm os Papes... - disso que estou
falando -interrompeu o homem. -  assim que chamam o Conselho de
Oblao, no ? Lyra sentiu Pantalaimon estremecer de repente, mas ele
estava muito bem comportado. Os daemons dos dois adultos, uma gata e uma
borboleta, pareciam no ter percebido. -Papes? -repetiu a moa. -Que
nome estranho! Por que chamam de Papes? #104 Lyra estava prestes a
contar a ela uma das histrias de arrepiar os cabelos que ela havia
inventado para assustar os garotos de Oxford, mas o homem j estava
falando. -Deve ter sido por causa da lenda de um bicho devorador que
come crianas. Ningum sabe direito, nem o prprio Conselho de Oblao,
mas eles acharam muito bom incentivar essa teoria do bicho-papo.
Conselho Geral de Oblao... Uma idia bem antiga, alis. Na Idade
Mdia, os pais davam os filhos para a Igreja, para serem monges ou
freiras. E as coitadas das crianas eram conhecidas como oblatos.
Significa um sacrifcio, uma oferta, algo assim. De modo que essa idia
foi aproveitada quando estavam pesquisando esse negcio do P... como
nossa amiguinha provavelmente sabe. Por que no vai conversar com Lorde
Boreal? -acrescentou, dirigindo-se diretamente a Lyra. - Tenho certeza
de que ele gostaria de conhecer a protegida da Sra. Coulter...  aquele,
ali, o homem de cabelos grisalhos e um daemon-serpen te. Lyra sabia que
ele queria livrar-se dela para conversar mais tranqilamente com a
jovem. Mas a jovem, ao que parecia, ainda estava interessada em Lyra e
afastou-se do homem para conversar com ela. -Espere um instante... qual
 o seu nome? -Lyra. -Eu sou Adele Starminster. Sou jornalista. Podemos
conversar um pouco? Achando muito natural que as pessoas quisessem
conversar com ela, Lyra disse simplesmente: -Sim. O daemon-borboleta
ergueu-se no ar, voejando para a esquerda e a direita, e baixou um pouco
para cochichar alguma coisa, e Adele Starminster disse: -Vamos at o
banco da janela. #105 Era o lugar favorito de Lyra; dali contemplava-se
o rio, e quela hora da noite as luzes da margem oposta brilhavam acima
de seus reflexos na gua escura da mar alta. Uma fila de balsas subia o
rio, puxada por um rebocador. Adele Starminster sentou-se e deslizou
pela almofada para deixar lugar para Lyra. -O Professor Docker disse que
voc tem uma certa ligao com a Sra. Coulter . - verdade. -Que ligao
? Voc no  filha dela, ou algo assim? Acho que eu deveria conhecer...
-No! Claro que no. Sou a secretria dela -Lyra esclareceu. -Secretria
dela? Voc  um pouco novinha para isso, no ? Pensei que fosse uma
parenta, ou coisa assim. Como  ela? - muito inteligente -disse Lyra.
Antes dessa noite, ela teria dito muito mais, porm as coisas estavam
mudando. -Sim, mas pessoalmente -insistiu Adele Starminster. -Quero
dizer, ela  amigvel, ou impaciente, ou o qu? Voc mora aqui com ela?
Como ela  na vida particular? - muito boazinha -disse Lyra,
inabalvel. -Que tipo de coisas voc faz? Como  o seu trabalho? -Fao
clculos, coisas assim. Para navegao, por exemplo. -Ah, entendo... E
de onde voc vem? Como  mesmo o seu nome? -Lyra. Venho de Oxford. -Por
que a Sra. Coulter escolheu voc para... De repente ela emudeceu, porque
a Sra. Coulter em pessoa tinha aparecido ao lado dela. Pelo modo como
Adele Starminster olhou para ela, e pela agitao da borboleta
esvoaando em volta da cabea da jornalista, Lyra percebia que a jovem
no fora convidada para a festa. #106 -No sei o seu nome, mas vou
descobrir dentro de cinco minutos, e ento voc nunca mais vai trabalhar
como jornalista -disse a Sra. Coulter em voz baixa. -Agora levante-se
com muita calma, sem fazer cena, e v embora. Devo acrescentar que quem
quer que tenha trazido voc aqui vai sofrer tambm. A Sra. Coulter
parecia estar carregada de alguma espcie de fora anbrica. Chegava a
ter um cheiro diferente: um cheiro quente, como metal aquecido, saa de
seu corpo. Lyra sentira um pouco dele mais cedo, mas agora ela o via
dirigido a outra pessoa, e a pobre Adele Starminster no teve foras
para resistir. Seu daemon caiu em seu ombro e bateu duas vezes as lindas
asas antes de desmaiar, e a prpria mulher parecia incapaz de ficar em
p ereta. Com passos tortos e COstas ligeiramente cUrvadas, ela
atravessou a multido que conversava ruidosamente e saiu pela porta da
sala. Com uma das mos agarrada ao ombro, ela amparava o daemon
desfalecido. -Bem? -a Sra. Coulter disse para Lyra. -No contei nada de
importante -Lyra falou. -Que foi que ela estava perguntando? -S o que
eu fao e quem eu sou, coisas assim. Enquanto falava, Lyra percebeu que
a Sra. CoUlter estava sozinha, sem seu daemon. Como Podia ser isso? Mas,
no momento seguinte, o macaco dourado apareceu ao lado dela e,
inclinando-se, ela pegou a mo dele e num gesto gracioso puxou-o para
seu ombro. No mesmo instante, ela pareceu tranqila noVamente. -Se
encontrar qualquer pessoa que flagrantemente no foi convidada, minha
cara, por favor me procure e me avise, est bem? O cheiro quente de
metal estava desaparecendo. Talvez Lyra tivesse apenas imaginado aquilo.
Ela sentia novamente o perfume da Sra. Coulter, e das rosas, e da fumaa
da cigarrilha, e o perfume das OUtras mulheres. A Sra. Coulter deu a
Lyra um #107 sorriso que parecia dizer "Voc e eu compreendemos essas
coisas, no ?", e afastou-se para conversar com os convidados.
Pantalaimon cochichou ao ouvido de Lyra: -Enquanto ela estava aqui, o
daemon dela estava saindo do nosso quarto. Andou espionando por l. Ele
sabe do aletmetro! Lyra sentiu que isso provavelmente era verdade, mas
nada podia fazer a respeito. O que aquele Catedrtico estava dizendo
sobre os Papes? Olhou em volta  procura dele, mas, no mesmo instante
em que o avistou, o mensageiro (usando nessa noite um traje de criado) e
outro homem tocaram no ombro do Professor e falaram com ele em voz
baixa; ele empalideceu e seguiu-os para fora da sala. Aquilo no levou
mais que dois segundos, e foi feito com tanta discrio que quase
nIngum percebeu. Mas deIxou Lyra aflita e se sentindo exposta. Ela
vagou pelas duas amplas salas onde a festa estava acontecendo, mal
ouvindo as conversas  sua volta, meio interessada no sabor dos
coquetis que no tinha permisso de experimentar, e cada vez maIs
irritada. No havIa percebIdo que alguem a observava at que o
mensageiro surgiu ao seu lado e inclinou-se para dizer: -Srta. Lyra, o
cavalheiro perto da lareira gostaria de conversar com voc. Se voc no
sabe, ele  o Lorde Boreal. Lyra olhou para o outro lado da sala. O
homem grisalho aparentando poder olhava diretamente para ela; quando os
olhares se encontraram, ele assentiu e chamou-a com um gesto. De m
vontade, porm agora mais interessada, ela atravessou a sala. -Boa
noite, filha -disse ele. Sua voz era suave e cheia de autoridade. A
cabea escamosa e os olhos cor de esmeralda do seu daemon-serpente
cintilavam  luz da luminria de cristal na parede vizinha. -Boa noite
-respondeu Lyra. #108 -Como vai meu velho amigo, o Reitor da Jordan?
-Muito bem, obrigada. -Imagino que todos ficaram tristes quando voc
partiu. -Ficaram, sim. -E a Sra. Coulter est mantendo voc ocupada? Que
 que ela est lhe ensinando? Por estar se sentindo revoltada e
inquieta, Lyra no respondeu a esta pergunta paternalista com a verdade,
ou com um dos COstumeiros produtos da sua imaginao, mas disse: -Estou
aprendendo tudo sobre as partculas de Rusakov e o Conselho de Oblao.
Ele imediatamente pareceu se concentrar, como se pode concentrar o facho
de uma lanterna anbrica. Toda a ateno dele jorrava sobre ela com
fora. -E se voc me COntar o que sabe? -disse ele. -Esto fazendo
experincias no Norte -Lyra contou. Agora estava se sentindo arrojada.
-Como o Dr. Grumman. -Continue. -Eles tm uma espcie de fotograma
especial onde se pode ver o P, e quando agente v um homem, parece que
a luz toda est indo para ele, e nenhuma para uma criana. Pelo menos
no muita. -A Sra. Coulter lhe mOstrou um fotograma assim? Lyra hesitou,
pois isso no era mentir e sim Outra coisa, em que ela no tinha
prtica. -No -respondeu depois de um instante. -Eu vi na Faculdade
Jordan. -Quem foi que lhe mostrou? -Ele no estava mostrando para mim
-Lyra admitiu. -Eu estava passando e vi. E ento meu amigo Roger foi
levado pelo Conselho de Oblao. Mas... -Quem lhe mostrou o fotograma?
-O meu tio Asriel. #109 -Quando? -Na ltima vez em que ele esteve na
Faculdade Jordan. -Entendo. E que mais voc andou aprendendo? Ser que
ouvi voc mencionar o Conselho de Oblao? -Foi, sim. Mas no ouvi isso
dele, ouvi aqui. O que era a pura verdade, ela pensou. Ele a estudava
com os olhos apertados. Ela devolveu o olhar com toda a inocncia que
possua. Finalmente ele assentiu. -Ento a Sra. Coulter deve ter
resolvido que voc est pronta para ajud-la nesse trabalho.
Interessante. Voc j tomou parte? -No -disse Lyra. Ela pensava: de que
ele est falando? Pantalaimon, com esperteza, tinha a sua forma mais
inexpressiva, uma mariposa, e no poderia delatar os sentimentos dela; e
ela pensara que conseguiria manter a expresso inocente. -E ela lhe
contou o que acontece com as crianas? -No, isso ela no me contou. Eu
s sei que tem a ver com o P, e elas so uma espcie de sacrifcio.
Tambm isso no era exatamente uma mentira, ela pensou; afinal, no
tinha dito que a Sra. Coulter lhe contara isso. -"Sacrifcio"  uma
palavra meio forte. O que  feito  para o bem delas, assim como o
nosso. E  claro que todas acompanham a Sra. Coulter por vontade
prpria.  por isso que ela  to preciosa. Elas tm que querer fazer
parte, e qual a criana que poderia resistir a ela? E se ela vai usar
voc tambm para traz-las, melhor ainda. Estou muito contente. Ele deu
um sorriso como o da Sra. Coulter: como se ambos compartilhassem um
segredo. Ela sorriu de volta educadamente, e ele virou-se para conversar
com outra pessoa. Ela e Pantalaimon sentiam o horror um do outro. Ela
queria ficar sozinha e conversar com ele; tinha vontade de deixar o
apartamento; queria voltar para a Faculdade Jordan e para seu #110
quartinho humilde na Escadaria Doze; queria encontrar Lorde Asriel... E
como em resposta a esse desejo, ela ouviu o nome dele ser mencionado, e
com o pretexto de se servir de um canap numa bandeja sobre a mesa,
aproximou-se do grupo que conversava ali perto. Um homem com a prpura
de bispo estava dizendo: -No, eu no acho que Lorde Asriel vai nos
incomodar por bastante tempo. -E onde mesmo ele est preso? -Na
fortaleza de Svalbard, me disseram. Vigiado pelos panserbjornes, sabem,
os ursos de armadura. Criaturas tremendas! Ele no vai conseguir escapar
nem em mil anos. O fato  que eu realmente acho que o caminho est bem
claro... -As ltimas experincias confirmaram o que eu sempre acreditei:
que o P  uma emanao do prprio princpio das trevas e... -Ser que
estou detectando a heresia zoroastriana? -O que costumava ser uma
heresia... -E se pudssemos isolar o princpio das trevas... -Voc disse
Svalbard? -Ursos de armadura... -O Conselho de Oblao... -As crianas
no sofrem, tenho certeza disso... -Lorde Asriel prisioneiro... Lyra
tinha ouvido o suficiente. Ela virou-se, e movendo-se sem rudo, foi
para o seu quarto e fechou a porta, abafando o barulho da festa. -E
ento? -cochichou, e Pantalaimon se tornou um pintassilgo no ombro dela.
-Vamos fugir? -ele cochichou em resposta. -Claro. Se formos agora, com
toda essa gente, ela pode no perceber por algum tempo. -Mas ele
percebe. #111 Pantalaimon estava falando do daemon da Sra. Coulter .
Quando Lyra pensava naquela figura dourada e esguia, ela sentia nuseas
de medo. -Desta vez vou lutar com ele -afirmou Pantalaimon
corajosamente. -Eu posso mudar, e ele no pode; vou mudar to depressa
que ele no vai conseguir me segurar. Desta vez eu vou vencer, voc vai
ver. Lyra assentiu distraidamente. Que roupa deveria vestir? Como
poderia sair sem ser vista? -Voc vai ter que ir vigiar-cochichou.
-Assim que o caminho estiver livre ns teremos que correr. Seja mariposa
- acrescentou. -Lembre-se, no instante em que ningum estiver olhando...
Ela abriu uma fresta da porta, e ele saiu, um pontinho escuro contra a
luz quente e rsea do corredor. Enquanto isso, ela vestia as roupas mais
quentes que possua e enfiava mais algumas numa das bolsas de seda
carbonfera comprada na loja elegante que elas haviam visitado naquela
mesma tarde. A Sra. Coulter tinha lhe dado dinheiro como se, em vez de
moedas, fossem biscoitos, e embora Lyra tivesse gastado prodigamente,
ainda sobraram vrios soberanos, que ela colocou no bolso do seu casaco
de pele de lobo. Finalmente ela guardou o aletmetro dentro do pedao de
veludo preto. Teria aquele macaco abominvel encontrado o aparelho?
Certamente que sim; com certeza tinha contado  Sra. Coulter; ah, se o
tivesse escondido melhor... Foi p ante p at a porta. Por sorte seu
quarto dava para o final do corredor mais perto do saguo, e a maioria
dos convidados estava nas duas salas mais distantes. Havia o som de
vozes conversando em voz bem alta, risos, o rudo abafado de uma
descarga sanitria, o tilintar de copos; e ento uma vozinha de mariposa
disse em seu ouvido: -Agora! Depressa! #112 Ela esgueirou-se pela porta
e saiu para o corredor, e em menos de trs segundos estava abrindo a
porta da frente do apartamento. Um instante depois j passara por ela,
fechando-a atrs de si, e com Pantalaimon novamente como pintassilgo,
ela correu para as escadas e fugiu dali. #113 6 As TARRAFAS ELA caminhou
depressa, afastando-se do rio, porque a calada ao longo da margem era
larga e bem iluminada. Havia um emaranhado de ruelas entre aquele lugar
e o Rgio Instituto do Plo rtico, que era o nico lugar que Lyra tinha
certeza de conseguir localizar, e foi nesse labirinto escuro que ela
penetrou. Se ao menos conhecesse Londres to bem quanto conhecia Oxford!
Ento saberia as ruas a serem evitadas, ou onde conseguiria comida, ou,
melhor que tudo, em que porta bater para conseguir abrigo. Naquela noite
fria, os becos escuros  sua volta pululavam de movimento e vida
secreta, e ela de nada sabia sobre ISSO. Pantalaimon tornou-se um
gato-do-mato, passando a examinar a escurido com seus olhos que
enxergavam  noite. A todo momento, ele parava, arrepiando-se, e ela
evitava a ruela em que estava prestes a entrar .A noite estava cheia de
rudos; gargalhadas brias, duas vozes estridentes elevando-se numa
cano, estalidos e rangidos vindo de alguma mquina mallubrificada num
poro qualquer. Lyra caminhava cuidadosamente por isso tudo, #114
mantendo-se nas sombras e nos becos estreitos, seus sentidos expandidos
e misturados com os de Pantalaimon. De vez em quando, ela precisava
atravessar uma rua mais larga, bem iluminada, onde os bondes zumbiam e
faiscavam sob seus fios anbricos. Havia regras para atravessar as ruas
londrinas, mas ela no dava ateno a isso, e quando algum gritava, ela
fugia. Era timo estar livre outra vez! Ela sabia que Pantalaimon,
caminhando com seus passinhos de gato-do-mato a seu lado, sentia a mesma
alegria por estar ao ar livre, mesmo sendo o poludo ar londrino,
carregado de fumaa e fuligem, e repleto de barulho. Eles logo teriam
que meditar sobre o significado do que tinham ouvido no apartamento da
Sra. Coulter, mas ainda no era o momento. E em algum momento teriam que
encontrar um lugar para dormir. Numa esquina onde havia uma grande loja
de departamentos com vitrines cujo brilho se espelhava na calada
molhada, havia tambm uma banca de caf: uma barraquinha sobre rodas com
um balco sob a janela de madeira que se abria para cima e ficava como
um toldo. L dentro brilhava uma luz amarela, e o cheiro do caf
espalhava-se pelo ar. O proprietrio, de jaleco branco, estava debruado
sobre o balco, conversando com dois ou trs fregueses. Aquilo era
tentador; Lyra estava andando havia uma hora, e a noite estava fria e
mida. Com Pantalaimon transformado em pardal, ela foi at o balco e
levantou a mo para chamar a ateno do proprietrio. -Um caf e um
sanduche de presunto -pediu. -Est na rua at tarde, minha cara -disse
um cavalheiro de cartola e cachecol de seda. - -fez ela, dando-lhe as
costas para observar o movimentado cruzamento. #115 Num teatro ali
perto, a sesso terminara e grupos de pessoas ocupavam a calada
iluminada, chamando os txis aos gritos, vestindo os sobretudos. Na
outra direo ficava a entrada de uma Estao de Trem Ctnico*, com
muita gente subindo e descendo a escada. -Pronto, meu bem -disse o dono
da barraca. -So dois xelins. -Deixe que eu pago -ofereceu o homem de
cartola. Lyra pensou: por que no? Consigo correr mais depressa que ele,
e mais tarde posso precisar de todo o meu dinheiro. O homem de cartola
deixou cair uma moeda no balco e sorriu para ela. Seu daemon era uma
lmure; agarrada  lapela dele, ela encarava Lyra de olhos arregalados.
Lyra mordeu o sanduche, com os olhos voltados para o movimento da rua.
No tinha idia de onde estava, porque nunca havia visto um mapa de
Londres e sequer sabia o tamanho da cidade e se teria que caminhar muito
para chegar ao campo. -Qual  o seu nome? -o homem perguntou. -Alice.
-Que lindo nome. Deixe-me colocar uma gotinha disso no seu caf... Para
lhe dar calor... Ele estava tirando a tampa de um frasco de prata. -No
gosto -protestou ela. -Gosto s de caf. -Aposto que nunca tomou
conhaque assim antes. -Tomei, sim. Vomitei tudo. Tomei uma garrafa
inteira, ou quase. -Faa como quiser -disse o homem, vertendo o conhaque
em seu prprio caf. -Aonde est indo, assim sozinha? -Vou me encontrar
com meu pai. -E quem  ele? * Ctnico: traduo literal de chthonic, que
significa subterrneo. (N. T.) #116 - um assassino. -Ele  o qu? -J
disse, um assassino.  a profisso dele. Est fazendo um trabalho esta
noite. Estou trazendo roupas limpas para ele, porque em geral ele est
coberto de sangue no final de um trabalho. -Ah, voc est brincando.
-No estou, no. A lmure soltou um miado baixo e passou para trs da
cabea do homem, de onde ficou espiando Lyra. Impassvel, a menina bebeu
o caf e comeu o resto do sanduche. -Boa noite -disse finalmente.
-Estou vendo papai chegando. Ele parece meio zangado. O homem de cartola
olhou em volta, e Lyra partiu na direo da multido em frente ao
teatro. Por mais que tivesse vontade de conhecer o Trem Ctnico (que a
Sra. Coulter tinha dito que no era para pessoas de sua classe social),
ela estava temerosa de ficar presa no subsolo; melhor ficar ao ar livre,
onde poderia correr se quisesse. Prosseguiu em sua caminhada pelas ruas
cada vez mais escuras e desertas. Estava garoando, mas, mesmo se no
houvesse nuvens no cu da cidade, as luzes no iam deixar ver as
estrelas. Pantalaimon achava que estavam indo para o norte, mas quem
poderia ter certeza? Ruas infindveis, de casinhas de tijolos idnticas,
com jardins onde s cabia uma lata de lixo; grandes e soturnas fbricas
atrs de cercas de arame, com uma nica luz anbrica no alto de um muro
e um vigia noturno cochilando junto ao seu braseiro; de vez em quando um
oratrio desolado, que s se diferenciava de um armazm pelo crucifixo
na fachada. Uma vez ela experimentou a porta de um deles, e ouviu um
gemido vindo de um banco a um metro dela, na escurido. Percebeu que o
prtico do oratrio estava repleto de vultos adormecidos, e fugiu. #117
-Onde  que vamos dormir, Pantalaimon? -ela perguntou, enquanto desciam
uma rua de lojas fechadas. -Numa soleira qualquer. -Mas no quero que me
vejam, e elas so to abertas... -H um canal ali embaixo... Ele estava
olhando para uma rua lateral  esquerda. Realmente, uma mancha de brilho
escuro denunciava gua, e quando os dois foram cautelosamente at l,
encontraram um porto na margem de um canal onde cerca de uma dzia de
balsas estavam amarradas aos ancoradouros, algumas altas na gua, outras
mais afundadas sob o peso da carga, perto dos guindastes que mais
pareciam forcas. Uma luz fraca brilhava na janela de uma cabana de
madeira, e um fio de fumaa subia da chamin de metal; fora isso, as
nicas luzes eram colocadas no alto -na parede de um armazm ou na
cabine de um guindaste -, deixando o solo na escurido. Nos
ancoradouros, havia pilhas de barris com lcool de carvo, pilhas de
grandes troncos redondos, rolos de cabos cobertos de cautchu. Lyra foi
p ante p at a cabana e olhou pela janela. Um velho estava lendo com
dificuldade um jornal de histria em quadrinhos e fumando um cachimbo,
com seu daemon-spaniel dormindo enrodilhado sobre a mesa. Enquanto Lyra
espiava, o homem levantou-se e foi buscar no fogo uma chaleira
escurecida, e colocou um pouco de gua numa caneca rachada, antes de
tornar a se acomodar com o jornal. -Ser que devemos pedir para ele nos
deixar entrar, Pan? -ela sussurrou. Mas ele estava ocupado,
transformando-se em morcego, depois coruja, depois novamente
gato-do-mato; ela olhou em volta, sentindo o pnico dele, e ento viu-os
ao mesmo tempo que ele: dois homens correndo para ela, um de cada lado,
o mais prximo segurando uma tarrafa. #118 Pantalaimon soltou um grito
agudo e transformando-se em leopardo pulou sobre a raposa de aparncia
feroz que era o daemon do homem mais prximo, jogando-a para trs, de
modo que a raposa caiu sobre as pernas do homem. O homem praguejou e
desviou-se para o lado, e Lyra passou correndo por ele, na direo do
terreno aberto do ancoradouro; o que no podia era ficar encurralada num
canto. Pantalaimon, agora uma guia, mergulhou sobre ela e gritou: -A
esquerda! A esquerda! Ela se desviou para aquele lado e viu um espao
aberto entre os barris de lcool de carvo e o final de um barraco de
chapas de ferro, e como uma flecha correu para l. Mas aquelas tarrafas!
Ela ouviu um assobio no ar, e alguma coisa caiu sobre ela, aoitando-a e
picando-a dolorosamente no rosto, e cordes imundos de piche
enrolaram-se por sua cabea, seus braos, suas mos, prendendo-a; ela
caiu no cho, resmungando e lutando em vo. -Pan! Pan! Mas o
daemon-raposa atacou o Pantalaimon-gato, e Lyra sentiu a dor em sua
prpria carne, e soltou um grito forte e soluado quando ele caiu. Um
homem ps-se a enrolar a rede em volta das pernas dela, da garganta, do
corpo, da cabea, rolando-a de um lado para outro no cho. Ela estava
indefesa, exatamente como uma mosca sendo enrolada pelo fio da aranha. O
coitado do Pan estava se arrastando em sua direo, com o daemon-raposa
atacando-lhe as costas, e no tinha foras sequer para mudar de forma; e
o outro homem estava deitado numa poa, com uma flecha atravessada no
pescoo... O mundo inteiro ficou imvel quando o homem que a enrolava na
rede tambm viu. #119 Pantalaimon levantou-se at ficar sentado e
pestanejou, e ento houve um rudo baixo e seco, e o homem da tarrafa
caiu, engasgado e ofegante, bem por cima de Lyra, que gritou de horror:
havia sangue jorrando de dentro dele! Passos apressados, e algum
arrastou o homem para longe e inclinou-se sobre ele; ento outras mos
ergueram Lyra, uma faca brilhou, e os cordes da tarrafa caram um por
um, e ela desvencilhou-se, cuspindo, e correu para ajoelhar-se junto a
Pantalaimon. Nessa posio, ela virou a cabea para olhar os
recm-chegados. Trs homens morenos, um deles armado com um arco, os
outros com facas; quando a viu, o arqueiro levou um susto. -No  a
Lyra? A voz era familiar, mas ela no a reconheceu at que ele avanou
um passo, e a luz caiu em seu rosto e no daemon-falco no ombro dele.
Ento ela o reconheceu: um gipcio! Um gipcio de Oxford! -Sou Tony Costa
-ele esclareceu. -Lembra-se? Voc costumava brincar com meu irmozinho
Billy nos barcos em Jeric, antes de os Papes pegarem ele. -Ah, meu
Deus, Pan, estamos salvos! -ela sussurrou. Mas ento um pensamento lhe
veio  cabea: tinha sido dos Costa o barco que ela roubara; e se ele se
lembrasse? - melhor vir com agente -ele disse. -Est sozinha? -Estou.
Eu fugi... -Est bem, no fale agora. Fique quietinha. Jaxer, arraste os
corpos para um lugar escuro. Kerim, fique vigiando. Lyra levantou-se,
trmula, segurando Pantalaimon-gato-do-mato no colo. Ele tentava girar o
corpo para ver alguma coisa; ela seguiu o olhar dele, compreendendo e de
repente curiosa tambm: que  que tinha acontecido aos daemons dos
mortos? Eles estavam esmaecendo, essa era a resposta; desvanecendo-se e
se dispersando no ar como tomos de fumaa, embora se esforassem #120
para ficar agarrados aos homens. Pantalaimon desviou o olhar, e Lyra
correu s cegas atrs de Tony Costa. -Que  que est fazendo aqui? -ela
perguntou. -Quieta, garota. J temos problemas suficientes. Vamos
conversar no barco. Ele levou-a por uma pontezinha de madeira para o
corao do porto. Os outros dois homens os acompanhavam silenciosamente.
Tony seguiu ao longo da beira do cais e saiu para um trapiche de
madeira; passou para um barco estreito e abriu a porta da cabIne. -Entre
depressa -instruiu. Lyra obedeceu, apalpando a bolsa (que no soltara
nem uma vez, mesmo presa na rede) para ter certeza de que o aletmetro
ainda estava -l. Na cabine comprida e estreita,  luz de uma tlamparina
presa num gancho, ela viu uma mulher forte e corpulenta, de cabelos
grisalhos, sentada a uma mesa com um jornal. Lyra reconheceu a me de
Billy. -Quem  esta? -a mulher quis saber. -Ora, ser a Lyra? -Isso
mesmo. Mame, temos que sair daqui. Matamos dois homens l no porto.
Pensamos que eram Papes, mas acho que eram mercadores turcos. Tinham
agarrado a Lyra. Vamos deixar a conversa para depois, quando estivermos
em movimento. -Venha c, criana -chamou Mame Costa. Lyra obedeceu,
meio aliviada, meio apreensiva, pois Me Costa tinha mos como porretes,
e agora ela tinha certeza: fora mesmo o barco deles que ela capturara
com Roger e outros amigos das faculdades. Mas a mulher colocou as mos
de cada lado do rosto de Lyra, e seu daemon- um enorme cachorro cinzento
que parecia um lobo -inclinou-se para lamber delicadamente a cabea de
gato-do-mato de Pantalaimon. Ento Me Costa rodeou Lyra com seus braos
enormes e apertou-a contra os seios. #121 -No sei o que voc est
fazendo aqui, mas parece exausta. Pode usar a cama do Billy, depois que
eu lhe der uma bebida quente. Sente-se aqui, criana. Parecia que o ato
de pirataria tinha sido perdoado, ou pelo menos esquecido. Lyra deslizou
pela almofada do banco atrs de uma mesa de tampo de pinho enquanto o
ronco baixo do motor a gasolina sacudia o barco. -Aonde vamos? -Lyra
perguntou. Me Costa estava colocando uma panela de leite sobre o fogo
de ferro e cutucando por entre a grade para avivar o fogo. -Para longe
daqui. No fale agora. Vamos conversar de manh. E nada mais disse;
entregou uma xcara de leite quente a Lyra e subiu para o convs quando
o barco se ps em movimento, trocando cochichos com os homens de vez em
quando. Lyra bebeu o leite devagar e ergueu uma ponta da cortina para
observar os ancoradouros escuros que passavam pela janela. Minutos
depois estava dormindo profundamente. Despertou numa cama estreita, com
o reconfortante ronco do motor soando l embaixo. Ela se sentou, bateu
com a cabea, soltou um palavro, tateou em volta e levantou-se com mais
cuidado. Uma luz cinzenta permitia ver trs outras camas, todas vazias e
bem arrumadas, uma abaixo da dela e as outras duas do outro lado da
minscula cabine. Ela percebeu que estava usando apenas suas roupas de
baixo, e viu o vestido e o casaco de pele de lobo dobrados na ponta da
sua cama, junto com sua bolsa. O aletmetro ainda estava l. Vestiu-se
depressa e saiu pela porta no fundo do compartimento, encontrando-se na
cozinha do barco, onde estava mais quente por causa do fogo. No havia
pessoa alguma ali. Pelas #122 janelas, ela viu um lenol de neblina
espessa, com formas escuras que poderiam ser prdios ou rvores. Antes
que pudesse subir para o convs, a porta para fora abriu-se, e Me Costa
desceu, enrolada num velho casaco de tweed onde a umidade tinha formado
milhares de pequenas prolas. -Dormiu bem? -perguntou, pegando uma
frigideira. -Agora v se sentar fora do meu caminho e eu vou lhe fazer
um caf da manh. No fique a de p; isso aqui  muito apertado. -Onde
 que estamos? -Lyra perguntou. -No Canal Grand Junction. Voc fique
escondida, criana. No quero ver voc l fora. H problemas. Ela
colocou duas fatias de bacon e um ovo na frigideira. -Que tipo de
problemas? -Nada que a gente no consiga resolver, se voc ficar
escondida. E no quis dizer mais nada at Lyra ter acabado de comer . Em
certo momento, o barco diminuiu a velocidade, e alguma coisa bateu na
lateral dele, e ela ouviu vozes masculinas irritadas; ento uma piada de
algum fez com que rissem, as vozes se afastaram e o barco retomou seu
caminho. Finalmente Tony Costa desceu para a cabine. Como a me, sua
roupa tinha prolas de umidade, e ele sacudiu a touca de l sobre o
fogo para fazer as gotas saltarem sobre a chapa quente. -Que  que
vamos dizer a ela, Me? -Perguntar primeiro, contar depois. Ele serviu
caf numa xcara de lata e sentou-se. Era um homem forte e sisudo, e
agora que podia v-lo  luz do dia, Lyra viu em seu rosto uma expresso
de tristeza. -Certo -ele concordou. -Agora voc vai nos contar o que
estava fazendo em Londres, Lyra. Pensvamos que tinha sido levada pelos
Papes. -Eu estava morando com uma dama, certo, ento... #123 Com
dificuldade Lyra juntou e arrumou sua histria, como se estivesse
preparando um baralho para uma partida. Contou-lhes tudo, menos sobre o
aletmetro. -E ento ontem  noite no tal do coquetel eu descobri o que
eles faziam mesmo. A Sra. Coulter faz parte dos Papes, e ia me usar
para ajudar a pegar mais crianas. E o jeito de fazer isso ... Me
Costa saiu da cabine e foi para o convs. Tony esperou at que ela
fechasse a porta e disse: -Sabemos o que eles fazem. Pelo menos um
pedao. Sabemos que elas no voltam. As crianas so levadas para o
Norte, bem longe, e eles fazem experincias com elas. No princpio, a
gente achava que experimentavam doenas e remdios, mas no h motivo
para comear isso de repente, h dois ou trs anos. Ento ficamos
achando que eram os trtaros, talvez algum acordo secreto que estivessem
fazendo l pela Sibria; porque os trtaros querem ir para o Norte tanto
quanto o resto, por causa do lcool de carvo e das minas de fogo, e os
boatos de guerra comearam antes dos Papes. E achamos que os Papes
estivessem subornando os chefes trtaros dando-lhes crianas, porque os
trtaros comem crianas, no ? Assam e comem. -Essa no! -Comem, sim.
Tm muitas outras coisas para contar. Voc j ouviu falar nos
Nalkainens? -No, nunca. Nem pela Sra. Coulter. Quem so eles? - um
tipo de fantasma que existe l em cima naquelas florestas.  do tamanho
de uma criana, mas no tem cabea. De noite se guiam pelo tato, e se a
pessoa est dormindo na floresta, eles pegam ela e no soltam por nada
neste mundo. Essa palavra, nalkainen, vem do Norte. E os chupadores de
ar tambm so perigosos. Ficam deslizando pelo ar. As vezes a gente
encontra um monte deles boiando, ou presos nos galhos. Assim que eles
tocam na pessoa, ela perde toda a fora. A gente no consegue ver esses
fantasmas, s uma espcie de ondulao no ar. E os sem-ares... #124
-Quem so eles? -So guerreiros semimortos. Estar vivo  uma coisa,
estar morto  outra, mas estar meio-morto  pior que tudo. Eles no
conseguem morrer e no podem mais viver. Ficam vagando para sempre. So
chamados de sem-ares por causa do que fazem a eles. -O qu? -perguntou
Lyra de olhos arregalados. -Os trtaros do norte abrem as costelas deles
e puxam para fora os pulmes. Fazer isso  uma arte; os guerreiros no
morrem, mas seus pulmes s trabalham quando seus daemons os bombeiam
manualmente, de modo que o resultado  que esto sempre no meio do
caminho entre respirar e no respirar, entre a vida e a morte. Esto
meio-mortos, entende? E os daemons deles tm que bombear dia e noite,
para no morrerem junto com os guerreiros. Dizem que s vezes na
floresta agente encontra um batalho inteiro de sem-ares. E existem
tambm os panserbjornes, j ouviu falar? Significa ursos de armadura.
So uma espcie de ursos polares, s que... -, j ouvi falar neles!
Ontem  noite um dos homens disse que o meu tio, o Lorde Asriel, est
preso numa fortaleza vigiado pelos ursos de armadura. - mesmo? E o que
seu tio estava fazendo por l? -Explorando. Mas pelo jeito que o homem
estava falando, acho que meu tio no est do mesmo lado dos Papes. Acho
que estavam felizes por ele estar preso. -Bom, ele no vai conseguir
fugir se os ursos de armadura estiverem vigiando. So como mercenrios,
sabe o que isso quer dizer? Vendem sua fora para quem pagar. Tm mos
como os homens, e h muito tempo aprenderam o segredo de trabalhar o
ferro, principalmente o ferro meterico, e fazem grandes folhas e chapas
para se cobrirem. H sculos eles atacam os escraelingues. So
assassinos ferozes, absolutamente impiedosos. Mas respeitam a palavra
dada. Quem faz um acordo com um panserbjorne pode confiar. #125 Lyra
pensou nesses horrores com temor . -Mame no gosta de ouvir falar no
Norte -Tony acrescentOU depois de alguns minutOs. -por causa do que pode
ter acontecido com o Billy. Sabemos que eles levaram o Billy para o
Norte, entende? -Como  que sabem disso? -Pegamos um dos Papes e o
obrigamOS a falar .Foi assim que soubemos um pouco do que eles fazem.
Aqueles dois ontem  noite no eram Papes; eram desajeitados demais. Se
fossem Papes, a gente ia pegar eles vivos. Sabe, ns, o povo gpcio,
ns fomos oS mais atingidos por esses Papes, e estamOS noS juntando
para resolver o que vamoS fazer. Era o que a gente estaVa fazendo
naquele portO, abastecendo, porque vamoS fazer uma grande reunio nos
Pntanos, o que a gente chama de Encontro. E o que eU acho  que vamoS
mandar um grupO de resgate, depois que ouvirmos o que OS outrOS gpcios
sabem, depois que juntarmos nossOs conhecimentos.  o que eU faria, se
fosse o John Faa. -Quem  John Faa? -O rei dos gpcios. -E vocs vo
mesmo salvar aS crianas? E quantO ao Roger? -Quem  Roger? -O ajudante
da Cozinha da Faculdade Jordan. Ele foi levado no mesmo dia que o Billy,
na vspera de eU vir embora com a Sra. Coulter. ApostO que se eu fosse
presa ele ia me salvar. Se vocs vo salvar o Billy, eU quero ir tambm
e salvar o Roger. E o tio Asriel tambm, ela pensou, mas no mencionou
isso . #126 7 JOHN FAA AGORA que tinha uma misso pela frente, Lyra
sentia-se muito melhor. Ajudar a Sra. Coulter tinha sido muito bom, mas
Pantalaimon tinha razo: ela no estava trabalhando de verdade, era
apenas um bichinho de estimao. No barco gpcio, havia trabalho de
verdade afazer , e a Me Costa fazia com que ela trabalhasse: Lyra
limpava e varria, descascava batatas e fazia ch, lubrificava os
rolamentos do eixo da hlice, mantinha limpa a grade protetora em cima
da hlice, lavava pratos, abria comportas, amarrava o barco nos
trapiches, e em poucos dias sentia-se to  vontade nessa vida nova como
se tivesse nascido gpcia. O que ela no percebia era que os Costa
estavam o tempo todo alertas, observando se havia sinais de interesse em
Lyra por parte de pessoas das margens. Embora no tivesse conscincia
disso, ela era importante, e a Sra. Coulter e o Conselho de Oblao
certamente estariam procurando por ela em toda parte. Realmente, Tony
ouviu, nas fofocas dos bares ao longo do caminho, que a polcia estava
revistando casas, fazendas, canteiros de obras e fbricas sem qualquer
explicao, embora houvesse um boato de que estavam procurando uma
menina sumida. E isso #127 era estranho, levando-se em conta que tantas
crianas tinham sumido sem terem sido procuradas. Tanto os gpcios
quanto as pessoas de terra estavam ficando cada vez mais nervosos e
apreenSIVOS. E havia outra razo para o interesse dos Costa em Lyra, mas
ela s saberia disso alguns dias depois. Assim, mantinham a menina na
cabine sempre que passavam pela casa de um guardador de comporta ou por
um porto de canal, ou onde quer que pudesse haver gente. Uma vez
passaram por uma cidade onde a polcia estava revistando todos os barcos
que vinham pelo canal, prendendo o trnsito em ambas as direes. Mas os
Costa sabiam como enfrentar esse tipo de coisa: havia um compartimento
secreto debaixo da cama de Me Costa, onde Lyra ficou apertada durante
duas horas, enquanto a polcia percorria o barco de uma ponta a outra,
inutilmente. -Mas por que os daemons deles no me encontraram? - ela
perguntou depois. Mame mostrou-lhe o forro do esconderijo: cedro, que
tinha um efeito soporfero nos daemons; e era verdade, pois Pantalaimon
tinha passado o tempo todo dormindo tranqilamente junto  cabea de
Lyra. Lentamente, com muitas paradas e muitos desvios, o barco dos Costa
aproximava-se dos Pntanos, aquela vasta extenso nunca inteiramente
desbravada, com cus imensos e pntanos infindveis, na Anglia oriental.
A borda do terreno misturava-se aos riachos e lagoas de mar do mar
raso, e o outro lado do mar misturava-se com a Holanda; e partes dos
Pntanos tinham sido drenadas e fechadas com diques pelos holandeses,
alguns dos quais haviam se estabelecido l; de modo que a lngua nos
Pntanos tinha muita influncia holandesa. Mas algumas reas no foram
drenadas, plantadas ou desbravadas, e nas regies centrais -as mais
selvagens, onde enguias deslizavam e pssaros aquticos se reuniam, onde
sinistros fogos-ftuos tremeluziam e #128 criaturas atraam os viajantes
descuidados para a morte nos pntanos -o povo gpcio sempre encontrara
segurana. E agora, atravs de mil canais, regatos e cursos d' gua
serpenteantes, barcos gpcios seguiam para o Byanplats, a nica rea de
terreno ligeiramente mais alto em meio s centenas de quilmetros
quadrados de pntanos e atoleiros. Havia l uma espcie de auditrio num
pavilho antigo, feito de madeira, com algumas moradias permanentes em
volta, trapiches e atracadouros e um Mercado de Enguias. Quando um
Encontro era marcado, quando havia uma convocao de gpcios, tantos
barcos enchiam os cursos d'gua que uma pessoa podia caminhar mais de um
quilmetro em qualquer direo passando de um barco a outro- era o que
se dizia. Os gpcios mandavam nos Pntanos; ningum mais ousava entrar
l, e, como os gpcios mantinham a paz e comerciavam com honestidade, as
autoridades faziam vista grossa ao contrabando incessante e s rixas
ocasionais. Se o cadver de um gpcio aparecia numa praia levado pela
mar, ou vinha numa rede de pesca, bem, era s um gpcio. Lyra escutava
fascinada as histrias dos habitantes dos Pntanos, do grande
co-fantasma Concha Negra, dos fogos-ftuos subindo das bolhas de
leo-de-bruxa, e mesmo antes de chegarem aos Pntanos ela j comeava a
se sentir uma gpcia. Logo voltou a ter o sotaque de Oxford, e agora
estava pegando o sotaque gpcio, completo com algumas palavras em
pntano-holands. Me Costa teve que lhe recordar algumas coisas: -Voc
no  gpcia, Lyra. Com alguma prtica poderia passar por gpcia, mas
no  s a lngua gpcia; dentro de ns h coisas muito fortes. Ns
somos totalmente um povo da gua, e voc no , voc  do fogo. O que
mais parece com voc  o fogo-ftuo,  o lugar que voc tem no esquema
gpcio; voc tem leo-de-bruxa na alma. Enganadora  o que voc ,
criana. Lyra ficou magoada. -Nunca enganei ningum! A senhora
pergunte... #129 No havia a quem perguntar, naturalmente, e Me Costa
riu, mas com bondade. -No est vendo que estou lhe fazendo um elogio,
sua bobinha? Ouvindo isto, Lyra acalmou-se, embora no tivesse
entendido. Chegaram ao Byanplats  tardinha, e o sol estava prestes a se
pr num cu manchado de vermelho. A ilha baixa e o Zaal estavam
acocorados de encontro  luz, como o amontoado de prdios em volta; fios
de fumaa erguiam-se no ar parado, e dos numerosos barcos apinhados em
volta deles vinham cheiros de peixe fritando, de folha de fumo, de
genebra. Atracaram perto do Zaal, num trapiche que Tony disse ter sido
usado por vrias geraes da sua famlia. Me Costa ps a frigideira
para funcionar, com duas gordas enguias sibilando e espirrando gordura,
e ferveu gua para preparar o pur de batata em p. Tony e Kerim
passaram leo nos cabelos, colocaram suas melhores jaquetas de couro e
lenos azuis no pescoo, encheram os dedos de anis de prata e foram
cumprimentar alguns velhos amigos nos barcos vizinhos e beber uma ou
duas taas no bar mais prximo. Voltaram com novidades importantes.
-Chegamos bem na hora. O Encontro vai ser esta noite mesmo. E esto
dizendo na cidade, imaginem s, esto dizendo que a criana desaparecida
est num barco gpcio e que vai aparecer esta noite no Encontro! Ele riu
alto e despenteou os cabelos de Lyra. Desde que tinham entrado nos
Pntanos, ele vinha ficando cada vez mais bem-humorado, como se a
expresso feroz que seu rosto mostrava fosse apenas um disfarce. E Lyra
sentiu a excitao crescer em seu peito enquanto comia s pressas e
lavava a loua antes de pentear os cabelos, enfiando o aletmetro dentro
do bolso do casaco de pele de lobo e saltando para terra com todas as
outras famlias que subiam a ladeira para o Zaal. #130 Ela achava que
Tony estava brincando. Logo descobriu que ele no estava, ou ento ela
se parecia menos com uma gpcia do que havia imaginado, pois muita gente
ficou olhando para ela, e as crianas apontavam; quando chegaram aos
grandes portes do Zaal, estavam caminhando sozinhos, a cada lado uma
multido de pessoas que se afastaram deles para poderem observ-los e
para dar-lhes espao. Ento Lyra comeou a ficar nervosa de verdade. No
saiu de perto de Me Costa, e para tranqiliz-la Pantalaimon tomou sua
forma de pantera, a maior que conseguia tomar. Me Costa subiu os
degraus como se nada no mundo pudesse obrig-la a parar ou a andar mais
depressa, e Tony e Kerim caminhavam orgulhosamente, como prncipes, um
de cada lado. O auditrio estava iluminado por lamparinas de nafta, que
iluminavam satisfatoriamente os rostos e os corpos dos presentes, mas
deixavam as imensas traves do telhado ocultas na escurido. As pessoas
que entravam tinham que se esforar para encontrar lugar em p, pois os
bancos j estavam lotados; mas as famlias se apertavam para abrir
espao, as crianas iam para o colo e os daemons se enrodilhavam no cho
debaixo dos bancos ou se empoleiravam fora do caminho, nas speras
paredes de madeira. Na frente da assistncia, havia um tablado com oito
cadeiras de madeira entalhada. Enquanto Lyra e os Costa encontravam
lugar de p ao longo da parede do auditrio (no havia mais onde se
sentar), oito homens surgiram das sombras atrs do tablado e pararam
diante das cadeiras. Uma onda de excitao percorreu a platia enquanto
as pessoas pediam silncio ou tentavam se sentar nas extremidades dos
bancos prximos. Finalmente fez-se silncio e sete dos homens no tablado
se sentaram. O nico que ficou de p tinha mais de 70 anos, mas era alto
e forte, musculoso. Usava palet de lonita e camisa quadriculada, como
muitos gpcios; nada havia nele que o distinguisse, alm do ar de poder
e autoridade. Lyra reconheceu esse ar: tio Asriel o #131 tinha, e tambm
o Reitor da Jordan. O daemon desse homem era uma gralha muito parecida
com o corvo-fmea do Reitor. -Este  John Faa, o chefe dos gpcios do
Oriente -Tony cochichou. John Faa comeou a falar devagar, em voz
profunda. -Gpcios! Bem-vindos ao Encontro. Viemos escutar e viemos
decidir. Todos vocs sabem a razo: h muitas famlias aqui que perderam
um filho. Algumas perderam dois. Algum est levando essas crianas. 
verdade que os da terra tambm esto perdendo crianas. Sobre este
assunto no temos rixa com os da terra. Fez uma pausa e continuou: -Ora,
andam falando de uma criana e uma recompensa. Eis a verdade, para
acabar com os mexericos: o nome da criana  Lyra Belacqua, e ela est
sendo procurada pela polcia dos andarilhos.* H uma recompensa de mil
soberanos para quem entregar a garota. Ela  uma criana andarilha, est
sob os nossos cuidados e assim vai continuar. Qualquer pessoa que se
sentir tentada por esses mil soberanos  melhor que v encontrar um
lugar para se esconder que no seja nem na terra, nem na gua. No vamos
entregar a criana. Lyra sentiu-se enrubescer desde a raiz dos cabelos
at a sola do p; Pantalaimon transformou-se em mariposa para se
esconder. Todos os olhos estavam voltados para eles, e ela s conseguiu
olhar para Me Costa em busca de segurana. Mas John Faa estava falando
novamente: -Por mais que a gente converse, no vai mudar nada. Se
quisermos modificar as coisas, vamos ter que agir. Eis mais um fato para
vocs: os Papes, esses ladres de crianas, esto levando seus
prisioneiros para uma cidade no extremo Norte, bem l * Andarilhos:
traduo literal de landloper; que neste contexto significa "os que
vivem em terra firme". (N.T.) #132 dentro da terra das trevas. No sei o
que fazem com elas l. Algumas pessoas dizem que matam, outras dizem
outra coisa. No sabemos. O que sabemos  que eles fazem isso com a
ajuda da polcia andarilha e dos padres. Todos os poderes dos andarilhos
esto ajudando. Lembrem-se disso: eles sabem o que est acontecendo e
ajudam sempre que podem. Depois de outra pausa, ele continuou: -De modo
que o que estou propondo no  fcil. Preciso da autorizao de vocs.
Estou propondo que a gente mande um bando de guerreiros para o Norte
para libertar as crianas e trazer todas de volta vivas. Estou propondo
que a gente use o nosso ouro e toda a esperteza e a coragem que
conseguirmos juntar. Sim, Raymond van Gerrit? Um homem na platia havia
levantado a mo, e John Faa sentou-se para deix-lo falar. -Com licena,
Lorde Faa. L tem crianas andarilhas tambm, alm das gpcias. Est
dizendo que a gente vai salvar essas tambm? John Faa ficou de p para
responder. -Raymond, voc est dizendo que a gente devia passar por todo
tipo de perigos para chegar a um grupinho de crianas assustadas e ento
dizer para algumas delas que elas vo voltar para casa e dizer para as
outras que elas tm que ficar? No, voc  bondoso demais para isso.
Bem, temos a aprovao de todos, meus amigos? A pergunta pegou todos de
surpresa, pois houve um instante de hesitao; mas ento um rugido
encheu o salo, e as pessoas puseram-se a bater palmas de braos
estendidos, sacudir o punho fechado, erguer a voz num clamor excitado.
As traves do Zaal estremeceram, e de seus poleiros l em cima na
escurido um bando de pssaros que dormiam despertaram apavorados e
bateram asas, provocando pequena precipitao de poeira. #133 John Faa
deixou o clamor prosseguir por um minuto, depois ergueu a mo pedindo
silncio. -Vai levar algum tempo para organizar isso tudo. Quero que os
chefes das famlias faam uma coleta e renam homens. Tornaremos a nos
reunir daqui a trs dias. Enquanto isso, vou conversar com a criana e
com Farder Coram, e fazer um plano para expor a vocs. Boa noite para
todos. Sua presena forte, simples e imponente teve o poder de acalmar a
multido. As pessoas comearam a sair pelos grandes portes para o frio
da noite, voltando para seus barcos ou indo encher os bares do pequeno
povoado. Lyra perguntou a Me Costa: -Quem so os outros homens no
tablado? -Os chefes das seis famlias, e o outro homem  Farder Coram.
Era fcil entender o que ela queria dizer com "o outro homem", porque
ele era o mais idoso ali. Caminhava com uma bengala e durante todo o
tempo em que estivera sentado atrs de John Faa ele tremera como se
tivesse febre. -Venha,  melhor levar voc para cumprimentar John Faa.
Voc deve cham-lo de Lorde Faa. No sei o que ele vai perguntar, mas
trate de dizer a verdade. Pantalaimon era um pardal agora, cheio de
curiosidade, empoleirado no ombro de Lyra, as garras cravadas no casaco
de pele de lobo, enquanto ela acompanhava Tony atravs da multido at o
tablado. Ali chegando, Tony ergueu-a do cho e colocou-a em cima do
tablado. Sabendo que todos ainda no salo estavam olhando para ela, e
consciente daqueles mil soberanos que de repente ela passara a valer,
Lyra ficou vermelha e hesitou. Pantalaimon saltou para o colo dela e
transformou-se num gato-do-mato, sibilando baixinho enquanto olhava em
volta com expresso vigilante. Lyra sentiu um empurro e caminhou na
direo de John Faa. Ele era srio, enorme, inexpressivo, mais como uma
coluna #134 de pedra do que um homem, mas inclinou-se e estendeu a mo
para ela apertar. Quando ela colocou a mo na dele, sua mozinha quase
desapareceu. -Seja bem-vinda, Lyra -disse ele. De perto ela sentia a voz
dele ressoar como a prpria terra. Teria ficado amedrontada se no fosse
por Pantalaimon, e pelo fato de que a expresso ptrea de John Faa tinha
se amenizado um pouco. Ele estava sendo delicado com ela. -Obrigada,
Lorde Faa -ela respondeu. -Agora venha ao escritrio e vamos ter uma
conversa - disse John Faa. -Esto alimentando voc direito, os Costa?
-Ah, esto, sim. Comemos enguias no jantar. -As verdadeiras enguias dos
Pntanos, eu espero. O escritrio era um aposento confortvel, com uma
grande lareira acesa, prateleiras carregadas de prata e porcelana e uma
mesa pesada escurecida pelos anos, tendo em volta doze cadeiras. Os
outros homens no tablado no estavam ali, mas o ancio trmulo estava.
John Faa ajudou-o a sentar-se. -Agora voc se sente aqui  minha direita
-John Faa disse a Lyra. Ele sentou-se  cabeceira, e Lyra encontrou-se
em frente a Farder Coram. Sentia um pouco de medo do rosto encaveirado e
do tremor contnuo dele. O daemon dele era uma linda gata com as cores
do outono, enorme, que atravessou a mesa com andar elegante, de cauda
erguida, e examinou Pantalaimon, encostando o focinho no dele antes de
acomodar-se no colo de Farder Coram, entrecerrar os olhos, e pr-se a
ronronar baixinho. Uma mulher que Lyra no tinha notado saiu das sombras
com uma bandeja cheia de copos, colocou-a junto  John Faa, fez uma
mesura e saiu. John Faa serviu pequenos clices de aguardente de cereais
de um frasco de pedra para si mesmo e para Farder Coram, e vinho para
Lyra. -Quer dizer, Lyra, que voc fugiu -disse John Faa. #135 -Foi. -E
quem era a dama de quem voc fugiu? -O nome dela  Sra. Coulter. E eu
achava que ela era boa, mas descobri que ela  dos Papes. Ouvi algum
dizendo o que os Papes eram, eles eram chamados de Conselho Geral de
Oblao, e ela estava encarregada de tudo, era tudo idia dela. E todos
eles estavam planejando uma coisa, sei l o que era, s sei que iam me
fazer ajudar a pegar as crianas para ela. Mas eles no sabiam... -O que
eles no sabiam? -Bom, primeiro no sabiam que eu conhecia umas crianas
que eles roubaram. Meu amigo Roger que era ajudante da Cozinha da
Jordan, e Billy Costa, e uma menina do Mercado Coberto em Oxford. E
outra coisa... o meu tio, sabe, o Lorde Asriel, eu ouvi quando falaram
das viagens dele para o Norte, e no acho que ele tenha alguma coisa a
ver com os Papes. Porque eu espionei o Reitor e os Catedrticos da
Jordan, sabe, me escondi na Sala Privativa onde ningum pode entrar alm
deles, e ouvi quando ele contou a todos sobre a expedio para o Norte,
e o P que ele viu, e ele trouxe de volta a cabea de Stanislaus
Grumman, os trtaros tinham feito um buraco nela. E agora os Papes
prenderam ele em algum lugar. Os ursos de armadura esto vigiando ele. E
eu quero ir salvar ele. Ali sentada, pequenina contra o encosto alto da
cadeira entalhada, ela parecia feroz e decidida. Os dois ancios no
conseguiram reprimir um sorriso, mas, enquanto o sorriso de Farder Coram
era uma expresso hesitante, rica e complicada que tremulou pelo seu
rosto como um raio de sol perseguindo sombras num dia ventoso de final
de inverno, o sorriso de John Faa era lento, clido, simples e bondoso.
- melhor voc nos contar o que ouviu seu tio dizer naquela noite -pediu
John Faa. -No deixe nada de fora, est ouvindo? Conte-nos tudo. #136
Lyra assim fez, mais devagar do que tinha contado aos Costa, porm com
mais franqueza; tinha medo de John Faa, e o que mais temia nele era a
bondade: Quando ela terminou, Farder Coram falou pela primeira vez.
TInha a voz rica e musIcal, com tantos tons quanto eram as cores do plo
de seu daemon. -Esse P, eles alguma vez usaram outro nome para ele,
Lyra? -No, s P. A Sra. Coulter me contou o que era, partculas
elementares, foi o que ela falou. -E eles acham que fazendo alguma coisa
com crianas eles vo conseguir descobrir mais sobre isso? -. Mas no
sei o que . Embora o meu tio... Esqueci de contar uma coisa. Quando ele
estava mostrando os fotogramas, ele tinha um outro. Era a Orora... -Era
o qu? -interrompeu John Faa. -A Aurora Boreal -disse Farder Coram. -No
 isso, Lyra? - isso a. E nas luzes da tal Orora tinha feito uma
cidade. Cheia de torres e igrejas e cpulas e tal. Era um pouco como
Oxford, pelo menos eu achei. E o tio Asriel, ele estava mais interessado
nisso, eu acho, mas o Reitor e os outros Catedrticos estavam mais
interessados no P, como a Sra. Coulter e o Lorde Boreal e eles.
-Entendo -disse Farder Coram. -Isso  muito interessante. -Agora, Lyra,
eu vou lhe contar uma coisa -disse John Faa. -Farder Coram, ele  um
mago. Um vidente. Ele vem acompanhando tudo que est acontecendo com o
P e os Papes e Lorde Asriel e tudo, e ele vem acompanhando voc. Toda
vez que os Costa iam para Oxford, ou meia-dzia de outras famlias
tambm, eles traziam algumas notcias. Sobre voc, menina. Sabia disso?
#137 Lyra sacudiu a cabea. Estava comeando a ficar assustada.
Pantalaimon estava rosnando baixo demais para algum ouvir , mas ela
sentia o rosnado dele nas pontas dos dedos enfiados nos plos dele. -Ah,
sim, tudo que voc fazia vinha parar aqui nos ouvidos de Farder Coram.
Lyra no conseguiu se controlar: -Ns no estragamos nada! Juro! Foi s
um pouquinho de lama! E no fomos muito longe... -De que  que est
falando, menina? -perguntou John Faa. Farder Coram riu. Quando ria, seu
tremor cessava e seu rosto ficava jovem e brilhante. Mas Lyra no estava
rindo. Com lbios trmulos ela disse: -E mesmo se a gente tivesse
encontrado a rolha, no amos retirar ela! Era s uma brincadeira. No
amos afundar o barco, nunca! Ento John Faa ps-se a rir tambm. Deu um
tapa to forte na mesa que os copos tilintaram, e seus ombros enormes
estremeceram, e ele teve que enxugar as lgrimas dos olhos. Lyra nunca
vira uma coisa como aquela, nunca ouvira uma gargalhada assim; era como
uma montanha gargalhando. -, sim -ele disse, quando conseguiu falar.
-Ns ouvimos essa histria tambm, garotinha! Eu soube que depois disso
os Costa no vo a lugar nenhum sem que escutem piadinhas.  melhor
deixar um vigia no seu barco, Tony, dizem. Temos criancinhas ferozes por
aqui! Ora, esse caso se espalhou por toda parte nos Pntanos, garota.
Mas no vamos castigar voc por isso. No, no! Fique tranqila. Ele
olhou para Farder Coram, e os dois tornaram a rir, porm com menos
estardalhao. E Lyra sentiu-se bem e segura. Finalmente John Faa sacudiu
a cabea e ficou de novo srio. #138 -Eu estava dizendo, Lyra, que
conhecemos voc desde pequena. Desde beb. Voc devia saber o que ns
sabemos. No posso imaginar o que eles lhe contaram na Faculdade Jordan
sobre de onde voc veio, mas eles no conhecem toda a verdade. Alguma
vez lhe contaram quem eram os seus pais? Agora Lyra estava inteiramente
atordoada. -Contaram, sim -respondeu. -Disseram que eu era... disseram
que eles... disseram que Lorde Asriel me levou para l quando meu pai e
minha me morreram num acidente de aeronave. Foi o que me disseram. -Ah,
foi? Bem, menina, vou lhe contar uma histria, mas uma histria real.
Sei que  real porque uma gpcia me contou, e todos eles dizem a verdade
a John Faa e Farder Coram. De modo que  a verdade sobre voc, Lyra. Seu
pai no morreu num acidente de aeronave, porque seu pai  Lorde Asriel.
Lyra estava pasma. John Faa prosseguiu: -Foi assim que aconteceu: quando
era rapaz, Lorde Asriel saiu explorando todo o Norte e voltou com uma
grande fortuna. E era um homem temperamental, que se zangava facilmente,
um homem apaixonado. E sua me, ela tambm era apaixonada. No to
bem-nascida quanto ele, mas uma mulher inteligente. Estudiosa, e aqueles
que a viam diziam que era muito bonita. Ela e seu pai se apaixonaram
assim que se conheceram. O problema era que sua me j era casada. Tinha
se casado com um poltico. Ele era membro do partido do Rei, um de seus
assessores mais prximos. Um homem em ascenso. Houve um silncio breve,
e John Faa continuou: -Ora, quando sua me descobriu que estava grvida,
teve medo de contar ao marido que a criana no era dele. E quando voc
nasceu, no era nada parecida com o marido dela, e sim com o seu pai
verdadeiro, e ela achou melhor esconder voc e dizer que o beb havia
morrido. Ento levaram voc para Oxfordshire, onde o seu pai tinha
propriedades, e a entregaram para uma mulher #139 gpcia criar. Mas
algum contou tudo ao marido da sua me, e ele veio voando e destruiu a
cabana onde a gpcia estivera, s que ela havia fugido para a casa
grande; e o marido enganado foi atrs, com intenes assassinas. Seu pai
estava caando, mas ficou sabendo e voltou a galope a tempo de encontrar
o marido da sua me ao p da escada; mais um minuto e ele teria forado
a porta do armrio onde a gpcia estava escondida com voc, mas Lorde
Asriel o desafiou e eles duelaram ali mesmo, e Lorde Asriel o matou. A
mulher gpcia ouviu e viu tudo, Lyra, e foi assim que soubemos. John Faa
suspirou e prosseguiu: -A conseqncia foi um enorme processo judicial.
Seu pai no  o tipo de homem de esconder ou negar a verdade, e isso
criou um problema para os juizes. Ele tinha matado, sim, derramara
sangue, mas estava defendendo seu lar e sua filha de um invasor. Por
outro lado, a lei permite que um homem vingue a violao do seu
casamento, e os advogados do morto alegaram que era isso que ele estava
fazendo. O processo se arrastou durante semanas, com horas de discusso.
No fim, os juizes puniram Lorde Asriel confiscando todas as propriedades
e as terras dele, deixando-o pobre; e ele tinha sido mais rico que um
rei. Quanto  sua me, ela no quis saber de nada, nem de voc. Deu as
costas a tudo isso. A gpcia me disse que muitas vezes ela teve medo
pensando em como a sua me ia tratar voc, porque era uma mulher
orgulhosa e cheia de desprezo. Agora chega de falar dela. Ele parou para
respirar. -E alm disso havia voc -continuou. -Se as coisas tivessem
sido diferentes, Lyra, voc poderia crescer como gpcia, porque a gpcia
implorou ao tribunal que deixassem voc com ela; mas ns, gpcios, somos
pouco considerados pela lei. O tribunal decidiu que voc seria colocada
num Convento, e assim voc foi para as Irms da Obedincia em
Watlington. Voc no se lembra. John Faa suspirou e continuou a falar:
#140 -Mas Lorde Asriel no permitiu isso. Ele odiava bades, monges e
freiras, e sendo um homem impulsivo, ele um dia apareceu e levou voc
embora de l. No para cuidar ele mesmo, nem para dar aos gpcios; levou
voc para a Faculdade Jordan e desafiou a lei a desfazer seu ato. Bem, a
lei deixou as coisas por isso mesmo. Lorde Asriel voltou para as suas
exploraes, e voc cresceu na Faculdade Jordan. A nica coisa que ele,
seu pai, disse, a nica condio que imps, foi que sua me no podia
visitar voc. Se alguma vez tentasse, teria que ser impedida, e ele
teria que ser informado, porque toda a raiva que havia em sua natureza
tinha se voltado contra ela. O Reitor prometeu fazer isso. E o tempo
passou. Ento comeou toda essa aflio por causa do P. E no pas
inteiro, no mundo inteiro, magos e magas comearam tambm a se
preocupar. Para ns, gpcios, isso no tinha a menor importncia, at
que comearam a levar nossas crianas. Foi quando nos interessamos. E
temos ligaes em todo tipo de lugares que voc nem imaginaria,
inclusive na Faculdade Jordan. Voc no sabia, mas havia uma pessoa
tomando conta de voc e nos contando tudo desde que voc foi para l.
Porque temos interesse em voc, e aquela mulher que a criou, ela nunca
deixou de se preocupar com voc. -Quem  que tomava conta de mim? -Lyra
quis saber. Sentia-se imensamente importante e estranhava que os seus
atos preocupassem pessoas to distantes. -Era um criado da Cozinha.
Bernie Johansen, o confeiteiro. Ele  meio gpcio. Voc no sabia disso,
aposto. Bernie era um homem bondoso, solitrio, uma das raras pessoas
que tm o daemon do mesmo sexo. Foi com Bernie que ela havia gritado em
desespero quando Roger tinha sido levado. E Bernie contava tudo aos
gpcios! Ela ficou impressionada. John Faa continuou: -Bem, ns ouvimos
dizer que voc ia sair da Faculdade Jordan, e que nessa mesma ocasio
Lorde Asriel estava preso e #141 no poderia impedir. E nos lembramos do
que ele dissera ao Reitor para jamais fazer, e nos lembramos que o homem
com quem sua me tinha se casado, o tal poltico que Lorde Asriel matou,
chamava-se Edward Coulter. -A Sra. Coulter... -fez Lyra, estupefata.
-Ela no  a minha me, ? -, sim. E se o seu pai estivesse livre, ela
jamais teria a ousadia de desafi-lo, e voc ainda estaria na Jordan sem
saber de nada. Mas o que o Reitor pretendia, deixando voc ir embora, 
um mistrio que no consigo explicar. Ele estava encarregado de tomar
conta de voc. S posso imaginar que ela tenha algum poder sobre ele.
Lyra entendeu de repente o curioso comportamento do Reitor na manh da
sua partida. -Mas ele no queria... -ela comeou, tentando lembrar-se
exatamente. -Ele... ele mandou me chamar de manh bem cedo, e eu no
podia contar  Sra. Coulter... era como se ele quisesse me proteger da
Sra. Coulter... Ela se interrompeu e olhou atentamente para os dois
homens; ento resolveu contar-lhes toda a verdade sobre a Sala
Privativa. -Sabem, tem outra coisa. Naquela noite, que me escondi na
Sala Privativa, vi o Reitor tentar envenenar Lorde Asriel. Vi quando ele
colocou um pozinho no vinho, e eu contei ao titio e ele derrubou a
garrafa da mesa e derramou o vinho. Quer dizer que eu salvei a vida
dele. Nunca entendi por que o Reitor queria envenenar Lorde Asriel, que
sempre foi to bom. Ento, na manh em que fui embora, ele me chamou
cedinho ao escritrio, tive que ir escondido para que ningum ficasse
sabendo, e ele disse... -Lyra concentrou-se para tentar recordar
exatamente o que o Reitor tinha dito, mas no adiantou. Ela sacudiu a
cabea. -A nica coisa que consegui entender foi que ele me deu uma #142
coisa que eu tinha que esconder dela, da Sra. Coulter. Acho que no tem
importncia contar para vocs... Ela enfiou a mo no bolso do casaco de
pele de lobo e tirou o embrulho de veludo. Colocou-o sobre a mesa e
sentiu sobre ele, como um holofote, a curiosidade simples e slida de
John Faa e a inteligncia cintilante de Farder Coram. Quando ela
desembrulhou o aletmetro, foi Farder Coram quem falou primeiro: -Nunca
pensei que ia tornar a ver um desses.  um leitor de smbolos. Ele lhe
contou alguma coisa sobre isso, filha? -No. S disse que eu ia ter que
descobrir sozinha como fazer isso funcionar. E chamou de aletmetro.
-Que quer dizer isso? -John Faa perguntou, voltando-se para o
companheiro. -Acho que vem do grego altheia, que quer dizer "verdade".
 um medidor de verdade. E voc descobriu como  que se usa? -perguntou
 menina. -No. Pelo menos consigo fazer os trs ponteiros menores
apontar para figuras diferentes, mas no consigo controlar o ponteiro
grande. Ele se mexe para toda parte. A no ser s vezes, , sim, s
vezes, quando estou bem concentrada, consigo fazer o ponteiro grande ir
para um lado ou outro s pensando. -Que  que ele faz, Farder Coram? E
como  que se l? -John Faa perguntou. Farder Coram segurou
delicadamente o instrumento na direo do olhar forte de John Faa e
disse: -Todas essas figuras ao redor da borda so smbolos, e cada um
deles significa uma srie de coisas. A ncora, por exemplo: o primeiro
significado dela  esperana, porque a esperana nos prende como uma
ncora, de modo que agente no cede. O segundo significado  firmeza. O
terceiro significado  empecilho, ou preveno. O quarto  o mar. E
assim por diante com dez, doze, talvez uma srie infinita de
significados. #143 -E voc conhece todos? -Conheo alguns, mas para ler
tudo eu precisaria do livro. J vi o livro e sei onde ele est, mas no
est comigo. -Depois falaremos sobre isso; continue a explicar como se
l -pediu John Faa. -Existem esses trs ponteiros que podemos controlar,
e so usados para fazermos uma pergunta. Apontando cada um para um
smbolo, pode-se fazer qualquer pergunta, porque cada smbolo tem muitos
nveis. Depois de feita a pergunta, o ponteiro grande gira e aponta para
outros smbolos, que daro a resposta. -Mas como ele sabe em qual nvel
a gente est pensando quando faz a pergunta? -John Faa quis saber. -Ah,
ele sozinho no sabe. S funciona se quem pergunta pensar nesses nveis.
Primeiro  preciso conhecer todos os significados, e deve haver mais de
mil. Depois tem que conseguir manter os nveis na mente sem se
impacientar, e ficar observando os movimentos do ponteiro grande. Quando
ele tiver dado uma volta completa, a pessoa saber qual  a resposta.
Sei como isso funciona porque j vi um sbio em Uppsala mexendo com um
desses, e foi a nica vez que vi. Sabe que eles so rarssimos? -O
Reitor me disse que s seis foram fabricados -Lyra contou. -Sejam
quantos forem, so pouqussimos. -E voc guardou segredo da Sra.
Coulter, como o Reitor pediu? -John Faa perguntou. -Guardei, sim. Mas o
daemon dela, sabem, ele costumava entrar no meu quarto. E ele descobriu,
eu tenho certeza. -Entendo. Bem, Lyra, no sei se algum dia vamos chegar
a compreender tudo, mas tenho um palpite, nada mais que isso: Lorde
Asriel encarregou o Reitor de tomar conta de voc e no deixar sua me
chegar perto. E foi o que ele fez, por mais de dez anos. Ento os amigos
da Sra. Coulter na Igreja ajudaram sua me a criar esse tal de Conselho
de Oblao, ainda no sabemos #144 com que inteno, e ela ficou to
poderosa quanto Lorde Asriel. Seus pais, os dois poderosos, os dois
ambiciosos, e o Reitor da Jordan mantendo voc equilibrada entre eles.
Bom, o Reitor tem mil coisas para cuidar; sua primeira preocupao  a
faculdade, de modo que se surgir uma ameaa, ele tem que agir contra
ela. E a Igreja, ultimamente, Lyra, tem ficado mais autoritria. Criaram
conselhos disso e daquilo; esto falando em reviver o Ofcio da
Inquisio, Deus me livre. E o Reitor tem que pisar com cuidado entre
todos esses poderes. Tem que manter a Faculdade Jordan nas graas da
Igreja, seno ela no vai sobreviver. Ele fez uma pausa curta e em
seguida continuou: -Outra preocupao do Reitor  voc, minha filha.
Bernie Johansen sempre foi muito claro sobre isso: o Reitor daJordan e
os outros Catedrticos amam voc como se fosse filha. Fariam qualquer
coisa para que voc fique em segurana, no s porque prometeram a Lorde
Asriel, mas por sua causa tambm. Ento, se o Reitor entregou voc 
Sra. Coulter depois de prometer a Lorde Asriel que no faria isso, ele
deve ter achado que voc estaria mais segura com ela do que na Faculdade
Jordan, apesar das aparncias. E quando ele resolveu envenenar Lorde
Asriel, deve ter achado que as coisas que Lorde Asriel estava fazendo
iam colocar todos eles em perigo, e talvez todos ns tambm; talvez o
mundo inteiro. Considero o Reitor um homem que tem que fazer escolhas
terrveis; seja qual for a sua escolha, isso vai causar dano; mas,
talvez, se ele fizer a coisa certa, o dano ser um pouco menor do que se
ele escolher de maneira errada. Deus me livre de ter que fazer esse tipo
de escolha. E quando as coisas chegaram ao ponto de ter que deixar voc
partir, ele lhe deu o leitor de smbolos e pediu que voc o guardasse.
Fico me perguntando o que ele pretendia que voc fizesse com o
instrumento; como voc no sabe fazer a coisa funcionar, fico sem
entender o que ele estava querendo. -Ele disse que tio Asriel deu o
aletmetro de presente  Faculdade Jordan h muitos anos -Lyra contou,
tentando #145 lembrar-se. -Ia dizer mais alguma coisa, mas bateram na
porta, e ele teve que parar. O que eu achei foi que ele podia querer que
eu escondesse o aletmetro de Lorde Asriel tambm. -Ou ao contrrio
-interveio John Faa. -Como assim, John? -quis saber Farder Coram. -Ele
podia estar pretendendo pedir a Lyra para devolver isto a Lorde Asriel,
como uma espcie de recompensa por tentar envenen-lo. Pode ter achado
que o perigo que Lorde Asriel representava tinha passado. Ou que Lorde
Asriel conseguiria tirar algum proveito deste instrumento e desistir da
sua inteno. Se Lorde Asriel est preso agora, isso poderia ajudar a
libert-lo. Bem, Lyra,  melhor voc guardar em segurana este leitor de
smbolos. Se conseguiu at agora, no me preocupo. Mas pode chegar a
hora de precisarmos consult-lo, e ento vamos pedi-lo a voc. Ele
embrulhou o instrumento no veludo e deslizou-o por cima da mesa. Lyra
queria fazer todo tipo de perguntas, mas de repente sentiu-se tmida
diante daquele homenzarro de olhos to vivos e bondosos no rosto cheio
de rugas. Porm uma coisa ela precisava perguntar . -Quem foi a mulher
gpcia que me amamentou? -Ora, foi a me de Billy Costa,  claro. Ela
no iria contar a voc porque eu no permiti, mas sabe qual  o assunto
desta nossa conversa. Alis,  melhor voc voltar para ela agora. Tem
muita coisa em que pensar, filha. Depois de passados trs dias, vamos
ter outra reunio e discutir o que se h de fazer. Comporte-se. Boa
noite, Lyra. -Boa noite, Lorde Faa. Boa noite, Farder Coram -ela disse
educadamente, apertando o aletmetro contra o peito com uma das mos e
pegando Pantalaimon com a outra. Ambos os ancios sorriram-lhe com
bondade. Do lado de fora do aposento, Me Costa estava  espera e, como
se nada tivesse acontecido desde que Lyra nascera, a gpcia levantou-a
em seus braos enormes e beijou-a antes de lev-la para a cama. #146 8
FRUSTRAO LYRA tinha que digerir aquela nova histria da sua vida, e
para isso precisava de tempo. Ver Lorde Asriel como seu pai era uma
coisa, mas aceitar a Sra. Coulter como sua me no era assim to fcil.
Alguns meses antes, ela teria gostado, naturalmente, e sabendo disso
tambm, ficava confusa. Mas, sendo Lyra, no se preocupou muito tempo
com isso, pois havia a cidade do Pntano para explorar e muitas crianas
gpcias para impressionar. Antes de passado o prazo de trs dias, ela
era especialista -pelo menos se considerava -em manejar a vara que
impulsionava os barcos e tinha reunido um bando de crianas com
histrias de seu pai poderoso que fora preso injustamente. -E ento uma
noite o Embaixador da Turquia foi convidado para jantar na Jordan. E ele
tinha ordens do prprio Sulto para matar o meu pai, certo, e tinha no
dedo um anel com uma pedra oca cheia de veneno. E quando chegou o vinho,
ele esticou o brao por cima da taa do papai e deixou o veneno cair
dentro dela. Fez isso to depressa que ningum viu, mas... -Que tipo de
veneno? -quis saber uma menina de rosto magro. #147 -Veneno de uma
serpente turca muito especial, que eles atraem tocando flauta e depois
jogam em cima uma esponja encharcada de mel; a serpente morde e no
consegue livrar os dentes, eles ento tiram o veneno dela. De qualquer
maneira, papai tinha visto o que o turco fez e disse: "Senhores, quero
fazer um brinde pela amizade entre a Faculdade Jordan e a Faculdade de
Izmir" (que era a faculdade do Embaixador turco). "E para mostrar nossa
boa vontade de sermos amigos, vamos trocar de taas, cada um bebendo o
vinho do outro." O embaixador ficou encalacrado, porque no podia
recusar sem cometer uma ofensa mortal, e no podia beber porque sabia
que o vinho estava envenenado. Ele ficou plido e desmaiou ali mesmo.
Quando voltou a si, eles estavam ainda todos sentados, esperando e
olhando para ele. E ento ele teve que beber o veneno ou ento confessar
tudo. -Ento que foi que ele fez? -Ele bebeu. Levou cinco minutos para
morrer, e sofreu o tempo todo. -Voc viu isso tudo acontecer? -No,
porque meninas no tm permisso para se sentar na Mesa Principal. Mas
vi o corpo dele, depois. A pele estava toda enrugada, como uma ma
velha, e os olhos tinham saltado. Tiveram que enfiar eles para dentro...
E assim por diante. Enquanto isso, na periferia da regio dos Pntanos,
policiais batiam nas portas, revistavam pores e quintais, inspecionavam
papis e interrogavam todos que dissessem ter visto uma menininha loura.
Em Oxford, a busca foi ainda mais severa: vasculharam a Faculdade Jordan
desde o mais empoeirado quarto de guardados at o poro mais escuro, e
fizeram o mesmo com Gabriel e St. Michael's, at que os reitores de
todas as faculdades lanaram um protesto coletivo invocando seus
direitos. A nica idia que Lyra teve de que a procuravam era o
incessante zumbido dos motores a gs das aeronaves cruzando o cu. Elas
no eram visveis #148 porque as nuvens estavam baixas, e pelo
regulamento as aeronaves tinham que manter uma certa altura acima da
regio do Pntano, mas quem sabia que instrumentos de espionagem elas
poderiam estar carregando? Era melhor ir se esconder quando ouvia os
motores, ou usar uma capa cobrindo seus cabelos louros. E ela interrogou
Me Costa sobre cada detalhe da histria do seu nascimento. Teceu esses
detalhes formando uma tapearia mental mais clara do que as histrias
que tinha inventado, e revivia vezes sem conta a fuga do casebre, o
esconderijo no armrio, o desafio, o choque de espadas... -Espadas? Meu
Deus, garota, voc est sonhando? - perguntOU Me Costa. -O Sr. Coulter
tinha uma pistola, e Lorde Asriel tirou-a da mo dele e derrubou-o com
um s soco. Depois houve dois tiros. No sei como voc no se lembra;
devia lembrar, embora fosse pequena. O primeiro tiro foi de Edward
Coulter, que pegou a arma e disparou, e o segundo foi de Lorde Asriel,
que tornou a arrancar a arma do outro e apontou para ele. Atirou bem no
meio dos olhos dele, espalhando os miolos. Ento, com a maior calma, ele
disse: "Pode sair, Sra. Costa, e traga o beb", porque voc estava
berrando tanto, voc e esse daemon; ele pegou voc, brincou com voc e
carregou voc nos ombros de um lado para o outro, com timo humor, com o
morto estendido ali, e me pediu para trazer vinho e para limpar o cho.
No final da quarta repetio, Lyra estava firmemente convencida de que
se lembrava de tudo, e at mesmo ofereceu detalhes da cor do casaco do
Sr. Coulter e dos mantos e das peles penduradas no armrio. Me Costa
riu. E sempre que estava sozinha Lyra pegava o aletmetro e ficava
contemplando-o como se fosse o retrato de um namorado. Ento cada imagem
tinha vrios significados? Por que ela no conseguiria entender todos
eles? Afinal, no era fIlha de Lorde Asriel? Lembrando-se do que Farder
Coram tinha dito, ela tentou focalizar a mente em trs smbolos
escolhidos ao acaso e moveu #149 os ponteiros para cada um deles.
Descobriu que, se segurasse o aletmetro de uma certa maneira na palma
das mos e olhasse para ele de um jeito especial, meio preguioso (como
ela chamava), o ponteiro maior comeava a se movimentar. Em vez de
passear pelo mostrador, ele ia de uma figura para outra. De vez em
quando, parava em trs delas, s vezes em duas, s vezes em cinco ou
mais, e embora ela nada compreendesse, aquilo lhe dava uma calma
agradvel e profunda, diferente de tudo que ela conhecia. Pantalaimon
ficava debruado sobre o mostrador, s vezes em forma de gato, s vezes
de rato, acompanhando o ponteiro grande com a cabea; e, uma ou duas
vezes, os dois compartilharam um vislumbre de significado que parecia
como um raio de sol que tivesse atravessado as nuvens para iluminar uma
majestosa silhueta de grandes montes  distncia -alguma coisa muito
alm e jamais suspeitada. E Lyra sentia, nessas ocasies, o mesmo
arrepio que sentira durante toda a sua vida ao ouvir a palavra Norte.
Assim se passaram os trs dias, com muitas idas e vindas entre a grande
quantidade de barcos e o Zaal. E ento chegou a noite da segunda reunio
do Encontro. O salo estava mais cheio do que antes, se isto fosse
possvel. Lyra e os Costa chegaram a tempo de se sentar na frente, e
assim que as luzes trmulas mostraram que o salo estava repleto, John
Faa e Farder Coram apareceram na plataforma e se sentaram atrs da mesa.
John Faa no precisou pedir silncio; apenas colocou as mos enormes
sobre a mesa e olhou para a platia, e o burburinho cessou. Ele ento
falou: -Bom, vocs fizeram o que eu pedi, e melhor do que eu esperava.
Agora vou chamar os chefes das seis famlias para subirem aqui, entregar
seu ouro e oferecer suas possibilidades. Nicholas Rokeby, voc vem
primeiro. Um homenzarro de barbas pretas subiu para a plataforma e
colocou sobre a mesa uma pesada sacola de couro. #150 -Este  o nosso
ouro, e ns oferecemos 38 homens. -Obrigado, Nicholas -disse John Faa.
Farder Coram estava tomando notas. O primeiro homem ficou parado nos
fundos da plataforma enquanto John Faa chamava o seguinte, e o seguinte;
e cada um deles subia, colocava uma sacola na mesa e anunciava o nmero
de homens que tinha para oferecer. Os Costa faziam parte da famlia
Stefanski, e naturalmente Tony tinha sido um dos primeiros a se oferecer
como voluntrio. Lyra percebeu o daemon-falco dele mexendo-se de uma
pata para outra e estendendo as asas enquanto o ouro dos Stefanski e 23
homens eram oferecidos a John Faa. Depois que os chefes das seis
famlias tinham sido chamados, Farder Coram mostrou suas anotaes a
John Faa, que ficou de p para dirigir-se outra vez  assistncia.
-Amigos, conseguimos 107 homens. Agradeo a todos com muito orgulho.
Quanto ao ouro, no duvido, pelo peso, que todos vocs rasparam seus
cofres, e meus agradecimentos so tambm por isso. O que vamos fazer  o
seguinte: vamos arrendar um navio e velejar para o Norte, encontrar as
crianas e libertar todas elas. Pelo que sabemos, pode haver luta. No
ser a primeira nem a ltima vez que lutamos, mas nunca tivemos que
lutar com pessoas que roubam crianas, e vamos precisar ter uma
esperteza fora do comum. Mas no vamos voltar sem as nossas crianas.
Sim, Dirk Vries? Um homem levantou-se e perguntou: -Lorde Faa, o senhor
sabe por que levaram nossos filhos? -Ouvimos dizer que  um assunto
teolgico. Esto fazendo uma experincia, mas no sabemos qual. Para
dizer a verdade a vocs, nem sequer sabemos se o que esto fazendo com
elas  bom ou ruim. Mas, seja como for, eles no tm o direito de
aparecer de noite e roubar criancinhas de suas casas. Sim, Raymond van
Gerrit? O homem que tinha falado na primeira reunio levantou-se e
disse: #151 -Essa criana, Lorde Faa, essa que o senhor disse que estava
sendo procurada, essa que est agora sentada na primeira fila. Ouvi
dizer que as casas de todas as pessoas na beira dos Pntanos esto sendo
revistadas e reviradas de cabea para baixo por causa dela. Ouvi dizer
que hoje mesmo esto votando no Parlamento para acabar com nossos
privilgios tradicionais por causa desta criana. Sim, amigos -ele
continuou, acima dos cochichos que surgiram. -Eles vo passar uma lei
acabando com o nosso direito de liberdade de movimentos dentro e fora
dos Pntanos. Agora, Lorde Faa, o que queremos saber  o seguinte: quem
 esta criana que pode fazer isso conosco? Ela no  gpcia, pelo que
ouvi dizer. Como  que uma menina andarilha pode colocar todos ns em
perigo? Lyra ergueu os olhos para John Faa. Seu corao batia com tanta
fora que ela mal conseguiu ouvir as primeiras palavras da resposta
dele. -Ora, fale claramente, Raymond, no seja tmido -ele disse. -Quer
que agente entregue a criana para os perseguidores dela,  isso? O
homem ficou em silncio, de cara feia. -Bom, pode ser que sim, pode ser
que no -John Faa continuou. -Mas se algum homem ou alguma mulher
precisa de uma razo para fazer o bem, que pense nisso: essa menininha 
nada menos que a filha de Lorde Asriel. Para os que esqueceram, foi
Lorde Asriel quem intercedeu com os turcos pela vida de Sam Broekman.
Foi Lorde Asriel quem permitiu aos barcos gpcios passagem livre nos
canais dentro das suas propriedades. Foi Lorde Asriel quem derrotou a
Lei dos Cursos d' Agua no Parlamento, para grande benefcio nosso. E foi
Lorde Asriel quem lutou noite e dia nas enchentes de 53 e mergulhou de
cabea na gua duas vezes para salvar o jovem Ruud e Nellie Koopman.
Esqueceram-se disso? Que vergonha, que vergonha. E agora esse mesmo
Lorde Asriel est preso nas regies mais frias, distantes e escuras, na
#152 fortaleza de Svalbard. Preciso dizer a vocs o tipo de criaturas
que esto vigiando ele l? E esta  a filhinha dele que ns estamos
cuidando, e Raymond van Gerrit ia entreg-la para as autoridades em
troca de um pouco de paz.  verdade, Raymond? Fique de p e responda,
homem! Mas Raymond van Gerrit estava afundado no assento e no se
levantou. Um sussurro baixo de desaprovao percorreu o grande salo, e
Lyra sentiu a vergonha que ele devia estar sentindo, assim como uma onda
de orgulho por seu corajoso pai. John Faa virou-se e olhou para os
outros homens na plataforma. -Nicholas Rokeby, voc vai ficar
encarregado de encontrar um navio e vai ser o comandante dele quando
partirmos. Adam Stefanski, quero que se encarregue das armas e munies,
e comande a batalha. Roger van Poppel, voc cuida de todos os outros
suprimentos, da comida at as roupas para frio. Simon Hartmann, voc vai
ser o tesoureiro e vai prestar contas a todos ns do emprego do nosso
ouro. Benjamin de Ruyter, quero que se encarregue da espionagem; h
muita coisa que precisamos saber, e vou colocar voc encarregado disso,
e vai fazer seus relatrios a Farder Coram. Michael Canzona, voc vai
ficar responsvel por coordenar o trabalho dos quatro primeiros, e vai
fazer os relatrios para mim, e se eu morrer, voc ficar no meu lugar.
Bem, j fiz as disposies de acordo com o nosso costume, e se qualquer
homem ou mulher discordar, pode dizer isso com toda liberdade. Depois de
um momento, uma mulher se levantou. -Lorde Faa, no vai levar mulheres
nessa expedio para tomar conta das crianas depois que as encontrar?
-No, NelI. Vamos ter pouco espao. As crianas que libertarmos vo
estar melhores conosco do que l onde esto agora. -Mas se descobrir que
no vai poder soltar as crianas sem algumas mulheres disfaradas de
guardas, de criadas ou de sei l o que. #153 -Bom, eu no tinha pensado
nisso -John Faa confessou. -Prometo que vamos pensar nisso com muito
cuidado quando formos para o escritrio. Ela se sentou, e um homem ficou
de p. -Lorde Faa, ouvi o senhor dizer que Lorde Asriel est no
cativeiro. Faz parte do nosso plano libertar Lorde Asriel? Porque, caso
faa, e se ele estiver em poder daqueles ursos como eu acho que o senhor
disse, vamos precisar de mais do que 107 homens. E por mais que Lorde
Asriel seja nosso amigo, no sei se temos o dever de fazer isso.
-Adriaan Braks, voc no est enganado. O que eu tinha em mente era
ficarmos de olhos e ouvidos abertos e vermos o que podemos descobrir
enquanto estivermos no Norte. Pode ser que a gente possa fazer alguma
coisa para ajud-lo, e pode ser que no, mas pode confiar em mim: no
vamos usar o que vocs nos deram, homens ou ouro, para qualquer coisa
alm de encontrarmos e trazermos para casa as nossas crianas. Outra
mulher levantou-se. -Lorde Faa, no sabemos o que esses Papes podem
estar fazendo com os nossos filhos. Todos ns ouvimos boatos e histrias
horrveis. Falam em crianas sem cabeas, ou crianas cortadas ao meio e
depois costuradas, e outras coisas horrveis demais para dizer. Fico
muito triste de ter que falar nisso, mas todos ns escutamos esse tipo
de coisa e quero que tudo seja esclarecido. Agora, caso o senhor
encontre esse tipo de coisa, Lorde Faa, espero que sua vingana seja
total. Espero que no v deixar essas idias de piedade e bondade
impedirem que sua mo ataque com toda fora, dando um golpe poderoso no
corao dessa maldade infernal. Tenho certeza de que todas as mes que
tiveram um filho levado pelos Papes concordam comigo. Houve um ruidoso
murmrio de concordncia, e ela se sentou. Em todo o Zaal as pessoas
faziam gestos de concordncia. John Faa esperou que se fizesse silncio,
ento disse: #154 -Nada vai segurar minha mo, Margaret, se no for uma
questo de estratgia. Se eu no atacar no Norte, vai ser para poder
atacar com mais fora no Sul. Atacar cedo demais  to ruim quanto
atacar o lugar errado.  claro que h um sentimento muito forte no que
voc diz. Mas, se seguirem esse sentimento, amigos, estaro fazendo
aquilo que eu sempre aconselhei a no fazer: estaro colocando a
satisfao dos seus sentimentos acima do trabalho que tm a fazer. Nosso
trabalho agora  primeiro o salvamento, depois o castigo. No  agradar
a ningum. Nossos sentimentos no tm importncia. Se salvarmos as
crianas e no castigarmos os Papes, fizemos a coisa mais importante.
Mas se pretendemos castigar os Papes primeiro e assim perdermos a
chance de salvar as crianas, vai ser um fracasso. John Faa ficou um
instante em silncio. -Mas de uma coisa voc pode ter certeza, Margaret
- prosseguiu. -Quando chegar a hora de castigar, vamos lhes dar um golpe
tamanho que eles vo se acovardar. Vamos tirar a fora deles. Vamos
deixar todos eles arruinados e liquidados, partidos em mil pedaos e
espalhados aos quatro ventos. O meu prprio martelo est sedento de
sangue, amigos. Ele no sente o gosto de sangue desde que eu matei o
campeo trtaro nas estepes do Casaquisto; ele est sonhando, pendurado
l no meu barco; mas est sentindo cheiro de sangue no vento que vem do
Norte. Ontem  noite, ele falou comigo e contou sua sede, e eu disse:
logo, logo. Margaret, voc pode se preocupar com mil coisas, mas no se
preocupe com que o corao de John Faa esteja mole demais para lutar
quando chegar a hora. E quem vai dizer quando a hora chegar vai ser o
raciocnio, no os sentimentos. Algum mais quer dizer alguma coisa?
Ningum quis, e John Faa pegou a sineta de encerramento e tocou-a com
fora, balanando-a num grande arco, produzindo sons que enchiam o salo
e subiam at as vigas. #155 John Faa e os outros homens na plataforma
foram para o escritrio. Lyra ficou um pouquinho decepcionada: no iam
quer-la com eles l dentro? Mas Tony riu. -Eles tm que fazer planos
-explicou. -Voc j fez sua parte, Lyra. Agora  por conta de John Faa e
do conselho. -Mas ainda no fiz nada! -Lyra protestou, enquanto seguia
os outros relutantemente para fora do Salo, descendo a rua calada de
pedras na direo do ancoradouro. -S o que fiz foi fugir da Sra.
Coulter! Este foi s o comeo. Quero ir para o Norte! -Vamos fazer o
seguinte: eu lhe trago um dente de leo-marinho, est bem? -disse Tony.
Lyra fechou a cara. Quanto a Pantalaimon, ele estava ocupado fazendo
caretas para o daemon de Tony , que, desdenhoso, fechou os olhos
castanhos. Lyra chegou ao ancoradouro e ficou com seus novos amigos,
sacudindo lamparinas penduradas em fios sobre a gua escura para atrair
os peixes de olhos esbugalhados que vinham nadando devagar,
arriscando-se a serem espetados pelas crianas, coisa que nunca
acontecia. Mas os pensamentos dela estavam com John Faa e a conferncia
no escritrio, e no demorou muito antes que ela subisse outra vez a rua
at o Zaal. Havia luz na janela do escritrio. A janela era alta demais
para que Lyra enxergasse o outro lado, mas ela conseguiu ouvir o som de
vozes l dentro. Ento foi at a porta e bateu com firmeza cinco vezes.
As vozes se calaram, uma cadeira foi arrastada e a porta se abriu,
derramando uma clida luz de nafta sobre o degrau mido. -Sim? -fez o
homem que abriu a porta. Atrs dele, Lyra via os outros homens em volta
da mesa, com sacolas de ouro, papis e canetas, clices e um frasco de
genebra. -Quero ir para o Norte -Lyra falou para que todos ouvissem.
-Quero ir ajudar a salvar as crianas. Era o que eu pretendia fazer
quando fugi da Sra. Coulter. E at antes, eu #156 pretendia salvar meu
amigo Roger, o ajudante de Cozinha da Jordan que foi raptado. Quero ir e
ajudar. Sei fazer navegao e posso fazer as leituras anbaromagnticas
da Aurora, e sei quais as partes comestveis de um urso, e todo tipo de
coisas teis. Vocs vo se arrepender se chegarem l e descobrirem que
iam precisar de mim e tinham me deixado para trs. E como aquela mulher
disse, podem precisar de mulher para fazer um papel, e, ora, podem
precisar de crianas tambm. Vocs no sabem. Portanto, deviam me levar,
Lorde Faa, desculpe interromper sua reunio. Ela j estava dentro da
sala com todos os homens e seus daemonsolhando para ela, alguns achando
divertido e outros com irritao, mas ela s tinha olhos para John Faa.
Pantalaimon estava no colo dela, e seus olhos verdes de gato-do-mato
soltavam fascas. John Faa disse: -Lyra,  impossvel levarmos voc para
o perigo, de modo que trate de no se iludir, minha filha. Fique aqui,
ajude a Me Costa e mantenha-se em segurana.  o que voc tem que
fazer. -Mas estou aprendendo a ler o aletmetro, tambm. Est ficando
mais claro a cada dia! Vocs vo precisar disso, vo sim! Ele sacudiu a
cabea. -No. Sei que seu corao estava decidido a ir para o Norte, mas
acho que nem a Sra. Coulter ia levar voc. Se quer ver o Norte, vai ter
que esperar todos esses problemas terminarem. Agora v. Pantalaimon
ciciou baixinho, mas o daemon de John Faa voou das costas da cadeira
dele e avanou para os dois com suas asas negras, sem ameaar, mas como
um lembrete de boas maneiras. Lyra girou nos calcanhares, e a ave, que
planava sobre sua cabea, voltou para junto de John Faa. A porta
fechou-se atrs da menina com um estalo ruidoso. -Ns vamos, sim! -ela
disse a Pantalaimon. -Eles que tentem nos impedir. Ns vamos ! #157 9 Os
ESPIES DURANTE os dias seguintes, Lyra inventou uma dzia de planos e
descartou todos eles com impacincia, pois no fundo todos consistiam em
ir como clandestina, e como algum poderia esconder-se num barco
pequeno? Naturalmente a viagem em si seria feita num navio de verdade, e
ela conhecia histrias suficientes para imaginar que num navio havia
muitos esconderijos: nos pores, ou at nos escaleres, fosse l o que
fosse isso; mas primeiro ela teria que chegar at o navio, e o percurso
dos Pntanos at o navio seria feito  moda gpcia. E mesmo se ela
conseguisse chegar sozinha  costa, podia acabar escondida no navio
errado. E seria mesmo uma gracinha esconder-se num navio e acordar a
caminho do Alto Brasil... Enquanto isso,  volta dela o trabalho
hercleo de preparar a expedio continuava noite e dia. Ela ficou por
perto de Adam Stefanski, observando enquanto ele escolhia os voluntrios
para a fora de guerra. Encheu Roger van Poppel de sugestes sobre os
suprimentos que seriam necessrios: ele tinha se lembrado dos culos de
neve? E por acaso conhecia o melhor lugar para encontrar mapas da Regio
rtica? #158 o homem que ela mais queria ajudar era Benjamin de Ruyter,
o espio. Mas ele tinha partido na madrugada seguinte ao segundo
Encontro, e naturalmente ningum sabia informar para onde ele tinha ido
ou quando voltaria. Assim, Lyra grudou-se a Farder Coram. -Acho que
seria melhor aceitar minha ajuda, Farder Coram, porque eu provavelmente
sei mais coisas sobre os Papes do que qualquer outra pessoa, pois eu
quase fui um deles. Provavelmente o senhor vai precisar de mim para
ajudar a decifrar as mensagens do Sr. de Ruyter. Ele ficava com pena da
menina corajosa e desesperada e no a mandava embora; em vez disso
conversava com ela e escutava as lembranas dela de Oxford e da Sra.
Coulter, e ficava observando enquanto ela lia o aletmetro. -Onde est o
tal livro que tem todos os smbolos? -ela lhe perguntou um dia. -Em
Heidelberg -ele informou. -E s existe esse? -Pode haver outros, mas
esse  o nico que eu j vi. -Aposto que tem um na Biblioteca Bodley's
em Oxford. Ela mal conseguia tirar os olhos do daemon de Farder Coram,
que era o mais bonito que ela j vira. Quando Pantalaimon era gato, ele
era magro, maltratado e bravo, mas Sophonax, que era o nome dele, tinha
olhos dourados e era indescritivelmente elegante, duas vezes maior do
que um gato de verdade e com uma pelagem maravilhosa. Quando a luz do
sol o tocava, iluminava mais tons de castanho-marrom-bege-areia-dourado
do que Lyra conseguiria distinguir. Sua vontade de tocar naquela pele,
esfregar o rosto nela, era enorme, mas naturalmente nunca fez isso, pois
a maior grosseria imaginvel era tocar no daemon de outra pessoa. Os
daemons podiam tocar-se uns aos outros, naturalmente, ou brigar; mas a
proibio contra o contato gente-daemon era to sria que nem mesmo na
batalha um guerreiro tocava #159 no daemon do inimigo. Era proibido.
Lyra no se lembrava de ter ouvido isso de algum, mas sabia
instintivamente, como sabia que vomitar era ruim, e o conforto era bom.
Assim, embora admirasse a pelagem de Sophonax e at mesmo especulasse
como ele seria, nunca fez a menor meno de toc-lo, e nunca faria.
Sophonax era to esguio e cheio de sade quanto Farder Coram era velho e
fraco. Talvez por doena, ou por ter sofrido um grande golpe, o fato era
que ele no conseguia caminhar sem se apoiar em duas bengalas, e tremia
constantemente, como uma folha ao vento. Porm tinha a mente clara,
aguada e poderosa, e depressa conquistou Lyra com seu conhecimento das
coisas e a firmeza com que a instrua. -O que significa esta ampulheta,
Farder Coram? -ela perguntou, debruada sobre o aletmetro, numa manh
ensolarada no barco dele. -Ela est sempre voltando para l. -Costuma
haver uma pista, se voc olhar com ateno. Que  essa coisinha em cima
dela? Ela franziu os olhos para olhar. - uma caveira! -Ento que  que
voc acha que isso significa? -A morte... Isso  a morte? -Isso mesmo.
De modo que nos significados da ampulheta est a morte. Alis, depois da
passagem do tempo, que  o primeiro, vem a morte em segundo lugar. -Sabe
uma coisa que eu percebi, Farder Coram? O ponteiro pra em cima dela na
segunda volta! Na primeira volta, ele s estremece, e na segunda ele
pra. Isso quer dizer que  o segundo significado? -Provavelmente. Que 
que voc est perguntando, Lyra? -Eu estou pensando... -Ela se
interrompeu, surpresa ao descobrir que estava mesmo fazendo uma pergunta
sem perceber . -Eu s juntei trs figuras porque... Eu estava pensando
no Sr. #160 de Ruyter, entende... e juntei a serpente, o cadinho e a
colmeia, para perguntar como ele est indo com a sua espionagem, e...
-Por que escolheu esses trs smbolos? -Porque eu achei que a serpente
era esperta, como um espio tem que ser, e o cadinho podia significar
conhecimento, uma coisa que  destilada, e a colmeia era o trabalho,
porque as abelhas esto sempre trabalhando; ento, do trabalho e da
esperteza vem o conhecimento, entende, que  a misso do espio; apontei
para os trs e pensei na pergunta, e o ponteiro parou na morte... Acha
que isto est mesmo funcionando, Farder Coram? -Est funcionando, sim,
Lyra. O que no sabemos  se estamos lendo direito. Isto  uma arte
muito sutil. Ser que... Antes que ele pudesse terminar a frase, bateram
na porta, e um jovem gpcio entrou. -Com licena, Farder Coram, Jacob
Huismans acabou de voltar, e ele est muito ferido. -Ele estava com
Benjamin de Ruyter -disse Farder Coram. -Que foi que aconteceu? -Ele no
quer falar -disse o rapaz. - melhor vir logo, Farder Coram, porque ele
no vai durar muito, est sangrando por dentro. Farder Coram e Lyra
trocaram um olhar assustado e perplexo, mas s por um segundo; Farder
Coram saiu caminhando, apoiado em suas bengalas, com a maior velocidade
possvel, seu daemon andando na frente. Lyra foi tambm, saltando de
impacincia. O rapaz levou-os at um barco atracado, onde uma mulher com
um avental de flanela vermelha abriu a porta para eles. Vendo o olhar de
suspeita que ela lanou a Lyra, Farder Coram disse: - importante que a
menina escute o que Jacob tem a dizer, senhora. #161 Ento a mulher
deixou-os entrar e ficou para trs, com seu daemon-esquilo empoleirado
no relgio de madeira. Numa cama, sob uma colcha de retalhos, estava
deitado um homem com o rosto branco coberto de suor e os olhos
embaados. -J mandei vir o mdico, Farder Coram -disse a mulher com voz
trmula. -Por favor no deixe ele ficar agitado. Est sofrendo muito de
dor. Ele chegou no barco de Peter Hawker h poucos minutos. -Onde est
Peter? -Est atracando. Foi ele que disse que eu tinha que chamar o
senhor . -Est certo. Agora, Jacob, est me ouvindo? Jacob girou os
olhos para olhar para Farder Coram sentado na cama oposta, a meio metro
dele. -Ol, Farder Coram -murmurou. Lyra olhou para o daemon dele. Era
uma fuinha, deitada imvel junto  cabea dele, enrodilhada mas no
adormecida, pois tinha os olhos abertos e embaados como os dele. -Que
foi que aconteceu? -Farder Coram perguntou. -Benjamin est morto -foi a
resposta. -Est morto, e Gerard foi preso. Tinha a voz rouca e a
respirao difcil. Quando parou de falar, seu daemon desenrodilhou-se
dolorosamente e lambeu a face dele; retirando foras desse gesto, ele
continuou: -Estvamos entrando no Ministrio da Teologia, porque
Benjamin tinha ouvido, de um dos Papes que aprisionamos, que o
quartel-general era l e que era de l que saam todas as ordens... Ele
tornou a silenciar . -Vocs capturaram Papes? -perguntou Farder Coram.
Jacob assentiu e olhou para seu daemon. Era incomum os daemons falarem
com outros humanos alm dos seus, mas s vezes acontecia, e nessa
ocasio ele falou: #162 -Pegamos trs Papes em Clerkenwell e os
obrigamos a nos contarem para quem estavam trabalhando e de onde vinham
as ordens, coisas assim. Eles no sabiam para onde estavam levando as
crianas, a no ser que era para o Norte, para a Lapnia... Ela teve que
parar, ofegante, o pequeno peito arfando, e descansar um pOUCO, antes de
conseguir continuar. -E ento os Papes nos falaram do Ministrio da
Teologia e de Lorde Boreal. Benjamin disse que ele e Gerard Hook deviam
entrar no Ministrio, e Frans Broekman e Tom Mendham deviam ir descobrir
mais sobre Lorde Boreal. -Eles conseguiram? -No sabemos. Eles no
voltaram. Farder Coram, parecia que tudo que fazamos eles ficavam
sabendo antes, e pelo que sabemos, Frans e Tom foram engolidos vivos
assim que chegaram perto de Lorde Boreal. -Vamos voltar a Benjamin
-disse Farder Coram, percebendo a respirao de Jacob se tornar cada vez
mais ofegante e vendo seus olhos fecharem-se de dor. O daemon de Jacob
soltou um pequeno miado de preocupao e amor, e a mulher aproximou-se
alguns passos, com as mos junto  boca; mas no falou, e o daemon
continuou em voz fraca: -Benjamin, Gerard e ns fomos para o Ministrio
em White Hall e descobrimos ma portinha lateral que no estava muito
vigiada. Ficamos de vigia do lado de fora enquanto eles abriam a
fechadura e entravam. No havia se passado um minuto quando ouvimos um
grito de medo e o daemon de Benjamin veio voando, fez um gesto nos
chamando e tornou a entrar, e ns pegamos nossa faca e corremos atrs
dele; s que o lugar estava escuro, cheio de formas e sons que nos
confundiam com seus movimentos horrveis; tentamos lutar, mas houve uma
confuso mais em cima, e um grIto, e BenjamIn com seu daemon caram #163
de uma escadaria alta, o daemon tentando segur-lo em vo, pois eles se
esborracharam no cho de pedra e morreram. No conseguamos saber de
Gerard, mas ouvimos a voz dele soltando um urro l em cima, e ficamos
aterrorizados e confusos demais para fazer alguma coisa, e ento uma
flecha nos atingiu no ombro e penetrou profundamente... A voz do daemon
estava mais dbil, e do homem ferido veio o som de um gemido. Farder
Coram inclinou-se e com delicadeza puxou a colcha, e ali, saindo do
ombro do ferido, havia aponta cheia de plumas de uma flecha, numa massa
de sangue coagulado. O resto da flecha estava to enterrado no peito do
pobre homem que s aqueles dez centmetros ficavam fora da pele. Lyra
sentiu uma vertigem. Houve um rudo de passos e vozes l fora, no
ancoradouro. Farder Coram endireitou-se. -Chegou o mdico, Jacob. Vamos
sair agora. Quando voc estiver se sentindo melhor, conversaremos com
mais calma. A caminho da porta, ele colocou a mo sobre o ombro da
mulher. No ancoradouro, Lyra ficou perto dele, porque j havia um
ajuntamento de pessoas cochichando e apontando. Farder Coram deu ordem a
Peter Hawker para ir imediatamente chamar John Faa, depois disse: -Lyra,
assim que soubermos se Jacob vai viver ou morrer precisamos ter outra
conversa sobre aquele aletmetro. V se ocupar em outro lugar, minha
filha; ns mandaremos cham-la. Lyra afastou-se sozinha e foi sentar-se
na margem cheia de vegetao, pondo-se a jogar lama dentro da gua.
Sabia de uma coisa: no estava feliz ou orgulhosa por conseguir ler o
aletmetro -estava com medo. Fosse qual fosse o poder que fazia aquele
ponteiro andar e parar, ele sabia coisas, como um ser inteligente. -Acho
que  um esprito -disse ela, e por um instante ficou tentada a jogar o
pequeno instrumento no meio do pntano. #164 -Eu veria o esprito, se
houvesse um a dentro -disse Pantalaimon. -Como o fantasma velho em
Godstow. Eu vi, e voc no. -Existe mais de um tipo de esprito -disse
Lyra em tom de reprovao. -Voc no consegue ver todos. De qualquer
maneira, e aqueles Catedrticos mortos sem cabea? Eu vi, lembra-se?
-Aquilo foi s um pesadelo. -No foi, no. Eram espritos, mesmo, e voc
sabe disso. Mas seja qual for o esprito que est movendo esse maldito
ponteiro, no  daquele tipo de esprito. -Pode no ser um esprito
-teimou Pantalaimon. -Que mais poderia ser? -Poderia ser... Poderiam ser
partculas elementares. Ela soltou uma risadinha de desprezo. -Poderiam,
sim -ele insistiu. -Lembra-se daquela ventoinha movida a luz que eles
tm na Gabriel? Ento? Na Faculdade Gabriel, havia um objeto muito
sagrado que ficava guardado no altar principal do Oratrio, coberto
(agora Lyra pensava nisso) com um pano de veludo preto, como o que
embrulhava o aletmetro. Ela o tinha visto quando acompanhou o
Bibliotecrio da Jordan num culto religioso. No auge da cerimnia, o
Intercessor levantou o pano e revelou na penumbra um domo de vidro;
dentro dele havia alguma coisa distante demais para ser vista, at que
ele puxou um cordo preso a uma persiana l em cima, deixando um raio de
sol cair exatamente sobre o domo. Ento ficou claro o que era: uma
coisinha como uma ventoinha, com quatro ps pretas de um lado e brancas
do outro, que comearam a girar quando a luz bateu nela. O Intercessor
disse ento que aquilo ilustrava uma lio moral, pois o negror da
ignorncia fugia da luz, ao passo que a alvura da sabedoria era atrada
por ela. Lyra acreditou naquilo; de qualquer maneira, fosse qual fosse o
significado, as pequenas ps giratrias #165 eram lindas; o movimento
era impulsionado pela fora dos ftons, disse o Bibliotecrio enquanto
voltavam para a Jordan. Ento talvez Pantalaimon tivesse razo. Se as
partculas elementares conseguiam fazer girar uma ventoinha, sem dvida
podiam mover um ponteiro com muito mais facilidade; mas isso ainda a
preocupava. -Lyra! Lyra! Era Tony Costa, acenando para ela do
ancoradouro. -Venha at aqui -ele chamou. -Voc tem que ir falar com
John Faa no Zaal. Depressa, garota,  urgente! Ela encontrou John Faa
com Farder Coram e os outros chefes, parecendo preocupados. John Faa
falou: -Lyra, minha filha, Farder Coram me contou sobre a sua leitura
daquele instrumento. E lamento dizer que o coitado do Jacob acaba de
morrer. Acho que vamos ter que levar voc conosco afinal, contra a minha
vontade. Estou muito preocupado com isso, mas parece que no temos
alternativa. Assim que Jacob for enterrado, segundo a tradio, ns
vamos partir. Voc compreende, Lyra: vai tambm, mas no  uma ocasio
de alegria. H problemas e perigos esperando por todos ns. Vou
coloc-la sob os cuidados de Farder Coram. No lhe cause problemas ou
riscos, seno vai sentir a fora da minha clera. Agora v explicar para
Me Costa e fique preparada para partir . As duas semanas seguintes
foram as mais atarefadas da vida de Lyra. Atarefadas, mas no rpidas,
pois havia tediosos perodos de espera, de esconder-se em armrios
apertados e midos, de contemplar a paisagem triste e chuvosa de outono
passando pela janela, de esconder-se outra vez, de dormir perto do
escapamento do motor e acordar com uma terrvel dor de cabea e -pior de
tudo -nem uma vez ter permisso para sair para o ar fresco, #166 correr
pela margem, subir ao convs, agarrar uma corda jogada da margem. Mas
naturalmente ela devia ficar escondida. Tony Costa contou-lhe o boato
nas tavernas da costa: que, por todo o reino, caava-se uma menininha
loura, com uma grande recompensa pela sua descoberta e severos castigos
para quem a escondesse. Havia tambm uns boatos estranhos: as pessoas
diziam que ela era a nica criana que conseguira escapar dos Papes e
que possua segredos terrveis. Outro boato dizia que ela no era uma
criana humana, mas sim um par de espritos em forma de criana e
daemon, enviados a este mundo pelos poderes infernais para causar grande
mal; no entanto, outro boato dizia que no se tratava de uma criana mas
de um humano adulto, encolhida por magia e trabalhando para os trtaros,
para vir espionar o bom povo ingls e preparar o caminho para uma
invaso trtara. Lyra escutava estas histrias a princpio achando
graa, mais tarde com desnimo. Todas aquelas pessoas com medo e raiva
dela! E ansiava por sair daquela cabine estreita e apertada. Ansiava por
j estar no Norte, na neve sob a cintilante Aurora Boreal. E s vezes
ansiava por estar de volta  Faculdade Jordan, pulando pelos telhados
com Roger e o sino do Administrador batendo a meia-hora para o jantar, e
os rudos de loua, de fritura e de gritos na Cozinha... Ento desejava
apaixonadamente que nada tivesse mudado, que nada jamais mudasse, que
ela pudesse ser para sempre a Lyra da Faculdade Jordan. A nica coisa
que lhe tirava o tdio e a irritao era o aletmetro. Ela o lia todos
os dias, s vezes com Farder Coram e s vezes sozinha, e descobriu que
era cada vez mais fcil entrar no estado de calma em que os significados
dos smbolos se esclareciam, e aquelas altas montanhas tocadas pelo sol
emergiam em sua viso. Ela esforou-se para explicar como era, a Farder
Coram. - quase como conversar com algum, s que a gente no consegue
ouvir as outras pessoas e fica se sentindo meio burra #167 porque as
outras so mais inteligentes que a gente, s que elas nunca ficam
zangadas nem nada... E elas sabem tanta coisa, Farder Coram! Quase como
se soubessem tudo! A Sra. Coulter era inteligente, sabia muita coisa,
mas isto aqui  um tipo de conhecimento diferente...  como compreender,
eu acho... Ele fazia perguntas especficas, e ela procurava as
respostas. -Que  que a Sra. Coulter est fazendo agora? -ele
perguntava; as mos dela moviam-se no mesmo instante, e ele pedia:
-Diga-me o que est fazendo. -Bem, a Madona  a Sra. Coulter, e penso
"mame" quando coloco o ponteiro ali; e a formiga  atarefada -essa 
fcil,  o primeiro significado; e a ampulheta tem "passagem do tempo"
entre seus significados, e no meio da lista est "agora", e eu fixo o
pensamento nisso. -E como sabe o que so esses significados? - como se
eu visse. Ou melhor, sentisse, como descer uma escada  noite, agente
baixa o p e acha outro degrau. Bom, eu baixo o pensamento e acho outro
significado, e eu sinto qual . Ento junto tudo. Existe um truque, como
desfocar os olhos. -Faa isso ento, e veja o que ele diz. Lyra
obedeceu. O ponteiro grande comeou a girar no mesmo instante, parou,
continuou, tornou aparar, numa srie precisa de movimentos e pausas. Era
uma sensao de tamanha graciosidade e tamanho poder que Lyra,
compartilhando dele, sentiu-se como um filhote de passarinho aprendendo
a voar. Farder Coram, observando do outro lado da mesa, anotou os
lugares onde o ponteiro parava e observava a menininha segurando os
cabelos longe do rosto e mordiscando de leve o lbio inferior, os olhos
a princpio seguindo o ponteiro, mas depois, quando este regularizava
seu movimento, olhando para outras partes do mostrador. Mas no ao
acaso. Farder Coram era jogador de xadrez, e sabia como os jogadores
ficavam durante uma partida. Um bom jogador parecia ver linhas de fora
e influncia sobre o tabuleiro, #168 seguia as linhas importantes e
ignorava as fracas; e os olhos de Lyra moviam-se do mesmo modo, segundo
algum campo magntico semelhante que ela conseguia enxergar e ele, no.
O ponteiro parou no raio, no menino, na serpente, no elefante e numa
criatura cujo nome Lyra no sabia: uma espcie de lagarto de olhos
grandes e um rabo enrolado em volta do galho onde ele estava
empoleirado. Enquanto Lyra observava, o ponteiro repetiu vrias vezes
esta seqncia. -Qual  o significado deste lagarto? -perguntou Farder
Coram, interrompendo a concentrao dela. -No entendo... Vejo o que ele
est dizendo, mas acho que estou lendo errado. O raio eu acho que 
raiva, e a criana... acho que sou eu... Eu estava conseguindo um
significado para o lagarto, Farder Coram, mas o senhor falou comigo e
ele sumiu. Est vendo, ele est indo para qualquer lugar. -, estou
vendo. Sinto muito, Lyra. Est cansada? Quer parar? -No quero, no. Mas
seu rosto estava vermelho e os olhos brilhantes. Tinha todos os sinais
de uma superexcitao, intensificada pelo longo confinamento naquela
cabine abafada. Ele olhou pela janela. Estava quase escuro, e eles
viajavam ao longo do ltimo trecho de rio antes de chegar  costa. Sob
um cu encoberto estendia-se a amplido marrom de um esturio at um
grupo distante de tanques de lcool de carvo, enferrujados e
trespassados por canos, junto a uma refinaria onde uma mancha espessa de
fumaa subia com relutncia para juntar-se s nuvens. -Onde  que ns
estamos? -Lyra perguntou. -Posso ir l fora s um pouquinho, Farder
Coram? -Aqui  a gua do Colby -ele disse. -O esturio do rio Cole.
Quando chegarmos  cidade, vamos atracar junto ao Mercado de Defumados e
vamos a p at o porto. Estaremos l dentro de uma ou duas horas... #169
Mas estava ficando escuro, e na desolao do rio nada se movia alm do
barco deles e uma distante balsa de carvo indo para a refinaria; e Lyra
estava to vermelha e cansada, e tinha ficado tanto tempo fechada, que
Farder Coram continuou: -Bem, acho que no tem importncia alguns
minutinhos ao ar livre. No posso chamar de ar fresco, pois ele s 
fresco quando sopra do mar; mas voc pode se sentar l em cima e
apreciar a paisagem at chegarmos mais perto. Lyra deu um salto, e
Pantalaimon no mesmo instante transformou-se numa gaivota, ansioso por
estender as asas a cu aberto. Mas estava frio l fora e, embora
estivesse bem agasalhada, logo Lyra estava tremendo. Pantalaimon, por
outro lado, girava no ar com pios de felicidade, dando rasantes em volta
do barco. Lyra adorou isso, sentindo-se como ele enquanto ele voava e
insistindo mentalmente para que ele fosse desafiar o daemon-bigu do
velho piloto para uma corrida. Mas o daemon ignorou Pantalaimon e
acomodou-se sonolentamente na roda do timo, perto do seu humano.
Naquela amplido rida e marrom, no havia vida, e apenas o rudo
constante do motor e o som abafado da gua no casco rompiam o silncio.
Nuvens pesadas cobriam o cu sem oferecer chuva; o ar estava cheio de
fumaa. S a elegncia do vo de Pantalaimon possua alguma vida e
alegria. Enquanto ele saa de um rasante com as asas brancas contra o
cinzento, alguma coisa o atingiu. Ele caiu de lado, cheio de choque e
dor, e Lyra gritou, sentindo tambm. Outra coisa escura Juntou-se 
primeira; no se moviam como pssaros, mas como besouros voadores,
pesados e diretos, com um zumbido forte. Enquanto Pantalaimon caa,
tentando virar-se para alcanar o barco e os braos desesperados de
Lyra, as coisas pretas no paravam de atac-lo. Lyra estava quase louca
com o medo de Pantalaimon e o seu prprio, mas ento alguma coisa passou
por ela e se elevou. #170 Era o daemon do piloto do barco; com toda a
sua aparncia desajeitada e pesada, seu vo era poderoso e rpido. Ela
virava a cabea para os lados -houve um claro de asas escuras, um
estremecimento branco e uma coisinha preta caiu sobre o teto da cabine
enquanto Pantalaimon pousava na mo estendida dela. Antes que ela
pudesse acarici-lo, ele mudou para sua forma de gato-do-mato e saltou
sobre a criatura, empurrando-a da borda do telhado para onde ela estava
tentando fugir. Pantalaimon segurou-a firmemente com as garras e ergueu
os olhos para o cu que escurecia, onde as asas escuras da bigu faziam
crculos enquanto ela procurava a outra criatura. Ento a bigu voltou
voando e grasnou alguma coisa para o piloto, que disse: -Fugiu. No
deixe essa outra escapar. Tome aqui. Ele derramou o resto do lquido da
caneca de lata e jogou-a para Lyra, que no mesmo instante prendeu o
animal que zumbia e roncava como uma mquina. -Segure firme -pediu
Farder Coram atrs dela, para em seguida ajoelhar-se e enfiar um pedao
de papelo sob a caneca. -Que  isso, Farder Coram? -ela perguntou,
trmula. -Vamos l para baixo dar uma olhada. Leve com cuidado, Lyra.
Segure com fora. Ao passar, ela olhou para o daemon do piloto,
pretendendo agradecer-lhe, mas ela havia fechado os olhos. Ento Lyra
agradeceu ao piloto. -Voc devia ter ficado l embaixo -foi tudo que ele
disse. Ela levou a caneca para a cabine, onde Farder Coram tinha
encontrado um copo de cerveja. Ele segurou a caneca de cabea para baixo
sobre o copo e ento retirou o carto, de modo que a criatura caiu
dentro do copo. Ele segurou o copo de modo que ambos pudessem ver
claramente a coisinha furiosa. #171 Tinha o tamanho do polegar de Lyra e
era verde-escuro, no preta. As asas estavam eretas, como uma joaninha
prestes a voar, e batiam to furiosamente que eram apenas um borro. As
seis pernas tentavam segurar-se na superfcie de vidro. -Que  isso?
-ela perguntou. Pantalaimon, ainda um gato-do-mato, estava agachado
sobre a mesa, os olhos verdes seguindo os crculos da criatura dentro do
copo. -Se a gente abrir isso a, no vai encontrar vida. No  animal
nem inseto. J vi uma dessas antes, e nunca pensei que fosse ver outra
aqui to ao norte. So africanas. Tm um mecanismo dentro, e preso na
mola um esprito mau com um feitio atravessando o corao. -Mas quem
foi que mandou isso? -Voc no precisa ler os smbolos, Lyra; pode
adivinhar to bem quanto eu. -A Sra. Coulter? -Claro. Ela no explorou
s o Norte; esto acontecendo muitas coisas estranhas l pelas lonjuras
do Sul. Foi em Marrocos que vi pela ltima vez uma dessas coisas. O
perigo delas  mortal; enquanto o esprito estiver dentro, ela nunca
pra, e quando a gente liberta o esprito, ele est to furioso que mata
a primeira coisa que encontra. -Mas que  que ela estava procurando?
-Estava espionando. Fui um idiota em deix-la ir l fora. E devia ter
deixado voc decifrar os smbolos, em vez de interromper. -Agora estou
entendendo! -Lyra exclamou de repente. -Significa "ar" aquele lagarto!
Eu vi isso, mas no conseguia ver onde se encaixava, de modo que tentei
entender e perdi o pensamento. -Ah, ento tambm estou vendo -disse
Farder Coram. -No  um lagarto,  por isso;  um camaleo. E significa
ar porque eles no comem nem bebem, vivem de ar. #172 -E o elefante...
-A Africa -ele completou. -Ah! Eles se entreolharam. A cada revelao do
poder do aletmetro, eles ficavam mais impressionados. -Ele estava nos
falando destas coisas o tempo todo - disse Lyra. -Devamos ter escutado.
Mas o que podemos fazer com esta a, Farder Coram? Podemos matar, ou
coIsa assIm. -Acho que no podemos fazer nada. Vamos ter que prender
isso a numa caixa e nunca mais soltar. O que me preocupa mais  o
outro, o que fugiu. Ele agora deve estar voando de volta para a Sra.
Coulter, com a notcia de que encontrou voc. Droga, Lyra, sou um
idiota. Ele remexeu num armrio e encontrou uma lata de guardar folhas
de fumar com cerca de dez centmetros de dimetro. Ela tinha sido usada
para guardar parafusos, mas ele esvaziou-a e limpou o interior com um
pano antes de inverter o copo sobre ela com o carto ainda no lugar.
Depois de um momento de perigo, quando uma perna da criatura escapou e
afastou a lata com fora surpreendente, eles conseguiram prend-la na
lata e enroscar a tampa com fora. -Assim que chegarmos ao navio, vou
colocar uma solda em volta, como segurana -disse Farder Coram. -Mas a
corda no vai acabar? -Se fosse um mecanismo comum, sim. Mas, como eu
disse, este aqui fica sempre esticado pelo esprito preso no meio.
Quanto mais ele luta, mais a corda  dada, e maior  a fora. Agora
vamos guardar esse sujeito... Ele enrolou a lata num pedao de flanela
para abafar o zumbido incessante e escondeu-a debaixo da cama. J estava
escuro, e Lyra contemplava pela janela as luzes de Colby cada vez mais
prximas. O ar pesado transformava-se em neblina, e quando atracaram ao
lado do Mercado de Defumados, tudo em volta estava desfocado. A
escurido transformada em # 173 vus cinza-prateados cobria os caixotes
e os depsitos, as barraquinhas de madeira e o prdio de granito com
muitas chamins, que davam nome ao mercado, onde dia e noite havia
peixes sendo defumados pela perfumada fumaa do carvalho. As chamins
contribuam para o ar abafado, e o cheiro agradvel de peixe defumado
-arenque, cavala e hadoque -parecia sair das pedras do cho. Lyra,
enrolada numa capa de chuva e com um enorme capuz escondendo os cabelos
indiscretos, caminhava entre Farder Coram e o piloto. Todos os trs
daemons estavam alertas, vigiando as esquinas  frente, vigiando atrs,
tentando escutar as mais leves passadas. Mas eles eram as nicas figuras
 vista. Os cidados de Colby estavam todos dentro de casa,
provavelmente bebericando aguardente de cereais junto a uma lareira
quentinha. No encontraram ningum at chegarem ao porto, e o primeiro
homem que viram foi Tony Costa, vigiando os portes. -Graas aDeus vocs
chegaram -disse ele baixinho, deixando-os passar. -Acabamos de saber que
Jack Verhoeven levou um tiro e o barco dele foi afundado, e ningum
sabia onde vocs estavam. John Faa j est no navio, louco para partir.
Lyra achou o navio imenso. Tinha no centro a casa do leme e a chamin, o
castelo da proa bem alto e um guindaste acima de uma grande abertura
coberta por uma lona; luz amarela brilhando nas escotilhas e na ponte, e
luz branca no topo do mastro; e trs ou quatro homens no convs,
trabalhando apressadamente em coisas que ela no conseguia enxergar .
Ela subiu depressa a rampa de madeira, passando  frente de Farder
Coram, e olhou em volta com excitao. Pantalaimon tornou-se um macaco e
imediatamente ps-se a subir pelo guindaste, mas ela o chamou de volta;
John Faa conversava baixinho com Nicholas Rokeby, o gpcio encarregado
do navio. John Faa no fazia nada s pressas. Lyra estava esperando que
ele a #174 cumprimentasse, mas ele terminou o que dizia sobre a mar e a
pilotagem antes de virar-se para os recm-chegados. -Boa noite, amigos.
O coitado do Jack Verhoeven est morto, talvez vocs j saibam. E os
filhos dele foram capturados. -Ns tambm temos ms notcias -disse
Farder Coram, e relatou o encontro com os espritos voadores. John Faa
sacudiu a cabea, mas no os repreendeu. -Onde est a criatura agora?
-perguntou. Farder Coram pegou a lata e colocou-a sobre a mesa. De
dentro vinha um zumbido to furioso que a prpria lata movia-se
lentamente sobre o tampo de madeira. -J ouvi falar desses demnios
mecnicos, mas nunca os tinha visto -disse John Faa. -No h jeito de
domestic-lo ou acabar com a corda, isso eu sei. Tambm no adianta
colocar um peso de chumbo e jogar no fundo do mar, porque um dia a lata
iria enferrujar, o demnio iria sair e ir atrs da garota onde quer que
ela estivesse. No, vamos ter que guardar e vigiar. Sendo Lyra a nica
mulher a bordo (pois John Faa, depois de muito meditar, tinha resolvido
no levar mulheres), ela tomou uma cabine s para si. No muito grande,
naturalmente; na verdade, era pouco mais que um armrio com uma cama e
uma escotilha. Ela guardou seus poucos pertences na gaveta sob a cama e
subiu correndo, excitada, para debruar-se sobre a amurada e contemplar
a Inglaterra desaparecendo l atrs, descobrindo ento que a maior parte
da Inglaterra tinha desaparecido na neblina antes que ela subisse. Mas o
rudo da gua l embaixo, o movimento no ar, as luzes do navio brilhando
corajosamente na escurido, o ronco do motor, o cheiro de sal, de peixe
e de lcool de carvo eram suficientemente excitantes. No demorou que
outra sensao se somasse quelas, quando o navio comeou a balanar nas
ondulaes do Oceano Germnico. Quando algum chamou Lyra #175 para
jantar, ela descobriu que tinha menos fome do que imaginara, e depois de
algum tempo achou que seria uma boa idia deitar-se -por causa de
Pantalaimon, porque a pobre criatura estava se sentindo pouco  vontade.
E assim comeou a viagem dela para o Norte. #176 #177 **** Segunda Parte
BOLVANGAR #178 10 O CNSUL E O URSO JOHN Faa e os outros chefes tinham
decidido que iriam para Trollesund, o principal porto da Lapnia. As
bruxas tinham um consulado nessa cidade, e John Faa sabia que, sem a
ajuda delas - ou pelo menos sua neutralidade amigvel -, seria
impossvel salvar as crianas cativas. No dia seguinte, quando as
nuseas de Lyra tinham diminudo um pouco, ele explicou sua idia a ela
e a Farder Coram. O sol brilhava, e as ondas verdes quebravam-se de
encontro  proa formando esteiras de espuma. No convs, com a brisa
soprando e o mar inteiro brilhando com luz e movimento, ela sentia pouco
enjo; e agora que Pantalaimon tinha descoberto o prazer de ser uma
gaivota e depois uma procelria roando os picos das ondas, Lyra
distraiu-se com a alegria dele e no conseguiu ficar entregue aos
sofrimentos de um marinheiro de primeira viagem. JohnFaa, Farder Coram e
mais dois ou trs homens estavam sentados na popa, sob o sol,
conversando sobre o prximo passo. -Bom, Farder Coram conhece essas
bruxas da Lapnia -disse John Faa. -E se no me engano h uma dvida de
favor. #179 - isso mesmo, John -confirmou Farder Coram. - Foi h 40
anos, mas para uma bruxa isso no  nada; algumas vivem isso
multiplicado vrias vezes. -Que foi que aconteceu para criar essa
dvida, Farder Coram? -perguntou Adam Stefanski, o homem encarregado da
tropa de combate. -Salvei a vida de uma bruxa -Farder Coram explicou.
-Ela caiu do cu, perseguida por um enorme pssaro vermelho, nunca vi
outro igual. Ela caiu ferida no pntano, e eu sa procurando. Estava
quase afogada, e eu a coloquei dentro do barco e dei um tiro no pssaro.
Ele caiu num atoleiro, infelizmente, pois era do tamanho de uma
galinhola e vermelho como uma labareda. -Ah... -murmuraram os outros,
presos  narrativa de Farder Coram. -Bom, quando coloquei a moa no
barco, tive o maior choque da minha vida, porque ela no tinha daemon.
Foi como se ele tivesse dito "no tinha cabea"; essa idia era
repugnante. Os homens estremeceram, seus daemons se eriaram, ou se
sacudiram, ou piaram roucamente, e os homens as acalmaram. Pantalaimon
esgueirou-se para o colo de Lyra, os coraes de ambos batendo em
unssono. -Pelo menos era o que parecia- continuou Farder Coram. -Tendo
cado do cu, eu j suspeitava que era uma bruxa. Parecia mesmo uma
mulher jovem, mais magra que algumas e mais bonita que a maioria, mas
no ver o daemon me causou um grande choque. -Ento as bruxas no tm
daemon? -quis saber outro homem: Michael Canzona. -Os daemons delas so
invisveis, eu acho -disse Adam Stefanski. -Ele estava l o tempo todo,
e Farder Coram no viu. -No, voc est enganado, Adam -contestou Farder
Coram. -Ele no estava l, no. As bruxas tm o poder de se #180 separar
de seus daemons a uma distncia muito maior do que ns. Se for preciso,
elas podem mandar seus daemonsviajar para terras distantes, ou at as
nuvens, ou at o fundo do mar .E essa bruxa que eu encontrei no tinha
descansado nem uma hora quando o daemon dela chegou voando, porque ele
sentiu o medo e os machucados dela,  claro. E eu acredito, embora ela
nunca tenha admitido, que o grande pssaro vermelho que eu matei era o
daemon de outra bruxa. Poxa, fiquei tremendo quando pensei nisso. Se eu
soubesse, no teria atirado; teria tomado outra medida qualquer, no mar
ou em terra; mas eu atirei. De qualquer maneira, eu salvei a vida dela,
e ela me deu uma lembrana disso e disse para eu lhe pedir ajuda se
algum dia precisasse. E uma vez ela me mandou ajuda quando os
escraelingues me acertaram uma flecha envenenada. Ns tnhamos outras
ligaes, tambm. ..No nos vemos h muitos anos, mas ela vai se
lembrar. -E essa bruxa mora em Trollesund? -No, no. Elas moram nas
florestas e na tundra, no em um porto martimo entre homens e mulheres.
O negcio delas  com a natureza. Mas elas tm l um consulado, e eu vou
mandar um recado para ela, sem dvida. Lyra estava louca para saber mais
sobre as bruxas, mas a conversa virou para a questo de combustvel e
suprimentos, e afinal ela ficou impaciente para conhecer o resto do
naVio. Saiu vagando pelo convs na direo da proa, e logo fez amizade
com um Marinheiro Qualificado- amizade essa que comeou com ela atirando
nele, uma por uma, as sementes que guardara da ma que tinha comido no
caf da manh. Ele era um homem corpulento e tranqilo, e depois que lhe
disse um palavro e ouviu outro dela em resposta, eles se tornaram
grandes amigos. O nome dele era Jerry .Sob a orientao dele, ela
descobriu que ter alguma coisa para fazer impedia a nusea, e que at um
trabalho como lavar o convs podia ser prazeroso, se fosse feito como um
marinheiro fazia. Ela ficou entusiasmada com essa #181 idia, e depois
disso passou a dobrar as cobertas da sua cama  moda dos marinheiros, a
guardar seus pertences no armrio  moda dos marinheiros e usar o termo
"estivar" em vez de "arrumar" para esse processo. Depois de dois dias no
mar, Lyra estava resolvida que aquela era a vida que ela queria. Tinha
toda liberdade no navio, desde a casa de mquinas at aponte, e logo
sabia o nome de toda a tripulao. O Capito Rokeby deixou que ela
tocasse o apito a vapor para sinalizar para uma fragata das Holandas*; o
cozinheiro aceitou a ajuda dela para misturar o pudim de pssego; e s
uma reprimenda de John Faa impediu que ela subisse ao topo do mastro
para contemplar da gvea o horiente. O navio ia para o Norte, e cada dia
o frio era mais intenso. Procuraram-se, nos depsitos, lonas que
pudessem ser cortadas para ela, e Jerry ensinou-lhe a costurar, uma arte
que ela aprendeu de boa vontade, embora na Jordan a tivesse desdenhado,
fugindo s aulas da Sra. Lonsdale. Juntos fizeram para o aletmetro uma
sacola  prova d' gua que ela podia usar em volta da cintura, caso
casse na gua, segundo ela. Com o instrumento em segurana, ela usando
a capa e o capuz de lona, agarrava-se  amurada, enquanto a espuma
gelada derramava-se por cima da proa e molhava o convs. Ocasionalmente
ela sentia enjo, especialmente quando o vento crescia e o navio
mergulhava pesadamente por uma crista das ondas verde-acinzentadas, e
ento foi a vez de Pantalaimon distra-la roando as ondas como uma
procelria, porque ela conseguia sentir a euforia de liberdade dele ao
sabor do vento e da gua e esquecer o enjo. De vez em quando, ele
tentava at mesmo ser um peixe, e certa vez juntou-se a um cardume de
golfinhos, para grande surpresa e prazer deles. Lyra * As Holandas
atualmente so os Pases Baixos, ou seja: a Holanda do Norte e a Holanda
do Sul. Era um antigo condado do Imprio Romano no Mar do Norte, antes
de ser dividida. (N.T.) #182 ficou, tremendo de frio, no castelo de
proa, e riu de prazer enquanto seu amado Pantalaimon, esguio e poderoso,
saltava da gua com meia dzia de outras figuras cinzentas e rpidas.
Era prazer, mas no um prazer simples, pois nele havia tambm dor e
medo: e se ele gostasse mais de ser golfinho do que gostava dela? Seu
amigo, o Marinheiro Qualificado, estava por perto e enquanto ajeitava a
tampa de lona sobre a abertura da proa ele parou para observar o daemon
da menina nadando e saltando com os golfinhos. Seu prprio daemon, uma
gaivota, estava empoleirado no cabrestante, com a cabea enfiada sob a
asa. Ele sabia o que Lyra estava sentindo. -Eu me lembro a primeira vez
que vim para o mar, eu era bem novinho e a minha Belisria ainda no
tomara apenas uma forma, e ela adorava ser toninha, que  uma baleia
pequena. Eu tinha medo de que ela ficasse assim para sempre. No meu
primeiro navio, tinha um velho marinheiro que nunca podia ir  terra,
porque o daemon dele tinha ficado sendo um golfinho, e ele nunca podia
sair do mar. Era um marinheiro muito bacana, o melhor navegador que j
se viu; podia ter feito fortuna com a pesca; mas no gostava. Nunca foi
feliz at morrer e poder ser enterrado no mar. -Por que os daemons tm
que ficar com uma forma s? -Lyra perguntou. -Quero que Pantalaimon
possa mudar sempre. Ele tambm quer. -Ah, eles sempre ficam com uma s,
e sempre ficaro. Faz parte de crescer. Vai chegar um tempo em que voc
vai ficar cansada de tantas mudanas dele, e vai querer que ele tenha
uma forma estabelecida. -Nunca vou querer isso! -Ah, vai, sim. Vai
querer crescer como todas as outras meninas. De qualquer maneira, a
forma nica tem suas vantagens. -Quais? #183 -Saber que tipo de pessoa
voc . A velha Belisria, por exemplo; ela  uma gaivota, o que
significa que eu sou uma espcie de gaivota, tambm. No sou grandioso,
esplndido, nem bonito, mas sou duro e consigo sobreviver em qualquer
lugar, e sempre arranjo comida e boa companhia. Vale a pena saber disso.
E quando o seu daemon se estabelecer numa forma, voc vai saber que tipo
de pessoa . -Mas e se o meu daemon se estabelecer numa forma que eu no
goste? -Bom, voc vai se decepcionar, no ? Tem muita gente que
gostaria de ter um daemon-leo e acabam com um poodle. E at aprenderem
a se contentar com o que so, reclamam muito. Acho isso um desperdcio
de energia. Mas Lyra tinha a impresso de que nunca cresceria. Certa
manh, havia no ar um cheiro diferente, e o navio movia-se de modo
estranho, balanando-se de um lado para o outro, em vez de mergulhar a
proa e tornar a ergu-la. Lyra despertou e em menos de um minuto estava
no convs, olhando avidamente para terra: uma viso to estranha, depois
de toda aquela gua, pois embora s tivessem permanecido alguns dias
navegando, para Lyra era como se tivessem passado meses no oceano. Bem 
frente do navio erguia-se uma montanha de encostas verdes e o pico
coberto de neve, e no sop uma cidadezinha e um porto: casas de mdeira
com telhados pontudos, a torre fina de uma igreja, caixotes no porto e
nuvens de gaivotas voando em crculo e gritando. O cheiro era de peixe,
mas junto com ele vinham tambm cheiros de terra firme: resina de
pinheiro, barro, e alguma coisa animal e almiscarada, e mais alguma
coisa, que era fria, informe e livre: podia ser neve. Era o cheiro do
Norte. Em volta do navio, brincavam focas, mostrando seus rostos de
palhao acima da gua antes de mergulharem de novo ruidosamente. #184 O
vento que levantava espuma das cristas brancas das ondas era
monstruosamente frio, e procurava toda abertura que houvesse no casaco
de Lyra, e logo as mos dela doiam e o rosto estava dormente.
Pantalaimon, em sua forma de arminho, aquecia o pescoo dela, mas o
tempo estava frio demais para que ficassem do lado de fora por muito
tempo sem um trabalho a fazer, mesmo que fosse observar as focas, e Lyra
desceu para tomar seu mingau do caf da manh e olhar pela escotilha do
refeitrio. Dentro do porto, o mar estava calmo, e enquanto o barco
avanava ao longo do gigantesco quebra-mar, Lyra comeou a sentir-se
tonta por causa da falta de movimento. Ela e Pantalaimon observavam
atentamente enquanto o navio movia-se de modo lento e majestoso em
direo ao atracadouro. Durante a hora seguinte, o rudo do motor
diminuiu para um ronco baixo, vozes gritavam ordens ou perguntas, cordas
eram jogadas, passarelas baixadas, portas abertas. -Vamos, Lyra- chamou
Farder Coram. -J arrumou sua bagagem? A bagagem de Lyra, por assim
dizer, j estava arrumada desde que ela acordara de manh e avistara
terra firme. Tudo que precisava fazer agora era correr at a cabine e
pegar a sacola de compras. A primeira coisa que ela e Farder Coram
fizeram em terra firme foi visitar a casa do Cnsul das Bruxas. No
demoraram a encontrar; a cidadezinha rodeava o porto, sendo o oratrio e
a casa do Governador as nicas construes um pouco maiores. O Cnsul
das Bruxas morava numa casa de madeira pintada de verde com vista pra O
mar, e quando eles tocaram a campainha, o som ressoou pela rua
silenciosa. Um criado levou-os para uma saleta e lhes trouxe caf.
Finalmente o prprio Cnsul veio receb-los. Era um homem gordo, de
rosto exuberante, usando um sbrio terno preto. Seu nome era Martin
Lanselius. Seu daemon era uma serpente pequena #185 da mesma cor verde
intensa e brilhante dos olhos dele, que eram a nica coisa de bruxo na
aparncia dele; mas Lyra no tinha certeza de como imaginava a aparncia
de uma bruxa. -Em que posso ajud-lo, Farder Coram? -ele perguntoU. -De
duas maneiras, Dr. Lanselius. Primeiro, estou ansioso para entrar em
contato com uma bruxa que conheci h alguns anos, na regio dos Pntanos
na Anglia Oriental. O nome dela  Serafina Pekkala. O Dr. Lanselius
tomou nota com uma lapiseira de prata. -H quanto tempo foi o seu
encontro com ela? -quis saber. -Deve ter uns 40 anos. Mas acho que ela
se lembra. -E qual  a segunda maneira em que posso ajud-lo? -Estou
representando um grupo de famlias gpcias que perderam seus filhos.
Temos razes para acreditar que existe uma organizao sequestrando
essas crianas, as nossas e as andarilhas, e que essas crianas so
trazidas para o Norte com algum objetivo desconhecido. Gostaria de saber
se o senhor ou o seu povo ouviu alguma coisa sobre isso. O Dr. Lanselius
ficou bebericando calmamente seu caf. -No  impossvel que notcias de
tal atividade possam ter chegado s nossas paragens -disse. -o senhor
sabe que as relaes entre o meu povo e os nortelandenses so
inteiramente cordiais. Seria difcil encontrar uma justificativa para eu
ir contra eles. Farder Coram assentiu como se compreendesse muito bem.
-Naturalmente -respondeu. -E no me seria necessrio perguntar-lhe se eu
poderia conseguir a informao de qualquer outra maneira. Foi por isso
que primeiro perguntei pela minha amiga. Agora foi o Dr. Lanselius quem
assentiu como se compreendesse muito bem. Lyra observava esse jogo com
perplexidade e respeito. Havia muita coisa acontecendo por detrs das
palavras, e ela viu que o Cnsul das Bruxas estava chegando a uma
deciso. #186 -Muito bem -ele disse. -Naturalmente, isso  verdade, e o
senhor fique sabendo que seu nome no nos  desconhecido, Farder Coram.
Serafina Pekkala  a rainha de um cl de bruxos na regio do Lago Enara.
Quanto  sua outra pergunta, naturalmente fica entendido que essa
informao no chegou ao senhor atravs de mim. -Naturalmente. -Bem,
aqui mesmo nesta cidade existe uma filial de uma organizao chamada
Companhia de Explorao Progresso do Norte, que finge estar procurando
minrio, mas que na realidade  controlada por uma coisa chamada
Conselho Geral Londrino de Oblao. Por acaso sei que essa organizao
importa crianas. Isto no  conhecido na cidade; o governo da Noruega
no tem conhecimento oficial do fato. As crianas no ficam muito tempo
aqui. So levadas para o interior. -Sabe para onde, Dr. Lanselius? -No.
Eu lhe contaria, se soubesse. -E sabe o que acontece a elas l? Pela
primeira vez o Dr. Lanselius olhou de relance para Lyra. Ela o encarou
de volta, impassvel. O pequeno daemon-serpente verde ergueu a cabea do
colarinho do Cnsul e cochichou algo em seu ouvido, deixando ver a
lngua pequena e rpida. O Cnsul declarou: -J ouvi a expresso "o
Processo Maystadt" em relao a este assunto. Acho que  um nome usado
para evitar o uso do nome real. Tambm j ouvi a palavra "interciso",
mas no sei a que se refere. -E no momento h crianas na cidade?
-Farder Coram perguntou. Ele estava acariciando o plo de seu daemon,
sentado alerta em seu colo. Lyra percebeu que ela havia parado de
ronronar. -Acho que no -disse o Dr. Lanselius. -Um grupo de umas dez
chegou na semana passada e foi embora anteontem. #187 -Ah, h to pouco
tempo assim? Ento isso nos d alguma esperana. Como foi que viajaram,
Dr. Lanselius? -De tren. -E o senhor no tem idia de para onde foram?
-Muito pouca. No  um assunto que nos interesse. -Naturalmente. Agora,
o senhor respondeu todas as minhas perguntas de boa vontade, e s tenho
mais uma. Se o senhor fosse eu, que pergunta faria ao Cnsul dos Bruxos?
Pela primeira vez o Dr. Lanselius sorriu. -Eu perguntaria onde poderia
obter os servios de um urso de armadura -disse. Lyra endireitou-se na
cadeira e sentiu o corao de Pantalaimon dar um salto em suas mos.
-Pensei que os ursos de armadura estivessem a servio do Conselho de
Oblao -disse Farder Coram, surpreso. -Quero dizer, da Companhia de
Progresso do Norte, ou seja l qual for o nome que esto usando. -Pelo
menos um deles no est. Vai encontr-lo no entreposto de trens no
final da rua Langlokur. No momento, ele ganha a vida l, mas seu
temperamento  to forte, e to forte  o medo que ele causa nos
cachorros, que seu emprego talvez no dure muito. -Ento ele  um
renegado? -Parece que sim. O nome dele  Iorek Byrnison. Voc me
perguntou o que eu perguntaria, e eu lhe disse. Agora eis o que eu
faria: eu agarraria a chance de empregar um urso de armadura, mesmo que
fosse uma oportunidade muito mais distante do que esta. Lyra mal
conseguia ficar sentada. Farder Coram, no entanto, conhecia o ritual de
entrevistas como esta, e pegou outro pedao de po-de-mel. Enquanto ele
comia, o Dr. Lanselius virou-se para Lyra. #188 -Fiquei sabendo que voc
possui um aletmetro- disse, para grande surpresa dela; como poderia
saber disso? -Sim -ela respondeu. Ento, impulsionada por um cutuco de
Pantalaimon, ofereceu: -Gostaria de dar uma olhada nele? -Gostaria
muito. Ela puxou de dentro da roupa a sacola de lona e entregou-lhe o
embrulho de veludo. Ele desembrulhou o instrumento e ergueu-o com grande
cuidado, contemplando o mostrador como um sbio contemplando um
manuscrito raro. -Que maravilha! -exclamou. -J vi outro exemplar, mas
no era to bonito quanto este. E voc possui o livro de instrues?
-No -Lyra comeou. Antes, porm, que ela pudesse dizer mais alguma
coisa, Farder Coram interveio: -No,  uma grande pena que embora Lyra
possua o aletmetro no haja meio de consult-lo.  um mistrio igual s
manchas de tinta que os hindus usam para ler o futuro. E o livro de
instrues mais prximo, pelo que sei,  o da Abadia de St. Johann em
Heidelberg. Lyra entendeu por que ele dizia isso: no queria que o Dr.
Lanselius soubesse do poder de Lyra. Mas ela via tambm uma coisa que
Farder Coram no conseguia ver: a agitao do daemon do Dr. Lanselius.
Ela logo percebeu que no adiantava fingir. Portanto, disse: -Na
verdade, eu consigo ler o aletmetro. Ela se dirigiu tanto ao Dr.
Lanselius quanto a Farder Coram, mas quem reagiu foi o Cnsul. - muito
sbio da sua parte -disse. -Onde foi que obteve este exemplar? -O Reitor
da Faculdade Jordan em Oxford me deu. Dr. Lanselius, o senhor sabe quem
foi que construiu estas coisas? #189 -Dizem que tiveram origem em Praga.
O inventor do primeiro aletmetro estava aparentemente tentando
descobrir um modo de medir a influncia dos planetas, de acordo com os
princpios da astrologia. Ele pretendia criar um mecanismo que reagisse
 percepo de Marte ou Vnus, assim como a bssola reage  percepo do
Norte. Nisso ele fracassou, mas o mecanismo que criou est obviamente
reagindo a algo, mesmo que ningum saiba exatamente a qu. -E onde ele
conseguiu estes smbolos? -Ah, foi no sculo XVII. Havia smbolos e
emblemas por toda parte. Os prdios e os quadros podiam ser lidos como
livros. Tudo simbolizava outra coisa; se a pessoa tivesse o dicionrio
certo, poderia ler at a Natureza. No era estranho que os filsofos
usassem a simbologia da sua poca para interpretar um conhecimento vindo
de uma origem misteriosa. Mas, vocs sabem, durante mais de dois sculos
eles no foram corretamente usados. Devolveu o instrumento a Lyra e
acrescentou: -Posso lhe fazer uma pergunta? Sem o livro dos smbolos,
como  que voc l? -Eu fao minha cabea ficar vazia e ento  como
olhar para dentro d' gua. Agente deixa os olhos encontrarem o nvel
certo, porque  o nico que fica em foco. Mais ou menos isso - ela
falou. -Ser que posso v-la fazer isso? -ele pediu. Lyra olhou para
Farder Coram, com vontade de concordar, porm esperando a aprovao
dele. O ancio assentiu. -Que  que vou perguntar? -Lyra quis saber.
-Quais so as intenes dos trtaros em relao a Kamchatka? Esta no
era difcil. Lyra girou um ponteiro at o camelo, que significava sia,
que significa os trtaros; outro, para a cornucpia, significando
Kamchatka, onde ficavam as minas de ouro; e o terceiro para a formiga,
que significava atividade, que #190 significava propsito e inteno.
Ento ficou imvel, deixando a mente reunir os trs nveis de
significado, esperando tranqilamente a resposta, que veio quase no
mesmo instante. O ponteiro comprido estremeceu sobre o golfinho, o elmo,
o beb e a ncora, danando entre eles e at o cadinho num desenho
complicado que os olhos de Lyra acompanharam sem hesitao, mas que era
incompreensvel para os dois homens. Depois que ele completou vrias
vezes o movimento, Lyra ergueu os olhos. Pestanejou duas vezes, como se
sasse de um transe. -Eles vo fingir que atacam l, mas no vo atacar,
porque  longe demais, e eles iam ficar espalhados demais -disse. -Pode
me dizer como leu isto? -O golfinho, um dos significados mais profundos
dele  brincar, fazer brincadeiras -ela explicou. -Sei que  esse
significado porque ele parou no smbolo um certo nmero de vezes e ficou
claro nesse nvel e em nenhum outro. O beb significa... significa
dificuldade... O ataque seria muito difcil para eles, e a ncora diz
por qu: porque eles iam ficar esticados como acorda da ncora.  assim
que eu vejo, entende? O Dr. Lanselius assentiu. -Notvel -comentou.
-Fico-lhe muito grato. No vou esquecer. Ento olhou estranhamente para
Farder Coram e depois para Lyra. -Posso lhe pedir mais uma
demonstrao?- perguntou. -No quintal atrs desta casa voc vai
encontrar vrios galhos de pinheiro-nubgeno* pendurados na parede. Um
deles foi usado por Serafina Pekkala; voc pode me dizer qual? -Claro!
-disse Lyra, sempre pronta para fazer bonito. * Pinheiro-nubgeno:
traduo literal de cloud-pine. (N.T.) #191 Pegou o aletmetro e saiu
depressa. Estava ansiosa para ver o tal pinheiro-nubgeno que as bruxas
usavam para voar. Enquanto ela estava ausente, o Cnsul perguntou: -Sabe
quem  esta criana? - a filha de Lorde Asriel -respondeu Farder Coram.
-E a me  a Sra. Coulter, do Conselho de Oblao. -E alm disto? O
velho gpcio sacudiu a cabea. -No, eu no sei mais. Mas  uma criatura
estranha e inocente, e eu no quero que nenhum mal lhe acontea. Como
ela consegue ler aquele instrumento eu no sei, mas acredito no que ela
diz. Por que pergunta, Dr. Lanselius? Que  que o senhor sabe sobre ela?
-H sculos as bruxas falam dessa criana -disse o Cnsul. -Por viverem
to prximas do lugar onde o vu entre os mundos  fino, de vez em
quando elas escutam sussurros imortais, as vozes daqueles seres que
passam de um mundo a outro. E eles falaram de uma criana como esta, que
tem um grande destino que no poder ser cumprido neste mundo, mas num
lugar muito alm dele. Sem esta criana, morreremos todos,  o que dizem
as bruxas. Mas ela tem que cumprir esse destino sem saber o que est
fazendo, porque somente na ignorncia dela ns podemos ser salvos. Est
entendendo, Farder Coram? -No -disse Farder Coram. -No posso dizer que
estou. -O que significa que ela deve ser livre para cometer erros.
Devemos esperar que ela no cometa, mas no podemos gui-la. Estou feliz
por ter visto esta criana antes de morrer . -Mas como foi que o senhor
a reconheceu? E que foi que quis dizer quando falou em seres que passam
de um mundo a outro? No consigo compreender o que o senhor diz, Dr.
Lanselius, por mais que o considere um homem honesto... #192 Mas antes
que o Cnsul pudesse responder, a porta se abriu e Lyra entrou,
triunfante, trazendo um raminho de pinheiro. - este aqui! -exclamou.
-Testei todos eles, e tenho certeza de que  este. O Cnsul examinou-o
com ateno e assentiu. -Correto -disse. -Bem, Lyra, isto  notvel.
Voc tem sorte de ter um instrumento como este, e eu lhe desejo sorte
com ele. Gostaria de lhe dar uma coisa... Pegou o galho e partiu um
raminho para ela. -Ela voou com isto? -Lyra quis saber, impressionada.
-Voou, sim. No posso lhe dar todo, porque preciso dele para entrar em
contato com ela, mas isto  suficiente. Cuide bem dele. -Vou cuidar.
Muito obrigada. Ela enfiou o pedacinho de ramo dentro da bolsa, ao lado
do aletmetro. Farder Coram tocou no ramo de pinheiro como se fosse um
amuleto, e Lyra viu no rosto dele uma expresso que nunca tinha visto
antes: quase nostlgica. O Cnsul levou-os at a porta, onde apertou a
mo de Farder Coram, e a de Lyra tambm. -Espero que sejam bem-sucedidos
-disse. Ficou parado na soleira, no frio penetrante, observando-os
seguir pela pequena rua. -Ele j sabia da resposta sobre os trtaros
-Lyra contou a Farder Coram. -O aletmetro me contou, mas eu no disse.
Foi o cadinho. -Imagino que estava testando voc, filha. Mas fez bem em
ser gentil, j que no temos certeza do que ele j sabe. E aquela dica
do urso foi muito til. De outra maneira, no ficaramos sabendo.
Conseguiram encontrar o entreposto, que consistia em dois armazns de
concreto numa rea matagosa de terrenos baldios onde o capim fino
crescia entre pedras cinzentas e poas de lama gelada. No escritrio, um
homem carrancudo informou que eles #193 poderiam falar com o urso no
final do expediente, s seis horas, mas teriam que chegar na hora,
porque em geral ele ia diretamente para o quintal atrs do Bar de
Einarsson, onde lhe davam bebida. Ento Farder Coram levou Lyra para a
melhor loja de roupas da cidade e comprou para ela algumas roupas
prprias para o frio. Compraram um casaco feito de pele de rena, porque
os plos da rena so ocos e isolam muito bem; e o capuz era feito de
pele de carcaju*, porque esse plo expulsa o gelo que se forma quando a
pessoa respira. Compraram roupas de baixo e forros de bota de pele de
filhote de rena, e luvas de seda para usar debaixo das grossas luvas de
pele. As botas e essas luvas eram feitas da pele da perna da rena, que 
muito resistente, e as solas das botas eram feitas com a pele da foca
barbada, que  to grossa quanto o couro do leo-marinho, porm mais
leve. Finalmente, compraram uma capa semitransparente que a envolvia
completamente, feita de intestino de foca. Vestindo tudo isso, com um
cachecol de seda em volta do pescoo e uma touca de l tapando as
orelhas e o grande capuz puxado para a frente, ela sentia at calor; mas
eles iam para lugares ainda muito mais frios. John Faa, que tinha ficado
supervisionando o descarregamento do navio, estava ansioso para saber o
que o Cnsul das Bruxas dissera, e ficou ainda mais curioso quando soube
do urso. -Vamos l hoje mesmo -decidiu. -J falou alguma vez com uma
criatura dessas, Farder Coram? -J, sim; e j lutei contra uma, tambm,
embora no sozinho, graas aDeus. Temos que nos preparar para lidar com
ele, John. Ele vai pedir muito, tenho certeza, e deve ser ranzinza e
difcil de tratar; mas precisamos dele. -Ah, precisamos, sim. E a sua
bruxa? * Carcaju -traduo de wolverine, pequeno lobo da Amrica do
Norte. (N. T.) #194 -Bem, ela est muito longe, e agora  rainha de um
cl -contou Farder Coram. -Eu esperava que pudesse mandar um recado para
ela, mas a resposta ia demorar demais. -Ah, sim. Agora vou contar o que
foi que eu descobri, amigo. Pois John Faa estava impaciente para lhes
contar uma coisa. Ele havia conhecido no porto um explorador, um homem
da Nova Dinamarca chamado Lee Scoresby, do pas do Texas, e esse homem
tinha um balo! A expedio que ele pretendia acompanhar fracassara por
falta de fundos antes de sair de Amsterd, de modo que ele estava livre.
-Pense no que podemos fazer com a ajuda de um aerstata, Farder Coram!
-disse John Faa, esfregando as mos. - Contratei o sujeito para ir
conosco. Parece que estamos tendo sorte neste lugar. -Ainda mais sorte
teramos se tivssemos uma idia de aonde estamos indo -disse Farder
Coram. Mas nada conseguia diminuir o prazer de John Faa por estar
novamente em campanha. Depois que escureceu e que toda a carga tinha
sido retirada do navio e estava esperando no cais, Farder Coram e Lyra
seguiram ao longo da praia procurando o Bar de Einarsson. Encontraram
facilmente: um tosco barraco de concreto com um cartaz de non vermelho
piscando irregularmente acima da porta e o som de vozes altas passando
atravs das janelas embaadas de condensao. Um beco de solo acidentado
ao lado do bar levava a um porto de ferro que dava para os fundos do
prdio, onde havia um barraco. A luz fraca que saa pela janela dos
fundos do bar mostrava uma figura grande e plida agachada, devorando
uma posta de carne que segurava com ambas as mos. Lyra teve um
vislumbre de um focinho sujo de sangue, olhos pequenos e maus, e uma
imensido de plos amarelados e sujos. A figura soltava sons ao mastigar
e engolir, rosnados e ofegos. #195 Farder Coram parou junto ao porto e
chamou: -Iorek Byrnison! O urso parou de comer. Pelo que eles podiam
ver, o urso estava olhando diretamente para eles, mas era impossvel
decifrar sua expresso. -Iorek Byrnison! -tornou a chamar Farder Coram.
- Posso falar com voc? Lyra tinha o corao disparado, porque alguma
coisa na presena do urso dava-lhe uma sensao quase de frio, de uma
fora perigosa e brutal, mas uma fora controlada pela inteligncia; e
no uma inteligncia humana, nada parecido com isto, porque naturalmente
os ursos no tinham daemons. Aquela estranha figura mastigando carne no
se parecia com o que ela havia imaginado, e ela sentiu admirao e
piedade profundas pela criatura solitria. Ele deixou a perna de rena
cair na lama e foi andando de quatro at o porto. Ali ficou de p, com
seus mais de trs metros de altura, como se quisesse mostrar seu poder e
frisar que aquele porto seria intil para cont-lo. -Bom, quem so
vocs? Sua voz era to grossa que parecia sacudir a terra. O fedor que
vinha do seu corpo era quase insuportvel. -Sou Farder Coram, do povo
gpcio da Anglia Oriental. E esta menininha  Lyra Belacqua. -Que  que
vocs querem? -Queremos lhe oferecer um emprego, Iorek Byrnison. -J
tenho emprego. O urso ps-se de quatro novamente. Sua voz era to grossa
e sem entonao que era difcil detectar nela alguma expresso, fosse de
ironia ou de raiva. -Que  que voc faz no entreposto de trens? -Farder
Coram quis saber. #196 -Conserto mquinas e artigos de ferro. Levanto
coisas pesadas. -Que tipo de trabalho  esse para um panserbjorne?
-Trabalho pago. Atrs do urso, na porta do bar abriu-se uma fresta, e um
homem colocou no cho um grande jarro de barro antes de erguer os olhos
para eles. -Quem est a? -So desconhecidos -disse o urso. O dono do
bar parecia que ia perguntar mais alguma coisa, mas o urso lanou-se na
direo dele, e o homem, assustado, fechou a porta. O urso passou uma
garra pelo cabo do jarro e levou-o  boca. Lyra sentiu o cheiro forte de
lcool. Depois de beber vrios goles, o urso largou o jarro e voltou a
morder a carne, aparentemente esquecido de Farder Coram e Lyra; mas de
repente ele tornou a falar. -Que trabalho vocs esto oferecendo?
-Combate, com certeza -disse Farder Coram. - Estamos viajando para o
Norte at encontrarmos o lugar para onde levaram algumas crianas
roubadas. Quando encontrarmos o lugar, vamos ter que lutar para libertar
as crianas; e ento vamos trazer todas de volta. -E como pagam? -No
sei o que lhe oferecer, Iorek Byrnison. Se quiser ouro, ns temos. -No
serve. -Que  que lhe pagam no entreposto de trens? -Comida e bebida. O
urso silenciou; deixou cair o osso esfrangalhado e tornou a levar o
jarro  boca, engolindo a forte bebida como se fosse gua. Farder Coram
falou ento: #197 -Desculpe a indiscrio, Iorek Byrnison, mas voc
podia viver com orgulho e liberdade no gelo, caando focas e lees-
marinhos, ou podia ir para a guerra e ganhar muitos prmios; que  que
prende voc a Trollesund e ao Bar de Einarsson? Lyra sentiu o corpo
inteiro arrepiar-se. Achava que uma pergunta como aquela, sendo quase um
insulto, iria enraivecer a enorme criatura, e impressionou-se com a
coragem de Farder Coram em perguntar. Iorek Byrnison largou o jarro e
aproximou-se do porto para estudar o rosto do ancio. Farder Coram no
se abalou. -Sei quem  o pessoal que vocs esto procurando, os
mutiladores de crianas -disse o urso. -Saram da cidade anteontem, indo
para o Norte com mais crianas. Ningum vai lhes falar sobre eles;
fingem no ver, porque os mutiladores de crianas trazem dinheiro e
negcios para a cidade. Ora, eu no gosto dos mutiladores de crianas,
de modo que vou responder com educao. Fico aqui e bebo porque os
homens daqui tiraram a minha armadura, e sem ela eu posso matar focas,
mas no posso ir para a guerra. Eu sou um urso de armadura: a guerra  o
mar onde eu nado e o ar que eu respiro. Os homens desta cidade me deram
bebida, me fizeram beber at dormir, e ento tiraram a minha armadura.
Se eu soubesse onde ela est, iria derrubar a cidade at pegar de volta.
Se querem o meu servio, o preo  este: devolver minha armadura. Se
fizerem isto, eu vou ajudar na sua luta at morrer ou at vocs
vencerem. O preo  a minha armadura; quando eu tiver de volta a minha
armadura, nunca mais vou precisar da bebida. #198 11 A ARMADURA QUANDO
voltaram para o navio, Farder Coram, John Faa e os outros chefes
passaram muito tempo em conferncia no salo de refeies, e Lyra foi
mandada para a sua cabine para consultar o aletmetro. Cinco minutos
depois ela sabia exatamente onde estava a armadura do urso e por que o
resgate seria difcil. Ficou sem saber se ia ao refeitrio contar para
John Faa e para os outros, mas resolveu que se quisessem saber eles lhe
perguntariam. Talvez at j soubessem. Ficou deitada na cama pensando
naquele urso poderoso e selvagem e no modo como ele engolia aquela
bebida forte, e a solido dele naquele barraco sujo. Como era diferente
ser gente, com seu daemon sempre por perto para conversar! No silncio
do navio parado, sem os contnuos estalidos de metal e madeira ou o
ronco do motor ou o barulho da gua no casco, Lyra gradualmente
adormeceu, com Pantalaimon em cima do travesseiro dormindo tambm. Ela
estava sonhando com seu pai aprisionado quando de repente, sem qualquer
razo, despertou. No tinha idia das horas. Havia na cabine uma luz
fraca que ela imaginou ser da lua, #199 e ela viu, no canto da cabine,
as suas roupas novas. E no mesmo instante teve vontade de
experiment-las. Depois de vesti-las, ela quis sair para o convs, e um
minuto depois estava no topo da escada, abrindo a porta, e saiu para o
convs. Viu imediatamente que alguma coisa estranha estava acontecendo
no cu. Pensou que fossem nuvens movendo-se e estremecendo sob uma
agitao nervosa, mas Pantalaimon cochichou: -A Aurora Boreal! O xtase
dela foi to grande que ela precisou agarrar-se  amurada para no cair.
A luz enchia todo o cu ao Norte; sua imensido mal podia ser concebida.
Como se presas no prprio cu, grandes cortinas de delicada luz pendiam
e estremeciam. Com seus tons de verde-claro e rosa, transparentes como a
renda mais fina, e tendo como bainha uma faixa de um prpura profundo e
gritante como as chamas do Inferno, elas balanavam e cintilavam com
mais graa do que a mais graciosa danarina. Lyra chegou a pensar que as
escutava: um sussurro intenso e distante. No meio daquela delicadeza
evanescente, ela experimentou uma emoo to profunda como a que havia
sentido quando estava perto do urso. Aquilo a comovia, era muito lindo,
quase sagrado; ela sentiu lgrimas nos olhos, e as lgrimas dividiram
ainda mais a luz em arco-ris prismticos. No demorou para que ela se
encontrasse no mesmo tipo de transe de quando consultava o aletmetro.
Pensou calmamente: talvez a mesma fora que move o ponteiro do
aletmetro crie tambm a Aurora Boreal. Podia ser at o prprio P. Ela
pensou isto sem perceber que tinha pensado, e logo esqueceu; s foi se
lembrar muito tempo depois. Enquanto Lyra observava, a imagem de uma
cidade formou-se atrs dos vus e dos jatos de translcida luz: torres e
domos, templos e colunatas, amplas praas e parques iluminados #200 pelo
sol. Olhar para aquilo dava-lhe uma sensao de vertigem, como se no
estivesse olhando para cima e sim para baixo, atravs de um abismo to
largo que nada poderia atravess-lo -aquela cidade ficava a um universo
inteiro de distncia. Mas alguma coisa movia-se atravs do abismo, e, ao
tentar focalizar a viso no momento, ela se sentiu tonta, porque a
coisinha que se movia no fazia parte da Aurora Boreal ou do outro
universo atrs da Aurora; era no cu, acima dos telhados da cidade.
Quando conseguiu distinguir claramente, ela havia sado inteiramente do
transe e a cidade celeste tinha desaparecido. A coisa voadora
aproximou-se e rodeou o navio com as asas estendidas. Depois desceu e
pousou com rpidos movimentos das asas poderosas, parando no convs a
poucos metros de Lyra.  luz da Aurora, ela viu um pssaro enorme, um
lindo ganso cinzento com a cabea coroada por um claro de puro branco.
Mas no era um pssaro: era um daemon, embora no houvesse pessoa alguma
 vista. Isso encheu Lyra de grande medo. O pssaro perguntou: -Onde
est Farder Coram? E de repente Lyra compreendeu quem devia ser: o
daemon de Serafina Pekkala, a rainha do cl, a bruxa amiga de Farder
Coram. Gaguejou em resposta: -Eu... Ele est... Vou chamar. Virou-se e
desceu a escada aos tropeos; abriu a porta da cabine que Farder Coram
ocupava e falou para a escurido: -Farder Coram! O daemon da bruxa
apareceu! Est esperando no convs. Voou at aqui sozinho, eu vi quando
ele vinha pelo cu... O ancio pediu: -Pea para ele esperar no convs
de r, minha filha. O ganso avanou majestosamente para a popa do navio,
onde olhou em volta, ao mesmo tempo elegante e selvagem, #201 causando
uma mistura de terror e fascinao em Lyra, que tinha a sensao de
estar falando com um fantasma. Ento Farder Coram apareceu, enrolado em
suas roupas de frio, seguido de perto por John Faa. Os dois velhos
fizeram uma mesura respeitosa, e seus daemons tambm cumprimentaram o
visitante. -Saudaes -disse Farder Coram. -Estou feliz e orgulhoso por
v-lo de novo, Kaisa. Agora, gostaria de entrar, ou prefere ficar aqui
ao ar livre? -Eu prefiro ficar ao ar livre, obrigado, Farder Coram. Vai
ficar aquecido por algum tempo aqui? Os bruxos e seus daemons no
sentiam frio, mas sabiam que os outros humanos sentiam. Farder Coram
assegurou que estavam todos bem agasalhados e perguntou: -Como vai
Serafina Pekkala? -Ela manda lembranas, Farder Coram, est muito bem e
forte. Quem so estas duas pessoas? Farder Coram apresentou os dois. O
daemon-ganso olhou atentamente para Lyra. -J ouvi falar desta criana
-declarou. -As bruxas conversam sobre ela. Ento vieram guerrear?
-Guerrear, no, Kaisa. Viemos libertar as crianas que nos roubaram. E
espero que as bruxas nos ajudem. -Nem todas iro ajudar. Alguns cls
esto trabalhando com os caadores do P. - assim que vocs chamam o
Conselho de Oblao? -No sei o que possa ser esse Conselho. Eles so
caadores do P. Vieram para a nossa regio h dez anos com instrumentos
filosficos. Pagaram-nos para permitir que construssem estaes em
nossas terras e nos trataram com cortesia. -Que P  esse? #202 -Ele vem
do cu. Alguns dizem que sempre existiu; outros, que est caindo agora.
O certo  que quando as pessoas tomam conscincia dele, ficam
apavoradas, e no descansam at descobrirem o que . Mas nada disso
interessa s bruxas. -E onde esto agora esses caadores do P? -Quatro
dias a nordeste daqui, num lugar chamado Bolvangar. Nosso cl nunca fez
acordo com eles, e por causa da nossa antiga dvida com voc, Farder
Coram, vim mostrar como encontrar esses caadores do P. Farder Coram
sorriu, e John Faa bateu palmas com satisfao. -Muitssimo obrigado,
senhor- disse ao ganso. -Mas diga-nos uma coisa: sabe algo mais sobre
esses caadores do P? Que  que eles fazem nessa tal de Bolvangar?
-Construram edifcios de metal e concreto, e algumas cmaras
subterrneas. Queimam lcool de carvo, que trazem com muita despesa.
No sabemos o que fazem, mas nesse lugar, e por muitos quilmetros em
volta, o ar est cheio de dio e de medo; as bruxas conseguem ver estas
coisas onde os humanos no conseguem. Os animais tambm ficam de longe.
Nenhum pssaro voa l; os lemingues e as raposas fugiram. Da o nome
Bolvangar: as campinas do mal. Eles no chamam assim: chamam de Estao
Experimental. Mas para todo mundo  Bolvangar . -E como se defendem?
-Eles tm uma companhia de trtaros do Norte armados de rifles. So bons
soldados, mas no tm prtica, porque ningum jamais atacou o posto.
Alm disso,  volta do terreno, h uma cerca de arame com energia
anbrica. Pode haver outras defesas que no conhecemos, pois, como eu
expliquei, isso no nos interessa. Lyra estava louca para fazer uma
pergunta; o daemon-ganso sentiu isso e olhou para ela como se lhe desse
permisso para perguntar. #203 -Por que as bruxas falam de mim? -ela
quis saber. -Por causa do seu pai e do conhecimento que ele tem dos
outros mundos -respondeu o daemon. Aquilo surpreendeu os trs. Lyra
olhou para Farder Coram, que lhe retribuiu o olhar com um leve espanto,
e para John Faa, cuja expresso era preocupada. -Outros mundos?-repetiu.
-Perdoe-me, senhor, mas que mundos seriam esses? Est falando das
estrelas? -Claro que no. -Talvez o mundo dos espritos? -arriscou
Farder Coram. -Tambm no. - a cidade nas luzes, no ? -disse Lyra. O
ganso virou para ela a sua majestosa cabea. Tinha os fios negros
rodeados por uma linha fina de puro azul-celeste, e seu olhar era
intenso. -Sim -respondeu. -H milhares de anos as bruxas sabem dos
outros mundos. Eles s vezes podem ser vistos nas Luzes do Norte. No
fazem parte deste universo; at mesmo as estrelas mais distantes fazem
parte deste universo, mas as luzes nos mostram outro universo,
inteiramente diferente. No  mais distante, e sim misturado a este.
Aqui, neste convs, existem milhes de outros universos que no sabem
uns dos outros... Ele ergueu as asas e estendeu-as, antes de tornar a
dobr-las. -Acabei de esbarrar em outros dez milhes de mundos, e eles
nem sabem. Estamos to prximos quanto de ns mesmos, mas no podemos
tocar, ver ou ouvir esses outros mundos, a no ser nas Luzes do Norte.
-E por que l? -quis saber Farder Coram. -Porque as partculas
carregadas na Aurora Boreal tm a propriedade de afinar a matria deste
mundo, de modo que por um momento conseguimos ver atravs dele. As
bruxas sempre souberam disso; mas raramente falamos sobre o assunto.
#204 -Papai acredita nisso -Lyra afirmou. -Eu sei, porque ouvi ele
falando e mostrando figuras sobre a Aurora Boreal. -Isso tem alguma
coisa a ver com o P? -perguntou John Faa. -Quem sabe? -fez o
daemon-ganso. -S posso lhes dizer que os caadores do P tm medo dele
como se fosse um veneno mortal. Foi por isso que aprisionaram Lorde
Asriel. -Mas por qu? -Lyra perguntou. -Eles acham que ele pretende usar
o P de alguma forma para fazer uma ponte entre este mundo e o mundo do
outro lado da Aurora. Lyra sentia a cabea muito leve. Ouviu Farder
Coram perguntar: -E ele pretende mesmo? -Pretende, sim -respondeu o
daemon-ganso. -Eles no acreditam que ele consiga, acham que ele  louco
por acreditar em outros mundos. Mas  verdade, esta  a inteno dele. E
ele  uma figura to forte que eles ficaram com medo que ele fosse
atrapalhar os planos deles, de modo que fizeram um pacto com os ursos de
armadura para captur-lo e mant-lo prisioneiro na fortaleza de
Svalbard. Alguns dizem que como parte do trato eles ajudaram o novo
urso-rei a chegar ao trono. Lyra perguntou: -As bruxas desejam que ele
faa essa ponte? Esto a favor dele, ou contra ele? -Esta  uma pergunta
com uma resposta complicada demais. Em primeiro lugar, as bruxas no so
unidas; h diferenas de opinio entre ns. Em segundo lugar, aponte de
Lorde Asriel ter influncia numa guerra que existe no momento entre
algumas bruxas e vrias outras foras, algumas no mundo dos espritos. A
posse dessa ponte, se ela algum dia existisse, daria uma vantagem enorme
a quem a possusse. Em terceiro lugar, o cl de Serafina Pekkala, o meu
cl, ainda no faz parte de qualquer #205 aliana, embora esteja
sofrendo grande presso para se declarar de um lado ou do outro. Sabem,
so questes de alta poltica, difceis de responder. -E os ursos, de
que lado eles esto? -Lyra perguntou. -Do lado de quem lhes pagar. No
tm o menor interesse nesses assuntos; no tm daemons; no se preocupam
com os problemas humanos. Pelo menos  como os ursos costumavam ser, mas
ouvimos dizer que o novo rei est disposto a mudar os velhos hbitos...
De qualquer maneira, os caadores do P pagaram a eles para aprisionar
Lorde Asriel, e eles vo fazer isso at a ltima gota de sangue do corpo
do ltimo urso vivo. -Mas no de todos! -protestou Lyra. -Existe um que
no est em Svalbard.  um urso renegado, e ele vai com agente. O ganso
dirigiu a Lyra outro de seus olhares penetrantes. Desta vez ela sentiu a
fria surpresa dele. Farder Coram remexeu-se desconfortavelmente e disse:
-Na verdade, Lyra, acho que ele no vai. Ouvimos dizer que ele est
cumprindo pena de trabalhos forados; no est livre, como pensamos. At
ser liberado, ele no poder ir conosco, com ou sem armadura, que,
alis, ele no vai conseguir de volta. -Mas ele disse que foi enganado!
Fizeram ele ficar bbado e roubaram a armadura dele! -Ns ouvimos uma
histria diferente -John Faa contestou. -Ouvimos dizer que ele  um
malandro perigoso, isto sim. Lyra ficou to indignada que mal conseguiu
falar: -Se o aletmetro diz alguma coisa, eu sei que  verdade. Eu
perguntei, e ele disse que o urso estava dizendo a verdade, que ele foi
mesmo enganado e so eles que esto mentindo, no ele. Eu acredito nele,
Lorde Faa! Farder Coram, voc tambm viu o urso e acredita nele, no ?
-Eu pensei que acreditasse, filha. Mas no tenho tanta certeza quanto
voc. #206 -Mas de que  que eles tm medo? Esto achando que ele vai
sair matando as pessoas assim que estiver de armadura? Ele podia matar
um monte delas agora! -E matou -disse John Faa. -Bom, no um monte, mas
algumas. Quando tiraram sua armadura, ele saiu em busca dela; arrombou a
delegacia e o banco e nem sei mais o qu, e pelo menos dois homens
morreram. S no foi morto a tiros por causa da sua habilidade
fantstica com metais; queriam us-lo como operrio. -Como escravo!
-protestou Lyra com veemncia. - No tinham esse direito! -Seja como
for, podiam ter matado o urso por causa dos homens que ele liquidou, e
no mataram. Ele foi condenado a trabalhos forados no interesse da
cidade at pagar os estragos e a indenizao pelos assassinatos. Farder
Coram interveio: -John, no sei o que voc acha, mas acredito que nunca
vo lhe devolver a tal armadura. Quanto mais tempo ele ficar preso, mais
zangado vai estar quando tiver a armadura de volta. -Mas se ns lhe
devolvermos a armadura, ele vai com a gente e nunca mais vai incomodar a
cidade -disse Lyra. -Eu prometo, Lorde Faa. -E como  que vamos fazer
isso? -Eu sei onde ela est! Houve um silncio, durante o qual todos os
trs tomaram conscincia do daemon da bruxa olhando fixamente para Lyra.
Os trs se voltaram para ele, inclusive seus prprios daemons, que at
ento tinham mantido a extrema delicadeza de manter os olhos afastados
de to singular criatura ali presente sem seu corpo. -Voc no vai ficar
surpresa em saber que o aletmetro  a outra razo de as bruxas estarem
interessadas em voc, Lyra. Nosso cnsul nos contou sua visita hoje de
manh. Acredito que foi o Dr. Lanselius quem lhe falou do urso. #207
-Foi, sim -disse John Faa. -Lyra e Farder Coram foram falar com ele.
Acho que o que Lyra diz  verdade, mas se ns agirmos contra a lei dessa
gente, s vamos conseguir entrar em briga com eles, e o que devamos
estar fazendo  ir para essa tal de Bolvangar, com ou sem urso. -Ah, mas
voc no viu esse urso, John -protestou Farder Coram. -E eu acredito em
Lyra. Podamos nos responsabilizar por ele, talvez. Ele pode fazer uma
grande diferena. -Que  que o senhor acha? -John Faa perguntou ao
daemon da bruxa. -Tivemos pouco contato com os ursos. Os desejos deles
so to estranhos para ns quanto os nossOs para eles. Se esse urso  um
renegado, pode ser menos confivel do que dizem que os ursos so. Vocs
vo ter que resolver sozinhos. -Est certo -disse John Faa em tom firme.
-Mas agora, senhor, pode nos dizer como chegar a Bolvangar? O
daemon-ganso comeou a explicar. Falou em vales e montes, na linha de
rvores e na tundra, nas estrelas. Lyra escutOU durante algum tempo e
depois recostou-se na cadeira, com Pantalaimon enrolado em seu pescoo,
e pensou na grandiosa viso que o daemon-ganso trouxera consigo. Uma
ponte entre dois mundos... Aquilo era muito mais esplndido do que ela
poderia esperar! E somente seu maravilhoso pai poderia ter concebido
tudo isso. Assim que tivessem resgatado as crianas, ela iria a Svalbard
com o urso para levar o aletmetro a Lorde Asriel, usando-o para ajudar
a libert-lo; e os dois juntos construiriam aponte e seriam os primeiros
a atravessar... Em algum momento durante a noite, John Faa deve ter
carregado Lyra para a cama dela, porque era onde ela estava ao acordar.
O sol fraco estava em sua posio mais alta, apenas o espao de uma mo
acima do horizonte, de modo que devia ser quase meio-dia; #208 breve,
quando se aproximassem mais do Norte, no haveria sol algum. Ela
vestiu-se depressa e correu para o convs, onde nada de especial estava
acontecendo. Todos os suprimentos tinham sido descarregados, trens e
juntas de ces haviam sido alugados e aguardavam a partida; tudo estava
pronto, e nada se movia. A maioria dos gpcios estava sentada em volta
de compridas mesas de madeira numa taverna cheia de fumaa defronte ao
mar, comendo rosquinhas e bebendo caf forte e doce sob os estalidos de
algumas antiquadas lmpadas anbricas. -Onde est Lorde Faa? -ela
perguntou, sentando-se com Tony Costa e os amigos dele. -E Farder Coram?
Eles foram pegar a armadura do urso? -Eles esto conversando com o
Alcaide.  assim que eles chamam o governador. Voc viu esse tal urso,
Lyra? -Vi, sim! Ela se ps a explicar tudo sobre o urso. Enquanto ela
falava, mais algum puxou uma cadeira e juntou-se ao grupo. -Quer dizer
que voc falou com o velho Iorek? - perguntou. Lyra olhou com surpresa
para o recm-chegado. Tratava-se de um homem alto e magro, com um bigode
preto fino e olhos azuis apertados, e uma eterna expresso de
distanciamento, de cinismo e de estar achando graa nas coisas. Ela
ficou instantaneamente impressionada com ele, mas sem saber se gostava
dele ou no. O daemon dele era uma lebre humilde, magra e com a mesma
aparncia valente que ele tinha. O homem estendeu a mo, que ela apertou
com cautela. -Lee Scoresby -ele se apresentou. -O aerstata! -ela
exclamou. -Onde est o seu balo? Posso subir nele? -No momento, ele
est embalado, senhorita. Voc deve ser a famosa Lyra. Que foi que achou
de Iorek Byrnison? #209 -Conhece ele? -Lutei ao lado dele na campanha da
Tunguska. Droga, conheo Iorek h anos. Os ursos so criaturas difceis,
mas aquele  um problema, sem dvida. Digam-me, algum dos cavalheiros
est disposto a um jogo de azar? Um baralho surgiu do nada na mo dele.
Ele o manejou com destreza. -Bom, j ouvi falar da habilidade que seu
povo tem com as cartas -Lee Scoresby declarou enquanto cortava e
embaralhava as cartas com uma das mos e com a outra pescava um charuto
no bolso da camisa. -Ento achei que no iam negar a um pobre viajante
texano a chance de jogar contra a sua habilidade e ousadia no campo de
batalha de papelo. Que  que dizem, cavalheiros? Os gpcios tinham
orgulho de sua habilidade com as cartas, e vrios homens se interessaram
e aproximaram as cadeiras. Enquanto resolviam com Lee Scoresby que tipo
de jogo seria e quanto apostariam, o daemon dele mexia as orelhas para
Pantalaimon, que compreendeu e saltou para o lado dele como um esquilo.
Ele estava falando tambm para Lyra, naturalmente, e Lyra escutou-o
dizer baixinho: -V direto ao urso e fale direto com ele. Assim que
souberem o que est acontecendo vo levar a armadura dele para outro
lugar . Lyra levantou-se, levantou sua rosquinha consigo, e ningum
percebeu; Lee Scoresby j estava distribuindo as cartas e todos olhavam
com suspeita para as mos dele. Na luz fraca daquela tarde interminvel,
ela chegou ao entreposto de trens. Era uma coisa que ela sabia que
tinha que fazer, mas sentia-se inquieta, e com medo tambm. Do lado de
fora do maior dos barraces de concreto, o grande urso estava
trabalhando, e Lyra ficou olhando junto ao porto aberto. Iorek Byrnison
estava desmontando um trator movido a gs que tinha dado uma trombada; a
cobertura de metal #210 do motor estava retorcida e rasgada, e um eixo
curvava-se para cima. O urso levantou o metal como se fosse papelo,
virando-o nas mos enormes, como se estivesse testando o peso, antes de
colocar uma pata traseira num canto e depois esticar toda a folha de
metal de tal modo que as amassaduras desapareceram e a forma original
foi restaurada. Encostando-o  parede, ele levantou o trator com uma das
patas e deitou-o de lado, antes de inclinar-se para examinar o eixo
empenado. Neste momento, avistou Lyra. Ela sentiu uma onda gelada de
medo, por ele ser to poderoso e desconhecido. Ela o contemplava atravs
da cerca de tela a uns 30 metros de distncia, e cnscia de que ele
conseguiria cobrir essa distncia em um ou dois saltos e rebentar a
cerca como se fosse uma teia de aranha, ela quase virou-se para fugir.
Mas Pantalaimon disse: -Pare! Deixe que eu vou falar com ele. Ele tomou
a forma de uma gaivota e sem esperar resposta dela voou por cima da
cerca para o solo gelado do outro lado. Havia um portozinho aberto, e
Lyra poderia t-lo seguido, mas ficou para trs. Pantalaimon olhou para
ela e virou um texugo. Ela sabia o que ele estava fazendo. Os daemons
no podiam se afastar mais de alguns metros de seus humanos, e se ela
ficasse junto  cerca e ele continuasse um pssaro, ele no conseguiria
chegar perto do urso; portanto, ele ia ter que fazer fora. Ela se
sentiu infeliz e irritada. As patas do texugo enfiaram-se na terra, e
ele avanou. Era um sentimento muito estranho e doloroso quando o daemon
de uma pessoa forava a ligao entre os dois; em parte, uma dor fsica
no fundo do peito; em parte, uma tristeza e um amor intensos. E ela
sabia que o mesmo acontecia com ele. Todos testavam isso quando eram
crianas: ver a distncia que conseguiam colocar entre os dois, tornando
a reduzi-la depois com intenso alvio. Ele forou um pouco mais. -No,
Pan! #211 Mas ele no parou. O urso observava, imvel. A dor no corao
de Lyra ficava cada vez mais insuportvel, e um soluo subiu-lhe 
garganta. -Pan... Ela ento atravessou o porto e correu para ele pela
lama gelada; ele transformou-se num gato-do-mato e saltou para o colo
dela; os dois ficaram fortemente abraados, ambos soltando trmulos
suspiros de infelicidade. -Pensei que voc ia mesmo... -No... -Incrvel
como doeu... Ento ela enxugou as lgrimas com raiva e fungou com fora;
ele aninhou-se nos braos dela, e ela tomou conscincia de que preferia
morrer do que deixar que os dois se separassem e enfrentar aquela
tristeza outra vez; ela enlouqueceria de sofrimento e terror. Mesmo
quando ela morresse, eles continuariam juntos, como os Catedrticos na
cripta da Jordan. Ento a menina e seu daemon olharam para o urso
solitrio. Ele no tinha um daemon; estva sozinho, sempre estaria
sozinho. Ela sentiu uma onda de tamanha piedade por ele que quase
estendeu a mo para tocar no plo dele, e apenas o senso de cortesia
para com aqueles olhos frios e ferozes a impediu. -Iorek Byrnison -ela
chamou. -Sim? -Lorde Faa e Farder Coram foram tentar pegar sua armadura.
Ele no se moveu nem falou. Estava claro o que pensava das chances dos
dois homens. -Mas eu sei onde ela est -continuou a menina. -Se eu lhe
contar, talvez voc mesmo possa ir pegar, no sei. -Como  que voc sabe
onde ela est? -Eu tenho um leitor de smbolos. Acho que eu devia lhe
contar, Iorek Byrnison, j que foram eles que enganaram voc. #212 No
acho isso direito. Eles no deviam ter agido assim. Lorde Faa vai
discutir com o Alcaide, mas provavelmente no vo querer devolver sua
armadura; assim, se eu lhe contar, voc vem com a gente e ajuda a
libertar as crianas de Bolvangar? -Vou. -Eu... -Ela no queria ser
intrometida, mas no conseguia controlar sua curiosidade. -Por que voc
simplesmente no faz uma armadura com todo este metal, Iorek Byrnison?
-Porque no adianta. Veja. -Ele levantou a capa do motor com uma das
mos e com as garras da outra mo rasgou o metal como se fosse papel.
-Minha armadura  feita de ferro-celeste* especialmente para mim. A
armadura de um urso  a alma dele, assim como o seu daemon  a sua alma.
Voc poderia livrar-se do seu daemon e colocar no lugar um boneco cheio
de serragem?  a mesma coisa. Agora, onde est minha armadura? -Escute,
voc vai ter que prometer no se vingar. Eles erraram quando tiraram sua
armadura, mas voc vai ter que aguentar. -Est bem. Sem vingana. Mas se
eles tentarem me impedir de pegar minha armadura, vo morrer. -Est
escondida no poro da casa do padre. Ele acha que tem um esprito dentro
dela e anda tentando expulsar esse esprito. Mas ela est l. Ele
ergueu-se nas patas traseiras e virou-se para o oeste, de modo que os
ltimos raios do sol tingiram seu focinho de um amarelo esbranquiado e
brilhante no meio da penumbra. Ela sentia a fora emanar da enorme
criatura como ondas de calor. -Tenho que trabalhar at o pr-do-sol -ele
declarou. -Hoje de manh, dei a minha palavra ao dono daqui. Ainda estou
devendo alguns minutos de trabalho. * Ferro-celeste: traduo literal de
sky-iron. (N.T.) #213 -Aqui onde eu estou o sol j se ps -ela afirmou,
pois o sol tinha desaparecido atrs do promontrio a sudoeste. Ele ficou
de quatro. - verdade -disse, com o rosto agora na sombra, como o dela.
-Qual  o seu nome, filha? -Lyra Belacqua. -Ento tenho uma dvida com
voc, Lyra Belacqua -ele afirmou. Virou-se e afastou-se, atravessando o
solo congelado com tanta rapidez que Lyra mal conseguiu acompanh-lo,
mesmo correndo. Mas ela correu, e Pantalaimon voou como uma gaivota para
ver aonde o urso ia e gritar instrues para ela. Iorek Byrnison saiu
correndo do entreposto e desceu a ruela estreita, virando na rua
principal da cidade; passou em frente ao jardim da residncia do Alcaide
-onde uma bandeira pendia no ar imvel e uma sentinela marchava
rigidamente de um lado para outro -e desceu a colina, passando pelo
final da rua onde o Cnsul das Bruxas morava. A essa altura a sentinela
percebera o que estava acontecendo e tentava decidir o que fazer, mas
Iorek Byrnison j havia virado uma esquina perto do porto. As pessoas
paravam para olhar ou saam do caminho dele. A sentinela deu dois tiros
para o alto e saiu correndo morro abaixo atrs do urso, estragando a
cena ao escorregar na ladeira cheia de gelo, s recuperando o equilbrio
depois de agarrar-se a uma grade. Lyra no vinha muito atrs; quando
passou pela casa do Alcaide, ela viu vrias figuras saindo para o ptio
para ver o que estava acontecendo, e imaginou ter visto Farder Coram
entre elas; mas passou depressa, correndo rua abaixo na direo da
esquina por onde a sentinela nesse momento desaparecia, seguindo o urso.
A casa do padre era mais velha do que a maioria, e feita de tijolos, um
material de alto preo. Trs degraus levavam  porta da rua, que agora
pendia de lado, e de dentro da casa vinham #214 gritos e o barulho de
madeira despedaada. A sentinela hesitou do lado de fora, o rifle de
prontido; mas ao ver que as pessoas comeavam a agrupar-se na calada e
a observar das janelas, o homem decidiu que tinha que agir e deu um tiro
para o alto antes de entrar correndo. No momento seguinte, a casa
inteira pareceu estremecer. Em trs janelas, as vidraas estilhaaram e
uma telha deslizou do telhado, e ento uma criada saiu correndo da casa,
aterrorizada, o galo que era o seu daemon atrs dela, batendo as asas.
Soou outro disparo dentro da casa, e ouviu-se um rugido feroz que fez a
criada gritar. Ento o prprio padre saiu como se tivesse sido
arremessado de um canho, com seu daemon-pelicano de penas arrepiadas e
expresso de orgulho ferido. Lyra escutou ordens gritadas e virou-se ao
ver um peloto de policiais armados surgir correndo da esquina, alguns
com pistolas e outros com rifles, e logo atrs vinhaJohn Faa e a figura
gorducha e nervosa do Alcaide. O som de algo que se partia fez com que
todos olhassem para a casa. Uma janela ao nvel do solo, obviamente
dando para um poro, foi arrancada ruidosamente. A sentinela que tinha
seguido Iorek Byrnison para dentro da casa saiu l de dentro disparada e
parou de frente para a janela do poro com o rifle em posio de tiro; e
ento a janela escancarou-se com violncia e por ela surgiu Iorek
Byrnison, o urso de armadura. Sem ela, ele inspirava respeito; com ela,
inspirava terror. A armadura era vermelho-ferrugem e toscamente montada:
grandes folhas e placas de metal descolorido e marcado, que rangiam e
raspavam umas nas outras ao se sobreporem. O elmo era pontudo como o
focinho do dono, com fendas no lugar dos olhos, e deixava as mandbulas
de fora para que ele usasse os dentes. A sentinela disparou vrios
tiros, e os policiais tambm apontaram as armas, mas Iorek Byrnison
simplesmente jogou longe as balas com uma sacudidela, como se fossem
gotas de #215 chuva; lanou-se para a frente em meio ao rangido do metal
e derrubou a sentinela antes que esta pudesse fugir. O daemon da
sentinela, uma cadela husky, jogou-se sobre a garganta do urso, mas este
deu-lhe a ateno que daria a uma mosca; puxando a sentinela para si com
uma das patas, ele inclinou-se e enfiou a cabea do homem entre os
dentes. Lyra sabia exatamente o que ia acontecer a seguir: ele ia
esmagar a cabea da sentinela como um ovo, e haveria uma luta sangrenta,
mais mortes, mais atraso; e eles nunca se livrariam, com ou sem o urso.
Sem pensar, ela lanou-se para a frente e colocou a mo no nico local
vulnervel na armadura do urso -o buraco que aparecia entre o elmo e a
grande placa dos ombros quando ele baixava a cabea -, onde ela entrevia
a pelagem branco-amarelada entre as bordas enferrujadas. A menina enfiou
os dedos l dentro, e Pantalaimon no mesmo instante voou para o local e
virou um gato-do-mato, agachado, pronto para defend-la; mas Iorek
Byrnison ficou imvel, e os soldados no atiraram. Em veemente cochicho,
ela lhe disse: -Iorek! Escute! Voc tem uma dvida comigo, certo? Pojs
agora pode pagar. Faa o que eu peo: no lute com esses homens. Vamos
embora daqui. Ns precisamos de voc, Iorek, voc no pode ficar. Venha
andando comigo at o porto e no olhe para trs. Farder Coram e Lorde
Faa esto ali, deixe a conversa para eles, eles vo se sair bem. Largue
este homem e venha comigo... O urso abriu a boca lentamente. A cabea da
sentinela, sangrenta, molhada e plida como a morte, bateu no cho
quando ele desmaiou, e seu daemon ps-se a acarici-lo e acalm-lo
enquanto o urso recuava para o lado de Lyra. Ningum mais se movia.
Ficaram todos observando o urso dar as costas  sua vtima apedido da
menininha com o daemon- gato, e em seguida abriram caminho para dar
passagem a Iorek Byrnison, que com passos pesados atravessou a multido
ao lado de Lyra em direo ao porto. #216 Toda a ateno de Lyra estava
concentrada no urso; portanto, ela no viu a confuso atrs deles, o
medo e a raiva que cresceram na sentinela depois que ele se foi. Ela
caminhava ao lado dele, e Pantalaimon ia  frente dos dois, como se
abrisse caminho. Quando chegaram ao porto, Iorek Byrnison baixou a
cabea e desabotoou o elmo com uma garra, deixando-o cair sonoramente no
solo congelado. Os gpcios saram do caf, sentindo que alguma coisa
estava acontecendo, e  luz das lmpadas anbricas do convs do navio
assistiram a Iorek Byrnison despir o resto da armadura e deix-la
amontoada na beira do cais. Sem uma palavra, ele foi at a gua,
mergulhou nela sem provocar uma s ondulao e desapareceu. -Que foi que
aconteceu? -perguntou Tony Costa ao ouvir as vozes indignadas dos
moradores e da polcia descendo para o porto. Lyra contou-lhe, como
pde. -Mas para onde ele foi? -quis saber o rapaz. -Pois ele no acabou
de largar a armadura a no cho? Eles vo pegar ela de volta assim que
chegarem aqui! Lyra tambm tinha medo de que isso acontecesse, pois um
policial j vinha virando a esquina, depois outro, depois o Alcaide e o
padre, e uns 20 ou 30 espectadores, com John Faa e Farder Coram tentando
alcan-los. Mas eles pararam quando viram o grupo no cais, pois tinha
surgido mais algum: sentado sobre a armadura do urso, com um tornozelo
apoiado no joelho, via-se a figura comprida de Lee Scoresby, tendo na
mo a pistola mais comprida que Lyra j havia visto, apontando, de
maneira casual, para a ampla barriga do Alcaide. -Parece que vocs no
cuidaram direito da armadura do meu amigo -disse, em tom de bate-papo.
-E no me surpreenderia de encontrar traas nela. Agora fiquem
paradinhos #217 a, bem calminhos, e que ningum se mova at o urso
voltar com um lubrificante qualquer. Ou melhor, acho que vocs todos
podem ir para casa ler jornal. A escolha  de vocs. -Ali est ele!
-exclamou Tony, apontando para uma rampa na ponta do cais. Ali Iorek
Byrnison emergia da gua arrastando uma coisa escura atrs de si. Uma
vez em cima do cais, ele se sacudiu, soltando gua em todas as direes,
at seus plos estarem secos. Ento inclinou-se para tornar a pegar com
os dentes o objeto negro e arrastou-o at onde estava a armadura. Era
uma foca morta. -Iorek! -disse o aerstata, pondo-se de p
preguiosamente e mantendo a pistola fixa no Alcaide. -Oi! O urso ergueu
os olhos e soltou um rosnado curto, antes de rasgar com a garra uma
abertura na foca. Lyra observou, fascinada, enquanto ele esticava a pele
do animal morto e arrancava tiras de gordura, que comeou a passar em
toda a armadura, colocando mais quantidade nos lugares onde as placas se
sobrepunham em movimento. -Voc est com esta gente? -ele perguntou a
Lee Scoresby. -Claro. Acho que ns dois somos empregados deles, Iorek.
-Onde est o seu balo? -Lyra perguntou ao texano. -Embalado em dois
trens -ele informou. -A vem o patro. John Faa e Farder Coram,
juntamente com o Alcaide, desceram o cais com quatro policiais armados.
-Urso! -disse o Alcaide em voz alta e spera. -Desta vez voc tem
permisso para partir em companhia dessas pessoas. Mas fique sabendo que
se aparecer de novo dentro dos limites da cidade ser tratado sem
piedade. #218 Iorek Byrnison no lhe deu a menor ateno, mas continuou
esfregando gordura de foca em toda a armadura; o cuidado e a ateno que
ele dedicava a essa tarefa lembrou a Lyra sua prpria devoo a
Pantalaimon. Exatamente como o urso tinha dito: a armadura era a alma
dele. O Alcaide e os policiais retiraram-se, e aos poucos os
espectadores viraram-se e foram-se embora, apesar de alguns terem ficado
para assistir. John Faa levou as mos  boca e chamou: -Gpcios! Estavam
todos prontos para partir e ansiosos para seguir caminho desde que
tinham desembarcado; os trens estavam preparados, os ces a postos.
John Faa anunciou: -Hora da partida, amigos. Estamos todos reunidos e o
caminho nos espera. Sr. Scoresby, j arrumou suas coisas? -Estou pronto
para partir, Lorde Faa. -E voc, Iorek Byrnison? -Assim que vestir minha
armadura -respondeu o urso. Ele havia terminado de lubrificar a
armadura. Sem querer desperdiar a carne da foca, ergueu a carcaa nos
dentes e jogou-a sobre o tren maior de Lee Scoresby antes de vestir a
armadura. Era impressionante ver a leveza com que ele a manejava: em
certos locais, as folhas de metal tinham quase trs centmetros de
espessura, mas ele as jogava em cima de si mesmo como se fossem panos de
seda. Levou menos de um minuto, e desta vez no se ouviu um s rangido
do ferro. Assim, em menos de meia hora, a expedio seguia para o norte.
Sob um cu pontilhado de milhes de estrelas e uma lua exuberante, os
trens avanavam aos solavancos, fazendo rudo por sobre os buracos e as
pedras at chegarem  neve limpa na periferia da cidade. Ento o som
mudou, tornando-se mais regular, e os ces comearam a aumentar a
velocidade. #219 Lyra, no tren de Farder Coram, to agasalhada que s
tinha os olhos de fora, cochichou a Pantalaimon: -Est vendo Iorek? -Ele
vem caminhando ao lado do tren de Lee Scoresby -respondeu o daemon,
olhando para trs em sua forma de arminho enquanto se agarrava ao capuz
de plo de carcaju que ela usava. A frente deles, acima das montanhas ao
norte, os arcos volteios plidos das Luzes do Norte comearam a brilhar
e tremeluzir. Lyra via-as atravs dos olhos semicerrados, e teve uma
sensao sonolenta de perfeita felicidade, de estar viajando para o
norte sob a Aurora Boreal. Pantalaimon lutava contra a sonolncia dela,
mas em vo; ele ento virou um ratinho e enrodilhou-se dentro do capuz
dela. Podia contar a ela quando despertassem e provavelmente era um
animal, ou um sonho, ou um tipo qualquer de esprito local inofensivo;
mas alguma coisa estava seguindo a fila de trens, saltando com leveza
de galho em galho pelos pinheiros, e aquilo trazia at ele a preocupante
lembrana de um macaco. #220 12 O MENINO PERDIDO VIAJARAM durante vrias
horas e ento pararam para comer. Enquanto os homens acendiam as
fogueiras e derretiam neve para beber, com Iorek Byrnison observando Lee
Scoresby assar carne de foca, John Faa conversava com Lyra. -Lyra, voc
consegue enxergar o instrumento para poder ler? -perguntou. A lua j
havia se posto muito tempo antes. A luz da Aurora Boreal era mais forte
do que o luar, porm inconstante. No entanto Lyra tinha boa viso;
enfiando a mo dentro de suas peles, ela retirou a sacola de veludo
negro. -Consigo, sim -disse. -Mas de qualquer maneira j sei o lugar da
maioria dos smbolos. Que  que vou perguntar, Lorde Faa? -Quero saber
mais sobre como  que esto defendendo esse lugar, Bolvangar- ele pediu.
Sem sequer precisar pensar, ela viu que seus dedos moviam os ponteiros
apontando para o elmo, o grifo e o cadinho, e sentiu a mente escolher os
significados corretos como um complicado diagrama em trs dimenses. No
mesmo instante, o ponteiro #221 grande comeou a danar, como uma abelha
danando sua mensagem para a colmeia. Ela observava calmamente, contente
em no saber a princpio, mas ciente de que um significado estava a
caminho, e ento as coisas comearam a ficar claras. Ela deixou-o danar
at ter plena certeza. - exatamente como disse o daemon da bruxa, Lorde
Faa. H um peloto de trtaros vigiando a Estao, e eles colocaram
cercas em volta dela toda. No esperam ser atacados,  o que diz o
leitor de smbolos. Mas, Lorde Faa... -Que , minha filha? -Ele est
dizendo mais uma coisa. No prximo vale, h uma vila perto de um lago
onde as pessoas esto sendo perturbadas por um fantasma. John Faa
sacudiu a cabea com impacincia e disse: -Isso no tem importncia
agora. Deve haver todo tipo de espritos nessas florestas. Fale outra
vez sobre os trtaros. Quantos so, por exemplo? Como  que esto
armados? Lyra perguntou obedientemente e anunciou a resposta: -So 60
homens com rifles, e eles tm algumas armas maiores, uma espcie de
canho. Tm lanadores de fogo, tambm. E... todos os daemonsdeles so
lobos,  o que est dizendo. Isto causou um impacto entre os gpcios
mais velhos, aqueles que j haviam participado de combates. -Os
regimentos de Sibirsk tm daemons-lobos -disse um. John Faa acrescentou:
-Nunca vi mais ferozes. Vamos ter que lutar como tigres. E consultar o
urso; aquele ali  um guerreiro esperto. Lyra estava impaciente e disse:
-Mas, Lorde Faa, esse fantasma... Acho que  o fantasma de uma das
crianas! -Bom, mesmo que seja, Lyra, no sei o que se pode fazer sobre
isso. Lanadores de chamas, 60 rifles... Sr. Scoresby, chegue aqui um
instante, por favor. #222 Enquanto o aerstata se aproximava do tren,
Lyra saiu de fininho e foi falar com o urso. -Iorek, voc j viajou por
aqui? -Uma vez -ele respondeu. -Tem uma aldeia aqui perto, no ? -Do
outro lado da serra -ele disse, erguendo os olhos para o topo por entre
as poucas rvores. -Fica longe? -Para voc ou para mim? -Para mim.
-Longe demais. Para mim, nem um pouco. -Quanto tempo voc levaria,
ento? -Eu poderia ir e voltar trs vezes antes do prximo nascer da
lua. -Porque, Iorek, escute, eu tenho um leitor de smbolos que me diz
as coisas, entende, e ele me disse que tem uma coisa importante que eu
tenho que fazer naquela aldeia, e Lorde Faa no quer me deixar ir. Ele
quer viajar depressa, e sei que isso  importante tambm. Mas se eu no
for at l e descobrir o que , podemos nunca ficar sabendo o que os
Papes esto fazendo. O urso ficou em silncio. Estava sentado como um
humano, as enormes patas juntas no colo, os olhos escuros fixos nos
dela. Sabia que ela queria alguma coisa. Pantalaimon falou: -Pode nos
levar l e alcanar os trens depois? -Eu poderia. Mas dei a minha
palavra a Lorde Faa que ia obedecer a ele e a ningum mais. -Se eu
tivesse a permisso dele? -Lyra perguntou. -Ento sim. Ela virou-se e
voltou correndo pela neve. -Lorde Faa! Se Iorek Byrnison me levar at a
aldeia no outro lado podemos descobrir o que est havendo l e depois
alcanar os trens. Ele conhece o caminho. Eu no ia pedir, mas  como o
que eu fiz antes, Farder Coram, o senhor se lembra #223 daquele
camaleo. Na hora eu no entendi, mas era verdade, ns descobrimos logo
depois. E tenho a mesma sensao agora. No consigo entender direito o
que o leitor de smbolos est dizendo, mas sei que  importante. E Iorek
Byrnison conhece o caminho, ele disse que podia ir e voltar trs vezes
at a prxima lua, e eu estaria em segurana com ele, no ? Mas ele s
vai se tiver permisso de Lorde Faa. Houve um silncio. Farder Coram
suspirou. John Faa estava muito preocupado, os lbios apertados. Antes,
porm, que ele dissesse alguma coisa o aerstata interveio: -Lorde Faa,
se Iorek Byrnison levar a garotinha, ela vai estar to segura quanto se
estivesse aqui conosco. Todos os ursos so honestos, mas conheo Iorek
h anos e nada neste mundo vai fazer com que ele rompa a palavra dada.
Se ordenar que ele tome conta dela, ele vai fazer isto, no se preocupe.
Quanto  velocidade, ele consegue galopar horas seguidas sem se cansar.
-Mas por que no podiam ir alguns homens? -John Faa perguntou. -Bom,
eles iam ter que caminhar, porque no se pode atravessar aquela serra de
tren -Lyra respondeu. -Iorek Byrnison pode ir mais rpido do que
qualquer homem neste tipo de terreno, e sou bastante leve, de modo que
ele no vai se cansar . E prometo, Lorde Faa, prometo no demorar mais
do que o necessrio, nem dar qualquer informao sobre ns, nem correr
qualquer risco. -Tem certeza de que precisa fazer isso? Esse leitor de
smbolos no est bancando o bobo com voc? -Ele nunca brinca, Lorde
Faa, e acho que no ia conseguir bancar o bobo. John Faa esfregou o
queixo. -Bem, se tudo der certo, teremos mais alguma informao. Iorek
Byrnison! -chamou. -Est disposto a fazer o que esta menina est
pedindo? #224 -Fao o que o senhor pedir, Lorde Faa. Diga-me para levar
a garota e eu levo. -Muito bem. Leve a garota aonde ela deseja ir e faa
o que ela pedir. Lyra, agora estou dando as suas ordens, est
entendendo? -Sim, Lorde Faa. -Voc vai procurar seja o que for, e quando
tiver encontrado, volte imediatamente. Iorek Byrnison, vamos estar
viajando, de modo que vai ter que nos alcanar. O urso assentiu com a
enorme cabea. -Algum soldado na aldeia? -ele perguntou. -Vou precisar
da minha armadura? Vamos mais depressa sem ela. -No, eu tenho certeza,
Iorek. Obrigada, Lorde Faa, prometo fazer o que o senhor mandou. Tony
Costa deu-lhe um pedao de carne-seca para mascar, e com Pantalaimon
como ratinho dentro do seu capuz, Lyra subiu para as costas amplas do
urso, agarrando seus plos com suas luvas de l e prendendo os joelhos
na cintura fina e musculosa dele. A pelagem dele era maravilhosamente
espessa, e a sensao de grande poder que ela experimentou era
avassaladora. Como se ela nada pesasse, ele virou-se e saiu a galope na
direo da serra e das rvores baixas. Levou algum tempo para que ela se
acostumasse com o movimento, e ento sentiu-se invadida por um grande
entusiasmo. Estava cavalgando um urso! A Aurora Boreal estendia-se acima
deles em arcos e arabescos dourados, e  volta dela, o impiedoso frio do
Plo rtico e o silncio imenso do Norte. As patas de Iorek Byrnison mal
faziam rudo na neve. As rvores eram magras e pouco crescidas, pois
ficavam na borda da tundra, mas havia galhos secos e moitas espinhentas
no caminho. O urso passava por elas como se fossem teias de aranha.
Subiram a serra baixa entre erupes de rocha negra, e logo estavam fora
das vistas dos viajantes. Lyra queria conversar com #225 o urso, e se
ele fosse humano ela j estaria amiga dele; mas ele era to estranho,
selvagem e frio que ela sentia timidez, talvez pela primeira vez na
vida. Assim, enquanto ele seguia a galope, as pernas poderosas
movendo-se incansveis, ela ficou em silncio. Talvez ele preferisse
assim, ela pensou; ela devia parecer um filhote bagunceiro, mal sado do
ninho, aos olhos do urso de armadura. Raras vezes ela pensara em si
prpria e achava a experincia interessante, porm desconfortvel;
alis, bem parecido com cavalgar o urso. Iorek Byrnison galopava
depressa, movendo ambas as pernas de um lado do corpo ao mesmo tempo e
balanando-se de um lado para outro num ritmo forte e regular. Ela
descobriu que no podia apenas ficar agarrada a ele; precisava seguir
seus movimentos. Estavam com cerca de uma hora de viagem e Lyra
sentiu-se dura e dolorida, porm profundamente feliz, quando Iorek
Byrnison diminuiu a velocidade e parou. -Olhe para cima -ele disse. Lyra
ergueu os olhos e teve que enxug-los com o pulso, pois sentia tanto
frio que tinha lgrimas nos olhos. Quando conseguiu enxergar, ficou
boquiaberta com a viso do cu. A Aurora Boreal desbotara para um brilho
plido e trmulo, mas as estrelas brilhavam como diamantes, e atravs do
grande domo pontilhado de diamantes, centenas e centenas de minsculas
figuras negras voavam do leste e do sul em direo ao norte. -So
pssaros? -ela perguntou. -So bruxas -disse o urso. -Bruxas? Que  que
esto fazendo? -Reunindo-se para a guerra, talvez. Nunca vi tantas ao
mesmo tempo. -Conhece alguma bruxa, Iorek? -J servi a algumas delas. E
lutei contra algumas, tambm. Isto vai deixar Lorde Faa assustado. Se
elas esto indo ajudar os seus inimigos, vocs todos deviam ficar com
medo. #226 -Lorde Faa no vai ficar com medo. Voc no est com medo,
est? -Ainda no. Quando estiver, vou controlar meu medo. Mas  melhor
contarmos a Lorde Faa sobre as bruxas, porque os homens podem no ter
visto. Ele seguiu mais devagar, e ela ficou observando o cu at seus
olhos encherem-se novamente de lgrimas de frio, mas no viu terminar o
fluxo de bruxas que voavam para o norte. Finalmente Iorek Byrnison
estacou e disse: -Esta  a aldeia. A frente deles, havia uma ladeira
ngreme e acidentada, e l embaixo um punhado de construes de madeira
ao lado de uma vastido de neve muito plana, que Lyra imaginou ser o
lago congelado. Um cais de madeira mostrou que ela estava certa. Os dois
estavam a menos de cinco minutos do lugar. -Que  que voc quer fazer?
-o urso perguntou. Lyra escorregou das costas dele e teve dificuldade em
ficar de p. Seu rosto estava rgido de frio e as pernas tremiam, mas
ela agarrou-se ao plo dele e bateu os ps no cho at se sentir mais
forte. -Tem uma criana, ou um fantasma, ou uma coisa qualquer nesta
aldeia, ou talvez perto dela, no sei direito. Quero descobrir onde est
e levar essa coisa para Lorde Faa e para os outros, se eu conseguir.
Pensei que era um fantasma, mas o leitor de smbolos podia estar me
dizendo alguma coisa que no consegui entender . -Se ele est ao
relento, vai ter que encontrar um abrigo qualquer- disse o urso. -Acho
que no est morto... -disse Lyra. Mas no tinha a menor certeza. O
aletmetro havia indicado alguma coisa estranha e antinatural, o que era
alarmante; mas quem era ela? A filha de Lorde Asriel. E quem estava sob
seu comando? Um urso poderoso. Como ela podia demonstrar medo? #227
-Vamos procurar -ordenou. Tornou a montar nas costas dele, e o urso
desceu encosta abaixo, caminhando sem pressa. Os ces da aldeia
farejaram, ouviram ou sentiram a chegada deles e puseram-se a uivar
apavorantemente; e as renas em seus currais moviam-se nervosamente, os
chifres batendo uns nos outros como gravetos secos. No ar imvel,
ouvia-se de longe cada movimento. Quando chegaram  primeira casa, Lyra
olhou para a direita e para a esquerda, tentando enxergar na escurido,
pois a Aurora Boreal estava se dissipando, e a lua ainda demoraria a
nascer. Aqui e ali uma luz tremulava sob um telhado coberto de neve;
Lyra julgou ter visto rostos plidos atrs da vidraa de algumas
janelas, e ficou imaginando a surpresa deles ao verem uma criana
montada num grande urso branco. No centro da pequena aldeia, havia um
espao aberto junto . ao ancoradouro onde os botes tinham sido deixados,
parecendo protuberncias na neve. O barulho dos cachorros era
ensurdecedor; no instante em que Lyra achou que aquilo ia acordar
algum, uma porta se abrIu, e um homem SaiU segurando uma espingarda.
Seu daemon-carcaju saltou para a pilha de lenha ao lado da porta,
espalhando neve. Lyra desceu imediatamente e ficou parada entre ele e
Iorek Byrnison, lembrando-se de ter dito ao urso que no haveria
necessidade da armadura. O homem falou em palavras que ela no conseguiu
entender. Iorek Byrnison respondeu na mesma lngua, e o homem , soltou
um gemido de medo. -Ele acha que somos demnios. Que  que eu digo? -
quis saber o urso. -Diga-lhe que no somos demnios, mas temos amigos
que so. E estamos procurando... s uma criana. Uma criana estranha.
Diga isto a ele. #228 Assim que o urso disse isto, o homem apontou para
a direita, indicando um lugar distante, e falou rapidamente. Iorek
Byrnison traduziu: -Ele quer saber se viemos levar a criana embora.
Esto com medo dela. Tentaram fazer que ela fosse, mas ela sempre volta.
-Diga que vamos levar a criana com a gente, mas que eles foram muito
maus em trat-la assim. Onde est ela, afinal? O homem explicou,
gesticulando animadamente. Lyra teve medo de que ele disparasse a arma
por acidente, mas assim que acabou de falar ele correu de volta para
casa e fechou a porta. Lyra via rostos em todas as janelas. -Onde est a
criana? -perguntou. -Na peixaria -disse o urso, virando-se para seguir
na direo do ancoradouro. Lyra seguiu-o. Estava horrivelmente nervosa.
O urso dirigia-se ao barraco estreito de madeira, erguendo a cabea
para farejar, e quando chegou  porta, ele estacou e disse: -A dentro.
O corao de Lyra batia to depressa que ela mal conseguia respirar.
Levantou a mo para bater na porta e ento, achando ridculo esse gesto,
respirou fundo para chamar, mas percebeu que no sabia o que ia dizer.
Ah, estava to escuro! Devia ter levado uma lamparina... No havia
escolha, e de qualquer maneira ela no queria que o urso visse seu medo.
Ele falara em controlar o medo: era isso que ela teria que fazer. Ergueu
atira de couro de rena que segurava a porta e empurrou-a com fora. Ela
abriu-se com rudo. Lyra teve que afastar com os ps a neve em pilhada
na frente da porta antes de conseguir abrir inteiramente a porta, e
Pantalaimon em nada ajudava, correndo de um lado para outro em sua forma
de arminho, uma sombra branca sobre o solo branco, fazendo rudos de
medo. #229 -Pan, pelo amor de Deus! Vire morcego e v olhar para mIm...
Mas ele no quis, e tambm no quis falar. Ela nunca o vira assim, a no
ser na ocasio em que ela e Roger tinham trocado de lugar as moedas dos
daemons na cripta da Jordan. Agora ele estava ainda mais amedrontado que
ela. Quanto a Iorek Byrnison, o urso estava deitado na neve ali perto,
observando em silncio. -Saia da! -Lyra ordenou, o mais alto que ousou.
- Saia! No houve resposta. Ela abriu um pouco mais a porta, e
Pantalaimon saltou para os seus braos em forma de gato, cutucando-a e
dizendo: -V embora! No fique aqui! Ah, Lyra, v agora! Vire as costas!
Tentando segur-lo, ela viu que Iorek Byrnison ficava de p e virou-se
para ver uma figura correndo pelo caminho que vinha da aldeia,
carregando uma lamparina. Quando a figura se aproximou, ergueu a
lamparina para mostrar o rosto: um ancio de rosto largo e enrugado e os
olhos perdidos no meio de mil rugas. Seu daemon era uma raposa do
Artico. Ele falou, e Iorek Byrnison traduziu: -Ele diz que no  a nica
criana desse tipo. J viu outras na floresta. As vezes elas morrem
logo, s vezes no morrem. Essa a  durona, ele acha. Mas seria melhor
para ela se morresse. -Pergunte se ele pode me emprestar a lamparina
-disse Lyra. O urso falou e o homem entregou a lamparina de imediato,
assentindo vigorosamente. Ela entendeu que ele tinha vindo trazer a
lamparina para ela, e agradeceu. Ele assentiu outra vez e recuou para
longe dela, do barraco e do urso. Lyra pensou de repente: e se for o
Roger? E rezou com todas as foras para que no fosse. Pantalaimon
estava agarrado a ela, #230 novamente um arminho, as pequenas garras
enfiadas no casaco dela. Lyra ergueu a lamparina e deu um passo para
dentro do barraco, e ento viu o que era que o Conselho de Oblao
estava fazendo e qual a natureza do sacrifcio que as crianas estavam
tendo que fazer. O menininho estava encolhido de encontro  grade de
secagem com suas filas e filas de peixes pendurados, duros como tbuas.
Ele apertava ao peito um pedao de peixe seco como Lyra apertava
Pantalaimon: com ambas as mos, contra o corao; mas , era tudo que ele
tinha: um pedao de peixe seco; porque ele no tinha um daemon. Os
Papes tinham separado o daemon dele. Isso era interciso, e aquela era
uma criana seccionada! #231 13 ESGRIMA O primeiro impulso dela foi de
virar-se e sair correndo, ou ento vomitar. Um ser humano sem daemon era
como uma pessoa sem rosto, ou com as costelas  mostra e o corao
arrancado: uma coisa antinatural e estranha, que pertencia ao mundo dos
pesadelos noturnos, no ao mundo desperto e racional. De modo que Lyra
agarrou-se a Pantalaimon; sentia a cabea girar e tinha nsias de
vmito; apesar do frio intenso da noite, um suor doentio umideceu sua
carne com uma coisa ainda mais fria. -Rateira! -fez o menino. -Voc viu
a minha Rateira? Lyra no tinha dvidas do que ele queria dizer. -No
-respondeu, em voz to fraca e assustada quanto ela se sentia. -Como 
que voc se chama? -Tony Makarios -ele disse. -Onde est a Rateira? -No
sei... -ela comeou, mas teve que engolir em seco para controlar a
nusea. -Os Papes... Mas no conseguiu continuar. Teve que sair do
barraco e ir sentar-se na neve sozinha, s que naturalmente ela no
estava sozinha, nunca estaria sozinha, pois Pantalaimon estava sempre
#232 ali. Ah, ser afastada dele como aquele menininho tinha sido
afastado da sua Rateira! A pior coisa no mundo! Ela soluava, e
Pantalaimon tambm gemia, e em ambos havia uma imensa piedade e tristeza
por aquele meio-menino. Ento ela levantou-se. -Venha -chamou, em voz
trmula. -Tony, saia da. Vamos levar voc para um lugar seguro. Houve
um movimento dentro da peixaria, e ele apareceu  porta, ainda agarrado
ao peixe seco. Estava usando roupas quentes, um casaco com capuz bem
acolchoado e botas de pele, mas que aparentavam ser de segunda mo e no
lhe assentavam muito bem. Do lado de fora, sob a luz que vinha dos
rastros desbotados da Aurora Boreal e do cho coberto de neve, ele
parecia ainda mais perdido e digno de pena do que a princpio, quando
estava acocorado dentro da peixaria,  luz da lamparina. O aldeo que
trouxera a lamparina tinha recuado alguns metros, e gritou alguma coisa.
Iorek Byrnison traduziu: -Ele est dizendo que voc tem que pagar pelo
peixe. Lyra teve vontade de mandar o urso acabar com ele, mas disse
apenas: -Vamos livrar a aldeia desta criana. Eles podem muito bem dar
um peixe como pagamento. O urso falou. O homem resmungou, mas no
discutiu. Lyra colocou a lanterna na neve e pegou a mo do meio-menino
para gui-lo at o urso. Ele a acompanhou, sem mostrar surpresa ou medo
diante do grande animal branco, e quando Lyra ajudou-o a sentar-se nas
costas de Iorek, ele disse apenas: -No sei onde est a minha Rateira.
-No, nem ns, Tony -ela respondeu. -Mas ns vamos... Vamos castigar os
Papes. Vamos fazer isso, eu prometo. Iorek, ser que voc consegue me
carregar tambm? -A minha armadura pesa muito mais do que duas crianas.
#233 Ela ento subiu para o lado de Tony e ensinou-lhe a agarrar-se aos
plos longos do urso, e Pantalaimon ficou dentro do capuz dela,
aquecido, prximo e cheio de pena. Lyra sabia que a vontade de
Pantalaimon era estender o brao e acariciar o pequeno meio-menino,
lamb-lo e aquec-lo como o daemon dele teria feito; mas o grande tabu
impedia isso, naturalmente. Atravessaram a aldeia em direo  serra, e
os rostos dos aldees mostravam horror e uma espcie de alvio temeroso
ao ver aquela criatura horrivelmente mutilada ser levada embora por uma
menininha e um grande urso branco. No corao de Lyra, a repugnncia
lutava com a compaixo, e a compaixo venceu. Ela rodeou com os braos o
corpinho magro e ossudo, para que ele no casse. A viagem de volta 
caravana foi mais fria, mais difcil e mais escura, porm pareceu passar
mais depressa, apesar de tudo isso. Iorek Byrnison era incansvel, e os
movimentos que Lyra tinha que fazer para equilibrar-se tornaram-se
automticos, de modo que ela no corria perigo de cair. O corpo frio em
seus braos era to leve que de certo modo era fcil de segurar, mas por
outro lado ele estava inerte, rgido, sem se mover de acordo com os
movimentos do urso, portanto, de certo modo, ele era difcil de segurar
. De vez em quando, o meio-menino falava. -Que foi que voc disse? -Lyra
perguntou. -Eu disse que ela vai saber onde eu estou. -, vai saber,
sim, vai encontrar voc, e ns vamos encontrar ela. Segure com fora,
Tony. No estamos longe... O urso galopava. Lyra no tinha idia de como
estava cansada at alcanarem os gpcios. Os trens haviam parado para o
descanso dos ces, e de repente estavam todos ali, Farder Coram, Lorde
Faa, Lee Scoresby, todos vindo ajudar, mas recuando em silncio ao verem
a outra figura com Lyra. Ela estava to rgida que no conseguia sequer
soltar os braos que rodeavam o corpo dele, e John Faa teve que
ajud-la. #234 -Meu Deus, que  isto? -espantou-se ele. -Lyra, minha
filha, que foi que voc encontrou? -O nome dele  Tony -ela murmurou
atravs dos lbios congelados. -E levaram o daemon dele.  isso que os
Papes fazem. Os homens, temerosos, ficavam  distncia; mas o urso,
para espanto de Lyra, deu-lhes uma bronca. -Que vergonha! Pensem no que
esta criana fez! Vocs podem no ter mais coragem que ela, mas deviam
ter vergonha de mostrar que tm menos! -Tem razo, Iorek Byrnison -disse
John Faa, virando-se em seguida para dar ordens. -Atiem a fogueira e
esquentem sopa para a criana. Para as duas crianas. Farder Coram, seu
abrigo est montado? -Est, sim, John. Traga Lyra, vamos aquec-la. -E o
menino tambm -disse outra voz. -Ele pode comer e se aquecer, mesmo
no... Lyra estava tentando contar a John Faa sobre as bruxas, mas
estavam todos muito ocupados, e ela cansada demais. Depois de momentos
confusos, com vultos andando apressados de um lado para outro, ela
sentiu Pantalaimon mordiscar de leve sua orelha, e acordou com o rosto
do urso a poucos centmetros do seu. -As bruxas -disse Pantalaimon. -Eu
chamei Iorek. -Ah,  mesmo -ela resmungou. -Iorek, obrigada por me levar
e me trazer. Posso no me lembrar de contar a Lorde Faa sobre as bruxas,
de modo que  melhor voc fazer isso. Ela ouviu o urso concordar e ento
adormeceu de vez. Quando acordou, o dia estava claro -o que, naquela
regio, significava um cu plido a sudoeste e o ar cheio de neblina
cinzenta atravs da qual os gpcios moviam-se como fantasmas
corpulentos, preparando os trens e atrelando os ces. #235 Lyra via
isso tudo de dentro do abrigo do tren de Farder Coram, onde ela estava
deitada sob uma pilha de peles. Pantalaimon acordou antes dela e
experimentava a forma de uma raposa do Artico antes de reverter  sua
forma favorita de arminho. Iorek Byrnison estava dormindo na neve ali
perto, a cabea apoiada nas patas; mas Farder Coram estava de p e
atarefado, e assim que viu Pantalaimon ele veio mancando acordar Lyra.
Ela o viu chegar e sentou-se. -Farder Coram, sei o que era que eu no
conseguia entender! O aletmetro ficava dizendo "pssaro" e "no", e
isso no fazia sentido, porque significava "nenhum daemon" e eu no
sabia como isso podia ser... Que foi? -Lyra, eu no queria contar isso a
voc depois de tudo que voc fez, mas o menino morreu h uma hora. Ele
no conseguia se acomodar, no conseguia ficar num lugar; no parava de
perguntar pelo daemon, onde ele estava, se ele ia demorar; e ficava
apertando aquele pedao de peixe velho como se... Ah, no consigo falar
sobre isso, filha; mas ele finalmente fechou os olhos e ficou imvel, e
foi a primeira vez que pareceu estar em paz, pois ficou igual a qualquer
outra pessoa morta, com o daemon seguindo o curso natural. Tentaram
abrir uma cova para ele, mas o cho est duro como ferro. Ento John Faa
ordenou que fizessem uma grande fogueira e vo cremar o corpo dele, para
que ele no seja devorado pelos comedores de carnia. Minha filha, voc
fez uma coisa boa e corajosa, e estou orgulhoso de voc. Agora que
sabemos da maldade terrvel de que aquela gente  capaz, vemos nosso
dever com mais clareza. O que voc deve fazer  comer e descansar,
porque adormeceu cedo demais para se alimentar ontem  noite, e nesta
temperatura  preciso comer para no enfraquecer... Ele estava arrumando
coisas, ajeitando as peles, apertando as cordas do tren,
desembaralhando as rdeas. -Farder Coram, onde est o menino? J foi
cremado? #236 -No, Lyra, est l atrs. -Quero ir l ver. Ele no
poderia recusar, pois ela vira coisa pior do que um cadver, e isto
poderia acalm-la. De modo que, com Pantalaimon como uma lebre branca
saltitando delicadamente a seu lado, ela seguiu ao longo da fila de
trens at o local onde alguns homens empilhavam lenha. O corpo do
menino estava ao lado da trilha, coberto por um pano xadrez. Ela
ajoelhou-se e levantou o pano com a mo enluvada. Um dos homens fez
meno de impedir, mas os outros sacudiram a cabea. Pantalaimon
aproximou-se enquanto Lyra contemplava o pobre rostinho abatido. Ela
descalou uma das luvas e tocou nos olhos dele. Estavam frios como
mrmore, e Farder Coram tinha razo: o coitado do Tony Makarios no era
diferente de qualquer outro humano cujo daemon tivesse partido na morte.
Ah, se tirassem Pantalaimon dela! Ela o pegou no colo e abraou-o como
se quisesse enfi-lo dentro do corao. E tudo que o pequeno Tony tinha
era seu pobre pedao de peixe... Onde estava o peixe? Ela puxou a
coberta: o peixe no estava l. No mesmo instante ela estava de p, os
olhos brilhando de fria, interpelando os homens: -Onde est o peixe
dele? Eles pararam de trabalhar, perplexos, sem saber o que ela queria;
mas alguns dos daemons deles sabiam e se entreolharam. Um dos homens
ps-se a sorrir hesitantemente. -No ouse achar graa! Vou arrancar os
pulmes de quem rir dele! Era tudo que ele tinha, s um pedao velho de
peixe seco, era tudo que ele tinha no lugar do seu daemon para amar e
cuidar! Quem tirou o peixe dele? Onde  que ele foi parar? #237
Pantalaimon era um leopardo branco, como o daemon de Lorde Asriel, mas
ela nem reparou nisso; tudo que via era o certo e o errado. -Calma,
Lyra- disse um homem. -Calma, criana! -Quem foi que pegou? -ela tornou
a perguntar. O gpcio recuou um passo diante daquela fria. -Eu no
sabia- disse outro, em tom de arrependimento. -Pensei que era o que ele
andava comendo. Tirei da mo dele porque achei mais respeitoso. S isso,
Lyra. -Ento onde est? O homem explicou, constrangido: -Sem saber que
ele precisava do peixe, eu dei para os meus cachorros. Peo que me
perdoe. -No sou eu quem tem que perdoar,  ele -ela respondeu.
Imediatamente virou-se e tornou a ajoelhar-se, colocando a mo na face
congelada da criana morta. Ento teve uma idia, e procurou entre suas
peles. O ar frio atravessou-a quando ela abriu o casaco, mas em poucos
segundos achou o que procurava e tirou uma moeda de ouro da bolsa antes
de tornar a agasalhar-se. -Preciso da sua faca -disse ao homem que tinha
tirado o peixe; depois virou-se para Pantalaimon. -Como era o nome dele?
Pantalaimon compreendeu, naturalmente, e disse: -Rateira. Ela segurou a
moeda com fora na mo esquerda enluvada e segurando a faca como um
lpis gravou no metal o nome do daemon perdido. -Espero que isto sirva,
se eu fizer como um Catedrtico da Jordan -ela cochichou para o menino
morto. Forou os dentes dele a se abrirem o suficiente para ela enfiar a
moeda. Foi difcil, mas ela conseguiu, e conseguiu tambm #238 tornar a
fechar-lhe a boca. Ento devolveu a faca ao homem e na penumbra da manh
virou-se para ir at Farder Coram. Ele lhe deu uma caneca de sopa sada
do fogo, que ela bebericou com prazer. -Que  que vamos fazer com as
bruxas, Farder Coram? -ela quis saber. -Ser que a sua bruxa estava com
eles? -A minha bruxa? Realmente no tenho idia, Lyra. Elas podem estar
indo a qualquer lugar. A vida das bruxas  cheia de vrios tipos de
preocupaes, coisas invisveis para ns, doenas misteriosas que as
atacam e a ns no, motivos de guerra alm da nossa compreenso,
alegrias e tristezas ligadas  florescncia de pequenas plantinhas na
tundra... Mas eu gostaria de ter visto esse vo, Lyra. Gostaria de poder
ver uma coisa como essa. Agora beba a sopa toda. Quer mais? Temos um po
assando, tambm. Coma bastante, filha, porque logo partiremos. O
alimento fortaleceu Lyra, e o gelo em sua alma comeou a derreter. Com
os outros ela foi ver o pequeno meio-menino ser colocado em sua pira
fnebre, e inclinou a cabea e fechou os olhos durante as oraes feitas
por John Faa; e ento os homens aspergiram lcool de carvo e acenderam
o fogo, que num instante se alastrou. Uma vez certos de que o cadver
tinha sido todo consumido, os viajantes recomearam a jornada. Foi uma
viagem fantasmagrica: logo comeou a nevar, e num instante o mundo
estava reduzido s sombras cinzentas dos ces, os solavancos e estalidos
do tren, o frio cortante e um mar agitado de grandes flocos pouco mais
escuros do que o cu e pouco mais claros do que o solo. Atravs de tudo
isto, os ces continuaram a correr, caudas no ar, soltando vapor pela
boca. Avanavam para o norte, enquanto o plido meio-dia chegava e
passava, e o crepsculo tornava a abraar o mundo. Pararam para comer,
beber e descansar numa fenda entre os montes, e para verificar a
direo, e enquanto John Faa conversava com Lee Scoresby sobre a melhor
maneira de utilizar o balo, Lyra pensou na mosca-espi e foi #239
perguntar a Farder Coram o que havia acontecido com a lata de folhas de
fumar onde ele aprisionara o inseto. -Est bem guardada -ele contou.
-Est no fundo daquela valise, mas no d para abrir; l no navio eu
soldei a tampa, como falei que ia fazer. No sei o que vamos fazer com
ela, para dizer a verdade; talvez jogar no fundo de uma mina de fogo,
talvez isto resolvesse. Mas no precisa se preocupar, Lyra. Enquanto eu
estiver com ela, voc est segura. Na primeira oportunidade, ela enfiou
o brao dentro da lona congelada da valise e tirou a latinha. Antes
mesmo de toc-la, ela sentiu o zumbido. Enquanto Farder Coram conversava
com os outros chefes, ela levou a lata a Iorek Byrnison e explicou sua
idia. Aquilo lhe ocorrera quando ela se lembrou da facilidade com que
ele rasgara o metal da cobertura do motor. Ele escutou, e ento pegou a
tampa de uma lata de biscoitos e habilmente enrolou-a formando um
cilindro pequeno e chato. Ela ficou impressionada com a habilidade das
mos dele: ao contrrio da maioria dos ursos, ele e os outros da sua
espcie tinham garras-polegares opostas, com as quais podiam segurar com
firmeza as coisas; alm disso, ele possua um sentido inato da fora e
flexibilidade dos metais, o que significava que bastava erguer um pedao
de metal, flexion-lo desta ou daquela maneira, e ento raspar nele um
crculo com agarra para marcar o lugar de dobrar. Foi o que fez,
dobrando as laterais at formar uma caixinha redonda e uma tampa que lhe
servisse. A pedido de Lyra, ele fez duas dessas: uma do mesmo tamanho da
lata de folhas de fumar e outra onde coubesse a lata e uma boa
quantidade de plos e musgo bem comprimidos para abafar o zumbido.
Fechada, a caixa tinha o mesmo tamanho e formato do aletmetro. Feito
isto, ela sentou-se ao lado de Iorek Byrnison enquanto o urso mastigava
um pernil de rena congelado e duro como madeira. #240 -Iorek,  ruim no
ter daemon? Voc no se sente solitrio? -ela quis saber. -Solitrio?
-ele repetiu. -No sei. Eles me dizem que est frio: no sei o que 
frio, porque no sinto frio. Do mesmo modo, no sei o que  solido. Os
ursos foram feitos para ficarem sozinhos. -E os ursos de Svalbard? Eles
so milhares, no so? Foi o que ouvi dizer. Ele no respondeu, mas
partiu a carne ao meio com um som como um tronco rachando. -Perdo,
Iorek -ela disse. -No quis ofender.  que fico curiosa. Sabe, fico
ainda mais curiosa sobre os ursos de Svalbard por causa do meu pai.
-Quem  o seu pai? -Lorde Asriel. E ele est preso em Svalbard, entende?
Acho que os Papes traram ele e pagaram aos ursos para que ele fique
preso l. -No sei. No sou um urso de Svalbard. -Pensei que era...
-No. J fui um urso de Svalbard, mas agora no sou. Fui expulso como
castigo porque matei outro urso. Ento tiraram o meu cargo, a minha
fortuna e a minha armadura, e me mandaram viver na fronteira do mundo
humano e lutar quando algum me contratasse para isso, ou trabalhar em
coisas brutais e afogar as lembranas no lcool. -Por que matou o outro
urso? -De raiva. Entre os ursos existem maneiras de afastar a raiva de
um pelo outro, mas eu estava fora de meu controle. De modo que matei ele
e fui castigado com justia. -E voc era rico e importante -disse Lyra,
impressionada. -Exatamente como o meu pai, Iorek! Foi exatamente o que
aconteceu com ele depois que eu nasci; ele tambm matou algum e ento
tiraram toda a fortuna dele. Foi muito antes de #241 virar prisioneiro
em Svalbard. No sei nada de Svalbard, a no ser que fica no Extremo
Norte...  tudo coberto de gelo? Pode-se chegar l atravessando o mar
congelado? -No partindo deste litoral. O mar s vezes congela ao sul,
s vezes no. Voc ia precisar de um barco. -Ou um balo, talvez. -, um
balo, mas ento voc ia precisar do vento certo. Ele mordeu o pernil de
rena, e uma idia louca entrou na cabea de Lyra quando ela se lembrou
de todas aquelas bruxas no cu noturno, mas nada falou sobre o assunto.
Em vez disso, fez perguntas a Iorek Byrnison sobre Svalbard e escutou
atentamente enquanto ele lhe falava das geleiras que deslizavam devagar;
das rochas e icebergs onde os lees-marinhos de presas brilhantes
reuniam-se em grupos de 100 ou mais; dos mares repletos de focas, dos
narvais batendo as compridas presas brancas acima da gua gelada; da
enorme costa escura e cercada de ferro, os penhascos com quase 500
metros de altura onde os imundos avantesmas-dos-penhascos voejavam e se
empoleiravam; das minas de carvo e minas de fogo onde os
ursos-ferreiros martelavam grandes folhas de ferro e com elas fabricavam
armaduras... -Se eles tomaram a sua armadura, Iorek, onde foi que
arranjou esta? -Eu mesmo fiz em Nova Zembla, com ferro-celeste. At
fazer isto eu estava incompleto. -Quer dizer que os ursos conseguem
fazer sua prpria alma... -disse ela. Havia muita coisa a aprender no
mundo. - Quem  o Rei de Svalbard? Os ursos tm rei? -O nome dele 
Iofur Raknison. Aquele nome disparou um alarme na mente de Lyra; ela j
havia ouvido aquele nome, mas onde? E no tinha sido pela voz de um
urso, nem de um gpcio. A voz que pronunciara esse nome era de um
Catedrtico -precisa, pedante e indolentemente #242 arrogante, uma voz
bem tpica da Faculdade Jordan. Ela tentou lembrar-se. Ah, conhecia to
bem aquela voz! E ento lembrou-se: a Sala Privativa, os Catedrticos
ouvindo Lorde Asnel. Tinha sido o Catedrtico de palmeriano quem falara
alguma coisa sobre Iofur Raknison. Ele tinha usado a palavra
"panserbjorne", que Lyra no conhecia, e na ocasio ela no sabia que
Iofur Raknison era um urso: mas que foi que havia sido dito? O rei de
Svalbard era vaidoso e podia ser adulado. Havia mais alguma coisa; se ao
menos ela conseguisse recordar... Mas muita coisa acontecera desde
ento. -Se seu pai  prisioneiro dos ursos de Svalbard, ele no vai
conseguir escapar -Iorek Byrnison declarou. -No h madeira para fazer
um barco. Por outro lado, se ele  um fidalgo, ser bem tratado. Vo lhe
dar uma casa para morar, um criado, comida e combustvel. -Os ursos
podem ser derrotados, Iorek? -No. -Ou talvez enganados? Ele parou de
mastigar e olhou diretamente para ela. Ento disse: -Voc nunca vai
derrotar os ursos de armadura. J viu a minha armadura; agora veja as
minhas armas. Largou a carne e estendeu as patas, com a palma para cima,
para que ela visse. Cada palma era coberta de pele calejada com mais de
trs centmetros de espessura, e cada garra era pelo menos to comprida
quanto a mo de Lyra, e afiada como faca. Ele deixou que ela as
apalpasse. -Um golpe pode esmagar o crnio de uma foca -ele disse. -Ou
quebrar a coluna de um homem, ou arrancar um membro. E posso morder. Se
voc no tivesse me impedido, em Trollesund, eu teria esmagado a cabea
daquele homem como um ovo. J falei da fora, agora vou falar da
esperteza; no se #243 consegue enganar um urso. Quer uma prova? Pegue
um graveto e vamos esgrimar. Ansiosa para experimentar, ela quebrou o
galho de uma moita coberta de neve, tirou todas as folhas e empunhou-o
como se fosse uma espada. Iorek Byrnison ficou sentado nas patas
traseiras,  espera. Quando estava pronta, ela o atacou, mas no quis
golpe-lo porque ele parecia muito pacfico. De modo que ficou brandindo
a arma, avanando pelos lados, sem pretender encostar nele, e ele no se
mexeu. Ela fez isso vrias vezes, e nem uma vez ele se moveu um
centmetro. Finalmente ela resolveu golpe-lo diretamente, sem fora,
mas apenas tocando a ponta do galho no estmago dele; no mesmo instante,
ele estendeu a pata e afastou o galho para o lado. Surpresa, ela tentou
novamente, com o mesmo resultado. Ele se movimentava com muito mais
rapidez e segurana do que ela. Ela tentou atingi-lo de verdade,
movimentando o pedao de pau como a arma de um espadachim, e nem uma vez
tocou no corpo dele. Ele parecia saber antes dela o que ela pretendia
fazer, e quando ela mirava a cabea dele, a enorme pata desviava o
galho. Quando ela fazia uma finta, ele no se movia. Ela ficou
exasperada e lanou-se num ataque furioso, golpe aps golpe, e nem uma
vez conseguiu enganar aquelas patas; elas estavam em toda parte, no
momento exato de aparar, no lugar exato de bloquear. Finalmente ela
ficou com medo e parou. Estava suando dentro das peles, sem flego,
exausta, e o urso continuava sentado impassivelmente. Mesmo se ela
tivesse uma espada de verdade com aponta aguada, ele estaria ileso.
-Aposto que voc consegue aparar uma bala de espingarda -ela disse,
jogando longe o galho. -Como  que consegue? -No sendo um humano -ele
respondeu. - por isso que voc nunca conseguiria enganar um urso.
Enxergamos truques e mentiras como enxergamos pernas e braos.
Conseguimos #244 ver de um modo que os humanos esqueceram. Mas voc sabe
disso; afinal, consegue entender o leitor de smbolos. -No  a mesma
coisa, ? Ela estava mais nervosa com o urso agora do que quando ele
estava furioso. -, sim -ele confirmou. -Pelo que sei, os adultos no
conseguem fazer isso. Aquilo que eu sou para os lutadores humanos voc 
para os adultos com o leitor de smbolos. -, pode ser -disse ela,
confusa e de m vontade. - Isto quer dizer que quando eu crescer vou
esquecer? -Quem sabe? Nunca tinha visto um leitor de smbolos, nem
algum que conseguisse ler um. Talvez voc seja diferente dos outros.
Ele ficou de quatro novamente e voltou a comer sua carne. Lyra tinha
desabotoado o agasalho de peles, mas agora o frio era muito, e ela teve
que fech-lo. No geral, fora um episdio inquietante. Ela estava com
vontade de consultar o aletmetro ali mesmo, mas o frio era
insuportvel, e alm disso estavam chamando por ela porque era hora de
seguir viagem. Ela pegou as latas que Iorek Byrnison tinha feito,
colocou a que estava vazia dentro da valise de Farder Coram e colocou a
que continha a mosca-espi junto com o aletmetro na sacola que levava
na cintura. Ficou contente quando se puseram em marcha. Os chefes haviam
concordado com Lee Scoresby que quando chegassem  parada seguinte iriam
inflar o balo e ele iria espionar do ar. Naturalmente Lyra estava doida
para voar com ele e, obviamente, isso foi proibido; mas ela estava
viajando no tren dele e encheu-o de perguntas. -Sr. Scoresby, como
voaria at Svalbard? #245 -Voc ia precisar de um dirigvel com um motor
a gs, alguma coisa como um zepelim, ou ento um bom vento sul. Mas eu
no teria coragem, droga. Voc j viu aquele lugar? O buraco mais feio,
triste, ruim, esquecido que pode existir. -Eu s estava pensando, se
Iorek Byrnison quisesse voltar... -Iria ser morto. Iorek  um degredado;
assim que colocasse os ps l iria ser feito em pedaos. -Como  que o
senhor infla o balo, Sr. Scoresby? -De dois modos. Posso fazer
hidrognio derramando cido sulfrico em raspas de ferro. A gente
recolhe o gs que ele solta e aos poucos enche o balo. A outra maneira
 encontrar um exaustor de gs do solo perto de uma mina de fogo. H
muito gs no subsolo daqui, e tambm leo ptreo. Posso extrair gs do
leo ptreo, se precisar, e tambm do carvo. No  difcil fazer gs.
Porm a maneira mais rpida  usar gs do solo. Um bom exaustor consegue
encher o balo em uma hora. -Quantas pessoas o senhor pode carregar?
-Seis, se for preciso. -Poderia carregar Iorek Byrnison de armadura? -J
fiz isso. Uma vez, eu o salvei dos trtaros, quando ele estava cercado,
e eles queriam que ele morresse de fome. Foi na campanha do Tunguska;
voei at l e tirei Iorek. Parece fcil, droga, mas tive que adivinhar o
peso do garoto. E ento tive que contar com achar gs do solo debaixo
da fortaleza de gelo que ele tinha feito. Mas l de cima eu conseguia
ver o tipo de solo que era, e calculei que podamos cavar. Sabe, para
descer eu tenho que soltar gs do balo, e s posso subir de novo com
mais gs. De qualquer maneira, ns conseguimos, com a armadura e tudo.
-Sr. Scoresby, sabe que os trtaros fazem buracos na cabea das pessoas?
-Ah, claro. Fazem isso h milhares de anos. Na guerra de Tunguska,
capturamos cinco trtaros vivos, e trs deles tinham um buraco na
cabea. Um deles tinha dois. #246 -Fazem isso uns nos outros? -Isso
mesmo. Primeiro cortam um semicrculo de pele no couro cabeludo, para
que possam levantar a pele e expor o osso. Ento cortam e retiram do
crnio um pequeno crculo de osso, com muito cuidado para no atingir o
crebro, e ento tornam a costurar o couro cabeludo por cima. -Pensei
que fizessem isso nos inimigos! -Claro que no.  um grande privilgio.
Fazem isso para que os Deuses possam falar com eles. -J ouviu falar num
explorador chamado Stanislaus Grumman? -Grumman? Claro. Conheci um homem
da equipe dele quando atravessei o rio Yenisei de balo h dois anos.
Ele ia morar com as tribos trtaras por l. Alis, acho que ele tambm
tinha o tal buraco na cabea. Fazia parte de uma cerimnia de iniciao,
mas o sujeito me disse que no entendia patavina daquilo. -Ento... Se
ele era como um trtaro honorrio, eles no iam mat-lo? -Mat-lo? Ento
ele est morto? -Est, sim. Eu vi a cabea dele -disse Lyra com orgulho.
-Foi meu pai quem encontrou. Vi quando ele mostrou a cabea para os
Catedrticos na Faculdade Jordan em Oxford. Estava escalpelada e tudo.
-E quem foi que escalpelou? -Bom, os trtaros, foi o que os Catedrticos
pensaram... Mas talvez no tenha sido. -Pode no ter sido a cabea de
Grumman -disse Lee Scoresby. -Seu pai pode ter enganado os Catedrticos.
-, acho que sim -disse Lyra pensativamente. -Ele estava pedindo
dinheiro a eles. -E quando viram a cabea eles deram o dinheiro? -Foi.
#247 -Belo truque. As pessoas ficam chocadas quando vem esse tipo de
coisa. No fazem questo de olhar de perto. -Especialmente Catedrticos
-Lyra acrescentou. -Bom, voc deve saber melhor que eu. Mas se era mesmo
a cabea do Grumman, aposto que no foram os trtaros que escalpelaram.
Eles escalpelam os inimigos, no os seus, e ele era um trtaro por
adoo. Enquanto seguiam viagem, Lyra ficou remoendo essas coisas. Havia
fortes correntes cheias de significado fluindo ao seu redor: os Papes e
sua crueldade, o medo que tinham do P, a cidade na Aurora Boreal, o pai
dela em Svalbard, a me... onde estaria sua me? O aletmetro, as bruxas
voando para o norte. E o pobre coitado do Tony Makarios; e a mosca-espi
movida a corda; e a esperteza extraordinria de Iorek Byrnison... Ela
adormeceu. E cada hora os levava mais para perto de Bolvangar . #248 14
AS LUZES DE BOLVANGAR O FATO de os gpcios no terem notcias da Sra.
Coulter preocupava Farder Coram e John Faa muito mais do que deixavam
Lyra perceber; mas no imaginavam que ela tambm estivesse preocupada.
Lyra tinha medo da Sra. Coulter e pensava nela com freqncia. E embora
Lorde Asriel agora fosse "papai", a Sra. Coulter nunca foi "mame". O
motivo disso era o daemon da Sra. Coulter, o macaco dourado, que tinha
despertado uma profunda averso em Pantalaimon e que, como Lyra
suspeitava, havia se intrometido nos segredos dela, particularmente no
segredo do aletmetro. E certamente estariam atrs dela; era tolice
pensar o contrrio. A mosca-espi provava isso. Mas, quando um inimigo
realmente atacou, no foi a Sra. Coulter. Os gpcios tinham planejado
parar para descansar os cachorros, consertar dois trens e preparar
todas as armas para o ataque a Bolvangar. John Faa esperava que Lee
Scoresby conseguisse encontrar algum gs de solo para encher o balo
menor (pois ele possua dois, aparentemente) e subir para espionar o
terreno. No entanto o aerstata entendia das condies meteorolgicas
#249 como um marinheiro e avisou que ia haver neblina; e assim que eles
fizeram alto, a nvoa espessa desceu. Lee Scoresby sabia que nada veria
do cu, de modo que se contentou em verificar o equipamento, embora
estivesse tudo meticulosamente em ordem. Ento, sem qualquer aviso, uma
rajada de flechas caiu da escurido. Trs gpcios caram na mesma hora e
morreram to silenciosamente que ningum ouviu; s quando eles caram
por cima das rdeas ou ficaram imveis inesperadamente foi que os homens
mais prximos perceberam o que estava acontecendo, e ento j era tarde
demais, porque mais flechas caam sobre eles. Alguns homens olharam para
cima, perplexos com o rudo irregular e rpido de batidas que vinha da
fila de trens, produzido pelas flechas alvejando madeira ou lona
congelada. O primeiro a reagir foi John Faa, que, no centro da fila,
gritava ordens. Mos frias e pernas rgidas movimentaram-se para
obedecer enquanto mais flechas caam como chuva -uma chuva mortal. Lyra
estava em terreno aberto, e as flechas passavam por cima da sua cabea.
Pantalaimon ouviu antes que ela e tornou-se um leopardo e derrubou-a,
tornando-a um alvo menor. Limpando a neve dos olhos, ela rolou para
tentar ver o que estava acontecendo, pois a semi-escurido parecia
transbordar de barulho e confuso. Ela escutou um rugido poderoso e os
rudos da armadura de Iorek Byrnison quando ele saltou por cima dos
trens e mergulhou na neblina, e isto foi seguido por gritos, rosnados,
rudos de coisas rasgadas e esmagadas, gritos de terror e rugidos de
fria animal, enquanto o urso os dizimava. Mas quem eram eles ? Lyra
ainda no tinha avistado o inimigo. Os gpcios corriam para defender os
trens, mas isto (como at Lyra enxergava) fazia deles alvos mais
fceis; e no era fcil disparar suas espingardas usando luvas grossas;
ela ouvira apenas quatro ou cinco tiros contra uma tempestade incessante
de flechas. E a cada minuto tombavam mais homens. #250 Ela pensou,
angustiada: ah, John Faa, voc no previu isto, e eu no o ajudei! Mas
ela no teve mais que um segundo para pensar isto, pois Pantalaimon
soltou um rosnado poderoso e alguma coisa - outro daemon -lanou-se
sobre ele e derrubou-o, tirando o flego de Lyra; e ento mos a
agarraram, a levantaram, abafaram seus gritos com luvas fedorentas,
jogando-a pelo ar de um para o outro e depois deixando-a cair com fora
na neve, de modo que ela estava ao mesmo tempo tonta, sem flego e
machucada. Seus braos foram puxados para trs at seus ombros estalarem
e algum amarrou seus pulsos, depois colocaram um capuz cobrindo toda a
sua cabea para abafar seus gritos, pois ela gritou muito, e com fora:
-Iorek! Iorek Byrnison! Socorro! Mas ser que ele podia ouvir? Ela no
sabia; foi jogada de um lado para outro e finalmente caiu sobre uma
superfcie dura que ento comeou a sacudir-se como um tren. Os sons
que chegavam at ela eram ferozes e confusos. Lyra julgou ter ouvido o
rugido de Iorek Byrnison, mas muito longe; ela estava sendo levada aos
solavancos por um terreno acidentado, os braos presos, a boca tapada,
soluando de raiva e medo. E vozes estranhas falavam ao seu redor.
-Pantalaimon! -ela sussurrou. -Estou aqui, psiu, vou ajudar voc a
respirar. Fique imvel... As patinhas de rato de Pantalaimon puxaram o
capuz at que ela ficou com a boca livre e pde respirar o ar gelado.
-Quem so eles? -ela sussurrou. -Parecem trtaros. Acho que atingiram
John Faa. -No... -Vi quando ele caiu. Mas ele devia estar preparado
para este tipo de ataque. Ns sabemos disto. # 251 -Mas devamos ter
ajudado! Devamos ter consultado o aletmetro! -Psiu. Finja que est
desmaiada. Ouviu-se o estalar de um chicote e o uivo de ces de corrida.
Pelo modo como ela estava sendo jogada de um lado para outro, Lyra sabia
que estavam indo muito depressa; e embora se esforasse para ouvir os
sons do combate, tudo que conseguiu distinguir foi uma desesperada
saraivada de disparos abafados pela distncia. -Vo nos levar para os
Papes -ela cochichou. Ambos pensaram na palavra "interciso". Um medo
terrvel apossou-se de Lyra, e Pantalaimon aninhou-se mais perto dela.
-Eu vou lutar -ele disse. -Eu tambm. Vou matar todos eles. -Iorek
tambm vai matar todos eles quando descobrir. Vai esmagar um por um.
-Ser que estamos muito longe de Bolvangar? Ele no sabia, mas ambos
calculavam que fosse menos de um dia de viagem. Depois de viajarem
durante tanto tempo que ela se viu atormentada pelas cibras no corpo, a
velocidade diminuiu um pouco, e algum puxou com brutalidade o capuz.
Ela deparou com um rosto asitico largo sob um capuz de carcaju
iluminado por uma lamparina trmula. Ele tinha olhos negros que
mostraram uma centelha de satisfao, especialmente quando Pantalaimon
deslizou para fora do casaco de Lyra e mostrou os dentes brancos de
arminho com um rosnado. O daemon do homem, um carcaju grande e pesado,
rosnou de volta, mas Pantalaimon no se intimidou. O homem colocou Lyra
em posio sentada, apoiando-a na lateral do tren. Ela caiu de costas,
pois tinha as mos ainda amarradas por trs, de modo que ele amarrou-lhe
os ps e soltou-lhe as mos. Atravs da neve que caa e da neblina
espessa, ela percebeu que o homem era muito forte, assim como o que
dirigia o tren; #252 ambos se sentiam muito  vontade naquela terra, ao
contrrio dos gpcios. O homem falou, mas naturalmente ela no entendeu.
Ele tentou outra lngua, com o mesmo resultado. Ento tentou falar
ingls. -Seu nome? Pantalaimon arrepiou-se todo, e ela entendeu de
imediato o que ele queria dizer. Ento aquela gente no sabia quem ela
era! Ela no tinha sido sequestrada por causa da sua ligao com a Sra.
Coulter; ento talvez no estivessem trabalhando para os Papes. -Lizzie
Brooks -respondeu. -Lizzie Broogs -ele repetiu. -Ns levamos voc para
lugar bom. Gentes boas. -Quem so vocs? -Samoiedes. Caadores. -Para
onde vai me levar? -Lugar bom. Gentes boas. Voc tem panserbjorne? -Para
me proteger. -No adianta! Ra, ra, urso no adianta! Pegamos voc assim
mesmo! Ele riu com vontade; Lyra controlou-se e nada respondeu. -Quem 
aquela gente? -o homem perguntou em seguida, apontando para trs.
-Mercadores. -Mercadores... De qu? -Peles, bebida, folhas de fumar.
-Vendem folhas de fumar, compram peles? -. Ele disse alguma coisa ao
companheiro, que deu uma resposta curta. Durante todo o tempo, o tren
ia em alta velocidade, e Lyra ajeitou-se para tentar ver para onde iam;
mas estava nevando forte, o cu estava escuro, e finalmente ela sentiu
frio demais e se deitou. Ela e Pantalaimon sentiam os pensamentos #253
um do outro, e tentaram ficar calmos, mas a idia de John Faa morto... E
o que teria acontecido a Farder Coram? Iorek conseguiria matar os outros
samoiedes? E algum conseguiria encontrar o paradeiro dela? Pela
primeira vez, ela comeou a sentir uma certa pena de si mesma. Depois de
muito tempo, o homem sacudiu-a pelo ombro e entregou-lhe um pedao de
carne-seca de rena para mascar. Era fedorenta e dura, mas ela estava com
fome e aquilo era alimento. Depois de comer tudo, ela se sentiu um pouco
melhor. Enfiou a mo lentamente dentro do casaco at ter certeza de que
o aletmetro ainda estava ali, e ento retirou cuidadosamente a lata com
a mosca-espi e enfiou-a dentro da bota de peles. Pantalaimon entrou na
bota em forma de um rato e empurrou a lata bem para o fundo, prendendo-a
sob a perneira de couro de rena. Depois disto, ela fechou os olhos.
Estava exausta de medo, e logo caiu num sono inquieto. Acordou quando o
movimento do tren mudou, ficando mais suave de repente. Quando ela
abriu os olhos, viu luzes passando acima, to brilhantes que ela teve
que puxar mais o capuz sobre a cabea antes de olhar outra vez.
Sentia-se muito mal, com frio e cibras, mas conseguiu sentar-se
suficientemente ereta para ver que o tren passava entre duas filas de
postes altos, cada um com uma brilhante lmpada anbrica. Enquanto
observava as redondezas, o tren passou por um porto de metal no final
da avenida de luzes, entrando num grande espao aberto que parecia uma
praa deserta ou uma arena para algum tipo de esporte. Era perfeitamente
lisa, regular e branca, com cerca de 100 metros de extenso, rodeada por
uma cerca alta de metal. O tren parou no extremo oposto dessa arena.
Estavam diante de uma construo baixa ou uma srie de construes
baixas sob uma grossa camada de neve. Era difcil dizer, pois ela teve a
impresso de que havia tneis ligando as diversas partes das #254
construes -tneis cobertos de neve. De um lado, um grosso mastro de
metal tinha uma aparncia familiar, embora ela no conseguisse se
lembrar do que era. Antes que ela pudesse ver mais coisas, o homem no
tren cortOU a corda que a prendia e jogou-a na neve com brutalidade,
enquanto o que dirigia gritava com os ces para que ficassem parados.
Uma porta se abriu no prdio a poucos metros de distncia e uma luz
anbrica apareceu, movendo-se para procur-los, como um holofote. O
raptor de Lyra empurrou-a para a frente sem solt-la, como se estivesse
exibindo um trofu, e disse alguma coisa. A figura, que usava um casaco
acolchoado feito de seda carbonfera, respondeu na mesma lngua, e Lyra
viu seu rosto. No era um samoiede, nem um trtaro: parecia um
Catedrtico da Jordan. Ele olhou para ela e particularmente para
Pantalaimon. O samoiede tornou a falar, e o homem de Bolvangar perguntou
a Lyra: -Voc fala ingls? -Sim -ela respondeu. -O seu daemon sempre tem
esta forma? Que pergunta mais inesperada! Lyra no soube o que
responder. Mas Pantalaimon respondeu por si mesmo, tornando-se um falco
e lanando-se sobre o daemon do homem, uma grande marmota que tentou
atingir Pantalaimon com um movimento rpido e cuspiu enquanto ele voava
em volta dela. -Entendo -disse o homem em tom satisfeito, enquanto
Pantalaimon voltava para o ombro de Lyra. Os samoiedes pareciam esperar
alguma coisa; o homem de Bolvangar assentiu e tirou uma luva para enfiar
a mo no bolso, de onde tirou um saco fechado por um cordo. Colocou uma
dzia de pesadas moedas na mo do caador. Os dois homens contaram o
dinheiro antes de guard-lo com cuidado, cada um ficando com a metade.
Sem olhar para #255 trs, eles entraram no tren, e o que dirigia
estalou o chicote e gritou para os ces; e o tren atravessou a praa
ampla e entrou na avenida de luzes, aumentando a velocidade at
desaparecer na escurido. O homem tornou a abrir a porta. -Entre
depressa -disse. -L dentro est quentinho e confortvel. No fique a
fora no frio. Como  o seu nome? A voz era de um ingls, sem qualquer
sotaque que Lyra pudesse identificar. Ele parecia o tipo de pessoa que
ela havia conhecido na casa da Sra. Coulter: culto, educado e
importante. -Lizzie Brooks -ela disse. -Entre, Lizzie. Vamos cuidar de
voc, no se preocupe. Ele estava sentindo mais frio do que ela, mesmo
estando ao ar livre por menos tempo, e estava impaciente para entrar.
Ela resolveu bancar a boba, relutando, arrastando os ps ao entrar na
casa. Havia duas portas e um grande espao entre elas, de modo que o ar
quente no escapasse. Depois que eles entraram pela segunda porta Lyra
sentiu um calor insuportvel e teve que abrir o casaco e jogar o capuz
para trs. Estavam num espao de uns trs metros quadrados com
corredores  direita e  esquerda; na frente dela, havia uma espcie de
balco de recepo como o de um hospital. Tudo estava brilhantemente
iluminado, com superfcies brancas e ao inoxidvel. Havia no ar o
cheiro de comida -toicinho e caf -e sob ele um leve cheiro de hospital;
das paredes vinha um murmrio baixo, quase baixo demais para ser ouvido
-o tipo de rudo com que a pessoa tem que se acostumar para no
enlouquecer. Pantalaimon, agora um pintassilgo, cochichou no ouvido
dela: -Seja lerda e burra. Muito burra. Alguns adultos a observavam: o
homem que a trouxera, outro usando um jaleco branco, uma mulher de
uniforme de enfermeira. #256 - Inglesa - dizia o primeiro homem. -
Mercadores, aparentemente. - Os caadores de sempre? A histria de
sempre? - A mesma tribo, pelo que eu pude perceber. Enfermeira Clara,
podia levar a pequena... hum... e cuidar dela? - Claro, Doutor. Venha
comigo, querida - disse a enfermeira. Lyra acompanhou-a obedientemente.
Seguiram por um corredor curto com portas  direita e uma cantina 
esquerda, de onde vinha o rudo de talheres e vozes, e cheiro de comida.
Lyra calculou que a enfermeira tinha mais ou menos a idade da Sra.
Coulter, e um ar de neutralidade, eficincia e sensatez; ela teria
capacidade de dar pontos num ferimento ou trocar um curativo, mas nunca
de contar uma histria. Lyra teve um momento de angstia quando percebeu
que o daemon da enfermeira era um cachorrinho branco, e no conseguiu
entender por que ficou angustiada com isso. - Qual  o seu nome,
querida? - perguntou a enfermeira, abrindo uma porta pesada. - Lizzie. -
S Lizzie? - Lizzie Brooks. - E quantos anos voc tem? - Onze. Lyra
tinha ouvido dizer que ela era pequena para sua idade; isto no tinha
afetado a idia que tinha da sua prpria importncia, mas ela percebeu
que agora podia usar isso para fazer de Lizzie uma pessoa tmida,
nervosa e insignificante. Estava esperando que lhe perguntassem de onde
vinha e como tinha chegado, e preparava suas respostas; mas no era s
imaginao que faltava  enfermeira, mas tambm curiosidade; pelo
interesse que a Enfermeira Clara parecia demonstrar, Bolvangar podia
estar situada nos subrbios de Londres, com #257 crianas aparecendo a
todo momento. O daemon da enfermeira trotava junto a seus ps com o
mesmo jeito eficiente e neutro. No quarto onde entraram, havia um sof,
uma mesa, duas cadeiras e um arquivo, um armrio de vidro com remdios e
curativos, e uma pia. Assim que entraram a enfermeira tirou o casaco de
Lyra,e deixou-o cair no cho. - Tire o resto da roupa, querida - disse.
- Vamos dar uma olhada para ver se voc est bem, sem resfriado ou
queimaduras de frio, e depois vamos arranjar roupas limpas. Vamos lhe
dar um banho de chuveiro, tambm - acrescentou, pois Lyra no tomava
banho nem mudava de roupa havia alguns dias, e no ambiente aquecido este
fato ficava cada vez mais evidente. Pantalaimon remexeu-se protestando,
mas Lyra calou-o com um gesto. Ele se acomodou no sof enquanto Lyra
tirava as roupas, pea por pea, sentindo raiva e vergonha, mas ainda
com suficiente presena de esprito para fingir-se de boba e obediente.
- E a sua bolsa de dinheiro tambm, Lizzie - disse a enfermeira. Ela
prpria desamarrou com seus dedos fortes o cinto com a sacola e foi
coloc-lo na pilha de roupas de Lyra, mas estacou ao palpar o
aletmetro. - Que  isso? - perguntou, desabotoando a bolsa de lona. - 
um brinquedo - disse Lyra. -  meu. - Est bem, ns no vamos tirar o
seu brinquedo, minha querida - disse a Enfermeira Clara, abrindo o
embrulho de veludo negro. - Que bonitinho, parece uma bssola! Agora,
para o chuveiro - continuou, largando o aletmetro e abrindo uma cortina
de seda carbonfera num canto do aposento. Com relutncia Lyra entrou
debaixo da gua morna e ensaboou-se, enquanto Pantalaimon empoleirava-se
na vara da cortina. Ambos tinham conscincia de que ele no podia se
mostrar muito esperto, pois os daemons das pessoas lerdas eram lerdos
tambm. Depois que ela se enxugou, a enfermeira tomou #258 sua
temperatura e examinou seus olhos, ouvidos e garganta, depois mediu sua
estatura e pesou-a numa balana, antes de fazer anotaes numa
prancheta. Depois deu a Lyra pijama e um roupo. Eram roupas limpas e de
boa qualidade, como o casaco de Tony Makarios, mas tambm nelas havia um
ar de roupa de segunda mo. Lyra sentiu medo. - Isso no  meu - disse.
- No, minha querida. As suas roupas precisam de uma boa lavagem. - Vou
ter as minhas roupas de volta? - Imagino que sim. Claro que sim. - Que
lugar  este? - O nome  Estao Experimental. Isto no era uma
resposta; porm, embora como Lyra ela teria dito isto e pedido mais
informaes, sabia que Lizzie Brooks no agiria assim. Portanto,
concordou com a cabea e ficou quieta. Depois de vestida, falou, em tom
de queixa: - Eu quero o meu brinquedo. - Pode pegar, querida - disse a
enfermeira. - Mas ser que no preferia um belo ursinho? Ou uma linda
boneca? Ela abriu uma gaveta cheia de brinquedos que pareciam coisas
mortas. Lyra obrigou-se a levantar e fingir estar pensando antes de
escolher uma boneca de trapos de olhos grandes e sem expresso. Nunca
tinha tido uma boneca, mas sabia como agir: apertou-a distraidamente
contra o peito. - E a minha bolsa de dinheiro? Gosto de guardar o meu
brinquedo l dentro. - Pode pegar, minha querida - disse a Enfermeira
Clara, que estava preenchendo um formulrio cor-de-rosa. Lyra levantou o
palet do pijama e prendeu o cinto com a sacola em volta da cintura.
#259 - E o meu casaco, e as minhas botas? - ela insistiu. - E as minhas
luvas e as minhas coisas? - Vamos mandar limpar para voc - disse a
enfermeira automaticamente. Ento um telefone tocou, e enquanto a
enfermeira atendia, Lyra abaixou-se depressa para pegar a outra lata,
que continha a mosca-espi, e colocou-a na sacola com o aletmetro. -
Vamos, Lizzie - chamou a enfermeira, desligando o telefone. - Vamos
arranjar alguma coisa para voc comer. Imagino que esteja com fome. Ela
seguiu a Enfermeira Clara at a cantina, onde havia uma dzia de mesas
brancas cobertas de migalhas e de crculos molhados e pegajosos feitos
por copos sujos. Pratos e talheres sujos estavam empilhados num carrinho
de ao. No havia janelas, e para dar iluso de luz e espao uma das
paredes era coberta por um gigantesco fotograma mostrando uma praia
tropical, com um cu azul brilhante, areias brancas e coqueiros. O homem
que levara Lyra para dentro da casa estava pegando uma bandeja. - Pode
comer  vontade. No havia utilidade em passar fome, de modo que ela
comeu com satisfao o picadinho com pur de batatas. Havia uma terrina
de pssegos em calda e, alm disto, sorvete. Enquanto ela comia, o homem
e a enfermeira conversavam em voz baixa na outra mesa; quando ela
terminou, a enfermeira trouxe-lhe um copo de leite quente e levou a
bandeja. O homem veio sentar-se defronte a ela. O daemon dele, a
marmota, no era neutro e alheio como o daemon da enfermeira, mas
sentou-se polidamente no ombro dele e ficou prestando ateno. - Bem,
Lizzie, voc comeu o bastante? - Comi, sim, obrigada. - Quero que me
diga de onde veio. Sabe me responder? #260 - De Londres - ela disse. -
Que  que est fazendo to longe? - Com meu pai - ela resmungou.
Mantinha os olhos baixos, evitando o olhar da marmota e tentando parecer
 beira das lgrimas. - Com o seu pai? Entendo. E que  que seu pai veio
fazer nesta parte do mundo? - Comrcio. Viemos com uma carga de folhas
de fumar da Nova Dinamarca e estvamos comprando peles. - E o seu pai
estava sozinho? - No. Com meus tios e tudo, e outros homens - ela
disse, sem saber o que o caador samoiede tinha revelado. - Por que foi
que ele trouxe voc numa viagem como essa, Lizzie? - Porque h dois anos
ele trouxe o meu irmo e disse que depois ia me trazer e nunca trazia, e
eu fiquei pedindo muito e ele trouxe. - E quantos anos voc tem? - Onze.
- Bom, bom. Lizzie, voc  uma garota de sorte. Aqueles caadores que
encontraram voc vieram para o melhor lugar possvel. -Eles no me
encontraram. Foi um ataque. Eram muitos, eles tinham flechas... - Acho
que no foi assim. Acho que voc deve ter se afastado do seu pai e se
perdeu. Aqueles caadores encontraram voc perdida e trouxeram para c.
Foi isso que aconteceu, Lizzie. - Eu vi o ataque - ela insistiu. -
Estavam jogando flechas... Eu quero o meu pai - disse, levantando a voz
e sentindo que comeava a chorar. - Bem, voc est em segurana aqui at
ele chegar - disse o mdico. - Mas eu vi eles atirando flechas! #261 -
Ah, voc pensa que viu. Isso acontece muitas vezes no frio intenso,
Lizzie. Voc adormece, tem pesadelos e no consegue saber o que 
verdade e o que no . No se preocupe, no houve ataque. O seu pai est
seguro e deve estar procurando voc, e logo chegar aqui, pois  o nico
lugar em muitas centenas de quilmetros. Que surpresa boa ele vai ter
quando encontr-la em segurana! Agora a Enfermeira Clara vai levar voc
para o dormitrio, onde vai encontrar outras crianas, meninas e meninos
que se perderam na neve como voc. Pode ir. Amanh cedo vamos ter outra
conversa. Lyra levantou-se, agarrada  boneca, e Pantalaimon saltou para
o ombro dela enquanto a enfermeira abria a porta. Mais corredores. Lyra
a essa altura estava muito cansada, com tanto sono que no parava de
bocejar e mal conseguia levantar os ps nos chinelos de l que lhe
deram. Pantalaimon estava exausto, e teve que se transformar em um rato
e acomodar-se dentro do bolso do roupo dela. Lyra teve um vislumbre de
uma fila de camas, rostos de crianas, um travesseiro - ento adormeceu.
Algum a sacudia. A primeira coisa que ela fez foi tatear na cintura e
certificar-se de que as duas latas ainda estavam l em segurana; ento
tentou abrir os olhos, mas isto era extremamente difcil, pois ela
sentia um sono como nunca havia sentido. - Acorde! Acorde! Eram
cochichos de mais de uma voz. Com um esforo enorme, como se estivesse
empurrando uma rocha enorme ladeira acima, Lyra forou-se a despertar.
Na luz fraca de uma lmpada anbrica de baixa potncia que havia acima
da porta, ela viu trs meninas ao seu redor. No era fcil enxergar,
pois seus olhos custavam a entrar em foco, mas elas pareciam ter a idade
dela, e estavam falando em ingls. #262 - Ela acordou. - Deram plulas
de dormir para ela. Deve ter sido... - Como  o seu nome? - Lizzie - ela
balbuciou. - Vai chegar um novo carregamento de crianas? - uma das
meninas quis saber. - No sei. S eu. - Ento onde pegaram voc? Lyra
lutou para sentar-se. No se lembrava de ter tomado remdio para dormir,
mas podia muito bem ter sido no leite quente. Sentia a cabea cheia de
algodo e uma dorzinha latejando atrs dos olhos. - Que lugar  este? -
 no meio de nada. Eles no contam. - Geralmente trazem mais de um de
cada vez... - Que  que eles fazem? - Lyra conseguiu perguntar, reunindo
os pensamentos enquanto Pantalaimon despertava ao seu lado. -No
sabemos- disse a menina que mais falava. Era alta e ruiva, com
movimentos rpidos e espasmdicos, e um forte sotaque londrino. - Eles
medem a gente e fazem testes e... - Eles medem o P - disse outra
garota, simptica, gorducha e morena. - Voc no sabe - disse a
primeira. -  isso, sim - disse a terceira, uma menina de ar tremido que
ninava seu daemon-coelho. - Eu ouvi eles falando. - Eles levam uma por
uma,  s o que a gente sabe. Ningum volta mais - disse a ruiva. -
Aquele garoto, ele acha... - No conte isso a ela! - fez a ruiva. -
Ainda no. - Tem garotos aqui tambm? - Lyra perguntou. - Tem, sim.
Muitos. Uns 30, eu acho. - Tem mais. Uns 40 - corrigiu a gordinha. #263
- Mas eles no param de levar a gente - disse a ruiva. - Geralmente
comeam trazendo uma turma, a ficam sendo muitos, e um por um vo
desaparecendo. - So os Papes - disse a gorducha. - Voc conhece os
Papes. Todos ns tnhamos medo deles at nos pegarem... Lyra ia
despertando gradualmente. Os daemons das outras garotas, com exceo do
coelho, estavam por perto, escutando junto  porta, e ningum falava
mais alto que um cochicho. Lyra perguntou o nome delas; a ruiva era
Annie, a morena gorducha era Bella, a magra era Martha. No sabiam o
nome dos meninos, pois os dois sexos eram mantidos separados. No eram
maltratados. -Aqui  legal - disse Bella. - No tem muita coisa para
fazer, a no ser quando eles nos fazem testes e nos mandam fazer
exerccios e ento nos medem, tiram a nossa temperatura.  s muito
montono. - A no ser quando a Sra. Coulter vem - disse Annie. Lyra teve
que se controlar para no soltar uma exclamao, e Pantalaimon sacudiu
as asas com tanta fora que as outras garotas perceberam. - Ele est
nervoso - disse Lyra, acalmando-o. - Devem ter-nos dado remdio para
dormir, porque estamos tontos. Quem  a Sra. Coulter? -  a mulher que
pegou todos ns, ou quase todos- disse Martha. - As outras crianas
falam dela. Quando ela vem, a gente sabe que algum vai desaparecer. -
Ela gosta de assistir quando levam a criana, gosta de ver o que eles
fazem com a gente. Esse garoto, o Simon, ele acha que eles nos matam e a
Sra. Coulter fica olhando. - Eles nos matam? - Lyra repetiu,
estremecendo. - Deve ser. Porque ningum volta. - Esto sempre mexendo
com os daemons, tambm - disse Bella. - Pesando, medindo e tudo... -
Eles tocam nos daemons de vocs? #264 - No! Que horror! Eles botam uma
balana, e o nosso daemon tem que subir em cima dela e mudar de forma, e
eles tomam notas e tiram retratos. E colocam a gente num armrio e medem
o P, o tempo todo, nunca param de medir o P. - Que p? - Lyra
perguntou. - A gente no sabe - disse Annie. -,  um negcio qualquer
que vem do espao. No  p de verdade. Se a gente no tem P nenhum,
ento est tudo bem. Mas todo mundo tem P no final. - Sabe o que eu
ouvi o Simon dizer? - falou Bella. - Ele disse que os trtaros fazem um
buraco no crnio para o P entrar. - , ele com certeza sabe de tudo -
disse Annie em tom zombeteiro. - Acho que vu perguntar  Sra. Coulter
quando ela vier. - Voc no tem coragem! - disse Martha com admirao. -
Tenho, sim. - Quando  que ela vem? - Lyra perguntou. - Depois de amanh
- disse Annie. Uma onda gelada de terror dominou Lyra, e Pantalaimon
aprocimou-se mais dela. Ela s tinha um nico dia para encontrar Roger e
descobrir tudo que pudesse sobre aquele lugar, e ento fugir, ou ser
resgatada; e se todos os gpcios tivessem sido mortos, quem ia ajudar as
crianas a sobreviver naquela imensido gelada? As outras meninas
continuaram conversando, mas Lyra e Pantalaimon cobriram-se e tentaram
aquecer-se, sabendo que, por muitos quilmetros em volta da sua cama,
havia apenas o medo. #265 15 OS DAEMONS NAS CAIXAS DE VIDRO NO era do
temperamento de Lyra ficar parada remoendo os problemas; ela era uma
criana impulsiva e prtica, e alm disso no tinha muita imaginao.
Ningum que tivesse imaginao pensaria seriamente que era possvel
percorrer toda aquela distncia e salvar seu amigo Roger; ou, se
pensasse, uma criana com imaginao pensaria logo em vrias razes por
que aquilo seria impossvel. Para ser uma mentirosa experiente no 
preciso ter grande imaginao. Muitos mentirosos no tm imaginao; 
isso que d convico s suas mentiras. De modo que, agora que estava
nas mos do Conselho de Oblao, Lyra no se permitiu ficar doente de
preocupao pelo que teria acontecido aos gpcios. Eram todos bons
lutadores, e mesmo Pantalaimon tendo dito que viu John Faa ser atingido,
ele podia ter se enganado; se no estivesse enganado, John Faa podia no
estar seriamente ferido. Ela ter cado nas mos dos samoiedes tinha sido
uma falta de sorte, mas os gpcios logo viriam libert-la; se eles no
conseguissem, nada impediria Iorek Byrnison de tir-la de l; e ento
eles voariam para Svalbard no balo de Lee Scoresby e libertariam Lorde
Asriel. #266 Para ela era tudo simples. Assim, na manh seguinte, quando
acordou no dormitrio, ela estava curiosa e pronta para enfrentar o que
o dia lhe trouxesse. E ansiosa para ver Roger - principalmente ansiosa
para v-lo antes que ele a visse. No precisou esperar muito. As
crianas de todos os dormitrios eram acordadas s 7:30 pelas
enfermeiras que tomavam conta delas; vestiam-se e iam juntar-se s
outras na cantina, para o caf da manh. E l estava Roger. Ele estava
sentado com outros cinco garotos numa mesa logo junto  porta. A fila
para pegar a comida passava bem perto dele, de modo que ela deu um jeito
de deixar cair um leno e abaixou-se para apanh-lo, de modo que
Pantalaimon pudesse falar com Salclia, o daemon de Roger. Ela estava na
frma de um tentilho e bateu as asas com tanta agitao que Pantalaimon
teve que virar um gato e saltar sobre ela, prendendo-a no cho para
poder cochichar no ouvido dela. Por sorte estas escaramuas rpidas
entre os daemons das crianas eram comuns, e ningum prestou ateno,
mas Roger empalideceu; Lyra nunca tinha visto uma pessoa ficar to
branca. Ele ergueu os olhos para ela, que lhe deu um olhar neutro e
distante; a cor voltou ao rosto dele, e ele encheu-se de esperana,
excitao e alegria; foi Pantalaimon quem, sacudindo Salclia com
firmeza, conseguiu impedir que Roger desse um grito e um pulo para
abraar sua amiguinha da Jordan. Lyra desviou os olhos, agindo com o
maior desprezo que pde fingir, fazendo cara de impacincia para as suas
novas amigas verem. As quatro garotas pegaram suas bandejas com flocos
de milho e torradas e sentaram-se juntas, numa confraria instantnea,
excluindo todas as outras pessoas para poderem mexericar sobre elas.
#267 No se consegue manter num s lugar um grupo grande de crianas sem
lhes dar muitas coisas para fazer, e de certo modo Bolvangar era como
uma escola, com atividades programadas, tais como ginstica e "arte".
Meninos e meninas eram mantidos separados, a no ser no recreio e na
hora das refeies, de modo que foi s no meio da manh, depois de uma
hora e meia de costura sob a superviso de uma das enfermeiras, que Lyra
teve chance de conversar com Roger. Mas tinha que parecer natural, esta
era a dificuldade. Todas as crianas tinham mais ou menos a mesma idade,
e era a idade em que meninos conversam com meninos e meninas com
meninas, todos eles fazendo a maior questo de ignorar o sexo oposto.
Ela tornou a encontrar sua oportunidade na cantina, quando as crianas
foram merendar. Lyra enviou Pantalaimon como mosca para conversar com
Salclia na parede ao lado da sua mesa enquanto ela e Roger ficavam em
grupos separados. Era difcil conversar enquanto a ateno do seu daemon
est em outro lugar, de modo que Lyra fingia estar revoltada e
melanclica enquanto bebericava o leite com as outras meninas. Metade da
sua ateno estava na conversa de zumbidos entre os dois daemons, e ela
no prestava muita ateno s companheiras de mesa, mas, em dado
momento, ouviu uma menina de cabelos louros e brilhantes dizer um nome
que lhe deu um sobressalto. Era o nome de Tony Makarios. Quando sua
ateno se voltou para isso, Pantalaimon teve que diminuir a conversa
com o daemon de Roger, e ambas as crianas ficaram escutando o que a
menina estava dizendo. - No, eu sei por que levaram ele - dizia a
garota, enquanto as outras chegavam mais perto para ouvir. - Foi porque
o daemon dele no mudava. Eles achavam que ele era mais velho do que
parecia, ou coisa assim, e ele no era mesmo um garoto novo. Mas, na
verdade, o daemon quase nunca mudava #268 porque o Tony quase nunca
pensava. Eu o vi mudar. O nome dele era Rateira... - Por que eles esto
to interessados em daemons? - Lyra perguntou. - Ningum sabe - disse a
loura. - Eu sei - disse um rapaz que estava escutando. - O que eles
fazem  matar o seu daemon para ver se voc morre. - Bom, ento por que
 que eles fazem isso com vrias crianas? - algum contestou. - S
precisavam fazer uma vez, no ? - Eu sei o que eles fazem - disse a
primeira menina. Ela agora era o centro das atenes de todos. Porm,
como as crianas no queriam que algum adulto soubesse do que estavam
falando, elas tinham que adotar modos de indiferena e distrao
enquanto ouviam com curiosidade apaixonada. - Como  que sabe? - algum
perguntou. - Porque eu estava com ele quando vieram para busc-lo. A
gente estava na rouparia - ela explicou. Estava vermelha como um
pimento. Se estava esperando graolas e implicncias, ficou aliviada,
pois todas as crianas estavam preocupadas e nenhuma sequer sorriu. Ela
continuou: -A gente estava bem quieto, e ento a enfermeira entrou,
aquela da voz aucarada. E ela disse: "Vem, Tony, sei que voc est a,
no vamos machucar voc..." E ento ele perguntou: "Que  que vai
acontecer?" E ela disse: "A gente vai botar voc para dormir e fazer uma
pequena operao, e ento voc vai acordar muito bem." Mas Tony no
acreditou. Ele falou... - Os buracos! - algum exclamou, interrompendo.
- Fazem um buraco na cabea da gente, como os trtaros! Aposto! - Cala a
boca! Que mais que a enfermeira disse? - outra criana perguntou. #269 A
essa altura, havia mais de uma dzia de crianas em volta da mesa de
Lyra, seus daemons igualmente curiosos, todos tensos, de olhos
arregalados. A loura continuou: - Tony queria saber o que iam fazer com
a Rateira, entendem? E a enfermeira disse: "Bom, ela vai dormir tambm,
na hora em que voc dormir." E Tony disse: "Vocs vo matar ela, no
vo? Sei que vo. Todos ns sabemos que  isso que acontece." E a
enfermeira disse: "Claro que no.  s uma pequena operao. Um
cortezinho. No vai nem doer, mas a gente vai fazer voc dormir s por
segurana." A cantina inteira estava em silncio. A enfermeira de
planto tinha sado por um instante, e a portinhola para a cozinha
estava fechada, de modo que ningum podia ouvir de l. - Que tipo de
corte? - perguntou um menino com a voz assustada. - Ela disse que tipo
de corte era? - Ela disse que era uma coisa para fazer ele ficar mais
adulto. Disse que todo mundo tinha que passar por aquilo, e que esse era
o motivo dos daemons dos adultos no mudarem como os nossos fazem. Ento
eles levam um corte que faz eles terem a mesma forma para sempre, e 
assim que as pessoas ficam adultas. - Mas... - Quer dizer... - Ento
todos os adultos levam esse corte? - E os... De repente, todas as vozes
silenciaram como se elas prprias tivessem sido cortadas, e todos os
olhos viraram-se para a porta. A Enfermeira Clara estava ali, com ar
tranqilo e normal, e ao lado dela estava um homem de jaleco branco que
Lyra ainda no tinha visto. - Bridget McGinn - ele chamou. A lourinha
levantou-se, estremecendo. Seu daemon-esquilo agarrava-se ao seu peito.
- Sim? - ela falou, com uma voz que mal se ouvia. #270 - Termine o seu
leite e venha com a Enfermeira Clara - ele instruiu. - O resto de vocs
vai para as suas aulas. Obedientemente as crianas colocavam sua loua
no carrinho de ao inoxidvel e saam em silncio. Ningum olhou para
Bridget McGinn a no ser Lyra, que viu o rosto da outra lvido de medo.
O resto da manh foi ocupado com exerccios de ginstica. Na Estao,
havia um pequeno pavilho de ginstica, pois era impossvel exercitar-se
ao ar livre durante a longa noite polar, e os grupos de crianas se
revezavam sob a superviso de uma enfermeira. As crianas tinham que
formar times e jogar bola; Lyra, que nunca em sua vida havia brincado
assim, no princpio no sabia o que fazer. Mas era rpida e atltica, e
uma lder natural, e logo estava se divertindo. Os gritos das crianas,
a torcida dos daemons, tudo isto enchia o pequeno pavilho e logo
afastava os pensamentos de temor - o que, naturalmente, era exatamente o
propsito dos exerccios. Na hora do almoo, quando as crianas estavam
novamente na cantina, Lyra sentiu Pantalaimon dar um pio de
reconhecimento e virou-se para encontrar Billy Costa parado bem atrs
dela. - O Roger me disse que voc estava aqui - ele cochichou. - Seu
irmo est vindo a, mais John Faa e um bando de gpcios - ela disse. -
Vieram buscar voc. Ele quase soltou uma exclamao de alegria, mas
disfarou-a com um acesso de tosse. - E voc tem que me chamar de
Lizzie, nunca de Lyra - ela continuou. - E tem que me contar tudo que
sabe, certo? Os dois se sentaram juntos, com Roger por perto. Era mais
fcil fazer isto na hora do almoo, com a cantina cheia; as crianas
passavam mais tempo indo e vindo por entre as mesas e havia sempre um
grupo junto  portinhola. Sob o barulho de talheres, #271 Billy e Roger
contaram a ela tudo que sabiam. Billy tinha ouvido uma enfermeira dizer
que as crianas que faziam a operao costumavam ser levadas para locais
mais ao sul, o que podia explicar como Tony Makarios acabou perdido. Mas
Roger tinha uma coisa ainda mais interessante para contar. - Achei um
esconderijo - disse. - Onde? - Est vendo aquele retrato? - Ele mostrou
o grande painel da praia tropical. - Olhe para o canto de cima 
direita, est vendo aquela placa no teto? O teto era feito de grandes
placas retangulares presas numa armao de tiras de metal, e o canto da
placa acima do painel fotogrfico estava levemente erguido. - Eu vi
aquilo e achei que as outras placas podiam ser soltas tambm;
experimentei, e so mesmo.  s levantar. Eu e um garoto experimentamos
uma noite no dormitrio, antes de levarem ele. Tem um espao l em cima,
e a gente pode rastejar l dentro... - At onde d para rastejar? - Sei
l. S avanamos um pouco. Imaginamos que quando chegasse a hora
poderamos nos esconder l em cima, mas com certeza iriam nos encontrar.
Lyra no encarava aquilo como um esconderijo, mas como uma passagem. Era
a melhor coisa que ela havia ouvido desde que chegara! Mas antes que
pudessem conversar mais, um mdico bateu com uma colher na mesa para
pedir silncio, depois comeou a falar: - Escutem, crianas! Prestem
bastante ateno. De vez em quando, ns fazemos um treinamento contra
incndio.  muito importante que todos consigam se vestir e sair do
prdio sem pnico. De modo que esta tarde vamos fazer um treinamento.
Quando o sino tocar, vocs tm que parar o que estiverem fazendo e
obedecer ao que o adulto mais prximo mandar. #272 Guardem na memria o
local para onde sero levados.  o lugar aonde devero ir se houver um
incndio de verdade. Bem,  uma idia, pensou Lyra. Durante o incio da
tarde, Lyra e outras quatro garotas foram testadas em busca de P. Os
mdicos no disseram que era isto que estavam fazendo, mas era fcil
adivinhar. Elas foram levadas uma a uma para um laboratrio, e
naturalmente isto as deixou com muito medo. Lyra pensou: que crueldade
morrer sem poder atac-los! Mas ao que parecia eles no iam fazer a tal
operao por enquanto. - Queremos fazer umas medies - o mdico
explicou. Era difcil distinguir entre aquela gente: todos os homens se
pareciam, com seus jalecos brancos, suas pranchetas e seus lpis, e as
mulheres tambm se pareciam, pois os uniformes e aquele estranho ar de
neutralidade e apatia faziam com que todas parecessem irms. - J fui
medida ontem - Lyra disse. - Ah, mas hoje so outras medidas. Fique
sobre aquela placa de metal. Ah, primeiro tire os sapatos. Segure o seu
daemon, se quiser. Olhe para a frente, sso mesmo, para aquela luzinha
verde. Boa menina... Uma luz piscou. O mdico virou o rosto dela para um
lado e para outro, e a cada vez alguma coisa estalava e uma luz piscava.
- timo. Agora venha at esta mquina e coloque a mo dentro do tubo.
Prometo que no vai doer. Estique os dedos. Assim. - Que  que o senhor
est medindo? - ela perguntou. - P? - Quem foi que lhe falou de P? -
Uma das meninas, no sei o nome dela. Ela disse que a gente estava cheia
de P. Eu no estou, pelo menos eu acho que no. Tomei banho ontem. #273
- Ah,  outro tipo de p. No d para ver a olho nu.  uma poeira
especial. Agora feche a mo. Isso mesmo. timo. Agora tateie dentro do
tubo at encontrar uma espcie de argola. Achou? Segure a argola. Agora
pode botar sua outra mo aqui, em cima deste globo de cobre. timo. Vai
sentir uma cosquinha leve, nada para se preocupar,  s uma leve
corrente anbrica... Pantalaimon, na forma de um gato-do-mato, muito
tenso e cauteloso, movia-se em volta da aparelhagem com olhares cheios
de suspeita, voltando sempre para esfregar-se em Lyra. A essa altura,
ela estava segura de que no iriam fazer a operao nela imediatamente,
e tambm de que seu disfarce como Lizzie Brooks estava a salvo, de modo
que arriscou uma pergunta. - Por que vocs tiram os daemons das pessoas?
- Como assim? Quem lhe falou sobre isso? - Uma garota, no sei o nome
dela. Ela disse que vocs tiram os daemons das pessoas. - Bobagem... Mas
ele estava nervoso. Ela continuou: - Porque vocs levam as crianas uma
por uma, e elas nunca voltam. E algumas acham que vocs simplesmente
matam elas, e outras pessoas acham outras coisas, e essa garota me disse
que vocs tiram os... - No  verdade. Quando levamos as crianas, 
porque chegou a hora de irem para outro lugar. Elas esto crescendo.
Acho que sua amiga est com medo sem necessidade. Nada disso! Nem pense
nisso. Quem  a sua amiga? - Eu s cheguei ontem, no sei o nome de
ningum. - Como  que ela ? - Esqueci. Acho que tinha cabelos
castanhos... bem claros, eu acho... No sei. O mdico foi falar em voz
baixa com a enfermeira. Enquanto os dois conferenciavam, Lyra observava
os daemons deles. O #274 da enfermeira era um lindo pssaro, calmo e
desinteressado como o co da Enfermeira Clara, e o do mdico era uma
mariposa grande e pesada. Nenhum dos dois se movia. Estavam acordados,
pois os olhos do pssaro estavam abertos, e as antenas da mariposa
moviam-se languidamente, mas no estavam vivazes como seria de se
esperar. Talvez no estivessem mesmo ansiosos ou curiosos. Finalmente o
mdico voltou e prosseguiu com o exame, pesando Lyra e Pantalaimon
separadamente, examinando-a atrs de uma tela especial, contando o seu
pulso, colocando-a sob um pequeno bocal que sibilava e soltava um cheiro
de ar fresco. No meio de um dos testes, um sino comeou a tocar sem
cessar. - O alarme de incndio - disse o mdico, suspirando. - Muito
bem, Lizzie, acompanhe a Enfermeira Betty. - Mas os agasalhos dela esto
no prdio do dormitrio, doutor. Ela no pode sair assim. Acha que
devamos ir l primeiro? Contrariado pela interrupo do exame, ele
respondeu com irritao: -Acho que o treinamento  para que surja
exatamente esse tipo de detalhe. Que atrapalhao! Lyra mais que
depressa interveio: - Ontem quando eu cheguei a Enfermeira Clara botou
as minhas roupas num armrio naquele primeiro quarto onde ela me
examinou. O do lado. Eu podia usar as minhas roupas. - Boa idia! Vamos,
ento - aprovou a enfermeira. Com secreta excitao, Lyra apressou-se a
seguir a enfermeira e recuperou seus agasalhos de pele, as perneiras e
as botas, e vestiu-se depressa, enquanto a enfermeira vestia-se de seda
carbonfera. Ento saram apressadas. Na grande praa em frente ao
principal grupo de construes, havia umas 100 pessoas, entre #275
adultos e crianas: algumas excitadas, outras irritadas, muitas apenas
confusas. - Est vendo? Vale a pena fazer isso para ver o caos que seria
se o incndio fosse de verdade - dizia um adulto. Algum estava soprando
um apito e balanando os braos, mas ningum prestava ateno. Lyra
avistou Roger e chamou-o com um gesto; Roger puxou Billy Costa pelo
brao e logo os trs estavam juntos naquela confuso de crianas
correndo. - Ningum vai notar se a gente der uma olhada por a - Lyra
sugeriu. - Vo levar anos para contar todo mundo, e podemos dizer que
seguimos algum e nos perdemos. Esperaram at que a maioria dos adultos
estivesse olhando para outro lado, e ento Lyra pegou um pouco de neve,
fez uma bola e jogou-a no meio da multido; num instante todas as
crianas estavam fazendo isto, e o ar estava cheio de bolas de neve
voando. Gritos e risadas encobriam completamente os gritos dos adultos
que tentavam restabelecer a ordem, e num instante as trs crianas
dobraram a esquina de uma das construes, ficando fora da vista dos
outros. A neve era to espessa que eles no conseguiam mover-se
depressa, mas isto parecia no ter importncia, pois ningum os seguiu.
Lyra e os outros escalaram o telhado curvo de um dos tneis e
encontraram-se numa estranha paisagem lunar de protuberncias e
reentrncias, tudo coberto de branco sob o cu negro e iluminado pelos
reflexos das luzes em volta da praa. - Que  que estamos procurando? -
Billy quis saber. - Sei l. Estamos s olhando - Lyra respondeu,
guiando-os at um prdio baixo e quadrado, um pouco separado dos outros,
com uma fraca luz anbrica no canto. O rudo da multido continuava
forte, porm mais distante. Era evidente que as crianas estavam
aproveitando ao mximo sua liberdade, e Lyra esperava que elas
continuassem assim por algum tempo. Ela rodeou a construo quadrada,
#276 procurando uma janela. O teto estava apenas a pouco mais de dois
metros do cho e, ao contrrio dos outros, no era ligado ao resto da
Estao por um tnel. No havia janela, mas uma porta. Um cartaz acima
dela dizia, em letras vermelhas: EXPRESSAMENTE PROIBIDA A ENTRADA. Lyra
estendeu a mo para tentar abrir a porta, mas antes que pudesse girar a
maaneta Roger exclamou: - Veja! Um pssaro! Ou... A exclamao terminou
em tom de dvida, porque a criatura que descia do cu negro no era um
pssaro; era algum que Lyra j conhecia. - O daemon da bruxa! O ganso
bateu as enormes asas, erguendo uma chuva de neve quando pousou. -
Saudaes, Lyra-disse. -Segui voc at aqui, embora voc no tenha me
visto. Fiquei esperando que voc aparecesse aqui fora. Que  que est
acontecendo? Ela lhe contou e perguntou: - Onde esto os gpcios? John
Faa est bem? Eles conseguiram afastar os samoiedes? - A maioria deles
est a salvo. John Faa est ferido, mas no gravemente. Os homens que a
levaram eram caadores que costumam atacar caravanas, e aos pares eles
conseguem viajar mais depressa do que com um grupo grande. Os gipcios
ainda esto a um dia de viagem daqui. Os dois meninos observavam
temerosos o daemon-ganso e os modos familiares de Lyra com ele, pois
naturalmente nunca tinham visto um daemon sem seu humano, e pouco sabiam
sobre bruxas. Lyra lhes disse: - Escutem,  melhor vocs irem vigiar,
certo? Billy, voc vai por aquele lado, e Roger, vigie por onde viemos.
No temos muito tempo. #277 Eles correram para fazer o que ela pediu, e
ento Lyra virou-se outra vez para a porta. - Por que est tentando
entrar a? - perguntou o daemon-ganso. - Por causa do que eles fazem a
dentro. Eles cortam... - ela baixou a voz - ... cortam fora os daemons
das pessoas. Das crianas. E acho que talvez isto seja feito a dentro.
Pelo menos tem alguma coisa a dentro, e eu ia olhar. Mas est
trancado... - Eu consigo abrir - disse o ganso. Ele bateu as asas uma ou
duas vezes, jogando neve na porta, e Lyra escutou alguma coisa girar na
fechadura. - Entre com cuidado - disse o daemon. Lyra abriu a porta com
esforo por causa da neve, e esgueirou-se para dentro. O daemon-ganso
entrou com ela. Pantalaimon estava agitado e temeroso, mas no queria
que o daemon da bruxa visse seu medo, de modo que voou para o peito de
Lyra e abrigou-se dentro do casaco dela. Assim que os olhos de Lyra se
acostumaram  penumbra ela viu o motivo dessa agitao. Numa srie de
caixas de vidro em prateleiras nas paredes, estavam todos os daemons das
crianas seccionadas: formas fantasmagricas de gatos, pssaros, ratos e
outras criaturas, todos perplexos, assustados e plidos como fumaa. O
daemon da bruxa soltou uma exclamao de raiva, e Lyra apertou
Pantalaimon contra si, dizendo: - No olhe! No olhe! - Onde esto as
crianas desses daemons? - o ganso perguntou, tremendo de raiva. Lyra
contou seu encontro com o pequeno Tony Makarios e olhou por cima do
ombro para os pobres daemons encarcerados, que apertavam os focinhos
plidos contra o vidro. Lyra escutava gritos abafados de dor e
sofrimento. Na luz fraca de uma lmpada anbrica de baixo poder, ela viu
em frente a cada caixa um nome #278 num carto, e havia uma caixa vazia
com o nome de Tony Makarios. Havia outras quatro ou cinco caixas vazias
com nomes. - Quero soltar esses pobrezinhos! - disse com fria. - Vou
quebrar o vidro e soltar todos eles... E olhou em volta procurando
alguma coisa para quebrar o vidro, mas no encontrou. - Espere - disse o
daemon-ganso. Ele era o daemon de uma bruxa e muito mais velho que ela,
e mais forte. Ela foi obrigada a obedecer. - Temos que fazer essas
pessoas acreditarem que algum se esqueceu de trancar o lugar e fechar
as caixas - ele explicou. - Acha que seu disfarce vai durar muito tempo
se encontrarem vidro quebrado e pegadas na neve? Ele tem que durar at a
chegada dos gpcios. Agora faa exatamente o que eu digo: pegue um
punhado de neve e quando eu mandar, sopre um pouquinho em cima de cada
caixa. Ela correu para fora. Roger e Billy ainda estvam montando
guarda, e o barulho de gritos e risadas na arena ainda era forte, pois
tinha se passado pouco mais de um minuto. Ela encheu as duas mos de
neve solta e voltou para dentro para fazer o que o daemon-ganso havia
mandado. Enquanto ela soprava um pouco de neve sobre cada caixa, o ganso
dava um estalinho com a garganta e a tranca de cada caixa se abria.
Depois de destrancar todas, ela abriu a frente da primeira, e a figura
plida de uma andorinha lanou-se para fora, mas caiu no cho, sem
conseguir voar. O ganso inclinou-se e colocou-a de p carinhosamente,
com o bico, e a andorinha virou uma ratazana cambaleante e confusa.
Pantalaimon saltou para o cho para consol-la. Lyra trabalhou depressa,
e em poucos minutos todos os daemons estavam livres. Alguns tentavam
falar, e rodeavam os ps dela e at tentavam bicar suas perneiras,
embora o tabu os impedisse. Ela sabia a razo: os pobrezinhos sentiam
falta do calor slido #279 e pesado do corpo dos seus humanos; como
Pantalaimon teria feito, eles ansiavam por se achegarem a um corao
pulsando. -Agora depressa, Lyra, voc tem que voltar correndo e se
misturar as outras crianas - disse o ganso. - Seja corajosa, filha. Os
gpcios esto vindo o mais depressa possvel. Tenho que ajudar esses
coitados a encontrarem seus humanos... - Ele se aproximou dela e disse
baixinho: - Mas nunca tornaro a ser unos. Esto separados para sempre.
 a coisa mais cruel que j vi... Pode deixar suas pegadas, eu vou
cobri-las. Agora corra... - Ah, por favor, antes de ir... As bruxas...
Elas voam mesmo, no ? Eu no estava sonhando quando vi bruxas voando?
- Sim, minha filha. Por qu? - Elas poderiam puxar um balo? - Claro que
sim, por qu? - Serafina Pekkala vem tambm? - No tenho tempo para
explicar a poltica das naes das bruxas. Existem grandes poderes
envolvidos, e Serafina Pekkala deve cuidar dos interesses do seu cl.
Mas pode ser que isso que est acontecendo aqui seja parte de tudo que
est acontecendo em toda parte. Lyra, precisa voltar para l. Corra,
corra! Ela correu, e Roger, que observava de olhos arregalados os
daemons plidos que saam da construo, foi at ela atravs da nevE. -
Eles so...  como a cripta da Jordan... So daemons! - Sim, fale baixo.
No conte a Billy. No conte a ningum. Vamos voltar. Atrs deles, o
ganso batia as asas com fora, jogando neve sobre as pegadas das
crianas; os daemons perto dele se amontoavam com gemidos de sofrimento
e saudade. Depois de cobrir as pegadas, o ganso virou-se para reunir o
grupo de daemons plidos. Ele falou alguma coisa, e um por um eles
mudaram de forma embora isso lhes custasse um grande esforo, at serem
todos #280 pssaros; e como filhotinhos eles seguiram o daemon da bruxa,
voejando, caindo e correndo pela neve atrs dele, e finalmente, com
grande dificuldade, levantando vo. Subiram numa fila irregular, plida
e fantasmagrica contra o cu escuro, aos poucos ganhando altura, embora
alguns voassem erraticamente, enquanto outras perdiam altura; mas o
grande ganso cinzento voltou-se e os colocou no rumo certo, e finalmente
sumiram todos na escurido. Roger puxava o brao de Lyra. - Depressa,
eles esto quase prontos - ele disse. Saram correndo aos tropeos pela
neve ao encontro de Billy, que acenava da esquina do prdio principal.
As crianas tinham se cansado, ou ento os adultos haviam feito valer
sua autoridade, porque havia uma fila comeando na porta principal, com
muitos empurres e discusses. Lyra e os outros dois misturaram-se s
outras crianas, mas no antes de Lyra dizer: - Espalhem entre as
crianas que  para elas se prepararem para fugir. Precisam saber onde
esto as roupas de frio, ficar prontas para pegar as roupas e correr
assim que dermos o sinal. E isso tem que ser um segredo mortal,
entenderam? Billy assentiu, e Roger perguntou: - Qual ser o sinal? - O
alarme de incndio - disse Lyra. - Quando chegar a hora, eu vou fazer
ele disparar. Esperaram a contagem. Se algum do Conselho de Oblao
tivesse alguma coisa a ver com uma escola, teria preparado melhor o
treinamento: como no estavam divididas em grupos, eles tinham que
procurar o nome de cada criana na lista completa, que evidentemente no
estava em ordem alfabtica; e nenhum dos adultos estava acostumado a
controlar crianas. De modo que houve muita confuso, embora todas
permanecessem em fila. Lyra observava tudo. Aquelas pessoas no sabiam
trabalhar; eram negligentes em certas coisas; reclamavam daquele
treinamento, #281 no sabiam onde deviam ficar as roupas de frio, no
conseguiam fazer as crianas formarem uma fila decente; e essa
negligncia poderia ser vantajosa para ela. Estava tudo quase terminado
quando houve outra interrupo, que do ponto de vista de Lyra foi a pior
possvel. Ela ouviu o som ao mesmo tempo que os outros. Todos comearam
a olhar para o cu escuro em busca do zepelim, cujo motor a gs pulsava
no ar imvel. A nica sorte foi que ele vinha da direo oposta ao
caminho do ganso. Mas era o nico consolo; logo a nave estava visvel, e
um murmrio de excitao percorreu a multido. O corpo rolio, leve e
prateado deslizou acima da avenida de luzes, e suas prprias luzes
clareavam o solo. O piloto diminuiu a velocidade e iniciou o complicado
processo de ajustar a altura. Lyra percebeu a funo do mastro: amarrar
a aeronave. Enquanto os adultos levavam as crianas para dentro, com
todas olhando para cima e apontando, a equipe de terra subia a escada do
mastro, preparando-se para receber os cabos de atracao. Os motores
roncavam, e a neve subia do solo, e os rostos dos passageiros apareciam
nas janelas da cabine. Lyra olhou e o que viu no lhe deixou dvidas.
Pantalaimon agarrou-se a ela, tornou-se um gato-do-mato e sibilou de
dio, porque, olhando pela janela com curiosidade, estava o lindo rosto
da Sra. Coulter, tendo no colo o seu daemon dourado. #282 16 A
GUILHOTINA PRATEADA LYRA imediatamente enfiou a cabea dentro do  abrigo
de seu capuz de pele de carcaju e entrou pelas portas duplas com as
outras crianas. Teria tempo suficiente para se preocupar com o que ia
dizer quando as duas se encontrassem cara a cara; tinha outro problema a
resolver primeiro, qual seja: onde esconder as roupas de modo que
pudesse peg-las sem precisar pedir permisso. Mas por sorte havia tal
desordem no prdio, com os adultos tentando apressar a entrada das
crianas para darem lugar aos passageiros do zepelim, que ningum estava
vigiando muito bem. Lyra tirou o casaco, as perneiras e as botas e fez
deles a menor trouxa que conseguiu, antes de atravessar os corredores
cheios de gente e ir para o seu dormitrio. Rapidamente puxou a
mesa-de-cabeceira para o canto, subiu em cima dela e empurrou uma placa
do teto. A placa ergueu-se, como Roger tinha dito, e l em cima ela
enfiou as botas e as perneiras. Em seguida tirou o aletmetro da sacola
e enfiou-o no bolso mais escondido do casaco, antes de guardar tambm o
casaco no esconderijo do teto. #283 Depois saltou para o cho, empurrou
a mesinha para o lugar e cochIchou com Pantalaimon: -Temos que fingir
que somos idiotas at ela nos ver, e ento dizemos que fomos raptados. E
nada sobre os gpcios, e especialmente sobre Iorek Byrnison. Pois Lyra
agora percebia algo que no tinha percebido antes: que todo o medo em
sua natureza era atrado para a Sra. Coulter como o ponteiro de uma
bssola  atrado pelo Plo. Podia suportar todas as outras coisas que
tinha visto, at mesmo a terrvel crueldade da interciso; era
suficientemente forte para isto. Mas a idia daquele rosto delicado e da
voz gentil, a imagem do macaco dourado e brincalho eram suficientes
para fazer seu estmago congelar e deix-la plida e nauseada. Mas os
gpcios estavam chegando -precisava pensar nisso, pensar em Iorek
Byrnison; e no se denunciar. Voltou para a cantina, de onde vinha muito
barulho. As crianas faziam fila para ganhar leite quente, algumas ainda
usando os casacos de seda carbonfera. As conversas eram sobre o zepelim
e sua passageira. -Era ela. Com o daemon-macaco. -Foi ela quem pegou
voc tambm? -Ela disse que ia escrever para mame e papai e aposto que
no escreveu... -Ela nunca nos contou que as crianas morriam. Nunca
falou sobre isso. -Aquele macaco, ele  o pior. Pegou a minha Karossa e
quase matou. Eu fiquei fraco... Todos tinham tanto medo quanto Lyra. Ela
encontrou Annie e as outras e sentou-se com elas. -Escutem, vocs
conseguem guardar um segredo? -Sim! As trs olharam para ela com grande
expectativa. #284 -Existe um plano de fuga. Certas pessoas vm nos
libertar , vo chegar amanh  noite. Talvez antes. O que temos que
fazer  estarmos prontos e assim que ouvirmos o sinal, pegarmos nossas
roupas de frio e corrermos para fora. Nada de esperar. Vai ser preciso
correr. Mas se no pegarem os agasalhos e as botas, vocs vo morrer de
frio. -Qual vai ser o sinal? -Annie quis saber. -O alarme de incndio
vai tocar, como tocou hoje. Est tudo planejado. Todas as crianas vo
ficar sabendo, e nenhum dos adultos. Especialmente ela. Todos tinham os
olhos brilhantes de esperana e entusiasmo. E a mensagem estava se
espalhando por toda a cantina: Lyra sentia que a atmosfera havia mudado.
Ao ar livre, as crianas estavam alegres, cheias de energia e ansiosas
para brincar; ento, depois que viram a Sra. Coulter, elas se encheram
de medo e histeria reprimida; mas agora havia em sua tagarelice um
controle e um propsito. Lyra maravilhou-se com o poder da esperana.
Ficou vigiando a porta aberta, mas com cautela, pronta para baixar a
cabea; ouviram-se vozes de adultos que se aproximavam, e ento a Sra.
Coulter em pessoa apareceu por um instante, olhou para dentro da cantina
e sorriu para as crianas felizes, com seus copos de leite quente e seus
biscoitos, to quentinhas e bem nutridas. Quase instantaneamente um
arrepio percorreu a cantina, e todas as crianas silenciaram e ficaram
imveis, olhando para ela. A Sra. Coulter sorriu e seguiu em frente sem
uma palavra. Aos poucos, a conversa recomeou na cantina. Lyra
perguntou: -Onde  que eles conversam? -Provavelmente na sala de
reunies -disse Annie. - Uma vez nos levaram l -acrescentou,
referindo-se a ela e seu daemon. -Eram uns 20 adultos e um deles estava
fazendo uma palestra. Eu tive que ficar parada l e fazer o que ele
mandava, como ver a distncia que o Kyrillion podia ficar de mim, e
ento ele me hipnotizou e fez outras coisas...  uma sala enorme com
#285 muitas cadeiras e mesas e uma pequena plataforma. Fica atrs da
recepo. Ei, aposto que eles vo fingir que o treinamento de incndio
deu certO. ApostO que eles tm medo dela, igual a ns... Pelo restO do
dia Lyra ficou perto das outras meninas, observando, Falando pouco,
agindo discretamente. Houve ginstica, depois costura, depois o jantar,
o recreio no salo -um aposentO grande e tristonho, com tabuleiros de
jogos, alguns livros velhos e uma mesa de pingue-pongue. Em certO
momento, Lyra e os outrOS tomaram conscincia de que estava acontecendo
alguma emergncia, porque os adultos andavam apressados de um lugar para
outrO oU ficavam parados em grupinhos, conversando com ansiedade. Lyra
adivinhou que eles tinham descoberto a fuga dos daemons e tentavam
entender como aquilo havia acontecido. Mas no viu a Sra. Coulter, o que
foi um alivio. Quando chegou a hora de dormir, ela j sabia que teria
que contar tudo s outras. -Escute, eles costumam vir ver se estamos
mesmo dormindo? -Uma vez s -disse Bella. -Mas s passam o facho da
lanterna, no olham de verdade. -timo, porque vou dar uma olhada por
a. H um caminho pelo tetO que um garoto me ensinou... Ela explicou e
antes mesmo de terminar foi interrompida por Annie: -Vou com voc! -
bom no ir, porque  melhor que s uma menina fique sumida. Todas podem
dizer que estavam dormindo e no me viram Sair. -Mas se eu fosse com
voc... -Seria mais fcil sermoS apanhadas -Lyra completoU. Os daemons
das duas se entreolhavam: Pantalaimon como gato-do-mato e Kyrillion como
raposa. Ambos tremiam de leve. Pantalaimon sibilou quase inaudivelmente
e mostrOU os dentes, #286 e Kyrillion virou-se para o outro lado e
ps-se a lamber os prprios plos despreocupadamente. -Est certo
-resignou-se Annie. Era comum que discusses entre as crianas fossem
resolvidas assim, por seus daemons, um deles se curvando  vontade do
outro. Os humanos aceitavam o desfecho sem ressentimento, de modo que
Lyra sabia que Annie ia fazer o que ela pedisse. Todas forneceram peas
de roupa para fazer volume sob as cobertas de Lyra como se ela estivesse
deitada e prometeram dizer que nada sabiam sobre aquilo tudo. Ento Lyra
escutou para ter certeza de que ningum vinha, subiu na
mesinha-de-cabeceira, levantou a placa e puxou-se para cima. -No falem
nada! -sussurrou para os trs rostos que a observavam. Ento recolocou
com cuidado a placa no lugar e olhou em volta. Estava agachada sobre uma
estreita canalera de metal presa numa grade de metal. As placas do teto
eram ligeiramente translcidas, de modo que passava alguma luz de baixo,
e Lyra viu que aquele espao baixo onde estava- cerca de meio metro de
altura -estendia-se para todos os lados. Estava apinhado de canos e
tubos de metal, e seria fcil perder a direo, mas se ela permanecesse
em cima das canaleras e evitasse colocar peso em cima das placas, e
contanto que no fizesse barulho, conseguiria atravessar a Estao de
uma ponta  outra. -Igualzinho l na Jordan, Pantalaimon -ela sussurrou.
-A gente espionando a Sala Privativa. -Se voc no tivesse feito aquilo,
nada disso teria acontecido -ele cochichou de volta. -Ento tenho que
consertar o que fiz, no ? Ela marcou as direes, calculando
aproximadamente onde ficaria a sala de reunies, e ento partiu. Era uma
viagem muito difcil; ela precisava engatinhar, pois no caberia ali de
outra #287 maneira, e de vez em quando tinha que se espremer sob um tubo
de metal grande e quadrado, ou ento passar por cima de canos de
aquecimento. As canaletas de metal pelas quais ela engatinhava seguiam o
topo das paredes internas, pelo que ela podia perceber, e enquanto
permanecesse nelas, sentia uma reconfortante solidez; mas eram estreitas
e tinham as bordas aguadas, a tal ponto que ela cortou os ns dos dedos
das mos e um joelho, e em pouco tempo estava toda doda, com cibras e
muito empoeirada. Porm sabia mais ou menos onde estava e conseguia ver
o volume escuro dos seus agasalhos sobre o teto do dormitrio, como um
marco para gui-la de volta. Passou por alguns aposentos vazios, onde as
placas no estavam iluminadas por baixo; de vez em quando, ouvia vozes e
parava para escutar, mas eram apenas as cozinheiras na cozinha ou as
enfermeiras reunidas naquilo que Lyra concluiu ser sua sala de descanso.
Elas nada diziam de interessante, de modo que Lyra seguiu em frente.
Finalmente chegou  rea onde deveria estar a sala de reunies, segundo
seus clculos; de fato, havia uma rea sem canalizao, onde tubos do
ar-condicionado e da calefao desciam por um canto e onde todas as
placas num espao amplo e retangular estavam iluminadas. Ela colou o
ouvido numa placa e ouviu um murmrio de vozes adultas masculinas;
percebeu que tinha encontrado o lugar que procurava. Com muito cuidado,
ela avanou centmetro a centmetro at ficar o mais perto possvel das
pessoas. Ento estendeu-se de corpo inteiro sobre a canaleta de metal e
inclinou a cabea de lado para melhor escutar . Ouviu sons ocasionais de
talheres e de loua: eles estavam jantando enquanto conversavam. Parecia
haver quatro vozes, inclusive a da Sra. Coulter. As outras eram
masculinas. Pareciam estar discutindo a fuga dos daemons. -Mas quem est
encarregado de supervisionar aquela seo? -perguntou a voz suave e
musical da Sra. Coulter. #288 -Um estudante de pesquisa chamado McKay-
disse um dos homens. -Mas existem mecanismos automticos para impedir
esse tipo de coisa... -Que no funcionam -interrompeu ela. -Com todo
respeito, eles funcionam, sim, Sra. Coulter. McKay afirma que trancou
todas as caixas quando saiu de l s 11 horas de hoje. A porta externa 
claro que no teria sequer sido aberta, pois ele entrou e saiu pela
porta interna, como fazia normalmente.  preciso teclar um cdigo no
aparelho que controla as fechaduras, e isso fica registrado na memria
do aparelho. Se isso no for feito, o alarme toca. -Mas o alarme no
tocou -ela contestou. -Tocou, sim. Infelizmente ele tocou quando todos
estavam do lado de fora tomando parte no treinamento de incndio. -Mas
quando vocs tornaram a entrar... -Infelizmente os dois alarmes esto no
mesmo circuito;  uma falha de infra-estrutura que ter de ser
retificada. Aconteceu que quando o alarme de incndio foi desligado
depois do treinamento, o alarme do laboratrio tambm foi. Mesmo assim o
fato teria sido percebido, por causa das verificaes normais que so
feitas depois de qualquer quebra da rotina; mas a essa altura, Sra.
Coulter, a senhora chegou inesperadamente, e como deve se lembrar, pediu
especificamente para ver a equipe do laboratrio imediatamente, na sua
sala. Conseqentemente, passou-se algum tempo at algum voltar ao
laboratrio. -Entendo -disse a Sra. Coulter em tom frio. -Nesse caso, os
daemons devem ter sido libertados durante o treinamento. E isso amplia
alista de suspeitos para todos os adultos da Estao. J pensou nisso?
-A senhora j pensou que pode ter sido feito por uma criana? -falou
outra voz. Ela ficou em silncio, e o homem continuou: #289 -Cada adulto
tinha uma tarefa a cumprir. Cada uma ia requerer ateno total, e todas
elas foram cumpridas. No h possibilidade de que algum da equipe
pudesse ter aberto a porta. Nenhuma possibilidade. Ento, ou algum
entrou de fora com a inteno de fazer isso, ou uma das crianas
conseguiu entrar, abrir a porta e as caixas e voltar para a frente do
prdio principal. -E que  que os senhores esto fazendo para
investigar? -ela perguntou. -Alis, no quero saber. Por favor
compreenda, Dr. Cooper, no estou criticando por maldade. Temos que ser
extraordinariamente cautelosos. Foi uma falha atroz colocar os dois
alarmes no mesmo circuito. Isso tem que ser corrigido imediatamente. Com
certeza, o oficial trtaro encarregado da guarda poderia ajudar na
investigao? Menciono isso como mera possibilidade. Alis, onde estavam
os trtaros durante o treinamento? Imagino que j tenha pensado nisso.
-J pensei, sim -disse o homem em tom cansado. - O corpo de guarda
estava inteiramente ocupado patrulhando. Todos os homens. Eles mantm
registro de tudo, meticulosamente. -Tenho certeza de que vocs esto
fazendo o possvel - disse ela. -Bem,  isso. Uma pena. Mas vamos mudar
de assunto. Fale-me do novo seccionador. Lyra sentiu um arrepio de medo.
Aquilo s podia significar uma coisa. -Ah, houve um grande progresso
-disse o mdico, aliviado ao ver que a conversa tomava outro rumo. -Com
o primeiro modelo, ns no conseguamos anular inteiramente o risco da
morte do paciente por choque, mas isso foi muito aperfeioado. -Os
escraelingues faziam isso muito melhor a mo - disse o homem que ainda
no tinha falado. -Sculos de prtica -disse o outro homem. #290 -Mas,
durante algum tempo, a nica opo era simplesmente usar a fora -disse
o principal interlocutor. -Por mais que isso perturbasse os operadores
adultos. Todos se lembram que tivemos que despedir um bom nmero deles
por problemas de ansiedade causada pela tenso. Mas o primeiro grande
progresso foi o uso da anestesia combinado com o bisturi anbrico de
Maystadt. Conseguimos reduzir a menos de cinco por cento o risco de
morte por choque operatrio. -E o novo instrumento? -a Sra. Coulter quis
saber. Lyra estava tremendo. O sangue pulsava em seus ouvidos, e
Pantalaimon apertava seu corpo de arminho de encontro a ela, enquanto
sussurrava: -Psiu, Lyra, eles no vo fazer isso, ns no vamos
deixar... -Sim, foi uma curiosa descoberta do prprio Lorde Asriel que
nos deu a pista para esse novo mtodo. Ele descobriu que uma liga de
mangans e titnio tinha a propriedade de isolar o corpo e o daemon.
Alis, que  que anda acontecendo com Lorde Asriel? -Talvez voc no
tenha ficado sabendo, mas Lorde Asriel est sob sentena de morte
pendente. Uma das condies do exlio dele em Svalbard era desistir
totalmente da sua obra filosfica. Infelizmente ele conseguiu obter
livros e material, e levou suas pesquisas herticas at o ponto em que 
positivamente perigoso deix-lo vivo. De qualquer maneira, parece que o
Tribunal Consistorial de Disciplina comeou a debater a questo da
sentena de morte, e a probabilidade  de que ele seja executado. Mas
quanto ao seu instrumento novo, doutor, como  que ele funciona? -Ah,
sim... Sentena de morte? Meu Deus! Ah, sim, desculpe-me, o novo
instrumento. Estamos pesquisando o que acontece quando a interciso 
feita com o paciente consciente, e  claro que isso no podia ser feito
pelo processo de Maystadt. De modo que desenvolvemos uma espcie de
guilhotina, pode-se #291 dizer. A lmina  feita da liga de mangans e
titnio, e a criana  colocada num compartimento, como uma cabine, de
tela feita da mesma liga, com o daemon num compartimento igual, ligado
ao primeiro. Ento a lmina cai entre eles, cortando o elo entre os
dois. Ento se tornam entidades separadas. -Eu gostaria de assistir -ela
declarou. -E espero que seja logo. Mas agora estou cansada, acho que vou
para a cama. Quero ver todas as crianas amanh. Vamos descobrir quem
foi que abriu aquela porta. Houve o som de cadeiras em purradas,
cumprimentos e uma porta fechando-se. Ento Lyra ouviu os outros
tornarem a sentar-se e continuarem a conversa, mas em tom mais baixo.
-Que  que Lorde Asriel est planejando? -Acho que ele tem uma idia
inteiramente nova da natureza do P. O caso  esse.  profundamente
hertica, entendem, e o Tribunal Consistorial de Disciplina no pode
permitir outra interpretao alm da autorizada. Alm disso, ele quer
fazer experincias... -Experincias? Com o P? -Psiu, fale mais baixo...
-Acha que ela vai fazer um relatrio negativo? -No, no. Acho que voc
lidou muito bem com ela. -A atitude dela me preocupa... -No  uma
atitude filosfica? -Exatamente.  interesse pessoal. No gosto de usar
esta palavra, mas  quase sinistro. -Voc est exagerando. -Mas voc se
lembra das primeiras experincias, quando ela estava to ansiosa para
ver as separaes... Lyra no conseguiu controlar-se: um gemido escapou
de seus lbios e ao mesmo tempo ela estremeceu, e seu p esbarrou numa
trave. -Que foi isso? #292 -Foi no teto! -Depressa! O som de cadeiras
afastadas, ps correndo, uma mesa empurrada pelo cho. Lyra tentou
arrastar-se para longe dali, mas havia pouco espao, e ela no conseguiu
mover-se mais que alguns metros quando a placa ao seu lado foi erguida
de repente, e ela deparou com o rosto assustado de um homem. Estava to
perto que ela via todos os plos do bigode dele. Ele ficou to espantado
quanto ela, porm tinha mais liberdade de movimentos e conseguiu enfiar
a mo pelo buraco e agarrar-lhe o brao. -Uma criana! -No deixe que
fuja... Lyra enfiou os dentes na mo grande e sardenta do homem. Ele
gritou, mas no soltou o brao dela, mesmo quando os dentes lhe rasgaram
a pele. Pantalaimon rosnava e cuspia, mas isto no adiantava, o homem
era muito mais forte que ela; puxou-a at que ela teve que soltar a
trave  qual se agarrava com o outro brao, e metade do seu corpo caiu
pelo buraco. Ainda no tinha feito um nico som. Enroscou as pernas na
borda aguada de metal e lutou de cabea para baixo, arranhando,
mordendo, socando e cuspindo com enorme fria. Os homens ofegavam e
resmungavam de dor ou cansao, mas no cessavam de pux-la para baixo. E
de repente ela perdeu as foras. Era como se uma estranha mo tivesse
penetrado onde nenhuma mo tinha o direito de ir e arrancado dela algo
profundo e precioso. Ela sentiu-se fraca, tonta, nauseada e frouxa com o
choque. Um dos homens estava segurando Pantalaimon. Ele tinha agarrado o
daemon de Lyra com suas mos humanas, e o coitado do Pan tremia, quase
louco de horror e agonia. Em forma de gato-do-mato, seu plo ora ficava
opaco de fraqueza, #293 ora brilhava anbaricamente de terror... Ele
curvava-se para a sua Lyra, que estendia ambas as mos em sua direo.
Os dois ficaram imveis. Estavam presos. Ela sentia aquelas mos...
Aquilo no era correto... Era proibido tocar... Era errado... -Ela
estava sozinha? Um homem estudava o espao acima do teto. -Parece que
sim... -Quem  ela? -A garota nova. -Aquela que os caadores
samoiedes... -. -Ser que foi ela... os daemons... -Pode muito bem ter
sido. Mas no sozinha. -Ser que devamos contar... -Acho que isso ia
nos deixar mal, no ? -Concordo.  melhor ela no ficar sabendo. -Mas
que  que vamos fazer? -Ela no pode voltar para junto das outras
crianas. -Impossvel! -S podemos fazer uma coisa, eu acho. -Agora?
-Tem que ser. No podemos deixar para amanh. Amanh ela vai querer
assistir . -Podamos fazer ns mesmos. No h necessidade de envolver
outras pessoas. O homem que parecia ser o chefe, aquele que no estava
segurando Lyra nem Pantalaimon, batia nos dentes com a unha. Seus olhos
nunca estavam parados; iam de um lado para o outro rapidamente.
Finalmente ele assentiu com um gesto de cabea. -Agora. Faam agora.
Seno ela vai falar. O choque vai impedir pelo menos isso. Ela no vai
se lembrar de quem , o que viu, o que ouviu... Vamos. #294 Lyra no
conseguia falar; mal conseguia respirar. Teve que permitir que a
carregassem atravs da Estao pelos corredores brancos e desertos,
passando por aposentos onde lmpadas anbricas zumbiam, pelos
dormitrios onde as crianas dormiam com seus daemons ao lado,
compartilhando seus sonhos; a cada segundo do caminho, ela s enxergava
Pantalaimon e ele se debruava para ela, olhos nos olhos. Ento uma
porta foi aberta atravs de uma grande roda; houve um sibilo de ar, e
eles entraram numa cmara profusamente iluminada, com azulejos brancos
brilhando e ao inoxidvel. O medo que ela sentia era quase uma dor
fsica -alis, tornou-se mesmo uma dor fsica quando empurraram Lyra e
Pantalaimon na direo de uma grande gaiola de tela prateada, acima da
qual uma grande lmina prateada estava prestes a separ-los para todo o
sempre. Ela finalmente conseguiu gritar. O som repercutiu ruidosamente
nas superfcies azulejadas, mas a porta pesada tinha se fechado com um
sibilo; ela podia gritar para sempre, mas nenhum som escaparia dali. Mas
Pantalaimon, em resposta, havia se desvencilhado daquelas mos odiosas
-ele era leo, era guia: atacou-os selvagemente com as garras, batendo
as grandes asas, depois virou lobo, urso, gato-do-mato, rosnando,
arranhando, uma sucesso de transformaes rpidas demais para o olho, e
o tempo todo saltando, esvoaando, evitando as mos desajeitadas que
agarravam o VaziO. Mas eles tambm tinham seus daemons. No eram dois
contra trs, eram dois contra seis. Um texugo, uma coruja e um babuno
juntaram-se aos esforos para subjugar Pantalaimon, enquanto Lyra lhes
gritava: -Por qu? Por que logo vocs esto fazendo isso? Vocs tm que
nos ajudar. No deviam estar ajudando a eles! #295 Ela chutava e mordia
com mais af, at que o homem que a segurava deu um grito e soltou-a por
um momento -e ela se viu livre, e Pantalaimon lanou-se sobre ela como
um raio. Ela o apertou contra o peito, e ele enfiou as garras de
gato-do-mato na carne dela, e a dor era agradvel. -Nunca! Nunca! Nunca!
-ela gritou, e encostou-se  parede para defend-lo at a morte de
ambos. Mas eles caram sobre ela novamente, trs homens grandes e
brutais, e ela era apenas uma criana apavorada; eles lhe arrancaram
Pantalaimon, jogaram-na num lado da gaiola de tela e levaram o daemon,
ainda lutando, para o outro lado. Havia uma barreira de tela entre eles,
mas ele ainda fazia parte dela, ainda estavam unidos. Por mais um
segundo, ele ainda era a alma dela. Ento, acima dos grunhidos dos
homens e do prprio choro, Lyra ouviu um som de zumbido e viu um dos
homens (com o nariz sangrando) mexendo nos botes de um painel. Os
outros dois ergueram os olhos, e ela seguiu o olhar deles. A grande
lmina prateada erguia-se lentamente, refletindo o brilho da luz. O
ltimo instante de vida completa ia ser o pior de todos. -Que  que est
acontecendo aqui? -perguntou uma voz leve e musical. A voz dela. Tudo
ficou imvel. -Que  que vocs esto fazendo? E quem  esta criana...
Ela no completou a pergunta, pois nesse instante reconheceu Lyra.
Atravs das lgrimas, Lyra viu-a cambalear e agarrar-se a uma cadeira; o
to lindo e impassvel rosto ficou, por um instante, contorcido e
aterrorizado. -Lyra! -ela conseguiu dizer. No mesmo instante, o macaco
dourado afastou-se dela num salto e arrancou Pantalaimon de dentro da
gaiola de tela, ao mesmo tempo em que Lyra caa para fora da outra
gaiola. Pantalaimon desvencilhou-se das patas solcitas do macaco e foi
se aninhar nos braos de Lyra. #296 -Nunca, nunca- ela sussurrou. Ele
apertou-se contra ela, e os dois assim ficaram, como nufragos
estremecendo numa costa desolada. Ela mal ouviu a Sra. Coulter falando
com os homens e sequer conseguiu interpretar o tom da voz da mulher.
Ento todos saram daquele aposento odioso, a Sra. Coulter amparando
Lyra pelo corredor, entraram por outra porta, um quarto de dormir, luz
suave, perfume no ar. A Sra. Coulter colocou-a delicadamente sobre a
cama. O brao de Lyra apertava tanto Pantalaimon que ela tremia com o
esforo. Uma carinhosa mo acariciou-lhe atesta. -Minha querida criana
-disse a voz doce. -Como foi que voc veio parar aqui? #297 17 AS BRUXAS
LYRA gemia e tremia incontrolavelmente, como se tivesse sido retirada de
uma gua to fria que quase congelara seu corao. Pantalaimon
simplesmente apertara-se contra a pele nua dentro das roupas de Lyra,
acalmando-a com o seu amor, mas durante todo o tempo ele estava
consciente da Sra. Coulter, que se atarefava preparando uma bebida ou
algo assim, e principalmente do macaco dourado, cujos dedinhos tinham
percorrido o corpo de Lyra quando s Pantalaimon poderia ter percebido e
tinham sentido a sacola de lona pendurada na cintura dela. -Sente-se um
pouco, querida, e beba isto -disse a Sra. Coulter. Seu brao carinhoso
rodeou os ombros de Lyra e levantou-a. Lyra ia resistir, mas relaxou
imediatamente, quando Pantalaimon transmitiu-lhe um pensamento: "S
ficaremos em segurana se soubermos fingir. " Ela abriu os olhos e
percebeu que eles estavam cheios de lgrimas, e para sua prpria
surpresa e vergonha ps-se a chorar incontrolavelmente. A Sra. Coulter,
com frases de consolo, colocou a bebida nas mos do macaco enquanto
enxugava os olhos de Lyra com um lencinho perfumado. #298 -Chore 
vontade, querida- disse, com sua voz suave. Lyra ento resolveu parar
assim que conseguisse. Esforou-se para conter as lgrimas, apertou os
lbios e engoliu os soluos que ainda lhe sacudiam o peito. Pantalaimon
fazia o mesmo: engan-los, engan-los. Ele se tornou um rato e
esgueirou-se para longe da mo de Lyra para farejar timidamente a bebida
na mo do macaco. Era incua: um ch de camomila, nada mais. Ele voltou
para o ombro de Lyra e sussurrou: -Beba. Ela sentou-se e pegou a xcara
quente com as duas mos, bebericando e soprando para esfriar o ch.
Mantinha os olhos baixos. Tinha que representar melhor do que jamais
fizera na vida. -Lyra, querida- murmurou a Sra. Coulter acariciando-lhe
os cabelos. -Pensei que tnhamos perdido voc para sempre! Que foi que
aconteceu? Voc se perdeu? Algum levou-a do apartamento? -Foi -Lyra
sussurrou. -Quem fez isso, querida? -Um homem e uma mulher. -Convidados
da festa? -Acho que sim. Disseram que a senhora precisava de uma coisa
que estava no andar trreo, e eu fui buscar. Eles me agarraram e me
levaram num carro. Mas quando pararam, eu fugi depressa e me escondi, e
eles no me acharam. Mas eu no sabia onde estava... Outro soluo a
interrompeu, agora mais fraco, e ela podia fingir que ele tinha sido
provocado pela histria que estava contando. -E fiquei vagando, tentando
encontrar o caminho de volta, mas ento os Papes me pegaram... E me
puseram numa #299 camionete com outras crianas e me levaram para um
lugar, uma casa muito grande, no sei onde era. A cada segundo que se
passava, a cada frase inventada, ela se sentia um pouco mais forte. E
agora que estava fazendo algo difcil e costumeiro e nunca muito
previsvel, que era mentir, ela tornou a sentir uma espcie de
segurana, o mesmo senso de complexidade e controle que o aletmetro lhe
dava. Tinha que tomar cuidado para no dizer alguma coisa obviamente
impossvel; devia ser vaga em certas partes e inventar detalhes
plausveis em outras; em suma, tinha que ser uma artista. -Quanto tempo
voc ficou naquela casa? -quis saber a Sra. Coulter . A viagem de Lyra
pelos canais e o tempo que ela passara com os gpcios tinham levado
semanas; ela precisava justificar esse tempo. Ento inventou uma viagem
com os Papes para Trollesund, e depois uma fuga, cuja inveno lhe deu
a oportUnidade de mencionar muitos detalhes de suas observaes da
cidade; e algum tempo trabalhando como criada no Bar de Einarsson, e
ento algum tempo trabalhando para uma famlia de fazendeiros no
interior, depois presa pelos samoiedes elevada para Bolvangar . -E eles
iam... iam cortar... -Psiu, querida. Vou descobrir o que est
acontecendo. -Mas por que iam fazer isso? Nunca fiz nada errado! Todas
as crianas tm medo do que acontece l, e ningum sabe o que . Mas 
horrvel.  a pior coisa... Por que esto fazendo isso, Sra. Coulter?
Por que so to cruis? -Pronto, pronto... Voc est em segurana, minha
querida. Nunca faro isso com voc. Agora que a encontrei, nunca mais
estar em perigo. Ningum vai lhe fazer mal, querida Lyra; ningum
jamais vai mago-la... -Mas fazem isso com outras crianas! Por qu?
-Ah, meu amor... #300 - o P, no ? -Eles lhe disseram isso? Os
mdicos disseram isso? -As crianas sabem. Todas falam sobre isso, mas
ningum sabe direito! E quase fizeram aquilo comigo... A senhora tem que
me dizer! A senhora agora no tem mais direito de esconder! -Lyra...
Lyra, querida, so coisas complicadas, o P e o resto. No  assunto
para uma criana se preocupar. Mas os mdicos fazem isso pelo bem da
prpria criana, meu amor. O P  uma coisa ruim, uma coisa errada, uma
coisa m e perversa. Os adultos e seus daemons esto infectados de P
to profundamente que para eles  tarde demais. Mas uma simples operao
numa criana faz com que fiquem a salvo. O P no vai mais se prender a
elas. Elas ficam seguras e felizes e... Lyra pensou no pequeno Tony
Makarios; inclinou-se para a frente e teve nsias de vmito. A Sra.
Coulter soltou-a. -Voc est bem, minha querida? V ao banheiro... Lyra
engoliu em seco e esfregou os olhos. -No precisam fazer isso com agente
-disse. -Podiam nos deixar em paz. Aposto que Lorde Asriel no deixaria
eles fazerem isso, se soubesse o que est acontecendo. Se ele tem o P e
a senhora tambm, e o Reitor da Jordan e todos os adultos tambm, deve
estar certo. Quando eu sair, vou contar isso a todas as crianas do
mundo. De qualquer maneira, se  uma coisa to boa, por que a senhora
impediu que fizessem comigo? Se fosse uma coisa boa, a senhora devia ter
deixado. Devia ficar feliz. A Sra. Coulter sacudiu a cabea e sorriu um
sorriso triste e sbio. -Querida, certas coisas boas doem um pouco, e
naturalmente outras pessoas ficam perturbadas se voc fica... Mas no
significa que levem seu daemon para longe de voc. Meu Deus, muitos
adultos aqui fizeram essa operao. As enfermeiras parecem bastante
felizes, no parecem? #301 Lyra pestanejou; de repente entendia a
estranha apatia e falta de curiosidade das enfermeiras, o modo como seus
pequenos daemons pareciam sonmbulos. Ela pensou: no diga nada. E ficou
de boca fechada. -Minha querida, ningum sonharia em fazer uma cirurgia
numa criana sem realizar testes antes. E ningum, nem em mil anos,
conseguiria afastar uma criana e seu daemon! Tudo que acontece  um
pequeno corte, e ento fica tudo bem. Para sempre! Entende, quando a
pessoa  criana, o daemon dela  um amigo e companheiro maravilhoso,
mas na idade que chamamos de puberdade, a idade que voc logo ter,
querida, os daemonstrazem todo tipo de pensamentos e sentimentos
perturbadores, e  isso que deixa o P entrar. Uma pequena operao
antes disso faz com que a criana nunca se perturbe. E o daemon continua
com ela, s que... desligado. Como um... como um maravilhoso bichinho de
estimao, por exemplo. O melhor bichinho de estimao do mundo! Voc
no gostaria disso? Ah, que hipcrita perversa, quantas mentiras
deslavadas ela dizia! E mesmo se Lyra no soubesse que eram mentiras
(Tony Makarios, os daemons nas caixas de vidro...), ela teria odiado
aquela idia: sua alma querida, o caro companheiro do seu corao,
cortado dela e reduzido a um bichinho de estimao? Lyra quase fervia de
dio, e em seus braos Pantalaimon transformou-se num gato-do-mato, a
mais feia e perversa de todas as suas formas, e rosnou. Mas nada
disseram. Lyra segurou Pantalaimon com fora e deixou a Sra. Coulter
acariciar seus cabelos. -Beba seu ch -disse a Sra. Coulter em tom
carinhoso. -Vou mandar preparar uma cama para voc aqui. No  preciso
voltar para o dormitrio com as outras garotas, agora que tenho de volta
minha pequena secretria. A minha favorita! A melhor secretria do
mundo. Reviramos Londres inteira atrs de voc, sabia, minha querida? E
a polcia procurou em todas as cidades. #302 Ah, senti tanta saudade!
Nem sei dizer como estou feliz por encontr-la de novo! Durante todo
esse tempo, o macaco dourado mostrava-se inquieto, num minuto
empoleirado na mesa balanando o rabo, no outro minuto agarrado  Sra.
Coulter, falando baixinho em seu ouvido, no minuto seguinte andando de
um lado para outro com a cauda ereta. Ele estava mostrando a impacincia
que a Sra. Coulter sentia e que finalmente ela no conseguiu mais
controlar . -Lyra, minha querida -disse. -Acho que o Reitor da Jordan
lhe deu uma coisa antes de voc ir embora. Estou certa? Ele lhe deu um
aletmetro. O problema  que o instrumento no era dele, ele apenas
tomava conta.  uma coisa valiosa demais para ficar por a. S existem
dois ou trs no mundo inteiro, sabia? Acho que o Reitor lhe deu o
aletmetro na esperana de que ele casse nas mos de Lorde Asriel. Ele
lhe disse para no me contar, no foi? Lyra torceu a boca. -, estou
vendo que sim. Bom, no tem importncia, querida, porque voc no me
contou, certo? Ento no quebrou sua promessa. Mas escute, querida, 
uma coisa que devia ser guardada com cuidado.  to rara e delicada que
infelizmente no podemos deix-la correr riscos. -Por que Lorde Asriel
no pode ter essa coisa? -Lyra perguntou. -Por causa do que ele est
fazendo. Voc sabe que ele foi exilado porque pretende fazer uma coisa
errada e perigosa. Ele precisa do aletmetro para terminar seu plano,
mas pode acreditar, minha querida, a ltima coisa que algum devia fazer
 dar o aletmetro a ele. Infelizmente o Reitor da Jordan estava
enganado. Mas agora que voc sabe, no seria melhor me dar para guardar?
Voc ficaria livre de ter que carregar isso por a e da preocupao de
tomar conta dele. E voc deve ter ficado mesmo #303 curiosa, querendo
saber para que servia uma coisa boba e velha como essa... Lyra
perguntou-se como foi que tinha um dia achado aquela mulher fascinante e
inteligente. -Ento, se voc est com ele agora, querida,  melhor me
dar para eu tomar conta. Est pendurado na sua cintura, no est? , foi
inteligente, guardar assim... Ela levantou a saia de Lyra e comeou a
desamarrar o cinto de lona. Lyra ficou tensa. O macaco dourado estava
agachado no p da cama, tremendo de ansiedade, as mozinhas pretas junto
 boca. A Sra. Coulter puxou o cinto da cintura de Lyra e desabotoou a
sacola. Tinha a respirao ofegante. Ela tirou o embrulho de veludo
negro e desdobrou o pano, encontrando a lata que Iorek Byrnison tinha
feito. Pantalaimon era novamente um gato pronto para saltar. Lyra puxou
as pernas, afastando-as da Sra. Coulter, e girou-as para o cho, para
que ela tambm pudesse correr quando chegasse a hora. -Que  isso?
-perguntou a Sra. Coulter, como se achasse graa. -Que lata engraada!
Voc colocou ele a dentro para ficar seguro, minha querida? Todo esse
musgo... Voc foi cuidadosa, no foi? Outra lata, dentro da primeira! E
soldada! Quem fez isso, minha querida? Ela estava preocupada demais em
abrir a lata para esperar a resposta. Tirou da bolsa um canivete com
vrias ferramentas, abriu uma lmina e enfiou sob a tampa. No mesmo
instante, um zumbido furioso encheu o quarto. Lyra e Pantalaimon ficaram
imveis. A Sra. Coulter, perplexa e curiosa, puxou a tampa, e o macaco
dourado debruou-se para ver de perto. Ento, como uma centelha, a forma
negra da mosca-espi saiu da lata e colidiu com fora com o focinho do
macaco. #304 o animal gritou e jogou-se para trs; naturalmente, a Sra.
Coulter tambm estava sentindo a dor e o medo do macaco e gritou junto
com ele, e ento o pequeno demnio mecnico virou-se para ela e veio em
direo ao seu rosto. Lyra no hesitou; quando Pantalaimon saltou para a
porta, ela foi atrs, abriu-a e correu como nunca tinha corrido na vida.
-O alarme de incndio! -Pantalaimon grunhiu, correndo na frente dela.
Ela viu um alarme na parede e quebrou o vidro com um soco desesperado. E
tornou a sair correndo na direo dos dormitrios, acionando todos os
alarmes que encontrava, e ento os corredores comearam a encher-se de
pessoas olhando em volta  procura do incndio. A essa altura, ela
estava perto da cozinha; Pantalaimon mandou-lhe um pensamento e ela
entrou correndo. Momentos depois, tinha aberto todos os bicos de gs e
jogado um fsforo aceso no bico mais prximo. Depois pegou um saco de
farinha e jogou-o com fora de encontro  beirada da mesa, explodindo o
saco e enchendo o ar de branco, pois ouvira dizer que a farinha no ar
explode perto do fogo. Enquanto isto, saiu correndo para seu prprio
dormitrio. Os corredores agora estavam apinhados, com crianas correndo
para todos os lados, cheias de excitao, pois o plano de fuga havia se
espalhado. As mais velhas iam para os depsitos onde as roupas ficavam
guardadas, levando consigo as mais novas. Os adultos tentavam controlar
tudo, e nenhum deles sabia o que estava acontecendo. Por toda parte
havia pessoas gritando, empurrando, chorando. Lyra e Pantalaimon
atravessaram tudo aquilo, seguindo sempre na direo do dormitrio;
assim que l chegaram ouviram uma exploso surda que sacudiu o prdio.
As outras meninas tinham fugido, o lugar estava deserto. Lyra arrastou a
mesa-de-cabeceira para o canto, subiu nela, puxou #305 suas roupas do
teto, procurou o aletmetro, encontrou-o bem seguro. Vestiu-se depressa,
puxando o capuz para encobrir o rosto, e ento Pantalaimon, uma
andorinha junto  porta, avisou: -Agora! Ela correu para fora. Por sorte
algumas crianas que j haviam encontrado agasalhos estavam correndo
pelo corredor na direo da entrada principal, e ela juntou-se ao grupo,
suando, o corao disparado, sabendo que tinha que fugir ou ento
morreria. Porm o caminho estava bloqueado; o incndio na cozinha se
espalhara, e a exploso -por causa do gs ou da farinha - tinha
derrubado parte do telhado. As pessoas subiam por cima das vigas
retorcidas para chegar ao frio cortante do ar livre. O cheiro de gs era
forte. Ento houve outra exploso, mais forte que a primeira. O impacto
derrubou muita gente, e gritos de medo e dor encheram o ar. Lyra lutou
para levantar-se, com Pantalaimon gritando "Por aqui! Por aqui!", e com
esforo subiu pelos destroos. O ar estava gelado, e ela esperava que as
crianas tivessem conseguido encontrar suas roupas de frio; seria o
cmulo conseguir fugir da Estao para morrer de frio! Agora as chamas
eram altas. Quando ela chegou ao telhado sob o cu noturno, viu as
labaredas lambendo as bordas de um grande buraco na lateral do prdio.
Havia uma multido de crianas e adultos junto  entrada principal, mas
desta vez os adultos estavam mais agitados e as crianas estavam mais
assustadas -muito mais assustadas. -Roger! Roger! -Lyra gritou, e
Pantalaimon, com a viso aguada de uma coruja, avisou que j o tinha
visto. No momento seguinte, eles se encontraram. -Diga a todos que
venham comigo! -Lyra gritou no ouvido dele. -Eles no vo... Esto
apavorados... #306 -Conte o que eles fazem com as crianas que
desaparecem! Cortam os daemons delas com uma faca enorme. Conte o que
voc viu esta tarde, os daemons que ns soltamos! Diga que isso vai
acontecer com elas tambm se no fugirem! Roger estava boquiaberto,
horrorizado, mas conseguiu controlar-se e correu para o grupo de
crianas mais prximo. Lyra fez o mesmo, e logo as crianas agarravam-se
aos seus daemons. -Venham comigo! -Lyra gritou. -Est vindo ajuda! Temos
que sair daqui! Vamos, corram! As crianas ouviram e obedeceram,
correndo pela praa na direo da avenida de luzes. Atrs delas, os
adultos gritavam, e houve um estrondo quando outra parte do prdio
desabou. As centelhas subiram no ar, e as chamas incharam com o som como
o de roupa rasgada. Porm, acima de todo esse rudo, ouviu-se outro som,
terrivelmente prximo e violento. Lyra nunca o tinha ouvido antes, mas
soube imediatamente do que se tratava: era o uivo dos daemons-lobas dos
guardas trtaros. Ela sentiu uma onda de fraqueza da cabea aos ps, e
muitas crianas estacaram, apavoradas, pois correndo surgiu o primeiro
dos guardas trtaros, rifle empunhado e a sombra enorme e cinzenta do
seu daemon logo atrs. Ento surgiu outro, e mais outro. Estavam todos
de armadura, os olhos invisveis por trs das fendas dos elmos. Os
nicos olhos  vista eram os orifcios redondos e negros da ponta do
cano dos rifles e os olhos amarelos e brilhantes das daemons-lobas acima
das bocarras cheias de saliva. Lyra hesitou. No tinha imaginado como
aquelas lobas eram apavorantes. E agora que conhecia a tranqilidade com
que as pessoas de Bolvangar desobedeciam ao grande tabu, ela se apavorou
com a idia daqueles dentes... Os trtaros fizeram uma barreira na
frente da entrada da avenida de luzes, com seus daemons ao lado,
disciplinadas e #307 treinadas como eles. Logo haveria uma segunda
barreira, pois vinham mais guardas, e mais ainda atrs desses. Lyra
pensou, desesperada: crianas no podem lutar contra soldados. No era
como as batalhas nos Barreiros de Oxford, quando ela arremessava bolas
de lama nos filhos dos oleiros. Ou talvez fosse! Ela lembrava-se de ter
jogado um punhado de lama no rosto largo de um menino da olaria que a
atacava; ele havia parado para tirar a lama dos olhos e ento os aliados
dela o atacaram. Na ocasio, ela estava no meio do barro; agora estava
no meio da neve. Exatamente como tinha feito naquela tarde, mas agora
com grande ansiedade, ela fez uma bola de neve e jogou-a no soldado mais
prximo. -Joguem nos olhos! -ela gritou, e jogou outra bola de neve.
Outras crianas a imitaram, e ento o daemon de algum teve a idia de
voar ao lado dos petardos e dirigi-los diretamente para dentro das
fendas dos elmos. Logo todos faziam isto, e em poucos momentos os
trtaros estavam cambaleantes, praguejando e tentando tirar a neve pela
fenda estreita em frente aos olhos. -Vamos! -Lyra gritou, e lanou-se
pelo porto para a avenida de luzes. Todas as crianas foram atrs dela,
evitando as lobas e correndo o quanto podiam pela avenida em direo 
escurido que as esperava. Um oficial gritou uma ordem, e todos os
rifles foram destravados ao mesmo tempo; houve outro grito e um silncio
tenso, ouvindo-se apenas os passos e a respirao ofegante das crianas
em fuga. Os soldados estavam fazendo pontaria. No iam errar. Mas antes
que pudessem atirar, ouviu-se o grito de um dos trtaros e exclamaes
de surpresa dos outros. #308 Lyra estacou e virou-se para ver um homem
cado na neve, com uma flecha de ponta de penas cinzentas enfiada nas
costas. Ele se contorcia e tossia, cuspindo sangue, e os outros soldados
olhavam em volta procurando quem havia atirado a flecha, mas o arqueiro
no estava  vista. Ento uma flecha veio voando do cu e atingiu outro
homem na nuca. Ele caiu. O oficial gritou, e todos olharam para o cu
escuro. -Bruxas! -disse Pantalaimon. E eram mesmo: figuras elegantes
voando l em cima, o ar zunindo por entre folhas dos galhos de pinheiro
nubgeno em que elas voavam. Enquanto Lyra observava, uma das figuras
deu um rasante e soltou uma flecha; outro homem caiu. Ento todos os
trtaros levantaram os rifles e atiraram para o alto, para nada
-sombras, nuvens -, enquanto mais flechas choviam sobre eles. Mas o
oficial comandante, vendo que as crianas fugiam, mandou um destacamento
atrs delas. Algumas crianas gritaram, depois outras, e finalmente
todas pararam e viraram-se, apavoradas pela figura monstruosa que sara
da escurido e vinha sobre elas. -Iorek Byrnison! -Lyra gritou, o peito
quase explodindo de alegria. O urso de armadura parecia no ter
conscincia de outra coisa alm do seu alvo de ataque; passou por Lyra
como um raio e caiu sobre os trtaros, espalhando soldados, daemons e
rifles para todos os lados. Ento parou e girou, com fora e
flexibilidade, e desfechou dois socos, um para cada lado, nos guardas
mais prximos. Um daemon-loba pulou sobre ele; Iorek rasgou-lhe a carne
em pleno ar, e ele caiu sobre a neve com o sangue espirrando como se
fosse fogo e ficou a contorcer-se e uivar at desaparecer. Seu humano
morreu imediatamente. #309 o oficial trtaro, ao enfrentar esse ataque
duplo, no hesitou, gritou uma longa ordem, e o corpo de guarda
dividiu-se em dois: um para repelir as bruxas e o grupo maior para
dominar o urso. Os soldados foram incrivelmente corajosos; ajoelharam-se
em grupos de quatro e dispararam seus rifles como se estivessem fazendo
um treinamento, e no se moveram nem mesmo quando viram Iorek vindo em
sua direo. No momento seguinte, estavam mortos. Iorek atacou outra
vez, enquanto as balas voavam  sua volta como moscas, sem lhe fazer
mal. Lyra levava as crianas para a escurido que havia depois da
avenida de luzes. Elas deviam se afastar, pois, por mais perigosos que
fossem os trtaros, muito mais perigosos eram os adultos de Bolvangar .
De modo que ela gritou, gesticulou e empurrou para que as crianas
avanassem. Enquanto as luzes ficavam para trs, lanando sombras
compridas na neve, Lyra sentia o corao alegrar-se no frio e na pureza
da escura noite do Artico, assim como Pantalaimon, que agora era uma
lebre deliciando-se em correr pela neve. -Aonde  que ns vamos? -algum
perguntou. -L na frente s tem neve! -disse outro. -Est vindo um grupo
de resgate -Lyra lhes contou. - So uns 50 gpcios. Aposto que alguns
so parentes de vocs. Todas as famlias gpcias que perderam uma
criana mandaram algum. -Eu no sou gpcio -disse um menino. -No faz
diferena. Vo levar voc tambm. -Para onde? -algum perguntou em tom
agressivo. -Para casa -Lyra respondeu. -Foi para isso que eu vim, para
salvar vocs, e trouxe os gpcios at aqui para levarem vocs para casa.
S temos que andar mais um pouquinho. O urso estava com eles, de modo
que no devem estar longe. -Viram aquele urso? -fez um menino. -Quando
ele rasgou aquele daemon, o homem morreu como se tivessem arrancado o
corao dele. #310 -Eu nunca soube que os daemons podem ser mortos -
disse outra criana. Agora todos estavam falando; a excitao e o alvio
destravara a lngua de todos. No tinha importncia que conversassem,
contanto que continuassem andando. - verdade que eles fazem aquilo l
dentro? -perguntou uma menina. -, sim -Lyra confirmou. -Nunca pensei
que um dia ia ver uma pessoa sem um daemon. Mas no caminho daqui
encontramos um menino sozinho, sem daemon. Ele no parava de perguntar
por ele, onde ele estava, se ele ia conseguir ach-lo. O nome dele era
Tony Makarios. -Eu conheo! -disse algum. -, levaram ele h uma
semana... -Bom, cortaram e tiraram o daemon dele -Lyra revelou, sabendo
que isto os afetaria. -E ele morreu logo depois. E todos os daemons que
eles cortam eles guardam em caixas de vidro numa casinha l atrs. -
verdade, e Lyra soltou eles durante o treinamento de incndio -disse
Roger . -, eu vi! -disse Billy Costa. -Primeiro eu no sabia o que
eram, mas vi quando foram embora voando com aquele ganso. -Mas por que
fazem isso? -um menino quis saber. - Por que tiram os daemons das
pessoas? Isso  tortura! Por que fazem isso? -Por causa do P? -sugeriu
algum. Mas o garoto riu com zombaria. -O P! -ecoou. -Isso no existe!
Eles inventaram! Eu no acredito nesse P. -Ei, vejam o que est
acontecendo com o zepelim! - avisou algum. Todos olharam para trs.
Alm das luzes, onde o combate ainda prosseguia, o enorme corpo da
aeronave no estava mais #311 flutuando serenamente, preso ao mastro; a
extremidade oposta estava afundando e atrs dela erguia-se um globo que
parecia ser... -O balo de Lee Scoresby! -Lyra exclamou, batendo palmas.
As outras crianas estavam perplexas. Lyra levou-as para a frente,
perguntando-se como o aerstata tinha conseguido trazer seu balo to
longe. Era bvio o que ele estava fazendo, e era uma tima idia: encher
seu balo com o gs do balo deles, possibilitando a fuga ao mesmo tempo
em que impedia a perseguio! Algumas das crianas estavam tremendo e
gemendo de frio, e seus daemons tambm choravam. -Vamos, no parem de
andar, seno vo congelar- Lyra disse. Pantalaimon, irritado com o
queixume dos daemons, transformou-se num lobinho e rosnou para o
daemon-esquilo que estava deitado no ombro de sua humana gemendo
baixinho. -Entre dentro do casaco dela! Fique maior e aquea ela!
-ordenou. O daemon da menina, assustado, obedeceu imediatamente. O
problema era que seda carbonifera no era quente como plos de verdade,
por mais que fosse acolchoada. Algumas crianas pareciam novelos
ambulantes, de to cheias de roupas, mas eram roupas feitas em fbricas
e laboratrios distantes do frio, e no eram eficazes. Os agasalhos de
peles que Lyra usava tinham aparncia suja e cheiravam mal, mas
conservavam o calor. -Se no encontrarmos logo os gipcios, eles no vo
durar muito -ela cochichou a Pantalaimon. -Ento no deixe ningum
parar. Se algum se deitar, est perdido. Sabe o que Farder Coram
disse... Farder Coram tinha contado muitas histrias de suas viagens ao
Norte. Tambm a Sra. Coulter -supondo que as histrias dela fossem
verdadeiras. Mas ambos foram muito claros num ponto: era preciso
continuar andando. #312 -Falta muito? -perguntou um menininho. -Ela s
est fazendo a gente andar at aqui para nos matar -disse uma menina.
-Prefiro aqui do que l -disse outra criana. -Eu no! Na Estao 
quentinho, tem comida, bebida e tudo. -Mas est pegando fogo! -Que  que
vamos fazer aqui fora? Aposto que vamos morrer de fome... A cabea de
Lyra estava cheia de perguntas lgubres esvoaando como as bruxas,
cleres e inatingveis, e em algum lugar, logo alm de onde ela
conseguia alcanar, havia uma euforia e uma emoo que ela no
compreendia. Mas que lhe deu uma onda de energia, e ela puxou uma menina
de dentro de um trecho de neve solta e empurrou um menino que havia
parado, gritando para todos: -No parem! Sigam as pegadas do urso! Ele
veio com os gpcios, ento o rastro dele vai nos levar at onde eles
esto! Continuem andando! A neve comeava a cair em grandes flocos; logo
iria encobrir inteiramente as pegadas de Iorek Byrnison. Agora que as
luzes de Bolvangar estavam fora de vista e o incndio produzia apenas um
leve brilho no cu, a nica luz vinha do reflexo fraco do cho coberto
de neve. Nuvens espessas escondiam o cu, de modo que no havia lua nem
Aurora Boreal; mas com ateno as crianas conseguiam distinguir as
pegadas fundas de Iorek Byrnison na neve. Lyra encorajava, intimidava,
batia, carregava, xingava, levantava e arrastava crianas conforme fosse
necessrio, e Pantalaimon, pelo estado do daemon de cada criana,
dizia-lhe o que era preciso fazer em cada caso. Ela repetia consigo
mesma, sem cessar: vou conseguir salvar as crianas; vim at aqui para
isto, e vou conseguir, droga! #313 Roger seguia o exemplo dela, e Billy
Costa, que enxergava melhor que a maioria, guiava o grupo. Logo a
nevasca era to forte que eles tinham que se agarrar uns aos outros para
no se perderem, e Lyra pensou: talvez, se todos ns deitarmos bem
juntos... se fizermos buracos na neve... Ela comeava a ouvir coisas: o
ronco de um motor, no o rudo pesado de um zepelim mas um som mais
alto, como o zumbido de um marimbondo. O rudo ia e vinha. E uivos,
uivos de... seriam ces? Ces de tren? Este som tambm vinha de muito
longe, abafado por milhes de flocos de neve e levado por pequenas
rajadas de vento. Podia ser os ces dos trens dos gpcios ou os
espritos selvagens que viviam na tundra, ou at mesmo os daemons
libertados chorando por suas crianas perdidas. Ela estava vendo
coisas... No existiam luzes na neve? Deviam ser fantasmas tambm... a
no ser que tivessem andado em crculo e estivessem de volta a Bolvangar
. Mas eram fachos amardados de pequenas lamparinas, e no o brilho
branco de luzes anbricas. E estavam se movimentando, e os uivos estavam
mais prximos; sem saber se estava acordada ou dormindo, Lyra viu-se
rodeada de figuras conhecidas, e homens usando agasalhos de peles
estavam amparando-a: os braos poderosos de John Faa ergueram-na do
cho, e Farder Coram estava rindo de felicidade; e atravs da neve que
caa ela via gpcios colocando as crianas nos trens, cobrindo-as com
mantas de peles, dando-lhes carne de foca para mascar .E Tony Costa
estava ali, abraando Billy vrias vezes. E Roger... -Roger vem conosco
-ela disse a Farder Coram. -Era ele que eu sempre quis salvar. Vamos
voltar para a Jordan no final. Mas que barulho... Era outra vez o tal
rudo de motor, como uma mosca-espi enlouquecida e dez mil vezes maior.
#314 De repente, houve um golpe que a jogou longe, e Pantalaimon no
pde defend-la, porque o macaco dourado... A Sra. Coulter... O macaco
dourado lutava com Pantalaimon, mordendo-o e arranhando-o, e Pantalaimon
mudava de forma to depressa que era difcil enxerg-lo, e no parava de
atacar: ferroava, arranhava, mordia. Enquanto isto, a Sra. Coulter, cujo
rosto emoldurado pelas peles era uma mscara de sentimentos intensos,
arrastava Lyra para um tren motorizado, e Lyra lutava tanto quanto o
seu daemon. A neve era to espessa que elas pareciam estar isoladas, e
os faris anbricos do tren mostravam apenas os flocos caindo
pesadamente. -Socorro! -Lyra gritou para os gpcios que nada conseguiam
enxergar. -Me ajudem! Farder Coram! Lorde Faa! Ah, Deus, socorro! A Sra.
Coulter bradou uma ordem na lngua dos trtaros do Norte. E eles
surgiram, um peloto armado de rifles, os daemons-lobas rosnando ao lado
deles. O chefe viu a Sra. Coulter lutando e levantou Lyra com uma das
mos como se ela fosse uma boneca, jogando-a dentro do tren onde ela
caiu, fraca e tonta. Um rifle disparou, depois outro: os gpcios tinham
percebido o que estava acontecendo. Mas  perigoso atirar num alvo que
no se pode ver; os trtaros, agora formando um grupo em volta do tren,
podiam atirar  vontade, mas os gpcios no ousavam, por medo de atingir
Lyra. Ah, que amargura ela sentia! E que cansao! Ainda tonta, com a
cabea zunindo, ela se ergueu e viu Pantalaimon ainda lutando
desesperadamente com o macaco, seus dentes de carcaju fincados nos
braos dourados, sem mudar de forma, apenas resistindo. E quem era
aquele? No era Roger? #315 Sim, Roger, atacando a Sra. Coulter com
punhos e ps, batendo a cabea contra a dela, at ser derrubado por um
trtaro como se fosse uma mosca. Era tudo fantasmagrico: branco, preto,
um claro verde, sombras, luzes disparadas... De repente, um vulto negro
tapou os flocos que caam: Iorek Byrnison, com o rudo de ferro roando
em ferro. No momento seguinte, as grandes mandbulas e as garras afiadas
puseram-se em ao... Ento alguma coisa poderosa levantou-a, e ela
puxou Roger consigo, arrancando-o das mos da Sra. Coulter, os daemons
das duas crianas em forma de pssaros voejando assustados enquanto um
pssaro maior voava em torno deles, e ento Lyra viu, no ar a seu lado,
uma bruxa, uma daquelas figuras negras e elegantes que ela vira no cu,
mas agora bem perto; e havia um arco nas mos nuas da bruxa, que
estendeu os braos plidos e nus (naquele frio!) para retesar o arco e
enviar uma flecha para dentro da fenda dos olhos do elmo de um trtaro a
um metro de distncia... A flecha entrou pela fenda e saiu do outro
lado, e o daemon-loba do soldado desapareceu em pleno salto, antes de
seu humano atingir o cho. Lyra e Roger foram ento erguidos no ar,
agarrados, com dedos cada vez mais fracos, a um galho de pinheiro
nubgeno, onde a jovem bruxa estava sentada, tensa e graciosamente
equilibrada; ela ento inclinou-se para a esquerda, de onde alguma coisa
enorme surgia, e ento o solo. Eles caram na neve junto  cesta do
balo de Lee Scoresby. -Pule para dentro e traga o seu amigo -falou o
texano. -Viu aquele urso? Lyra viu trs bruxas segurando uma corda
passada em volta de uma pedra, prendendo o balo  terra. -Entra a!
-ela gritou para Roger, apressando-se a subir pela borda da cesta e cair
do lado de dentro. #316 Logo em seguida Roger caiu por cima dela, e
ento um poderoso som entre um rugido e um rosnado sacudiu o prprio
cho. -Vamos, Iorek! Embarque, velho amigo! -gritou Lee Scoresby. E o
urso entrou na cesta, produzindo um terrvel rudo de madeira forada.
Ento uma rajada de ar mais leve afastou por um instante a neblina e a
neve, e Lyra conseguiu ver tudo que estava acontecendo em volta deles.
Viu um grupo de gpcios sob o comando de John Faa atacando a retaguarda
dos trtaros, empurrando-os na direo das runas flamejantes de
Bolvangar; viu os outros gpcios ajudando cada criana nos trens,
cobrindo-as com mantas; viu Farder Coram olhando em volta ansiosamente,
apoiado em sua bengala; seu daemon acastanhado saltava pela neve,
olhando para os lados. -Farder Coram! Estou aqui! -Lyra gritou. O ancio
escutou e voltou-se para olhar, espantado, para o balo que forava
acorda e as bruxas tentando segur-lo, e Lyra acenando freneticamente de
dentro da cesta. -Lyra! Voc est bem, garota? Est bem? -Melhor que
nunca! -ela gritou de volta. -Adeus, Farder Coram! Adeus! Leve as
crianas para casa em segurana! -Vamos fazer isso! V direitinho,
filha... v direitinho... v direitinho, minha querida... Neste momento,
o aerstata baixou o brao como sinal, e as bruxas soltaram acorda. O
balo ergueu-se imediatamente, subindo no ar cheio de neve numa
velocidade que Lyra mal podia acreditar. Depois de um instante, o solo
desapareceu na neblina, e eles subiram cada vez mais rpido; ela achava
que foguete nenhum teria conseguido subir to depressa. Estava deitada,
agarrada a Roger, no cho da cesta, empurrada pela acelerao. #317 Lee
Scoresby gracejava, ria e soltava berros selvagens de alegria; Iorek
Byrnison retirava calmamente sua armadura, enfiando uma garra nas
emendas para abri-las e arrumando as peas numa pilha. O rudo do ar que
passava atravs de folhas de pinheiro nubgeno denunciava que as bruxas
lhes faziam companhia. Aos poucos, Lyra recuperou o flego, o equilbrio
e o ritmo do corao. Ela sentou-se e olhou em volta. A cesta era muito
maior do que ela imaginara. Ao longo da borda, havia fileiras de
instrumentos filosficos, e pilhas de mantas de peles, garrafas de ar e
uma variedade de outras coisas pequenas demais ou complicadas demais
para se distinguirem no meio da nvoa espessa que eles estavam
atravessando na subida. -Isto  nuvem? -ela quis saber. -. Enrole o seu
amigo numas mantas antes que ele vire um boneco de gelo. Est frio,
aqui, e vai ficar ainda mais frio. -Como foi que nos achou? -As bruxas.
H uma bruxa que quer conversar com voc. Quando passarmos das nuvens,
vamos ver nossa direo e ento podemos sentar para bater um papo.
-Iorek, obrigada por ter vindo! -disse Lyra ao urso. O urso grunhiu e
acomodou-se para lamber o sangue dos plos. Seu peso fazia a cestinha
ficar inclinada para um lado, mas isto no tinha a menor importncia.
Roger estava arisco, mas Iorek Byrnison no lhe deu mais ateno do que
daria a um floco de neve. Lyra contentou-se em ficar de p agarrada 
borda da cesta (que lhe batia embaixo do queixo), observando a nuvem com
olhos arregalados. Poucos segundos depois, o balo deixou a nuvem para
baixo e, ainda subindo rapidamente, ganhou os cus. Que viso!
Diretamente acima deles, o balo enorme; acima e  frente deles
flamejava a Aurora Boreal, com mais brilho e grandiosidade #318 do que
ela jamais tinha visto. A Aurora estava em toda a volta, ou quase, e
eles praticamente faziam parte dela. Grandes riscos incandescentes
estremeciam e repartiam-se como asas de anjos; cascatas de gloriosa
luminosidade desciam de penhascos invisveis para formar lagos
turbilhonantes ou tombar como enormes cascatas. De modo que Lyra ficou
maravilhada; ento olhou para baixo, e o que viu era ainda mais
maravilhoso. At onde a vista alcanava, at o prprio horizonte em
todas as direes, estendia-se um ondulado mar de brancura. Picos suaves
e abismos vaporosos erguiam-se ou abriam-se aqui e ali, mas no todo
aquilo parecia uma massa de gelo slida. E havia tambm, surgindo dela,
sozinhas, aos pares ou em grupos maiores, pequenas sombras negras,
aquelas figuras de tamanha elegncia -as bruxas em seus galhos de
pinheiro nubgeno. Voavam velozes, sem esforo, para cima e na direo
do balo, inclinando-se para os lados para direcionar o vo. E uma
delas, a arqueira que tinha salvo Lyra da Sra. Coulter, ps-se a voar
perto da cesta, e Lyra viu-a com clareza pela primeira vez. Era jovem
-mais jovem que a Sra. Coulter -e clara, de olhos verdes e brilhantes;
usava, como todas as bruxas, faixas de seda negra, mas sem casaco, capuz
ou luvas. Parecia no sentir frio. Levava na testa uma coroa simples de
pequenas flores vermelhas. Ela cavalgava seu galho de pinheiro nubgeno
como se fosse um garanho e parecia estar contendo-o a um metro de Lyra.
-Lyra? -Sim! E voc  Serafina Pekkala? -Sou. Lyra entendeu porque
Farder Coram a amava e por que aquilo estava lhe despedaando o corao,
embora at um momento antes ela no soubesse essas coisas. Ele estava
ficando velho; era um velho alquebrado, e ela ficaria jovem durante
muitas geraes. #319 -Est com o leitor de smbolos? -perguntou a bruxa
em voz to parecida com o canto selvagem da prpria Aurora Boreal que
Lyra mal conseguia entender o sentido por causa da doura do som.
-Estou, sim. Est no meu bolso, bem seguro. Um forte rufar de asas
anunciou a chegada do daemon-ganso cinzento, que logo estava deslizando
ao lado dela. Ele disse alguma coisa e ento afastou-se para planar num
crculo largo em volta do balo -que ainda no tinha parado de subir.
-Os gpcios destruram Bolvangar -contou Serafina Pekkala. -Mataram 22
guardas e nove membros da equipe, e incendiaram tudo que ainda sobrava
de p. Vo arrasar completamente o lugar . -E a Sra. Coulter? -Nenhum
sinal dela. Ela soltou um grito estridente, e outras bruxas voaram na
direo do balo. -Sr. Scoresby, a corda, por favor -ela pediu. -Madame,
fico muito agradecido. Ainda estamos subindo. Acho que ainda vamos subir
por algum tempo. Quantas vo precisar puxar para nos levar para o norte?
-Somos fortes -foi a nica resposta dela. Lee Scoresby estava prendendo
uma corda forte ao anel de ferro coberto de couro que segurava as cordas
que prendiam o balo, e de onde a prpria cestinha estava suspensa.
Depois de prend-la com segurana, ele jogou a outra ponta para fora e
imediatamente seis bruxas voaram at ela, agarraram a corda e puseram-se
a puxar, dirigindo seus galhos de pinheiro nubgeno no rumo da Estrela
Polar. Quando o balo comeou a mover-se naquela direo, Pantalaimon
veio empoleirar -se na borda da cesta como uma andorinha. O daemon de
Roger assomou para olhar, mas logo voltou para baixo, pois Roger estava
dormindo profundamente, assim como Iorek #320 Byrnison. S Lee Scoresby
estava acordado, mascando calmamente um charuto fino e observando seus
instrumentos. -Ento, Lyra, sabe por que est indo em busca de Lorde
Asriel? -perguntou Serafina Pekkala. Lyra ficou atnita. -Para levar o
aletmetro para ele,  claro! -respondeu. Nunca tinha pensado naquilo,
era bvio. Ento recordou seu primeiro motivo, to antigo que ela quase
se esquecera dele. -Ou... Para ajud-lo a fugir.  isso. Vamos ajud-lo
a sair de l. Mas enquanto falava, achava isto absurdo. Fugir de
Svalbard! Impossvel! -Pelo menos tentar- disse, corajosamente. -Por
qu? -Acho que preciso lhe contar umas coisas -disse Serafina Pekkala.
-Sobre o P? -foi a primeira coisa que Lyra quis saber . -Sim, entre
outras coisas. Mas agora voc est cansada e vai ser uma viagem longa.
Conversamos quando voc acordar. Lyra bocejou. Foi um bocejo de cair o
queixo e explodir os pulmes, durando quase um minuto, ou pelo menos
parecia, e por mais que Lyra tentasse, no conseguiu resistir ao ataque
do sono. Serafina Pekkala estendeu a mo por cima da borda da cesta e
tocou nos olhos dela; Lyra caiu no cho enquanto Pantalaimon voava para
baixo, onde se transformou em arminho e acomodou-se em seu lugar de
dormir: junto ao pescoo dela. A bruxa cavalgava seu galho numa
velocidade regular ao lado da cestinha, e assim viajaram para o norte,
em direo a Svalbard. #321 #322 **** Terceira Parte SVALBARD #323 #324
18 GELO E NEBLINA LEE Scoresby arrumou algumas mantas sobre Lyra. Ela
enrodilhou-se junto a Roger, e os dois dormiram enquanto o balo Viajava
rumo ao Plo. De vez em quando, o aerstata conferia seus instrumentos,
mascava o charuto que ele no podia acender com o hidrognio to perto e
encolhia-se mais dentro de suas peles. -Esta garotinha  bem importante,
no ? -perguntou, depois de vrios minutos. -Mais do que ela saber
-respondeu Serafina Pekkala. -Quer dizer que vamos ter muita perseguio
armada? Entenda, estou falando como um homem prtico, que tem que ganhar
a vida. No posso me dar ao luxo de ser preso ou morto sem alguma
espcie de compensao combinada de antemo. No estou tentando denegrir
esta expedio, pode acreditar, madame. Mas John Faa e os gpcios me
pagaram uma quantia suficiente para cobrir meu tempo, minhas habilidades
e o desgaste do balo, e  s. No inclua seguro contra atos de guerra.
E pode ficar sabendo, madame, que quando desembarcarmos Iorek Byrnison
em Svalbard, isso vai ser um ato de guerra. #325 Ele cuspiu com
delicadeza um pedacinho do charuto para fora da cestinha. -De modo que
eu gostaria de saber o que esperar em matria de tumultos e confuses
-concluiu. -Pode haver luta- admitiu Serafina Pekkala. -Mas o senhor j
lutou antes. -Claro, quando me pagam. Mas o caso  que pensei que isso
era um contrato normal de transporte, e foi assim que cobrei. Agora,
depois daquele entrevero l embaixo, estou pensando at onde vai a minha
obrigao de fornecer transporte. Se sou obrigado a arriscar minha vida
e o meu equipamento numa guerra entre os ursos, por exemplo. Ou se essa
garotinha tem em Svalbard inimigos to mal-humorados quanto os l de
Bolvangar . Menciono isso apenas como um assunto trivial numa conversa.
A bruxa respondeu: -Sr. Scoresby, gostaria de poder responder sua
pergunta. S posso dizer  que todos ns, humanos, bruxas e ursos, j
estamos numa guerra, embora nem todos saibamos disso. Encontrando perigo
em Svalbard ou saindo de l sem um arranho, o senhor est recrutado, 
um soldado. -Bom, acho isso meio precipitado. Acho que a pessoa devia
ter direito de escolher se quer brigar ou no. -Nisso no temos mais
escolha do que em nascer ou no nascer . -Ah, mas gosto de escolher -ele
insistiu. -Gosto de escolher os trabalhos que fao, os lugares a que
vou, a comida que como e as pessoas com quem me sento para conversar.
No gostaria de poder escolher de vez em quando? Serafina Pekkala pensou
um pouco, depois disse: -Talvez a palavra " escolher" tenha significados
diferentes para ns dois, Sr. Scoresby. As bruxas nada possuem, de modo
que no estamos interessadas em preservar valores ou ter lucro, e quanto
a escolher entre uma coisa e outra, quando se vive por #326 muitas
centenas de anos, aprende-se que toda oportunidade voltar. Ns temos
necessidades diferentes. O senhor precisa consertar seu balo e mant-lo
em boas condies, e isso toma tempo e trabalho, eu entendo; mas se ns
queremos voar, tUdo que precisamos fazer  cortar um galho de pinheiro
nubgeno; qualquer um serve, e ainda restam muitos. No sentimos frio,
de modo que no precisamos de roupas quentes. No temos moeda de troca a
no ser a ajuda mtua; se uma bruxa precisa de alguma coisa, outra bruxa
lhe dar. Se h uma guerra, no pensamos no custo como um dos fatores
para decidir se  correto lutar nela, nem temos qualquer conceito de
honra, como os ursos, por exemplo. Para um urso um insulto  uma coisa
mortal; para ns  s... inconcebvel. Como  que se pode insultar uma
bruxa? E que importncia teria se algum fizesse isso? -Bom, at a eu
vou. Se algum me ataca fisicamente, eu revido, mas se algum me xinga,
no ligo a mnima. Mas, madame, est entendendo o meu dilema, eu espero.
Sou um simples aerstata e gostaria de terminar minha vida com conforto.
Comprar uma fazendinha, algumas cabeas de gado, uns cavalos... Nada de
grandioso, a senhora est percebendo. Nada de palcio, escravos ou
montes de ouro. S o vento da noite nas rvores e um charuto, e um copo
de bourbon. O problema  que isso custa dinheiro. De modo que fao meus
vos em troca de dinheiro, e, depois de cada trabalho, eu mando algum
ouro para o Banco Wells Fargo, e, quando tiver o suficiente, madame, vou
vender este balo e comprar uma passagem num vapor para Port Galveston,
e nunca mais saio do cho. -H outra diferena entre ns, Sr. Scoresby.
Uma bruxa prefere desistir de respirar do que desistir de voar. Voar 
sermos inteiramente ns mesmas. -Estou entendendo, madame, e tenho
inveja da senhora; mas no tenho as suas fontes de satisfao. Para mim
voar  s um trabalho, e eu sou s um tcnico. Podia muito bem estar
#327 regulando vlvulas num motor a gs ou montando circuitos anbricos.
Mas escolhi isso, entende? Foi uma escolha minha. E  por isso que acho
meio chata essa idia de uma guerra que ningum tinha me informado. -A
briga de Iorek Byrnison com o rei tambm faz parte de tudo isso -disse a
bruxa. -Esta menina est destinada a ter um papel nisso. -A senhora fala
de destino como se fosse uma coisa fixa, e eu no sei se gosto disso
mais do que gosto de uma guerra em que me alistaram sem eu saber. Onde 
que est meu livre-arbtrio, quer me dizer? -ele argumentou. -E esta
criana parece que tem mais livre-arbtrio do que qualquer pessoa que j
conheci. Est querendo me dizer que ela  uma espcie de brinquedo de
corda fazendo um papel que ela prpria no pode mudar? -Todos ns somos
sujeitos aos fados, mas todos temos que fingir que no somos, para no
morrermos de desespero - disse a bruxa. -Existe uma profecia curiosa
sobre esta menina: ela est destinada a provocar o fim do destino. Mas
tem que fazer isso sem saber o que est fazendo, como se fosse por sua
prpria natureza e no por fora do seu destino. Se souber o que tem que
fazer, tudo fracassar; a morte vai varrer todos os mundos e ser o
triunfo do desespero, para sempre. Os universos vo se tornar apenas
mquinas interligadas, cegas e vazias de pensamentos, de sentimentos, de
vida... Os dois olharam para Lyra, cujo rosto adormecido (o pouco que
conseguiam enxergar dentro do capuz) mostrava uma expresso obstinada.
-Acho que parte dela sabe disso -comentou o aerstata. -De qualquer
maneira, ela parece preparada. E o garoto? Sabe que ela veio at aqui
para salvar o garoto daqueles bandidos? Eram amiguinhos em Oxford ou
coisa assim. Sabia disso? -Sabia. Lyra est carregando uma coisa de
imenso valor, e parece que os fados esto usando a menina como
mensageira #328 para ela levar esse objeto ao pai. De modo que ela veio
at aqui para encontrar o amigo, sem saber que o amigo foi trazido para
o Norte pelos fados para que ela pudesse vir atrs e trazer uma coisa
para seu pai. - assim que a senhora v as coisas, ? Pela primeira vez,
a bruxa parecia insegura. - o que parece... mas no podemos ler a
escurido, Sr. Scoresby.  mais que possvel que eu esteja errada. -E
que foi que botou a senhora nisso, se  que posso perguntar? -O que quer
que eles estivessem fazendo em Bolvangar, nossos coraes nos diziam que
era errado. Lyra  inimiga deles, ento somos amigos dela. No
conseguimos enxergar mais que isso. E tambm a amizade do meu cl pelo
povo gpcio, desde quando Farder Coram salvou minha vida. Estamos
fazendo isso a pedido deles. E eles tm laos de obrigao para com
Lorde Asriel. -Entendo. Ento vo rebocar o balo at Svalbard por
amizade aos gpcios; essa amizade vai fazer vocs nos levarem de volta?
Ou vou ter que esperar um vento bom e enquanto isso depender da
indulgncia dos ursos? Mais uma vez, madame, quero dizer que estou
perguntando s para passar o tempo. -Se pudermos ajudar o senhor a
voltar para Trollesund, Sr. Scoresby, faremos isso. Mas no sabemos o
que vamos encontrar em Svalbard. O novo rei dos ursos fez muitas
mudanas; os velhos hbitos caram em desgraa; pode ser uma
aterrissagem difcil. E no sei como Lyra vai conseguir chegar ao pai.
Nem sei o que Iorek Byrnison pretende fazer, a no ser que o destino
dele est ligado ao dela. -Tambm no sei, madame. Acho que ele se ligou
 garotinha como uma espcie de protetor. Ela ajudou apegar de volta a
armadura dele, entende? Quem  que sabe o que os ursos sentem? Mas se um
urso algum dia amou um ser humano, ele ama essa menina. Quanto a pousar
em Svalbard, isso nunca foi #329 fcil. Mas se eu puder contar com vocs
para um puxozinho na direo certa, vou me sentir mais tranqilo; e se
puder retribuir de algum modo,  s dizer. Mas, s por curiosidade, pode
me dizer de que lado eu estou nesta guerra invisvel? -Ns dois estamos
do lado de Lyra. -Ah, quanto a isso no h dvida. A viagem prosseguia.
As nuvens impediam que se soubesse a velocidade em que iam. Normalmente
o balo ficava imvel em relao ao vento, movendo-se na velocidade com
que o ar se movia; mas agora, puxado pelas bruxas, o balo movia-se
atravs do ar, e no com ele, e resistia ao movimento, pois sua forma
redonda no tinha a aerodinmica de um zepelim. Como resultado, a
cestinha balanava de um lado para outro, muito mais do que num vo
normal. Lee Scoresby no estava preocupado com seu conforto, e sim com
seus instrumentos, e passou algum tempo certificando-se de que eles
estavam bem presos. Segundo o altmetro, estavam a quase dez mil ps de
altura. A temperatura era de 20 graus negativos. Ele j pegara mais frio
que isso, mas no muito, e no queria sentir mais frio agora; de modo
que desenrolou a lona que usava como barraca de emergncia e estendeu-a
diante das crianas adormecidas para desviar o vento, antes de se deitar
com as costas apoiadas nas costas de seu velho companheiro de batalha,
Iorek Byrnison, e adormecer. Quando Lyra acordou, alua estava alta no
cu, e tudo em volta coberto de prata, desde a superfcie das nuvens l
embaixo at os pingentes de gelo nas cordas do balo. Roger dormia,
assim como Lee Scoresby e o urso. Ao lado da cesta, porm, a
bruxa-rainha voava serenamente. -Quanto tempo falta para Svalbard? -Lyra
perguntou. #330 -Se no encontrarmos vento, estaremos acima de Svalbard
daqui a umas 12 horas. -Onde  que vamos pousar? -Depende das condies
do tempo. Vamos tentar evitar os rochedos. L vivem criaturas que atacam
qualquer coisa que se move. Se pudermos, vamos deixar vocs no interior,
longe do palcio de Iofur Raknison. -Que  que vai acontecer quando eu
encontrar Lorde Asriel? Ele vai querer voltar para Oxford? Tambm no
sei se devo contar a ele que eu sei que ele  o meu pai. Ele pode querer
fingir que ainda  meu tio. Nem conheo ele direito. -Ele no vai querer
voltar para Oxford, Lyra. Parece que h uma coisa a ser feita em outro
mundo, e Lorde Asriel  o nico que consegue atravessar o abismo entre
esse mundo e o nosso. Mas ele precisa da ajuda de uma coisa. -O
aletmetro! -Lyra exclamou. -Quando o Reitor da Jordan me deu o
aletmetro, achei que ele queria dizer alguma coisa sobre Lorde Asriel,
mas no teve chance. Eu sabia que ele no queria envenenar Lorde Asriel
de verdade. Ele vai ler o aletmetro para ver como fazer a ponte? Aposto
que eu podia ajudar. Com certeza, agora consigo ler os smbolos to bem
quanto qualquer pessoa. -No sei -disse Serafina Pekkala. -No sabemos
como ele vai fazer isso, e qual ser a tarefa dele. H poderes que falam
conosco e poderes acima deles; e h segredos at para os mais elevados.
-O aletmetro me diria! Eu podia ler agora... Mas estava frio demais;
ela no conseguiria segur-lo. Enrolou-se nas peles e puxou bem o capuz
contra o vento frio, deixando apenas uma fenda para enxergar. Bem 
frente e um pouco abaixo deles, a corda comprida presa ao anel do balo
era puxada por seis ou sete bruxas sentadas em seus galhos de pinheiro
nubgeno. As estrelas tinham o brilho frio dos diamantes. #331 -No est
com frio, Serafina Pekkala? -Ns sentimos frio, mas no ligamos para
ele, porque no podemos ficar doentes. E se nos agasalharmos contra o
frio no sentiremos outras coisas, como a sensao do brilho das
estrelas, ou a msica da Aurora Boreal, ou, melhor que tudo, a sensao
sedosa do luar em nossa pele. Vale a pena sentir frio. -Eu conseguiria
ter essas sensaes? -No. Voc morreria se tirasse os agasalhos. Fique
bem agasalhada. -Quanto tempo vivem as bruxas, Serafina Pekkala? Farder
Coram diz que so centenas de anos. Mas voc no parece velha. -Tenho
mais de 300 anos. Nossa bruxa-me mais idosa tem quase mil anos. Um dia
Yambe-Akka vir busc-la. Um dia ela vir me buscar tambm.  a deusa
dos mortos. Ela vem sorrindo, com muita bondade, e a gente fica sabendo
que est na hora de morrer . -Existem bruxos tambm, ou s bruxas?
-Existem homens que nos servem, como o Cnsul em Trollesund. E existem
homens que tomamos como amantes ou maridos. Voc  muito novinha, Lyra,
jovem demais para entender, mas vou lhe dizer de qualquer maneira e mais
tarde voc vai compreender: os homens passam diante de nossos olhos como
borboletas, criaturas que s duram uma estao. Ns os amamos; eles so
corajosos, orgulhosos, belos, inteligentes; e morrem quase de repente.
Eles morrem to depressa que nosso corao fica constantemente cheio de
dor. Damos  luz os filhos deles, que sero bruxas se forem mulheres, e
humanos, se forem homens; e ento, num piscar de olhos, eles j
partiram, caram, morreram, perderam-se. Nossos filhos tambm. Quando um
menino est crescendo, ele acha que  imortal. A me dele sabe que ele
no . Cada vez fica mais doloroso, at que finalmente agente fica com o
corao partido. Talvez seja ento que Yambe-Akka vem nos #332 buscar.
Ela  mais antiga que a tundra. Talvez para ela a vida de uma bruxa seja
to curta quanto a dos homens  para ns. -A senhora amava Farder Coram?
-Sim. Ele sabe disso? -No sei, mas sei que ele ama a senhora. -Quando
ele me salvou, era jovem, forte, cheio de orgulho e beleza. Eu me
apaixonei imediatamente. Eu teria mudado minha natureza, teria
renunciado  sensao das estrelas e  msica da Aurora; nunca mais
teria voado. Eu teria renunciado a tudo num instante, sem hesitar, para
ser uma esposa gpcia e morar num barco, cozinhar para ele, compartilhar
seu leito e ter seus filhos. Mas no se pode mudar o que a gente , s o
que a gente faz. Eu sou uma bruxa; ele  humano. Fiquei com ele o tempo
suficiente para ter um filho dele... -Ele nunca me disse isso!  uma
menina? Uma bruxa? -No. Um menino, e ele morreu na grande epidemia de
40 anos atrs, a doena que veio do Oriente. Pobre criana, ele entrou e
saiu desta vida como uma fasca. E isso dilacerou meu corao, como
sempre acontece. E o de Coram tambm. E ento veio o chamado para que eu
voltasse para o meu prprio povo, porque Yambe-Akka tinha levado minha
me, portanto, eu era a rainha do cl. Ento parti, como era meu dever.
-Nunca mais viu Farder Coram? -Nunca mais. Ouvi falar das faanhas dele;
soube que foi ferido pelos escraelingues com uma flecha envenenada e
mandei ervas e encantos para ajudar a cura, mas no estava
suficientemente forte para ir visit-lo. Soube que depois disso ele
ficou muito alquebrado, e sua sabedoria cresceu, ele leu e estudou
muito. Fiquei muito orgulhosa dele, mas me mantive afastada, pois era
uma poca de perigos para o meu cl, com ameaas de guerra entre as
bruxas, e alm disso achei que ele iria me esquecer e arranjar uma
esposa humana... #333 -Ele nunca faria isso -Lyra retrucou. -A senhora
devia ir at ele. Ele ainda ama a senhora, eu sei disso. -Mas ele
ficaria envergonhado pela sua idade, e eu no quero que ele se sinta
assim. -Talvez seja verdade. Mas devia pelo menos mandar um recado.  o
que eu acho. Serafina Pekkala ficou longo tempo sem dizer coisa alguma.
Pantalaimon transformou-se numa andorinha e voou at o galho dela por um
segundo, reconhecendo que talvez eles tivessem sido insolentes. Lyra
perguntou ento: -Por que as pessoas tm daemons, Serafina Pekkala?
-Todo mundo pergunta isso, e ningum sabe a resposta. Desde que os seres
humanos existem, os daemons existem tambm.  o que nos torna diferentes
dos animais. -! Somos mesmo diferentes deles... Como os ursos. Eles so
estranhos, no so? Parecem uma pessoa, e de repente fazem uma coisa to
estranha ou to selvagem que a gente acha que nunca vai conseguir
entender um urso... Mas sabe o que Iorek me disse? Ele disse que a
armadura dele era para ele o que um daemon  para uma pessoa. Ele disse
que  a alma dele. Mas nisso tambm somos diferentes, porque ele mesmo
fez a sua armadura. Tiraram a primeira armadura dele quando ele foi para
o exlio, ele encontrou um pouco de ferro-celeste e fez uma nova.  como
fazer uma alma nova. Ns no podemos fazer nossos daemons. Ento as
pessoas em Trollesund fizeram ele ficar bbado e roubaram a armadura, eu
descobri onde estava, e ele pegou de volta... Mas eu queria saber por
que ele est voltando para Svalbard. Vo atacar ele. Podem at matar...
Eu adoro o Iorek. Gosto tanto dele que queria que ele no tivesse vindo.
-Ele lhe contou quem ? -S me contou o nome. E isso foi o Cnsul em
Trollesund quem nos contou. #334 -Ele  nobre.  um prncipe. Alis, ele
seria agora o rei dos ursos se no tivesse cometido um grande crime.
-Ele me disse que o rei se chama Iofur Raknison. -Iofur Raknison
tornou-se rei quando Iorek Byrnison foi exilado.  claro que Iofur
tambm  um prncipe, seno no poderia governar. Mas ele tem a
esperteza dos humanos; faz alianas e tratados. Ele no vive como os
ursos em fortalezas de gelo, mas num palcio recm-construdo; fala em
trocar embaixadores com naes humanas e explorar as minas de fogo com
ajuda de engenheiros humanos... Ele  muito habilidoso e sutil. Dizem
alguns que ele levou Iorek ao ato que o condenou ao exlio, e outros
dizem que, mesmo que isso no seja verdade, ele encoraja que pensem que
, pois isso aumenta sua reputao de esperteza e sutileza. -Afinal, que
foi que Iorek fez? Sabe, uma das razes de amar Iorek  o meu pai, tendo
feito o que fez, ser castigado. Acho que os dois so parecidos. Iorek me
contou que matou outro urso, mas nunca disse como foi. -A luta foi por
uma ursa. O macho que Iorek matou no queria mostrar os sinais de
rendio, mesmo estando claro que Iorek era o mais forte. Apesar de todo
o seu orgulho, os ursos nunca deixam de reconhecer a superioridade de
outro urso e render-se a ela, mas, por um motivo qualquer, esse urso no
fez isso. Tem gente que diz que Iofur Raknison influenciou a mente dele,
ou ento lhe deu ervas embriagantes para comer. De qualquer maneira, o
urso jovem insistiu, e Iorek Byrnison permitiu que seu temperamento o
dominasse. O caso no foi difcil de julgar, pois ele podia ferir, mas
no matar. -Quer dizer que se no fosse isso ele seria o rei... -disse
Lyra. -Eu ouvi o professor de palmeriano na Jordan falar alguma coisa
sobre Iofur Raknison, porque ele tinha estado no Norte e conhecido ele.
Ele falou... Eu queria tanto me lembrar... Acho que ele tomou o poder
atravs de um truque, ou coisa assim... #335 Mas, sabe, Iorek me disse
uma vez que no se consegue enganar um urso e me mostrou que eu no
conseguia enganar ele. Parece que os dois foram enganados, ele e o outro
urso. Talvez s os ursos consigam enganar outro urso, talvez as pessoas
no consigam. A no ser... Aquela gente em Trollesund, aquelas pessoas
enganaram ele, no foi? Quando deixaram ele bbado e roubaram a
armadura? -Quando os ursos agem como gente, talvez possam ser enganados
-disse Serafina Pekkala. -Quando os ursos agem como ursos, talvez no
possam. Normalmente um urso no beberia lcool; Iorek Byrnison bebeu
para esquecer a vergonha do exlio, e foi s isso que permitiu que as
pessoas em Trollesund o enganassem. -, sim -Lyra concordou. Achava que
era isso mesmo. Admirava Iorek quase ilimitadamente e ficou feliz com a
confirmao da nobreza dele. -A senhora foi muito inteligente. Eu jamais
saberia disso se a senhora no tivesse me contado. Acho que deve ser
mais inteligente do que a Sra. Coulter. A viagem continuava. Lyra mascou
um pouco de carne de foca que encontrou no bolso. Depois de algum tempo,
perguntou: -Serafina Pekkala, o que  o P? Porque acho que toda essa
confuso  por causa do P, s que ningum me diz o que  isso. -Eu no
sei -afirmou Serafina Pekkala. -As bruxas nunca se preocuparam com o P.
S posso lhe dizer que onde h padres, h medo do P. A Sra. Coulter no
 um padre, naturalmente, mas  uma poderosa agente do Magisterium e foi
ela quem criou o Conselho de Oblao e convenceu a Igreja a financiar
Bolvangar, por causa do interesse dela no P. No conseguimos entender
os sentimentos dela. Mas h muitas coisas que nunca conseguimos
entender. Vemos os trtaros fazendo buracos no crnio e ficamos
curiosas, achamos estranho. Ento esse P deve ser uma coisa estranha.
Ficamos curiosas, mas no nos preocupamos nem cortamos coisas para
descobrir o que . Deixamos isso para a Igreja. #336 -A Igreja? -fez
Lyra. Uma coisa tinha lhe voltado: a lembrana de conversar com
Pantalaimon, nos Pntanos, sobre o que podia estar movendo o ponteiro do
aletmetro, e eles tinham pensado na ventoinha movida a luz no altar
principal da Faculdade Gabriel, e como as partculas elementares
empurravam as pequenas hlices. O Intercessor tinha sido bem claro sobre
a ligao entre as partculas elementares e a religio. -Pode ser...
Afinal, a maioria das coisas da Igreja  segredo -disse. -Mas a maioria
das coisas da Igreja  velha, e o P no  velho, pelo que sei. Ser que
Lorde Asriel vai poder me contar...? Tornou a bocejar. -Acho melhor me
deitar, seno vou congelar -disse a Serafina Pekkala. -Senti bastante
frio l no cho, mas nunca tanto frio assim. Acho que com um pouco mais
eu morreria. -Ento deite-se e se enrole nas mantas. -, vou fazer isso.
Se eu tivesse que morrer, ia preferir morrer aqui em cima do que l
embaixo. Quando nos botaram debaixo daquela coisa de cortar, achei que
estava na hora... Ns dois achamos... Ah, aquilo foi muito cruel. Mas
agora vamos dormir. Nos chame quando chegarmos -pediu. E deitou-se na
pilha de mantas, desajeitada e dolorida em todas as partes do corpo com
a intensidade profunda do frio, o mais perto que pde do adormecido
Roger . E assim os quatro viajantes seguiram caminho, dormindo no balo
encrustrado de gelo, rumo s rochas e geleiras, as minas de fogo e as
fortalezas de gelo de Svalbard. Serafina Pekkala chamou o aerstata, que
acordou de imediato, dormente de frio, mas cnscio, pelo movimento da
cesta, de que alguma coisa estava errada: ela balanava intensamente,
sacudida pelos ventos fortes que aoitavam o balo de gs, e as bruxas
que #337 puxavam a corda mal conseguiam cont-lo. Se soltassem a corda,
o balo seria arrastado, e a julgar pela bssola ele seria levado na
direo de Nova Zembla, a quase 150 quilmetros por hora. -Onde  que
ns estamos? -ele gritou. Lyra ouviu a pergunta. Estava semidesperta,
temerosa por causa do movimento, e com tanto frio que seu corpo inteiro
estava dormente. No conseguiu escutar a resposta da bruxa, mas pela
fenda no capuz ela viu,  luz de uma lanterna anbrica, Lee Scoresby
agarrar-se a um cabo e puxar uma corda que subia e entrava dentro do
prprio balo. Ele deu um puxo forte e levantou o olhar para a
escurido, antes de enrolar a corda numa ranhura do anel de suspenso.
-Estou tirando um pouco do gs -ele gritou para Serafina Pekkala. -Vamos
descer. Estamos alto demais! A bruxa gritou alguma coisa em resposta,
mas Lyra novamente no escutou. Roger tambm estava despertando; os
estalos da cesta eram suficientes para acordar qualquer um -isto sem
falar nos solavancos. O daemon de Roger e Pantalaimon estavam agarrados
um ao outro em forma de sagi, e Lyra concentrou-se em ficar deitada,
imvel, controlando o medo. -Tudo bem -disse Roger, parecendo muito mais
animado que ela. -Assim que a gente descer vamos fazer uma fogueira para
nos aquecer. Tenho uns fsforos no bolso. Roubei da cozinha em
Bolvangar. O balo estava mesmo descendo, pois um segundo depois eles
foram envolvidos por uma nuvem espessa e congelante; de repente tudo
ficou escuro. Era como a nvoa mais forte que Lyra j havia visto.
Depois de um instante, ouviu-se outro grito de Serafina Pekkala, e o
aerstata desenrolou a corda e soltou-a. A corda subiu rapidamente, e
mesmo com todo o barulho da cesta e do vento Lyra ouviu, ou sentiu, um
forte som vindo de algum lugar acima dela. #338 Lee Scoresby viu-a
arregalar os olhos. - a vlvula do gs -ele gritou. -Funciona com uma
mola e prende o gs l dentro. Quando eu puxo para baixo, o gs escapa
por cima, e a gente desce. -J estamos... Ela no terminou, pois uma
coisa horrvel aconteceu: uma criatura com metade do tamanho de um homem
e com asas de couro e garras recurvas estava rastejando pela lateral da
cestinha na direo de Lee Scoresby. A coisa tinha a cabea chata, olhos
esbugalhados e uma enorme boca de sapo, de onde saam lufadas de um
fedor insuportvel. Lyra no teve tempo sequer de gritar antes que Iorek
Byrnison levantasse a pata e jogasse longe a coisa, que caiu para fora
da cesta e desapareceu com um guincho. -Avantesma-dos-penhascos -fez
Iorek Byrnison laconicamente. No momento seguinte, Serafina Pekkala
apareceu e, agarrada  lateral da cesta, falou em tom urgente: -Os
avantesmas-dos-penhascos esto nos atacando. Vamos pousar o balo, e
ento vamos ter que nos defender. Eles esto... Mas Lyra no ouviu o
resto do que foi dito, porque houve um som de coisa rasgada.e tudo virou
de lado. Ento um golpe terrvel arremessou os trs humanos contra a
lateral do balo onde a armadura de Iorek Byrnison estava empilhada.
Iorek estendeu a pata para segur-los, por causa dos solavancos da
cesta. Serafina Pekkala desaparecera. O barulho era assustador: acima de
qualquer outro som, vinham os guinchos dos avantesmas-dos-penhascos, e
Lyra via-os passar e sentia seu cheiro terrvel. Ento ocorreu outro
solavanco, to repentino que jogou todos no cho outra vez, e a cesta
comeou a cair com uma velocidade apavorante, girando todo o tempo.
Parecia que tinham se soltado do balo e estavam em queda livre; ento
aconteceu outra srie de solavancos e batidas, a cesta sendo jogada #339
rapidamente de um lado para outro como se estivesse rebatendo entre
paredes de pedra. A ltima coisa que Lyra viu foi Lee Scoresby atirando
com sua pistola de cano longo diretamente na cara de um
avantesma-dos-penhascos; ela ento fechou os olhos com fora e
agarrou-se ao plo de Iorek Byrnison com grande medo. Uivos, guinchos, o
aoite e o assobio do vento, os estalos da cesta parecendo um animal
torturado, tudo isso enchia o ar com um terrvel barulho. Ento
aconteceu o maior solavanco de todos, que a jogou para fora da cesta.
Todo o ar de seus pulmes foi expulso quando ela aterrissou to embalada
que no sabia onde era em cima e onde era embaixo; e seu rosto, dentro
do capuz bem puxado, estava cheio de p: cristais secos e frios... Era
neve; ela havia cado numa faixa de neve solta. Estava to atordoada que
mal conseguia pensar. Ficou imvel por alguns segundos antes de cuspir a
neve da boca num gesto sem energia, e ento, com a mesma falta de
energia, soprou at formar um pequeno espao para respIrar. Nada parecia
estar doendo excepcionalmente; ela se sentia apenas sem flego.
Cautelosamente tentou mexer mos, ps, braos, pernas, e erguer a
cabea. Conseguia enxergar muito pouco, pois seu capuz ainda estava
cheio de neve. Com esforo, como se suas mos pesassem uma tonelada cada
uma, ela limpou a neve e olhou para fora. Viu um mundo cinzento
-cinzentos claros, cinzentos escuros e pretos -, onde lufadas de nvoa
vagavam como fantasmas. Os nicos sons eram os guinchos distantes dos
avantesmas-dos-penhascos bem acima, e o fragor de ondas batendo em
rochedos a certa distncia. -Iorek! -ela gritou com voz fraca e trmula,
e tentou novamente, mas ningum respondeu. -Roger! -chamou, com o mesmo
resultado. #340 Parecia que estava sozinha no mundo, mas isto
naturalmente ela nunca estava, e Pantalaimon esgueirou-se para fora do
agasalho dela como um rato para lhe fazer companhia. -Verifiquei o
aletmetro, e ele est inteiro -ela disse. -Estamos perdidos, Pan! -ela
exclamou. -Viu aqueles avantesmas-dos-penhascos? E o Sr. Scoresby
atirando neles? Deus nos ajude se eles descerem aqui... - melhor
tentarmos encontrar a cesta, talvez -disse ele. - melhor no gritarmos
-ela acrescentou. -Fiz isto h pouco, mas  melhor no, para eles no
ouvirem. Queria saber onde estamos. -Podemos no gostar de saber -ele
observou. - Podemos estar no fundo de um abismo sem caminho para cima, e
com os avantesmas-dos-penhascos l no alto para nos caarem quando a
nvoa dissipar. Ela tateou em volta, depois de descansar por vrios
minutos mais, e descobriu que aterrissara numa fenda entre dois rochedos
cobertos de gelo. A nvoa congelante encobria tudo; de um lado havia o
fragor das ondas a uns 50 metros, julgando pelo som, e de cima ainda
vinham os guinchos dos avantesmas-dos-penhascos, embora parecessem estar
diminuindo um pouco. Ela no enxergava mais do que dois ou trs metros,
e at mesmo os olhos de coruja de Pantalaimon eram inteis.
Trabalhosamente, escorregando e deslizando pelas pedras speras, ela
afastou-se das ondas e subiu um pouco a praia, encontrando apenas rochas
e neve, e nenhum sinal do balo ou de algum de seus ocupantes. -No
podem ter desaparecido todos- ela sussurrou. Pantalaimon, em forma de
gato, andava um pouco  frente dela, e encontrou quatro sacos de areia
rebentados, o contedo espalhado e j congelando. -Lastro -Lyra
informou. -Ele deve ter jogado fora para poder subir novamente... #341
Ela engoliu em seco para limpar o n na garganta, ou o medo em seu
peito, ou ambos. -Ah, meu Deus, estou apavorada -confessou. -Espero que
todos estejam bem. Ele ento veio para os braos dela e em forma de rato
esgueirou-se para dentro do seu capuz, onde ficaria escondido. Ela ouviu
um rudo, alguma coisa arranhando a pedra, e virou-se para ver o que
era. -Ior...! Mas no chegou a dizer a palavra inteira, pois no se
tratava de Iorek Byrnison. Era um urso desconhecido, usando uma armadura
polida e coberta de orvalho congelado, com uma pluma no elmo. Ele ficou
imvel a uns dois metros de distncia, e ela pensou que estava realmente
perdida. O urso abriu a boca e rugiu. Dos rochedos veio um eco que fez
aumentar o rudo dos guinchos no cu. Outro urso surgiu da nvoa, e mais
outro. Lyra ficou imvel, apertando seus pequenos punhos humanos. Os
ursos no se moveram at o primeiro deles falar: -Seu nome? -Lyra. -De
onde voc vem? -Do cu. -Num balo? -Sim. -Venha conosco. Voc  nossa
prisioneira. Agora mexa-se. Depressa. Exausta e apavorada, Lyra ps-se a
caminhar, aos tropees, pelas pedras speras e escorregadias, seguindo
o urso e se perguntando se a sua esperteza conseguiria livr-la daquela
situao. #342 19 O CATIVEIRO OS ursos levaram Lyra por uma trilha que
subia at o topo do penhasco, onde a neblina era ainda mais espessa do
que na praia. Os guinchos dos avantesmas-dos-penhascos e o fragor das
ondas ficavam mais fracos  medida que ela subia, e finalment o nico
som era o Incessante piar dos pssaros martimos. Subiram em silncio,
vencendo rochedos e geleiras, e embora Lyra no cessasse de examInar, de
olhos arregalados, a neblIna cInza que os envolvia, e forasse os
ouvidos tentando escutar o rudo da chegada de seus amigos, ela parecia
ser o nico ser humano em Svalbard, e Iorek poderia muito bem estar
morto. O urso-sargento no falou com ela at atingirem terreno plano.
Ali fizeram alto. Pelo som das ondas, Lyra calculou que tinham chegado
ao topo do penhasco e no ousou sair correndo para no cair no
precipcio. -Olhe para cima -disse o urso, no momento em que uma brisa
afastava a pesada cortina de nvoa. De qualquer maneira, a luz do dia
era pouca, mas Lyra olhou assim mesmo, e se viu diante de uma enorme
construo de pedra. Era to alta quanto a parte mais alta da Faculdade
#343 Jordan, porm muito mais compacta, e toda entalhada com cenas de
batalhas mostrando os ursos vitoriosos e os escraelingues rendendo-se,
trtaros acorrentados trabalhando como escravos nas minas de fogo,
zepelins chegando de todas as partes do mundo trazendo presentes e
tributos ao rei dos ursos, Iofur Raknison. Pelo menos foi o que o
urso-sargento disse que os entalhes representavam; ela prpria no
conseguia ver essas coisas, pois cada protuberncia e reentrncia da
fachada ornamentada estava ocupada por mergulhes e gaivotas rapineiras
que piavam, gritavam e voejavam constantemente em crculos, e cujas
fezes tinham coberto todo o prdio com espessas manchas de um branco
sujo. Os ursos pareciam no ver a sujeira; fizeram-na atravessar o
enorme arco, pisando no cho congelado, imundo com as fezes dos
pssaros. Havia um ptio, escadarias e vrios portes, e em cada um
deles havia ursos de armadura que exigiam a senha para lhes dar
passagem. Suas armaduras eram claras e brilhantes, e todos usavam plumas
nos elmos. Lyra no conseguia deixar de comparar cada urso que via com
Iorek Byrnison, e ele sempre se saa melhor; era mais forte, mais
gracioso, e sua armadura era de verdade, com cor de ferrugem, manchas de
sangue e marcas de luta, e no uma armadura elegante, polida e
decorativa como a maioria das que ela via agora. A medida que penetravam
no prdio, a temperatura aumentava, e outra coisa tambm aumentava: o
cheiro no palcio de Iofur era insuportvel -gordura de foca ranosa,
sangue, dejetos de todo tipo. Lyra baixou o capuz para sentir menos
calor, mas no conseguiu deixar de franzir o nariz; esperava que os
ursos no entendessem as expresses do rosto humano. A cada poucos
metros, havia alas de ferro prendendo lamparinas a gordura de peixe, e
naquela luz fraca nem sempre era fcil enxergar onde ela estava pisando.
#344 Finalmente pararam diante de uma pesada porta de ferro. Um
urso-guarda puxou a enorme tranca, e o sargento de repente virou a
cabea, empurrando Lyra pelas costas, jogando-a atravs da porta e
desequilibrando-a. Antes que ela conseguisse ficar de p, ouviu a porta
sendo trancada atrs de si. A escurido era total, mas Pantalaimon
tornou-se um vagalume e lanou um brilho minsculo em volta deles.
Estavam numa cela estreita com paredes de onde pingava umidade, e a
moblia era apenas um banco de pedra; no canto mais distante, havia uma
pilha de andrajos que ela imaginou ser a cama. Isto era tudo que ela
conseguia ver. Lyra sentou-se, com Pantalaimon no ombro, e tateou nas
roupas em busca do aletmetro. -Ele tem levado muita pancada, Pan.
Espero que ainda funcione -cochichou. Pantalaimon voou para o pulso dela
e ficou ali brilhando enquanto Lyra preparava a mente. Uma parte dos
seus pensamentos achava incrvel que ela pudesse estar em terrvel
perigo e mesmo assim mergulhar na calma necessria para ler o
aletmetro; no entanto, aquilo agora fazia parte dela de tal maneira que
as perguntas mais complicadas destacavam-se com seus smbolos com a
mesma naturalidade com que seus msculos moviam seus braos; mal
precisava pensar neles. Ela moveu os ponteiros e pensou: "Onde est
Iorek?" A resposta foi imediata: "A um dia de distncia, levado pelo
balo depois da queda; mas est vindo depressa." "E Roger?" "Com Iorek.
" "Que  que Iorek Byrnison vai fazer?" "Ele pretende forar a entrada
do palcio e libert-la, apesar de todas as dificuldades." #345 Ela
guardou o aletmetro, ainda mais ansiosa do que antes. -Eles no vo
permitir, no  mesmo? So muitos. Eu queria ser uma bruxa, Pan, a voc
poderia ir at ele, levar e trazer recados, e a gente poderia fazer um
bom plano... Ento ela levou o maior susto de sua vida, quando uma voz
masculina perguntou, a poucos passos dela: -Quem  voc? Ela deu um
salto e um grito de medo. Pantalaimon imediatamente virou morcego,
guinchando, e voou em volta da cabea dela enquanto ela recuava at a
parede. -Hein? Quem est a? -insistiu o homem. -Fale! Fale! -Vire
vaga-lume de novo, Pan. Mas no chegue perto demais- ela pediu, com voz
trmula. O pontinho de luz danou pelo ar e voejou em volta da cabea do
homem. Afinal, no era uma pilha de andrajos: era um homem de barba
grisalha acorrentado  parede, com olhos que cintilavam  luz de
Pantalaimon e cabelos sujos que lhe chegavam aos ombros. Seu daemon, uma
serpente de aparncia exausta, estava deitado no colo dele e
ocasionalmente dardejava a lngua para Pantalaimon. -Qual  o seu nome?
-ela perguntou. -Jotham Santelia -ele respondeu. -Sou Professor Regius*
de Cosmologia na Universidade de Glouscester. Quem  voc? -Lyra
Belacqua. Por que est preso? -Maldade e inveja... De onde voc vem?
Hein? -Da Faculdade Jordan. -O qu? De Oxford? -. -Aquele safado do
Trelawney ainda est l? Hein? *RegiUs: designao de certas ctedras,
em algumas faculdades inglesas e escocesas, que foram fundadas ou
estabelecidas por ordem real. (N.T.) #346 -O professor de palmeriano?
Est sim -ela disse. -Est mesmo? Hein? Deviam ter forado a demisso
dele h muito tempo. Plagiador prfido! Moleque! Lyra fez um som neutro.
-Ele j publicou seu trabalho sobre os ftons de raio gama? -perguntou o
Professor, erguendo o rosto para Lyra. Ela recuou. -No sei -disse.
Ento, por puro hbito, comeoU a inventar. -No, agora me lembro. Ele
disse que ainda precisava verificar certOS clculos. E... disse que ia
escrever sobre o P tambm.  isso. -Safado! Ladro! Traidor! Vigarista!
-bradou o velho. Ele tremia com tanta violncia que Lyra achou que ele
ia ter um ataque. Seu daemon deslizou lentamente do colo do Professor,
que dava murros nas pernas, cuspindo uma chuva de saliva. -, eu sempre
achei que ele era ladro. E vigarista, e tudo mais -disse Lyra. Se era
improvvel que surgisse em sua cela uma garotinha que conhecia o prprio
homem que era a sua obsesso, o Professor Regi us no percebeu. Ele
estava mesmo louco -o que no era de estranhar, coitado; mas podia ter
alguma informao til para Lyra. Ela sentoU-se ao lado dele
cautelosamente, no suficientemente perto para que ele a tocasse, mas o
bastante para que a minscula luz de Pantalaimon o iluminasse
claramente. -Uma coisa que o Professor Trelawney dizia para se gabar era
que conhecia muito bem o rei dos ursos... -Para se gabar? Hein? Ele 
mesmo um gabola! Um fanfarro! E um mandrio! Nem uma nica linha de
pesquisa ele fez! Foi tudo pirateado de homens melhores que ele! -, tem
razo -disse Lyra em tom veemente. -E quando ele faz alguma pesquisa,
faz tudo errado. #347 -Sim! Sim! Perfeitamente! No tem talento nem
imaginao,  uma fraude do princpio ao fim! -Por exemplo, aposto que o
senhor sabe mais que ele sobre os ursos -disse Lyra. -Ursos! Ra! Eu
poderia escrever um tratado sobre eles! Foi por isso que me prenderam,
sabia? -Por qu? -Porque sei demais sobre eles, e eles no ousam me
matar. No tm coragem, por mais que tenham vontade. Eu sei, entende?
Tenho amigos. Sim, amigos poderosos! -, e aposto que o senhor  um
professor maravilhoso, tendo tanto conhecimento e com tanta experincia
de ensinar... Mesmo nas profundezas da loucura dele, ainda brilhava uma
centelha de bom senso, de modo que ele olhou para a menina com ateno,
quase como se suspeitasse de sarcasmo por parte dela. Mas ela havia
passado a vida inteira lidando com professores idosos e desconfiados e
retribuiu o olhar dele com um olhar de admirao que o convenceu e
acalmou. -Professor... -fez ele. -Ensinar... , eu poderia ensinar. Se
eu tivesse um bom aluno, acenderia uma fogueira na mente dele! -Porque o
seu conhecimento no deveria simplesmente desaparecer -Lyra continuou,
em tom encorajador. -Devia ser passado adiante, para que as pessoas se
lembrem do senhor . -, sim -fez ele, assentindo com seriedade. -Voc 
muito perspicaz, garota. Qual  o seu nome? -Lyra- ela tornou a dizer.
-Pode me ensinar sobre os ursos? -Os ursos... -ele ecoou, em tom de
dvida. -Eu realmente gostaria de aprender sobre cosmologia, o P e tudo
mais, mas no sou suficientemente inteligente para isso. E podamos
comear com os ursos e progredir at o P, quem sabe? #348 Ele assentiu
outra vez. -, acho que tem razo. Existe uma correspondncia entre o
microcosmo e o macrocosmo! As estrelas esto vivas, menina. Sabia disso?
Tudo l em cima  vivo, e existem grandes propsitos l fora! O universo
est cheio de intenes, entende? Tudo acontece com um propsito. O seu
 me recordar isto. Muito bom, muito bom; no meu desespero eu tinha
esquecido. timo! Excelente, minha menina! -Ento: j viu o Rei Iofur
Raknison? -Ah, se vi! Vim para c a convite dele, sabia? Ele ia me fazer
Vice-chanceler. Seria um tapa de luva no Rgio Instituto do Plo rtico
hein? Hein? E naquele safado do Trelawney! Ah! -Que foi que aconteceu?
-Fui trado por homens indignos. Entre eles Trelawney,  claro. Ele
estava aqui, sabia? Em Svalbard. Espalhou mentiras e calnias sobre a
minha qualificao. Calnias! Invenes! Quem foi que descobriu a prova
definitiva da hiptese de Barnard-Stokes, hein? Hein? Sim, o velho
Santelia. Trelawney no conseguiu aceitar isso. Mentiu do princpio ao
fim. Iofur Raknison mandou me jogar aqui. Um dia vou sair, voc vai ver.
Vou ser Vice-chanceler, ora se vou. E Trelawney vai me procurar,
implorando piedade! Quero ver o Rgio Instituto do Plo rtico recusar
meus textos! Ah! Vou denunciar todos eles! -Acho que Iorek Byrnison vai
acreditar no senhor, quando ele voltar... -disse Lyra. -Iorek Byrnison?
No adianta esperar por isso. Aquele l nunca vai voltar. -Ele est
vindo. -Ento vai ser morto. Ele no  urso, entende?  um renegado.
Como eu. Um degredado, entende? Sem direito a qualquer um dos
privilgios de um urso. -Se Iorek Byrnison voltasse e desafiasse Iofur
Raknison para uma luta... #349 -Ah, no iam permitir isso -disse o
Professor em tom decidido. -Iofur nunca ir se rebaixar reconhecendo o
direito de Iorek Byrnison de lutar com ele. Iorek no tem mesmo esse
direito; ele pode ser uma foca, ou um leo-marinho, mas no um urso.
Seria morto com lanadores de fogo antes de chegar perto. No h
esperana. No existe piedade. -Ah... -suspirou Lyra, com o desespero
pesando no peito. -E os outros prisioneiros dos ursos, sabe onde ficam?
-Outros prisioneiros? -Assim como... Lorde Asriel. De repente o
Professor mudou inteiramente; encolheu-se contra a parede e sacudiu a
cabea com nervosismo. -Psiu! Fale baixo! Podem ouvir! -Por que no
podemos falar no Lorde Asriel? -Proibido! Muito perigoso! Iofur Raknison
no permite que o nome dele seja mencionado! -Por qu? -Lyra perguntou,
aproximando-se e cochichando tambm, para no assust-lo. -Manter Lorde
Asriel prisioneiro  uma tarefa especial dada a Iofur pelo Conselho de
Oblao -cochichou de volta o velho. -A Sra. Coulter em pessoa veio
visitar Iofur e lhe ofereceu todo tipo de recompensas para ele manter
Lorde Asriel fora do caminho. Sei disso porque na poca, entende, eu
ainda tinha a confiana de Iofur. Conheci a Sra. Coulter!  verdade.
Tivemos uma longa conversa. Iofur estava encantado com ela. No parava
de falar nela. Faria qualquer coisa por ela. Se ela quer que Lorde
Asriel fique preso a mil quilmetros de distncia, assim ser. Qualquer
coisa pela Sra. Coulter, qualquer coisa. Ele vai dar o nome dela 
capital do seu pas, sabia disso? -Ento ele no deixa ningum visitar
Lorde Asriel? -No! Nunca! Mas ele tambm tem medo de Lorde Asriel,
entende? Iofur est jogando uma partida difcil: est mantendo Lorde
Asriel em confinamento para agradar  Sra. #350 Coulter, mas deixa Lorde
Asriel ter todo o equipamento que quiser, para agrad-lo. Este jogo no
pode durar muito.  um equilbrio instvel. Agradar aos dois lados.
Hein? A estrutura desta situao vai desmontar logo, logo. Sei disso de
fonte segura. - mesmo? -fez Lyra, distrada, pensando furiosamente
sobre o que ele acabara de dizer. -, sim. A lngua do meu daemon sente
o sabor da probabilidade, entende? -, a minha tambm. Quando  que nos
alimentam, Professor? -Nos alimentam? -Devem colocar comida, seno
morreramos de fome. E o cho est cheio de ossos. Imagino que sejam de
foca, no so? -Foca... No sei. Pode ser. Lyra levantou-se e tateou at
a porta. No havia maaneta, naturalmente, nem fechadura, e no havia
uma s fresta por onde passasse a luz. Ela encostou o ouvido, mas nada
escutou. Depois ouviu o rudo das correntes do ancio quando ele
virou-se para o outro lado, finalmente pondo-se a roncar . Ela tateou de
volta ao banco. Pantalaimon, cansado de emitir luz, tornara-se um
morcego, o que para ele era timo; ficou voejando, guinchando baixinho,
enquanto Lyra, sentada, roa as unhas. De repente, sem o menor aviso,
ela recordou o que tinha ouvido o Catedrtico de palmeriano dizer na
Sala Privativa tanto tempo antes. Alguma coisa vinha cutucando sua mente
desde que Iorek Byrnison mencionara pela primeira vez o nome de Iofur, e
agora ela se lembrava: o Professor Trelawney tinha dito que aquilo que
Iofur Raknison queria mais que tudo era um daemon.  claro que na hora
ela no havia entendido o que ele queria dizer; ele tinha falado em
"panserbjornes" em vez de usar a palavra inglesa, de modo que ela no
sabia que estavam falando de ursos e no podia imaginar que Iofur
Raknison no era um homem. E #351 um homem naturalmente teria seu
daemon, de modo que aquilo no fazia sentido. Mas agora era bvio.
Somando tudo que ela havia ouvido sobre o urso-rei, o resultado era: o
poderoso Iofur Raknison desejava mais que tUdo ser um humano e ter seu
prprio daemon. E ao pensar isto veio-lhe um plano: um modo de fazer o
que Iofur Raknison normalmente jamais teria feito; um modo de conduzir
Iorek Byrnison ao trono a que tinha direito; um modo, em suma, de chegar
ao lugar onde tinham aprisionado Lorde Asriel e entregar-lhe o
aletmetro. Essa idia esvoaou e brilhou delicadamente, como uma bolha
de sabo, e ela temia encar-la de frente, para no destru-la. Mas
estava familiarizada com todo tipo de idias, e deixou-a rebrilhar,
olhando para outro lado e pensando em outra coisa. Estava quase dormindo
quando os ferrolhos foram corridos ruidosamente, e a porta foi aberta. A
luz jorrou para dentro, e ela se ps de p no mesmo instante, com
Pantalaimon escondido rapidamente no bolso. Assim que o urso-guarda
baixou a cabea para levantar a posta de carne de foca e jog-la para
dentro, ela estava ao lado dele, dizendo: -Me leve a Iofur Raknison. Vai
ter problemas se no fizer isso.  urgente. Ele deixou a carne cair da
boca e ergueu os olhos. No era fcil ler a expresso de um urso, mas
ele parecia zangado. - sobre Iorek Byrnison -ela falou depressa. -Sei
de uma coisa sobre ele, e o rei precisa saber . -Diga o que  e eu mando
avisar- disse o urso. -Isso no seria certo. Ningum pode saber antes do
rei -ela disse. -Sinto muito, no quero ser grosseira, mas voc sabe, a
lei diz que o rei tem que ficar sabendo primeiro. #352 Talvez ele fosse
burro; de qualquer maneira, fez uma pausa e depois jogou a carne dentro
da cela antes de dizer: -Est bem. Vem comigo. Levou-a para o ar livre,
o que a agradou muito. A nvoa se dissipara, e estrelas brilhavam acima
do ptio cercado de muros altos. O guarda conferenciou com outro urso,
que veio falar com ela. -No pode falar com Iofur Raknison quando bem
entender -disse. -Vai ter que esperar at ele querer falar com voc.
-Mas  urgente o que eu tenho para dizer a ele -ela argumentou. - sobre
Iorek Byrnison. Tenho certeza de que Sua Majestade ia querer saber, mas
ao mesmo tempo no posso contar a outra pessoa, entende? No seria
apropriado. Ele ia ficar furioso se soubesse que ns no agimos dentro
da etiqueta. Aquilo tudo parecia fazer sentido, ou ento deixou o urso
suficientemente confuso para obrig-lo a raciocinar .Lyra tinha certeza
de que sua interpretao estava correta: Iofur Raknison estava
introduzindo tantas mudanas que nenhum dos ursos sabia como proceder, e
ela poderia explorar essa insegurana para chegar a Iofur. Assim, o urso
foi consultar o urso acima dele, e no demorou para que Lyra fosse
novamente levada para dentro do Palcio, mas desta vez para os aposentos
reais. Aquela parte era to suja quanto a outra, e o ar era at mais
irrespirvel do que o da cela, porque todos os fedores naturais estavam
misturados a uma camada pesada de perfume adocicado. Mandaram que ela
esperasse no corredor, depois na ante-sala, depois junto a uma porta
enorme, enquanto ursos dIscutIam, debatIam e Iam apressados de um lado
para outro. E ela teve tempo para olhar em volta e contemplar a ridcula
decorao: as paredes eram cobertas de trabalhos em gesso dourado,
algumas partes j descascando ou desmanchando-se por causa da umidade, e
os tapetes floridos estavam imundos. #353 Finalmente a porta enorme foi
aberta por dentro. Um claro de luz de meia dzia de candelabros, um
tapete roxo e mais perfume adocicado pairando no ar; e as caras de uma
dezena de ursos, todos olhando para ela, nenhum deles de armadura, mas
todos com o mesmo tipo de enfeites: colar dourado, cocar de plumas
roxas, uma faixa carmim na cintura. Curiosamente, havia tambm pssaros
no aposento: andorinhas-do-mar e gaivotas rapineiras empoleiravam-se na
sanca de gesso e mergulhavam para bicar os pedaos de peixe que caam do
ninho dos outros pssaros nos candelabros. E num tablado no extremo
oposto do aposento, erguia-se um trono enorme. Era feito de granito,
para ser forte e macio, mas como todas as coisas no palcio de Iofur ,
ele era decorado com arabescos e festes dourados que pareciam purpurina
numa montanha. Sentado no trono estava o maior urso que ela j vira.
Iofur Raknison era mais alto e mais corpulento at que Iorek, e sua cara
era muito mais dinmica e expressiva, com uma espcie de humanidade que
ela nunca tinha visto em Iorek. Quando Iofur olhou para ela, era como se
ela visse um homem olhando de dentro dos olhos dele, o tipo de homem que
ela conhecera na casa da Sra. Coulter -um poltico sutil, acostumado ao
poder . Ele usava uma pesada corrente de ouro em volta do pescoo e nela
um penduricalho chamativo, e suas garras -com uns bons 20 centmetros
cada uma -eram folheadas a ouro. O efeito era de enorme fora, energia e
esperteza; ele era suficientemente corpulento para carregar aquelas
jias de tamanho absurdo; nele elas no pareciam ridculas, e sim
brbaras e magnficas. Ela vacilou. De repente, sua idia parecia tola
demais. Mas adiantou-se, pois era obrigada a isto, e ento viu que Iofur
segurava algo no colo, como um ser humano seguraria um gato -ou o seu
daemon. Era uma grande boneca estufada, um manequim com rosto humano
parado e morto. Estava vestida como a Sra. Coulter #354 gostava de se
vestir, e se parecia um pouco com ela. Iofur estava fingindo que tinha
um daemon! Ento Lyra viu que estava salva. Ela se aproximou do trono e
fez uma profunda mesura, com Pantalaimon quieto e imvel em seu bolso.
-Nossas saudaes, grande Rei -ela disse em voz baixa. -Quer dizer,
minhas saudaes, no as dele. -No as de quem? -Iofur perguntou. Tinha
a voz mais fina do que ela imaginara, mas cheia de sutilezas e tons
expressivos. Enquanto falava, ele balanava a mo diante da boca para
espantar as moscas que se juntavam ali. -De Iorek Byrnison, Majestade.
Tenho Uma coisa muito importante e secreta para lhe contar, e acho que,
na verdade, devia fazer isso em particular. - alguma coisa sobre Iorek
Byrnison? Ela se aproximou, pisando cuidadosamente no cho coberto de
sujeira de pssaros, e afastou as moscas que zumbiam junto ao seu rosto.
-Alguma coisa sobre daemons- disse, para que apenas ele ouvisse. A cara
dele mudou de expresso. Ela no conseguiu decifrar a nova expresso,
mas no havia dvida de que ele estava imensamente interessado. De
repente, ele inclinou-se para a frente, fazendo com que ela saltasse de
lado, e rugiu uma ordem para os outros ursos. Todos eles fizeram uma
mesura e recuaram em direo  porta. Os pssaros, que tinham se
alvoroado com o rugido, piavam e voavam baixo antes de se acomodarem
novamente em seus ninhos. Quando s ficaram Iofur Raknison e Lyra na
sala do trono, ele voltou-se ansiosamente para ela. -Ento? Diga quem 
voc. Que histria  essa de daemons? -Eu sou um daemon, Majestade -ela
disse. Ele ficou imvel. #355 -De quem? -quis saber. -De Iorek Byrnison.
Foi a coisa mais perigosa que ela j falara na vida. Via claramente que
s o espanto dele o impedia de mat-la ali mesmo. Ento apressou-se a
continuar. -Por favor, Majestade, deixe-me contar tudo primeiro, antes
de me matar. Vim at aqui correndo perigo, como o senhor bem sabe, e
nada do que eu tenho a dizer poderia prejudic-lo. Alis, eu quero 
ajudar, e foi por isso que vim. Iorek Byrnison foi o primeiro urso a
conseguir um daemon, mas devia ter sido o senhor. Eu prefiro muito mais
ser seu daemon do que dele, por ISSO eu VIm. -Como? -ele perguntou
ofegante. -Como  que um urso consegue um daemon? E por que ele? E como
 que voc consegue ficar to longe dele? As moscas caam da boca do
urso como minsculas palavras. -Isto  fcil. Eu posso me afastar dele
porque sou como os daemons das bruxas. Sabe que eles podem se afastar
centenas de quilmetros de seus humanos? Pois  a mesma coisa. E ele me
conseguiu em Bolvangar. O senhor j deve ter ouvido falar em Bolvangar,
porque a Sra. Coulter deve ter-lhe falado disso, mas ela provavelmente
no lhe contou tudo que eles faziam l. -Cortavam... -Sim, a interciso;
isso  uma parte. Mas eles faziam muitas outras coisas l, como por
exemplo implantes de daemons. E experincias com animais. Quando Iorek
Byrnison soube disso, ofereceu-se para uma experincia, para ver se
conseguiam fazer um daemon para ele. Eles conseguiram, e o daemon sou
eu. Meu nome  Lyra. Os daemons dos humanos tm forma de animais,
portanto, o daemon de um urso tem forma humana. E eu sou o daemon dele.
Posso ler a mente dele e saber exatamente o que ele est fazendo, onde
est e... #356 -Onde  que ele est? -Em Svalbard. Est vindo para c o
mais rpido possvel. -Por qu? Que  que ele quer? Deve estar louco!
Vo acabar com ele. -Ele quer a mim, est vindo me buscar. Mas no quero
ser daemon dele, Iofur Raknison, quero ser sua. Porque, depois que eles
viram como fica poderoso um urso com daemon, o pessoal em Bolvangar
resolveu no repetir a experincia. Iorek Byrnison  o nico urso a ter
daemon. Com a minha ajuda, ele poderia levantar todos os ursos contra o
senhor.  para isso que ele vem a Svalbard. O urso-rei rugiu de dio. O
rugido foi to alto que os lustres de cristal tilintaram, todos os
pssaros no grande salo piaram e os ouvidos de Lyra zumbiram. Mas ela
conseguiu se sair bem. - por isso que gosto mais do senhor -disse a
Iofur Raknison. -Porque o senhor  entusiasmado, forte e inteligente
tambm. Eu tinha que abandonar Iorek Byrnison e vir lhe contar , porque
no quero que ele governe os ursos. Tem que ser o senhor . E existe um
modo de me tirar dele e me fazer seu daemon, mas o senhor no sabe disso
e, se no for avisado, pode fazer com ele o que costuma fazer com ursos
renegados; quer dizer, no lutar com ele, mas matar com lanadores de
fogo ou coisa assim. E se fizesse isso, eu ia apagar como uma luz, e
morreria com ele. -Mas voc... Como  que... -Eu posso realmente me
tornar seu daemon, mas s se o senhor derrotar Iorek Byrnison numa luta
dos dois. Ento a fora dele vai passar para o senhor, e a minha mente
vai fluir para dentro da sua, e seremos como uma pessoa, pensando os
pensamentos um do outro; e o senhor vai poder me mandar a qualquer lugar
E eu Ia ajudar a chefiar os ursos para capturar Bolvangar, se o senhor
quiser, e obrigar que eles faam mais daemons para os seus #357 ursos
favoritos; ou, se preferir ser o nico urso com daemon, poderamos
destruir Bolvangar para sempre. Ns dois juntos, Iofur Raknison,
poderamos fazer qualquer coisa! Durante todo o tempo, ela segurava
Pantalaimon no bolso com a mo trmula, e ele estava o mais imvel
possvel na menor forma de rato que conseguia assumir. Iofur Raknison
andava de um lado para outro com ar de explosiva excitao. -Uma luta de
ns dois? -dizia. -Eu tenho que lutar com Iorek Byrnison? Impossvel!
Ele  um renegado! Como pode ser isso? Como  que posso lutar com ele? 
a nica maneira? - a nica maneira -Lyra ecoou. Ela queria que no
fosse, porque Iofur Raknison parecia maior e mais feroz a cada minuto.
Por maior que fosse o seu afeto por Iorek e por mais forte que fosse sua
confiana nele, ela no conseguia acreditar que ele derrotasse este
gigante entre gigantes. Mas era a nica esperana que eles tinham; ser
destrudo  distncia por lanadores de fogo no era uma esperana.
Iofur Raknison virou-se de repente. -Ento prove! Prove que voc  uma
daemon! -Est bem -disse ela. -Posso fazer isso,  fcil. Posso
descobrir alguma coisa que o senhor sabe e ningum mais; qualquer coisa
que s um daemon conseguiria descobrir. -Ento me diga qual foi a
primeira criatura que matei. -Para isso vou ter que ficar sozinha.
Quando eu for seu daemon, o senhor vai poder ver como  que fao isso,
mas at l tem que ser segredo. -V para a sala atrs desta aqui e volte
quando souber a resposta. Lyra abriu a porta e entrou num aposento
iluminado por uma tocha e contendo apenas um armrio de mogno com
enfeites de prata sujos. Ela tirou o aletmetro e perguntou: #358 "Onde
est Iorek agora?" "A quatro horas de distncia, e correndo mais ainda."
"Como  que posso dizer a ele o que eu fiz?" "Tem que ter confiana
nele." Ela pensou ansiosamente no cansao que ele certamente teria. Mas
ento refletiu que no estava fazendo aquilo que o aletmetro acabava de
lhe dizer: confiar nele. Deixou de lado este pensamento e fez a pergunta
que Iofur Raknison queria. Qual era a primeira criatura que ele havia
matado? Veio a resposta: o prprio pai dele. Ela fez outras perguntas e
descobriu que quando jovem, em sua primeira expedio de caa, Iofur
estava sozinho no gelo quando encontrou um urso solitrio. Os dois
discutiram e lutaram, e Iofur matou o outro. Mais tarde, quando soube
que se tratava de seu prprio pai (pois os ursos eram criados pelas mes
e raramente viam os pais), ele escondeu a verdade, portanto ningum
sabia disto alm do prprio Iofur Raknison. Ela guardou o aletmetro,
pensando em como lhe dizer isto. -Com lisonja! -sussurrou Pantalaimon.
- s o que ele quer. De modo que Lyra abriu a porta e encontrou Iofur
Raknison esperando, com expresso de triunfo, esperteza, apreenso e
cobia. -E a? Ela ajoelhou-se diante dele e encostou a cabea na pata
dianteira esquerda dele, pois todos os ursos eram canhotos. -Peo o seu
perdo, Iofur Raknison! No sabia que era to forte e grandioso! -Que 
isso? Responda a minha pergunta! -A primeira criatura que o senhor matou
foi o seu prprio pai. Acho que o senhor  um novo deus, Iofur Raknison.
S pode ser. S um deus teria poder para fazer isso. #359 -Voc sabe!
Consegue ver! -Sim, porque eu sou um daemon. -Diga-me mais uma coisa.
Que foi que Lady Coulter me prometeu quando esteve aqui? Mais uma vez
Lyra foi para a outra sala e consultou o aletmetro antes de voltar com
uma resposta. -Ela lhe prometeu que ia fazer o Magisterium em Gnova
concordar que o senhor fosse batizado como cristo, mesmo no tendo
daemon. Bem, infelizmente ela no fez isso, Iofur Raknison, e para ser
sincera acho que eles nunca concordaro se o senhor no tiver daemon;
acho que ela sabia disso e no lhe contou a verdade. Mas, de qualquer
maneira, quando o senhor me tiver como daemon, poder ser batizado se
quiser, pois ningum poder ser contra. O senhor poder exigir isso, e
eles no vo poder recusar . -Sim...  verdade. Ela disse isso mesmo. 
tudo verdade. E ela me enganou? Eu confiei nela, e ela me enganou? -Foi,
sim. Mas ela no tem mais importncia. Com sua licena, Iofur Raknison,
espero que no fique zangado por eu dizer isso, mas Iorek Byrnison est
a quatro horas daqui, e talvez fosse melhor o senhor dar ordens aos
guardas para que no ataquem ele. Se pretende lutar com ele, ele vai ter
que chegar at o Palcio. -... -E quando ele chegar, talvez seja melhor
eu fingir que ainda perteno a ele e que me perdi. Ele no vai
descobrir. Eu vou fingir. O senhor vai contar aos outros ursos que eu
sou daemon de Iorek e que vou pertencer ao senhor quando o senhor lutar
com ele e vencer? -No sei... Que  que devo fazer? -Acho melhor no
contar. Quando estivermos unidos, o senhor e eu, poderemos pensar no que
 melhor, e ento chegar a uma deciso. Agora o que o senhor precisa
fazer  explicar a #360 todos os outros ursos por que vai lutar com
Iorek como se ele fosse um urso comum, mesmo sendo um renegado. Porque
eles no vo entender e temos que inventar um motivo para isso. De
qualquer maneira, eles vo obedecer, mas se tiverem um motivo, vo
admirar o senhor ainda mais. -. Que  que devemos dizer a eles? -Diga..
.Diga a eles que para tornar seu reino inteiramente seguro o senhor
mesmo chamou Iorek Byrnison de volta para lutar com ele, e o vencedor
vai governar os ursos para sempre. Entenda: se disser que a idia da
vinda dele foi sua, eles vo ficar mesmo impressionados. Vo pensar que
o senhor consegue chamar Iorek de longe. Vo pensar que o senhor
consegue fazer qualquer coisa. -... O grande urso estava domado; Lyra
sentia o poder que tinha sobre ele quase como uma embriaguez, e se
Pantalaimon no tivesse mordiscado sua mo para lembrar o perigo que
todos corriam, ela poderia ter perdido o senso de proporo. Mas voltou
a ter bom senso e recuou um passo para observar e esperar enquanto os
ursos, sob as ordens excitadas de Iofur, preparavam o campo de combate
para Iorek Byrnison; e enquanto isso Iorek, sem saber de coisa alguma,
aproximava-se depressa daquilo que -ela gostaria de poder contar a ele
-era um combate de vida ou morte. #361 20 A OUTRANCE LUTAS entre ursos
eram comuns e ocasies de grandes rituais. Porm era raro um urso matar
outro urso, e, quando isso acontecia, em geral era por acidente, ou
quando um urso interpretava mal os sinais de outro, como foi o caso de
Iorek Byrnison. Casos de assassinato, como aconteceu com Iofur, que
matou o prprio pai, eram ainda mais raros. Mas ocasionalmente surgiam
circunstncias em que a nica maneira de resolver uma disputa era
atravs de um combate mortal. E para isso havia todo um cerimonial.
Assim que Iofur anunciou que Iorek Byrnison estava a caminho e haveria
um confronto, o campo de combate foi varrido e alisado, e fabricantes de
armaduras vieram das minas de fogo para verificar a armadura de Iofur.
Cada pino foi examinado, cada elo foi testado, e as placas foram polidas
com a areia mais fina. A mesma ateno foi dada s garras de Iofur; a
folha de ouro foi raspada, e cada garra -com quase 20 centmetros -foi
afiada e afilada at se tornar uma arma mortal. Lyra observava tudo com
uma crescente sensao de nusea na boca do estmago, pois Iorek
Byrnison no receberia todos esses cuidados. Ele vinha #362 marchando
sobre o gelo cerca de 24 horas, sem alimento ou descanso; podia ter-se
ferido na queda do balo. E ela havia preparado essa luta para ele sem
que ele soubesse! Em dado momento, depois que Iofur Raknison testou o
potencial das suas garras num leo-marinho recm-abatido cortando-lhe a
pele como se fosse papel, e a fora de seus murros no crnio do animal
(com dois murros, ele o rachou como se fosse um ovo) , Lyra teve que
inventar uma desculpa e pedir licena a Iofur para ir chorar de medo.
At Pantalaimon, que normalmente conseguia alegr-la, pouco tinha a
dizer de otimista. Tudo que ela podia fazer era consultar o aletmetro,
que lhe disse que Iorek estava a uma hora de l e repetiu que ela devia
confiar nele; deu-lhe tambm (e isto foi mais difcil de decifrar) uma
repreenso por fazer duas vezes a mesma pergunta. A esta altura, a
notcia tinha se espalhado entre os ursos, e o campo de combate estava
apinhado. Os ursos de posio mais elevada ocupavam os melhores lugares,
e havia um local especial para as ursas -inclusive as esposas de Iofur,
naturalmente. Lyra tinha uma curiosidade enorme a respeito das ursas,
pois sabia muito pouco sobre elas, mas esta no era hora de ficar por
ali fazendo perguntas. Em vez disso, ela ficou perto de Iofur Raknison e
observou os cortesos em volta dele exibindo sua posio acima dos ursos
comuns; ela tentou adivinhar o significado das variadas plumas, medalhas
e comendas que todos pareciam usar. Lyra percebeu que alguns dos mais
graduados levavam pequenos bonecos, como a boneca de trapos de Iofur,
talvez para lisonje-lo imitando um hbito que ele iniciara. A menina
ficou satisfeita quando percebeu que, ao verem que Iofur no estava
usando o seu boneco, eles ficaram sem saber o que fazer com os deles.
Deveriam jogar fora? Os bonecos estavam proscritos? Como deveriam agir?
Pois ela comeava a constatar que aquele era o estado de esprito
reinante na corte: eles no tinham certeza daquilo que #363 eram. No
eram como Iorek Byrnison, puros, seguros e absolutos; havia uma eterna
mortalha de insegurana envolvendo todos eles, enquanto observavam uns
aos outros e observavam Iofur. E observavam Lyra, tambm, com evidente
curiosidade. Ela permanecia discretamente ao lado de Iofur, sem nada
dizer, baixando os olhos sempre que um urso olhava para ela. A esta
altura, a nvoa se dissipara e o ar estava claro; e, por um capricho da
sorte, o breve intervalo de claridade por volta do meio-dia coincidiu
com a hora que Lyra achava que Iorek ia chegar. Tremendo, parada num
montinho de neve na borda do campo de combate, ela ergueu os olhos para
a leve claridade no cu e desejou com todo o corao avistar uma
esquadrilha de vultos negros e elegantes descendo para lev-la, ou a
cidade escondida da Aurora Boreal, onde ela poderia andar em segurana
pelas largas avenidas  luz do sol, ou ainda os braos generosos de Me
Costa, sentir o cheiro amigo de carne e comida que envolviam Lyra na
presena dela... Quando Lyra deu por si, estava chorando, vertendo
lgrimas que congelavam quase instantaneamente e que ela arrancava do
rosto dolorosamente. Estava com muito medo. Os ursos, que no choravam,
no conseguiam entender o que estava acontecendo com ela; achavam que
era um processo humano qualquer, sem significado. E naturalmente
Pantalaimon no podia consolar Lyra como costumava fazer, embora ela
mantivesse a mo no bolso segurando com firmeza o pequeno ratinho; ele,
por sua vez, acariciava os dedos dela com o focinho. Perto dela, os
ferreiros estavam fazendo os ajustes finais na armadura de Iofur
Raknison. Coberto de ao polido, as placas lisas enfeitadas com fios de
ouro incrustrados, ele parecia uma grande torre de metal brilhante; o
elmo cobria a parte superior da cabea numa cintilante carapua
cinza-prateada, com fendas na altura dos olhos, e a parte inferior do
corpo era protegida por um saiote de malha de metal bem ajustado. Foi
quando viu isso #364 que Lyra tomou conscincia de que tinha trado
Iorek Byrnison, pois Iorek no possua nenhuma dessas coisas: a armadura
dele s protegia as costas e os lados. Ela olhou para Iofur Raknison,
to dinmico e poderoso, e sentiu uma dor profunda, como uma mistura de
culpa e de medo. Disse ento: -Com licena, Majestade. O senhor se
lembra do que eu lhe disse antes... Sua voz trmula soava fina e fraca.
Iofur RaknIson VIrou a cabea poderosa, tirando sua ateno do alvo que
trs ursos estavam segurando na sua frente para que ele o rasgasse com
suas garras mortais. -Que ? Que ? -Lembra-se, eu disse que era melhor
eu ir falar com Iorek Byrnison primeiro, e fingir que... Mas antes que
ela conseguisse terminar a frase, houve um alvoroo dos ursos na torre
de vigia. Os outros todos, sabendo de que se tratava aquilo,
manifestaram tambm sua triunfante excitao. Tinham avistado Iorek.
-Por favor? -disse Lyra em desespero. -Eu consigo enganar ele, o senhor
vai ver. -Certo, certo. V. E encoraje ele! Iofur Raknison mal conseguia
falar de tanta raiva e excitao. Lyra afastou-se dele e atravessou o
campo de combate vazio e deserto, deixando suas pequenas pegadas na
neve; e os ursos do outro lado abriram caminho para que ela passasse. A
medida que os corpanzis se afastavam, o horizonte se abria, escuro na
palidez da luz do dia. Onde estava Iorek Byrnison? Ela no conseguia
enxergar; mas a torre de vigia era alta, e eles conseguiam ver coisas
que ela ainda no podia ver. Tudo que ela podia fazer era avanar
caminhando pela neve. Ele viu Lyra antes que ela o visse; com um rudo
forte de metal e uma chuva de neve, Iorek Byrnison estava ao seu lado.
#365 -Ah, Iorek! Eu fiz uma coisa horrvel! Meu amigo, voc vai ter que
lutar com Iofur Raknison, e no est preparado! Est cansado e faminto,
e a sua armadura... -Que coisa horrvel voc fez? -Contei a ele que voc
estava chegando, porque li isso no leitor de smbolos, e ele est
desesperado para ser como uma pessoa e ter um daemon, desesperado. Ento
enganei ele, dizendo que sou seu daemon e que ia abandonar voc para ser
dele, mas para isso acontecer ele teria que lutar com voc. Porque,
seno, meu querido Iorek, eles nunca iriam deixar voc lutar, iam botar
fogo em voc antes de voc chegar perto... -Voc enganou Iofur Raknison?
-Foi. Fiz ele concordar em lutar em vez de matar voc como um renegado,
e o vencedor vai ser rei dos ursos. Tive que fazer isso, porque... -Lyra
Belacqua? No, voc  Lyra da Lngua Mgica - ele declarou. -Tudo que eu
quero  lutar com ele. Vamos l, querido daemon. Ela contemplou Iorek
Byrnison em sua armadura marcada pelo tempo, alto e feroz, e sentiu que
o corao ia explodir de orgulho. Caminharam lado a lado em direo ao
palcio de Iofur , onde o campo de combate estendia-se no sop da
muralha. Os ursos ocupavam as ameias, rostos plidos enchiam todas as
janelas, e os corpos pesados formavam uma densa parede branca, marcada
de pontinhos pretos de olhos e focinhos. Os mais prximos afastaram-se
para um lado, formando duas filas, entre as quais Iorek Byrnison e seu
daemon passaram. Os olhos de todos os ursos estavam fixos neles. Iorek
parou na borda do campo de combate; na borda oposta estava Iofur
Raknison. O rei desceu do monte de neve e os dois se encararam a poucos
metros de distncia. #366 Lyra estava to perto de Iorek que conseguia
sentir um tremor dentro dele, como um grande dnamo gerando poderosa
energia anbrica. Ela tocou de leve no pescoo dele, na borda do elmo, e
disse: -Boa luta, meu querido Iorek. Voc  o verdadeiro rei, e ele no
. Ele no  nada. Ento ela recuou. -Ursos! -rugiu Iorek Byrnison. Das
muralhas do palcio veio um eco, espantando os pssaros de seus ninhos.
-Eis os termos deste combate: se Iofur Raknison me matar, ele ser rei
para sempre, livre de desafio ou disputa. Se eu matar Iofur Raknison,
serei o seu rei. Minha primeira ordem a todos vocs ser derrubar este
palcio, esta casa perfumada de falsidade e purpurina, e jogar o ouro e
o mrmore no mar. O metal do urso  o ferro. No  ouro. Iofur Raknison
poluiu Svalbard. Eu vim para purific-la. Iofur Raknison, eu desafio
voc! Ento Iofur aproximou-se alguns passos, como se mal conseguisse se
controlar. -Ursos! -rugiu por sua vez. -Iorek Byrnison voltou a meu
convite. Eu o atra para c. Sou eu quem tem que ditar os termos do
combate, que so: se eu matar Iorek Byrnison, a carne dele ser
retalhada e servida aos avantesmas-dos-penhascos. A cabea vai ficar
exposta em cima do meu palcio. A memria dele ser obliterada. Ser
crime grave falar o nome dele... Ele prosseguiu, e depois cada um dos
dois tornou a falar . Era uma frmula, um ritual fielmente obedecido.
Lyra olhava para os dois, to diferentes: Iofur to brilhante e
poderoso, imenso em sua fora e sade, em sua armadura esplndida,
orgulhoso e fidalgo; e Iorek, menor -embora ela nunca tivesse imaginado
que ele um dia ia parecer pequeno -e mal-equipado, a armadura amassada e
enferrujada. Mas a armadura dele era a sua alma; ele a tinha fabricado,
e ela lhe servia perfeitamente. Ambos eram uma coisa s. Iofur no
estava contente com a sua armadura; ele queria #367 tambm outra alma.
Estava inquieto, ao passo que Iorek estava imvel. E ela estava
consciente de que todos os outros ursos tambm faziam essa comparao.
Mas Iorek e Iofur eram mais do que apenas dois ursos: eram dois tipos de
vida, dois futuros, dois destinos. Iofur tinha comeado a lev-los numa
direo, e Iorek iria lev-los em outra, e no mesmo instante em que um
futuro morria, outro comearia a existir. Enquanto o ritual do combate
caminhava rumo  segunda fase, os dois comearam a dar passos inquietos
na neve, aproximando-se aos poucos, balanando a cabea. Entre os
espectadores no havia o menor movimento, mas todos os olhos seguiam os
dois. Finalmente os combatentes ficaram imveis e silenciosos,
observando-se de frente atravs da largura do campo de combate. Ento,
com um rugido e uma chuva de neve, ambos os ursos avanaram no mesmo
momento. Como duas grandes massas de pedra, equilibradas em picos
vizinhos e soltas por um terremoto, que rolam as encostas reunindo
velocidade, saltando acima de abismos e reduzindo rvores a gravetos at
colidirem uma com a outra com tanta fora que ambas so esmigalhadas,
transformando-se em p e lascas de pedra -foi assim o encontro dos dois
ursos. O estrondo ressoou no ar e voltou como eco. Mas eles no foram
destrudos como aconteceria com a pedra; ambos caram de lado, e o
primeiro a levantar-se foi Iorek. Ele girou e agarrou-se a Iofur, cuja
armadura sofrera danos na coliso e que no conseguia levantar a cabea
com facilidade. Iorek foi direto ao ponto vulnervel no pescoo do
outro, passou as garras pela pele branca e ento fincou-as debaixo da
borda do elmo de Iofur e puxou-o para a frente. Sentindo o perigo, Iofur
rosnou e sacudiu-se como Lyra tinha visto Iorek sacudir-se na beira d'
gua, enviando lenis de gua para o alto; Iorek caiu longe, e com um
horrvel guinchar #368 de metal retorcido, Iofur ficou ereto, esticando
o ao das placas das costas apenas com sua fora bruta. Ento, como uma
avalanche, ele se jogou sobre Iorek, que ainda tentava levantar-se. Lyra
sentiu-se sem flego com a fora da queda. Certamente o cho estremeceu
sob ela. Como Iorek poderia sobreviver a isto? Ele estava lutando para
girar o corpo e conseguir fincar os ps no cho, mas estava com os ps
para cima e Iofur tinha enfiado os dentes em algum lugar perto da
garganta de Iorek. Pingos de sangue quente voavam pelo ar: um deles caiu
no casaco de Lyra, e ela apertou-o na mo como um sinal de amor . Ento
Iorek enfiou as patas traseiras nos elos do saiote de Iofur e puxou,
rasgando-o; a frente inteira caiu, e Iofur jogou-se para um lado para
examinar o estrago, permitindo que Iorek ficasse de p. Por um instante
os dois ursos ficaram afastados, recuperando o flego. Iofur agora tinha
a malha de ao para atrapalhar, pois em vez de proteo ela se
transformara num obstculo; aInda estava presa a ele, e era arrastada
pelo cho entre as pernas dele. No entanto Iorek estava em pior
situao: sangrava muito pela ferida no pescoo e ofegava intensamente.
Mas saltou sobre Iofur antes que o rei conseguisse se desvencilhar do
saiote de malha de ao, e derrubou-o numa cambalhota, atacando em
seguida a parte nua do pescoo onde a borda do elmo estava empenada.
Iofur jogou-o longe, e ento os dois colidiram outra vez, jogando para o
alto esguichos de neve que voavam em todas as direes e s vezes
tornavam difcil ver quem estava vencendo. Lyra assistia, mal ousando
respirar e apertando as mos com tanta fora que chegavam a doer. Ela
pensou ter visto Iofur abrindo um buraco na barriga de Iorek, mas isto
no devia ser real, porque logo em seguida, depois de outra exploso de
neve, os dois ursos estavam de p nas patas traseiras como dois
boxeadores, #369 e Iorek tentava arranhar o rosto de Iofur com suas
garras poderosas, enquanto Iofur atacava de volta com a mesma
selvageria. Lyra estremecia a cada golpe. Como se um gigante estivesse
girando um martelo, e esse martelo tivesse cinco pinos de ao... Ferro
batia em ferro, dente batia em dente, respiraes ofegavam, ps
trovejavam na neve revolta e suja de sangue, formando uma espcie de
lama vermelha. A esta altura, a armadura de Iofur estava em estado
lastimvel, as placas rasgadas e empenadas, as incrustaes de ouro
arrancadas ou cobertas de sangue, e o capacete fora arrancado. A
armadura de Iorek estava em melhores condies, apesar de sua feira:
amassada, porm intacta, suportando os murros possantes do urso-rei e
desviando aquelas garras brutais. Por outro lado, Iofur era maior e mais
forte que Iorek, que estava cansado e faminto e que tinha perdido mais
sangue. Ele estava ferido na barriga, em ambos os braos e no pescoo,
ao passo que Iofur sangrava somente na mandbula. Lyra daria tudo para
ajudar seu querido amigo, mas nada podia fazer. E as coisas agora
estavam ruins para Iorek. Ele estava mancando; cada vez que colocava a
pata dianteira esquerda no cho, percebia-se que ela no agentava o
peso dele. Nunca a usava para atacar, e os golpes de sua mo direita
tambm eram bem fracos, comparados aos murros poderosos que ele dera
poucos minutos antes. Iofur havia percebido isso e comeou a provocar
Iorek, chamando-o de mo-quebrada, filhote desmamado, enferrujado,
candidato a morto e outras coisas, enquanto o atacava por todos os lados
com socos que Iorek no conseguia evitar. Iorek teve que recuar, um
passo de cada vez, e agachar-se sob a chuva de murros do sarcstico
urso-rei. Lyra chorava. O seu querido, o seu amigo corajoso, o seu
defensor destemido estava prestes a morrer, e ela no ia lhe fazer a
traio de no assistir, pois, se ele olhasse para ela, tinha que ver
#370 olhos brilhantes de amor e confiana, no um rosto escondido
covardemente ou costas voltadas para ele por medo. De modo que ela ficou
assistindo, mas as lgrimas no deixavam que ela enxergasse o que
e-stava realmente acontecendo; talvez fosse mesmo algo impossvel de
ver. Iofur certamente no enxergava. Porque Iorek estava recuando apenas
para encontrar solo firme e seco e uma rocha sobre a qual se apoiar, e o
intil brao esquerdo estava, na verdade, forte e apto. No se pode
enganar um urso; porm, como Lyra lhe mostrara, Iofur no queria ser um
urso, queria ser um homem, e Iorek estava conseguindo engan-lo.
Finalmente ele encontrou o que procurava: uma pedra firmemente ancorada
na terra. Encostou-se nela, tensionando as pernas e esperando a ocasio.
Que chegou quando Iofur ergueu-se na frente dele, urrando sua vitria e
virando a cabea, provocantemente, para o lado esquerdo de Iorek,
aparentemente o lado mais fraco. Foi ento que Iorek atacou. Como uma
onda que vem aumentando sua fora atravs de milhares de quilmetros de
oceano e que causa pouca agitao em guas profundas, mas que, quando
chega ao raso, ergue-se no ar aterrorizando as pessoas, antes de tombar
sobre a terra com fora irresistvel- assim Iorek Byrnison ergueu-se
contra Iofur, explodindo para o alto em cima dos ps plantados na rocha
seca e dilacerando com um feroz movimento da mo esquerda o queixo
desprotegido de Iofur Raknison. Foi um golpe terrvel, que arrancou a
parte inferior da mandbula, a qual voou pelo ar espalhando respingos de
sangue pela neve a muitos metros de distncia. A lngua vermelha de
Iofur ficou pendurada sobre a garganta exposta. O urso-rei, de repente,
perdera os dentes, a voz, a luta. Iorek no precisava de mais nada;
avanando, enfiou os dentes na garganta de Iofur e sacudiu-se de um lado
para outro, erguendo #371 do solo o corpo enorme e batendo com ele no
cho como se Iofur fosse uma foca na beira d' gua. Ento fez fora para
cima, e a vida de Iofur Raknison esvaiu-se entre seus dentes. Havia
ainda um ritual a ser cumprido. Iorek abriu o peito desprotegido do rei
morto, arrancando a pele para expor as costelas estreitas, brancas e
vermelhas, como o arcabouo de um barco virado; enfiou a mo entre as
costelas, arrancou o corao de Iofur -vermelho, soltando vapor -e
comeu-o ali mesmo, na frente dos sditos de Iofur. Houve ento
aclamaes, alvoroo, pandemnio, os ursos avanando em massa para
homenagear o matador de Iofur. A voz de Iorek Byrnison ergueu-se acima
do clamor: -Ursos! Quem  o seu rei? E o brado retornou num rugido, como
se fosse todos os seixos do mundo, aoitados pelas ondas de uma
tempestade no mar. -Iorek Byrnison! Os ursos sabiam o que tinham a
fazer; cada enfeite, medalha e faixa foi jogado fora e pisoteado com
desprezo, para logo ser esquecido. Agora eram ursos de Iorek, ursos de
verdade, no semi-humanos inseguros, conscientes apenas de uma
torturante inferioridade. Correram para o Palcio e comearam a atirar
grandes blocos de mrmore do alto das torres, soltando as pedras das
amei as com suas mos poderosas e arremessando-as por cima dos rochedos
para o ancoradouro centenas de metros abaixo. Iorek ignorou-os e soltou
as placas da armadura para cuidar dos ferimentos; antes, porm, que
comeasse, Lyra estava a seu lado, batendo com os ps na neve vermelha e
gritando para os ursos pararem de destruir o Palcio, pois havia
prisioneiros l dentro. Eles no ouviram, mas Iorek sim, e quando ele
rugiu, eles pararam no mesmo instante. -Prisioneiros humanos? -ele quis
saber . #372 -, sim, que Iofur Raknison botou nas masmorras. Eles tm
que sair e se abrigar em algum lugar, seno vo morrer nas runas do
palcio... Iorek deu ordens rpidas e alguns ursos correram para dentro
do Palcio para soltar os prisioneiros. Lyra virou-se para Iorek. -Deixe
que eu cuido de voc, quero ter certeza de que no est muito ferido,
meu querido Iorek, ah, eu queria ter uns curativos ou coisa assim! Este
corte na barriga est horrvel.. . Um urso colocou no cho, aos ps de
Iorek, um bocado de massa verde rgida, congelada. -Musgo-de-sangue
-Iorek explicou. -Enfie isto dentro das feridas, Lyra. Cubra com apele e
ento segure um pouco de neve em cima at a massa congelar. Ele no
deixou que os ursos cuidassem dele, apesar da ansiedade deles; as mos
de Lyra eram hbeis, e ela estava desesperada para ajudar. Assim, a
garotinha inclinou-se sobre o grande urso-rei, enfiando o
musgo-de-sangue, puxando a pele por cima e congelando o ferimento at
parar de sangrar. Quando terminou, tinha as luvas empapadas de sangue de
Iorek, mas os ferimentos estavam tratados. E, a essa altura, os
prisioneiros tinham sado, num grupo de cerca de uma dzia de homens
tremendo e piscando muito. Lyra achou que no havia motivo para falar
com o Professor, pois ele estava louco; ela gostaria de saber quem eram
os outros homens, mas havia muitas coisas urgentes a fazer. E no queria
distrair Iorek, que dava ordens breves que enviavam ursos correndo para
todos os lados, mas ela estava preocupada com Roger, Lee Scoresby e as
bruxas, estava com fome e cansada... Achou que a melhor coisa a fazer
naquele momento era ficar fora do caminho. Assim, enrodilhou-se num
canto sossegado do campo de combate, com Pantalaimon como filhote de
lobo para aquec-la, e empilhou neve em cima de si como um urso faria; e
adormeceu. #373 Alguma coisa cutucou-lhe o p, e uma voz de urso
desconhecida disse: -Lyra da Lngua Mgica, o rei quer falar com voc.
Ela acordou quase congelada e no conseguiu abrir os olhos, pois as
plpebras tinham endurecido de frio; porm Pantalaimon lambeu-as para
derreter o gelo dos clios, e ela logo conseguiu ver  luz da lua o
jovem urso que havia falado. Tentou ficar de p, mas caiu por duas
vezes. O urso ofereceu: -Suba em mim. E agachou-se para oferecer as
costas largas; pendurada, quase caindo, ela conseguiu ficar montada
enquanto ele a levava para um vale profundo onde muitos ursos estavam
reunidos. E entre eles havia uma figurinha que correu para ela e cujo
daemon deu um salto para saudar Pantalaimon. -Roger! -ela gritou. -Iorek
Byrnison me fez ficar aqui fora na neve enquanto vinha buscar voc. Ns
camos do balo, Lyra! Depois que voc caiu, ns fomos carregados por
muitos e muitos quilmetros, e ento o Sr. Scoresby esvaziou mais um
pouco o balo e ns batemos numa montanha e camos por uma ladeira como
nunca se viu. No sei onde o Sr. Scoresby foi parar, nem as bruxas. S
eu e Iorek Byrnison. Ele veio direto para c, procurando voc. E aqui me
falaram do combate... Lyra olhou em volta. Sob a direo de um urso mais
velho, os prisioneiros humanos estavam construindo um abrigo de madeira
e retalhos de lona. Pareciam felizes em ter um trabalho a fazer. Um
deles batia numa pederneira para acender o fogo. -Temos comida -disse o
jovem urso que havia despertado Lyra. Uma foca recm-abatida estava
sobre a neve. O urso abriu-a com uma garra e mostrou a Lyra onde
encontrar os rins. Ela comeu um deles, cru: era quente, macio e mais
delicioso do que se poderia imaginar. #374 -Coma a gordura tambm -disse
o urso, arrancando um pedao para ela. Tinha sabor de creme temperado
com avels. Roger hesitou, mas seguiu o exemplo dela. Os dois comeram
gulosamente, e, em poucos minutos, Lyra estava inteiramente acordada e
comeando a sentir calor. Limpando a boca, ela olhou em volta, mas Iorek
Byrnison no estava  vista. -Iorek Byrnison est conversando com seus
conselheiros -informou o jovem urso. -Quer falar com voc depois que
voc tiver se alimentado. Siga-me. Ele os levou por cima de uma elevao
na neve at um lugar onde os ursos estavam comeando a construir uma
parede de blocos de gelo. Iorek estava sentado no centro de um grupo de
ursos mais velhos, e levantou-se para cumpriment-la. -Lyra da Lngua
Mgica, venha ouvir o que esto me dizendo -chamou. No explicou a
presena dela aos outros ursos, ou talvez eles j soubessem sobre ela;
mas deram-lhe um lugar e trataram-na com imensa cortesia, como se ela
fosse uma rainha. Ela sentiu um orgulho desmedido de sentar-se ao lado
de seu amigo Iorek Byrnison, sob a Aurora Boreal que cintilava
graciosamente no cu polar, e juntar-se  conversa dos ursos. O que
acontecia era que o domnio de Iofur Raknison sobre eles tinha sido como
um feitio; alguns culpavam a influncia da Sra. Coulter, que visitara
Iofur e lhe dera muitos presentes, antes at do exlio de Iorek, embora
este no soubesse disso. Um dos ursos contou: -Ela deu a Iofur Raknison
uma droga para dar a Hjalmur Hjalmurson para que ele ficasse louco. Lyra
calculou que Hjalmur Hjalmurson era o urso que Iorek tinha matado e por
causa disto sido exilado. Ento a Sra. Coulter estava por trs daquilo
tambm! E havia mais: -Existem leis humanas proibindo certas coisas que
ela planejava fazer, mas as leis humanas no vigoram em Svalbard. #375
Ela queria montar aqui outra estao como Bolvangar, s que pior, e
Iofur ia permitir isso, contra todos os costumes dos ursos; pois j
tivemos humanos nos visitando, ou prisioneiros, mas nunca morando ou
trabalhando aqui. Aos poucos, ela ia aumentar seu poder sobre Iofur
Raknison e o dele sobre ns, at virarmos escravos dela, fazendo tudo
que ela ordenasse, e nosso nico dever ia ser tomar conta da abominao
que ela ia criar... Quem falava era um urso velho. Seu nome era Soren
Eisarson, e ele era um conselheiro que tinha sofrido muito sob as ordens
de Iofur Raknison. -Que  que ela est fazendo agora, Lyra? -Iorek
Byrnison perguntou. -Quando souber da morte de Iofur, quais sero os
planos dela? Lyra pegou o aletmetro. Estava escuro demais para
enxergar, e Iorek pediu que trouxessem luz. -Que foi que aconteceu com o
Sr. Scoresby e as bruxas? -Lyra perguntou, enquanto esperavam. -As
bruxas foram atacadas por bruxas de outro cl. No sei se eram aliadas
dos mutiladores de crianas, mas estavam patrulhando nossos cus em
grande nmero e atacaram durante a tempestade. No vi o que aconteceu a
Serafina Pekkala. Quanto a Lee Scoresby, o balo tornou a subir depois
que eu ca com o menino, e ele foi dentro. Mas o seu leitor de smbolos
vai lhe contar o destino deles. Um urso chegou puxando um tren no qual
havia um tabuleiro cheio de carvo em brasa, e jogou um galho resinoso
dentro dele. O galho pegou fogo no mesmo instante, e nesta luz Lyra
girou os ponteiros do aletmetro e perguntou sobre Lee Scoresby. Pela
resposta, ele ainda estava no ar, levado pelos ventos em direo a Nova
Zembla, escapara ileso dos avantesmas-dos-penhascos e tinha lutado
contra as bruxas do outro cl. Lyra contou a Iorek, que assentiu,
satisfeito. #376 -Se est no ar, est em segurana -disse. -E quanto 
Sra. Coulter? A resposta foi complicada, com o ponteiro indo de um
smbolo a outro numa seqncia que deixou Lyra pensando durante muito
tempo. Os ursos estavam curiosos, mas reprimidos pelo respeito por Iorek
Byrnison e o dele por Lyra, enquanto ela os esquecia e mergulhava no
transe aletomtrico. A mensagem dos smbolos era desalentadora. -Est
dizendo que ela... Ela soube que estvamos voando para c e conseguiu um
zepelim de transporte armado com metralhadoras, acho que  isto, e est
voando para Svalbard agora mesmo. Ela ainda no sabe que Iofur Raknison
foi derrotado,  claro, mas logo saber, porque... Ah, sim, porque
algumas bruxas vo ficar sabendo pelos avantesmas-dos-penhascos e vo
contar a ela. De modo que acho que h espies no ar por toda parte,
Iorek. Ela vinha para... para fingir ajudar Iofur Raknison, mas, na
verdade, ia tomar o poder dele com um exrcito de trtaros que est
vindo por mar, eles chegaro em poucos dias. Ela fez uma pausa mas logo
prosseguiu: -E assim que puder ela vai at onde Lorde Asriel est preso
e vai mandar matar ele. Porque... Agora est ficando claro: uma coisa
que eu nunca tinha entendido, Iorek!  por isso que ela quer matar Lorde
Asriel: porque ela sabe o que ele vai fazer e tem medo, quer fazer ela
mesma e obter o controle antes dele... Deve ser sobre a cidade no cu,
s pode ser! Ela est tentando chegar l primeiro! E agora ele est
dizendo outra coisa... Ela inclinou-se sobre o instrumento,
concentrando-se furiosamente enquanto o ponteiro ia de um lado para
outro. Ele movia-se quase que depressa demais para a vista: Roger,
olhando por cima do ombro dela; nem conseguia ver o ponteiro parar, e s
percebia um dilogo rpido entre os dedos de Lyra movendo os ponteiros
menores e o ponteiro grande respondendo, uma linguagem to
extraordinria quanto a prpria Aurora Boreal. #377 Finalmente ela
pousou o instrumento no colo e, pestanejando e suspirando, saiu da
profunda concentrao. -Sim, entendo o que ele est dizendo -afirmou.
-Ela est de novo atrs de mim. Quer alguma coisa que eu tenho, porque
Lorde Asriel tambm quer. Precisam disso para esse... Para essa
experincia, seja l o que for... Ela se interrompeu para respirar
profundamente. Alguma coisa a incomodava, e ela no sabia o que era.
Tinha certeza de que aquela coisa to importante era o prprio
aletmetro, porque, afinal de contas, a Sra. Coulter tentara ficar com
ele, e que mais poderia ser? Porm, no era isso, pois o aletmetro
tinha outra maneira de se referir a si mesmo. -Imagino que seja o
aletmetro -disse, em tom de tristeza. -Foi o que eu pensei o tempo
todo. Tenho que entregar ele a Lorde Asriel antes que ela aparea. Se
ela pegar o aletmetro, todos ns morreremos. Ao dizer isto, ela se
sentiu to cansada, to exausta e triste, que morrer teria sido um
alvio. Mas o exemplo de Iorek Byrnison impedia que ela admitisse isto.
Guardou o aletmetro e sentou-se de costas retas. -A que distncia ela
est? -Iorek perguntou. -A poucas horas. Acho que  melhor levar o
aletmetro para Lorde Asriel o mais depressa possvel. -Vou com voc
-decidiu Iorek. Ela no discutiu. Enquanto Iorek dava ordens e
organizava um grupo armado para acompanh-los na parte final da viagem
para o norte, Lyra ficou imvel, poupando sua energia; sentia que
durante a ltima leitura alguma coisa se perdera nela. Fechou os olhos e
dormiu; mais tarde eles a acordaram, e puseram-se a caminho. #378 21 AS
BOAS-VINDAS DE LORDE ASRIEL LYRA cavalgava um urso jovem e forte, e
Roger viajava montado em outro, ao passo que Iorek caminhava
incansavelmente  frente; atrs deles ia um grupo armado com um lanador
de fogo, defendendo a retaguarda. O caminho era longo e difcil: o
interior de Svalbard, montanhoso, com picos irregulares e desfiladeiros
profundos cortados por ravinas e vales de paredes ngremes; e o frio,
intenso. Lyra recordou os trens velozes e macios dos gpcios a caminho
de Bolvangar; como aquela viagem parecia agora rpida e confortvel! O
ar aqui era o mais penetrante e frio que ela j conhecera; ou podia ser
que o urso que ela montava no fosse to gil quanto Iorek Byrnison; ou
talvez ela estivesse cansada at a alma. De qualquer maneira, foi uma
viagem desesperadamente dura. Ela pouco sabia sobre para onde estavam
indo, ou a que distncia ficava; tudo que sabia era o que o urso ancio
Soren Eisarson lhe contara enquanto preparavam o lanador de fogo. Ele
participara das negociaes a respeito das condies do encarceramento
de Lorde Asriel e se lembrava muito bem. #379 Ele disse que, no incio,
os ursos de Svalbard consideravam Lorde Asriel igual a qualquer dos
outros polticos, reis ou baderneiros que tinham sido exilados para
aquela ilha distante. Os prisioneiros eram importantes, seno teriam
sido mortos por seu prprio povo; podiam ser valiosos para os ursos um
dia, se seus destinos polticos mudassem e eles voltassem a governar
suas terras; portanto, podia valer a pena no trat-los com crueldade ou
desrespeito. De modo que Lorde Asriel tinha achado as condies em
Svalbard nem melhores, nem piores do que as de centenas de outros
exilados antes dele. Mas certas coisas faziam seus carcereiros terem
mais medo dele do que dos outros prisioneiros; havia um ar de mistrio e
de perigo espiritual que envolvia qualquer coisa relacionada ao P; eles
tinham visto o pnico evidente daqueles que haviam levado Lorde Asriel
at l; e havia as comunicaes particulares entre a Sra. Coulter e
Iofur Raknison. Alm disso, os ursos nunca tinham visto algum com a
natureza orgulhosa e autoritria de Lorde Asriel. Ele dominava at mesmo
Iofur Raknison, discutindo com firmeza e eloqncia, e convenceu o
urso-rei a permitir que ele prprio escolhesse o lugar onde ia morar. O
primeiro que lhe deram era baixo demais; ele disse que precisava de um
lugar no alto, acima da fumaa e da poluio das minas de fogo e dos
ferreiros. Deu aos ursos uma planta do alojamento que desejava e lhes
disse onde devia ser construdo; ele os subornou com ouro e lisonjeou e
intimidou Iofur Raknison; de boa vontade, achando graa, os ursos
puseram-se a trabalhar .Em pouco tempo, uma casa foi construda numa
ponta de terra virada para o norte: uma construo ampla e slida, com
lareiras que queimavam grandes blocos de carvo retirados da terra e
carregados por ursos, e com grandes janelas de vidro de verdade. Ali ele
vivia, um prisioneiro agindo como um rei. #380 E ento dedicou-se a
reunir o material para um laboratrio. Com furiosa concentrao, mandou
buscar livros, instrumentos, agentes qumicos, todo tipo de ferramentas
e aparelhos. E de um jeito ou de outro, recebeu tudo que pedira- uma
parte abertamente, outra contrabandeada pelos visitantes que ele
insistia ter direito de receber. Por terra, mar e ar, Lorde Asriel
reuniu seu material, e aos seis meses de priso j possua todo o
equipamento que queria. E ento comeou a trabalhar, pensando,
planejando e calculando, esperando a nica coisa que precisava para
completar o trabalho que tanto assustava o Conselho de Oblao. E essa
coisa estava cada vez mais prxima. A primeira viso que Lyra teve da
priso de seu pai veio quando Iorek Byrnison fez alto no sop de um
rochedo para que as crianas esticassem as pernas, que estavam ficando
perigosamente frias e rgidas. -Olhe l para cima -ele disse. Um aclive
coberto de rochas e gelo de uma antiga avalanche, onde uma trilha tinha
sido trabalhosamente aberta, levava ao topo de um penhasco destacado em
silhueta contra o cu. No havia Aurora, mas as estrelas brilhavam. O
penhasco mostrava-se negro e hostil, mas no topo via-se um prdio
espaoso, de onde jorrava luz em todas as direes -no o brilho
enfumaado e inconstante das lamparinas a gordura de peixe, nem a luz
branca e chocante dos holofotes anbricos, mas a luz clida da nafta. As
janelas de onde a luz emergia tambm mostravam o formidvel poder de
Lorde Asriel. O vidro era um material caro, que em grandes extenses
ajudava a manter o calor nessas regies inspitas; assim, esse material
evidenciava dinheiro e influncia, muito mais do que o palcio vulgar de
Iofur Raknison. #381 Montaram nos ursos pela ltima vez, e Iorek
guiou-os encosta acima at a casa. Havia um ptio coberto de neve,
rodeado por um muro baixo; quando Iorek empurrou o porto, ouviu-se uma
campainha tocar em algum lugar dentro da casa. Lyra desceu do urso. Mal
conseguia ficar de p. Ajudou Roger a desmontar tambm e, um apoiando o
outro, os dois rumaram para a porta, atravessando a neve que chegava at
seus quadris. Ah, como l dentro devia estar quentinho! Ah, como ia ser
bom descansar em paz! Ela estendeu a mo para acorda da sineta, mas a
porta se abriu antes que pudesse peg-la. Havia um pequeno vestbulo mal
iluminado, que servia para manter o ar quente dentro de casa, e parado
sob a lamparina estava uma pessoa que ela reconheceu: Thorold, o criado
de Lorde Asriel, com seu daemon-pinscher Anfang. Com um gesto cansado,
Lyra empurrou o capuz para trs. -Quem... -Thorold comeou, mas logo a
reconheceu, e continuou: -No  Lyra? A pequena Lyra? Estou sonhando?
Ele estendeu a mo para trs para abrir a porta interna. Um salo com um
fogo de carvo ardendo numa plataforma de pedra, a clida luz de nafta
brilhando nos tapetes, nas poltronas de couro, na madeira encerada...
Lyra no via isto desde que deixara a Faculdade Jordan, e sentiu a
garganta apertada. A pantera branca, daemon de Lorde Asriel, rosnou. Ali
estava o pai de Lyra, seu rosto moreno e forte, a princpio intenso,
triunfante e ansioso. E ento a cor desapareceu; ele arregalou os olhos,
horrorizado, ao reconhecer a filha. -No! No! Cambaleou para trs e
agarrou-se  prateleira sobre a lareira. Lyra no conseguia se mover.
-Saia! -Lorde Asriel gritou. -D meia-volta e saia, v embora! No
mandei busc-la! #382 Ela no conseguia falar. Por duas vezes abriu a
boca e ento conseguiu dizer: -No, no, eu vim porque... Ele parecia
apavorado; no parava de sacudir a cabea e ergueu as mos como se para
afast-la. Ela no conseguia acreditar naquilo. Deu um passo  frente
para tranqiliz-lo, e Roger veio ficar ao seu lado, ansioso. Os seus
daemons saram voejando, e um momento depois Lorde Asriel passou a mo
pela testa e controlou-se um pouco. A cor comeou a voltar ao seu rosto
enquanto ele contemplava as duas crianas. -Lyra -disse. - mesmo Lyra?
-Sou, sim, tio Asriel -ela respondeu, achando que aquele no era o
momento para falar de seu verdadeiro parentesco. -Vim lhe trazer o
aletmetro, da parte do Reitor da Jordan. -Ah, sim, naturalmente- fez
ele. -Quem  este a? - Roger Parslow -ela explicou. - ajudante na
Cozinha da Faculdade Jordan. Mas... -Como foi que chegou aqui? -Eu
estava contando, Iorek Byrnison est l fora, ele nos trouxe aqui. Veio
comigo desde Trollesund, e ns enganamos Iofur... -Quem  Iorek
Byrnison? -Um urso de armadura. Ele nos trouxe aqui. -Thorold! -ele
chamou. -Prepare um banho para esses dois e alguma comida. Depois eles
vo precisar dormir. As roupas deles esto imundas; arranje alguma coisa
para eles usarem. Faa isso agora, enquanto eu converso com esse urso.
Lyra sentiu a cabea rodar. Talvez fosse o calor, talvez alvio. Ela
observou o criado fazer uma mesura e sair do salo, e Lorde Asriel sair
para o vestbulo e fechar a porta atrs de si, e ento ela se deixou
cair na poltrona mais prxima. #383 Parecia que, no instante seguinte,
Thorold estava falando com ela. -Venha comigo, senhorita. Ela forou-se
a levantar e foi com Roger para um banheiro aquecido, onde toalhas
macias estavam penduradas num varal aquecido e uma banheira de gua
quente soltava vapor  luz de nafta. -V voc primeiro -disse Lyra. -Vou
me sentar l fora para conversarmos. Ento Roger, fazendo careta por
causa da gua quente, entrou na banheira e tomou banho. Eles tinham
nadado sem roupa muitas vezes, brincando no sis ou no Cherwell com
outras crianas, mas agora era diferente. -Estou com medo do seu tio
-disse Roger atravs da porta aberta. -Quer dizer, do seu pai. - melhor
continuar chamando ele de meu tio. Eu tambm tenho medo dele, s vezes.
-Quando a gente entrou, ele no me viu. S viu voc. E ficou apavorado,
at me ver. Ento se acalmou de repente. -Ele ficou chocado, s isso
-disse Lyra. -Qualquer pessoa ficaria, vendo algum que no esperava
ver. A ltima vez que ele me viu foi depois daquele caso da Sala
Privativa. Deve ter sido mesmo um choque. -No, foi mais que isso -Roger
insistiu. -Ele estava olhando para mim como um lobo ou coisa assim.
-Voc est imaginando coisas. -No estou. Tenho mais medo dele do que
tinha da Sra. Coulter, a verdade  esta. Enquanto ele jogava gua em
cima do corpo, Lyra pegou o aletmetro. -Quer que eu pergunte ao leitor
de smbolos sobre isso? -perguntou. #384 -Bom, sei l. Algumas coisas eu
prefiro no saber. Parece que tudo que ouvi depois que os Papes
chegaram em Oxford, tudo foi ruim. Tudo no futuro depois de cinco
minutos tem sido ruim. Como agora, este banho est gostoso, e no futuro
daqui a cinco minutos vai ter uma toalha quentinha. E enquanto eu me
enxugo, vou pensar numa comida gostosa cinco minutos depois, mas s vou
at a. Depois de comer, talvez dentro de cinco minutos eu possa estar
dormindo numa cama confortvel. Mas Ir depois disso, no sei, Lyra. Ns
vimos coisas horrveis, no foi? E ainda vem mais, com certeza. Ento
acho melhor no saber o que est no futuro. Prefiro o presente. -Est
certo. As vezes sinto isso tambm -disse ela em tom cansado. Assim,
embora ficasse com o aletmetro na mo por mais algum tempo, era apenas
como um amuleto; no mexeu nos ponteiros e no percebeu que o ponteiro
grande se mexia. Pantalaimon observava em silncio. Depois que ambos
tomaram banho e comeram po com queijo, bebendo vinho com gua quente, o
criado Thorold disse: -O menino deve ir para a cama. Vou-lhe mostrar o
caminho. Srta. Lyra, Lorde Asriel pede que v ao encontro dele na
Biblioteca. Lyra encontrou Lorde Asriel num aposento com janelas largas
que davam para o mar congelado bem abaixo deles. Havia um fogo de carvo
numa ampla lareira e uma lamparina a nafta com a chama bem baixa, de
modo que havia poucos obstculos entre os ocupantes da sala e a paisagem
escura e estrelada l fora. Lorde Asriel, reclinado numa grande poltrona
a um lado da lareira, indicou que ela ocupasse a outra poltrona, de
frente para ele. -Seu amigo Iorek Byrnison est descansando l fora -
informou. -Ele prefere o frio. -Ele lhe contou a luta com Iofur
Raknison? #385 -No com detalhes. Mas entendi que agora ele  o rei de
Svalbard. Isso  verdade? -Claro que . Iorek nunca mente. -Parece que
ele se nomeou seu guardio... -No. John Faa disse a ele para tomar
conta de mim, e ele est obedecendo. Est seguindo as ordens de John
Faa. -Como  que John Faa entrou nesta histria? -Eu lhe conto se o
senhor me contar uma coisa -ela props. -O senhor  meu pai, no ?
-Sou. E da? -Da que devia ter me contado antes. No devia esconder
esse tipo de coisa das pessoas, porque elas se sentem idiotas quando
descobrem, e isso  crueldade. Que diferena faria se eu soubesse que
era sua filha? O senhor podia ter me contado h muitos anos. Podia ter
me contado e pedido para eu guardar segredo, e eu guardaria, pois mesmo
sendo muito criana, eu teria feito isso se o senhor me pedisse. Eu
teria tanto orgulho que nada arrancaria isso de mim, se o senhor me
pedisse para guardar segredo. Mas o senhor no. Contou a outras pessoas,
mas no a mim. -Quem lhe contou? -John Faa. -Ele falou da sua me?
-Falou, sim. -Ento no resta muita coisa para eu contar. Acho que no
quero ser interrogado e condenado por uma garota insolente. Quero saber
o que voc viu e fez na sua viagem para c. -Eu lhe trouxe o maldito
aletmetro, no trouxe? -Lyra explodiu. Estava quase chorando. -Cuidei
dele desde que sa da Jordan, escondi bem escondido e me preocupei,
passando por tudo que nos aconteceu. E aprendi como  que se usa e
carreguei ele por todo o maldito caminho, quando podia simplesmente
entregar ele e ficar em segurana, e o senhor nem diz obrigado, nem
mostra qualquer sinal de estar feliz em me ver. No sei por #386 que
resolvi fazer isso. Mas fiz, persisti, mesmo no palcio fedorento de
Iofur Raknison, com todos aqueles ursos me cercando, eu persisti,
sozinha, e enganei ele, fazendo-o lutar com Iorek para que eu pudesse
vir at aqui por sua causa... E quando o senhor me viu, quase desmaiou,
como se eu fosse alguma coisa horrvel que o senhor nunca mais queria
ver. O senhor no  humano, Lorde Asriel. No  meu pai. Meu pai no me
trataria assim. Os pais amam as filhas, no amam? O senhor no me ama, e
eu no amo o senhor, e pronto. Eu amo Farder Coram, amo Iorek Byrnison.
Amo um urso de armadura mais do que amo o meu pai. E aposto que Iorek
Byrnison me ama mais que o senhor. -Voc mesma me disse que ele est s
obedecendo ordens de John Faa. Se vai ficar sentimental, no vou perder
meu tempo conversando com voc. -Ento pegue o seu maldito aletmetro, e
eu vou voltar com Iorek. -Para onde? -Para o palcio. Ele pode lutar
contra a Sra. Coulter e o Conselho de Oblao quando eles aparecerem. Se
ele perder, eu tambm vou morrer, mas no me importo. Se ele vencer,
vamos mandar buscar Lee Scoresby, e eu vou embarcar no balo dele e...
-Quem  Lee Scoresby? -Um aerstata. Ele nos trouxe aqui e ento camos.
Pronto, aqui est o aletmetro. Est em perfeito estado. Ele no fez
meno de pegar o instrumento, de modo que ela o colocou na grade de
bronze que rodeava a frente da lareira. -Bom, acho que  minha obrigo
dizer que a Sra. Coulter est a caminho de Svalbard e assim que souber o
que aconteceu a Iofur Raknison ela vir para c. Num zepelim, com muitos
soldados, e vo matar ns todos por ordem do Magisterium. -No vo nos
alcanar- ele disse calmamente. Estava to calmo e relaxado que parte da
raiva dela se desfez. #387 -o senhor no tem como saber -ela disse,
hesitante. -Mas sei. -Ento tem outro aletmetro? -No preciso de um
aletmetro para isso. Agora quero saber da sua viagem para c, Lyra.
Comece do princpio. Conte-me tudo. Ela assim fez. Comeou na noite em
que se escondeu na Sala Privativa, depois falou no sequestro de Roger
pelos Papes e o tempo que passou com a Sra. Coulter, e tudo que tinha
acontecido. Era uma longa histria, e quando terminou, ela disse: -S
tem uma coisa que eu quero saber, e acho que tenho esse direito, como
tinha o direito de saber quem eu sou de verdade. E como no me contou
aquilo, vai me contar isso como recompensa. Pronto: o que  P? E por
que todo mundo tem tanto medo dele? Ele a encarou como se quisesse
adivinhar se ela compreenderia o que ele estava prestes a dizer. Lyra
pensou: ele nunca havia olhado seriamente para ela; at ento tinha sido
sempre como um adulto observando as gracinhas de uma criana. Mas parece
que ele achou que ela estava pronta. -P  o que faz o aletmetro
funcionar -disse. -Ah... Achei que fosse mesmo! Que mais? Como foi que
descobriram isso? -De certo modo, a Igreja sempre soube. Durante
sculos, eles vm fazendo sermes sobre P, s que no usam este nome.
Mas, h alguns anos, um moscovita chamado Boris Mikhailovitch Rusakov
descobriu um novo tipo de partcula elementar. Voc j ouviu falar em
eltrons, ftons, neutrinos e o resto? Receberam o nome de partculas
elementares porque no podem ser divididas: no h nada dentro delas
alm delas mesmas. Bem, esse novo tipo de partcula era realmente
elementar, mas era muito difcil de ser medida porque no reagia de modo
normal. #388 A coisa mais difcil para Rusakov foi entender por que a
nova partcula parecia juntar-se onde havia seres humanos, como se fosse
atrada por ns. E especialmente por adultos. Pelas crianas tambm, mas
no tanto, at seus daemons fixarem sua forma. Durante os anos de
puberdade, elas comeam a atrair P com mais fora, e ele pousa nelas
como pousa nos adultos. Ele parou para respirar, mas logo prosseguiu:
-Ora, todas as descobertas desse tipo, por terem influncia nas
doutrinas da Igreja, tm que ser anunciadas atravs do Magisterium em
Gnova. E essa descoberta de Rusakov era to improvvel e estranha que o
Inspetor do Tribunal Consistorial de Disciplina suspeitou que Rusakov
estivesse possudo pelo diabo. Fizeram um exorcismo no laboratrio e
interrogaram Rusakov segundo as regras da Inquisio, mas afinal tiveram
que aceitar o fato de que Rusakov no estava mentindo ou tentando
engan-los: o P realmente existia. Assim surgiu o problema de decidir o
que era isso. E devido  natureza da Igreja s poderiam ter escolhido
uma coisa: o Magisterium decidiu que o P era a evidncia fsica do
pecado original. Sabe o que  pecado original? Ela torceu os lbios. Era
como estar de volta  Jordan, sendo sabatinada sobre alguma coisa que
mal lhe tinham ensinado. -Mais ou menos -respondeu. -No sabe, no. V
at a prateleira atrs da escrivaninha e me traga a Bblia. Lyra assim
fez e entregou ao pai o grande livro de capa preta. -Lembra-se da
histria de Ado e Eva? -Claro. Ela no devia comer o fruto, mas foi
tentada pela serpente e comeu. -Que foi que aconteceu ento? -Hum...
Eles foram expulsos. Deus expulsou os dois do paraso. -Deus tinha dito
para eles no comerem o fruto, seno eles iam morrer. Lembre-se, eles
estavam nus no paraso, eram #389 como crianas, seus daemons tinham a
forma que desejassem ter. Mas oua o que aconteceu. Ele procurou o
Captulo Terceiro do Gnesis e leu: "E a mulher disse  serpente: 'Ns
comemos do fruto das rvores que esto no paraso. Mas do fruto da
rvore que est no meio do paraso Deus mandou que no o comssemos, e
nem o tocssemos, para que no suceda que morramos.' " Porm a serpente
disse  mulher: 'Vs de nenhum modo morrereis. Pois Deus sabe que, em
qualquer dia que comerdes dele, abrir-se-o os vossos olhos, e vossos
daemons assumiro suas formas verdadeiras, e sereis como deuses,
conhecendo o bem e o mal' " Viu, pois, a mulher que (o fruto da) rvore
era bom para comer, e formoso aos olhos, e uma rvore desejvel para
revelar a forma verdadeira do daemon de algum; e tirou do fruto dela, e
comeu; e deu a seu marido, que tambm comeu. " E os olhos de ambos se
abriram, e eles viram a forma verdadeira de seus daemons, e falaram com
eles. " Mas quando o homem e a mulher conheceram seus prprios daemons,
viram que uma grande transformao neles se efetuara, pois at aquele
momento parecia que eles eram como todas as criaturas da terra e do cu,
e no havia diferena entre eles. " E eles enxergaram a diferena, e
conheceram o bem e o mal; e envergonharam-se, E coseram folhas de
figueira para cobrir sua nudez..." Ele fechou o livro. -E foi assim que
o pecado chegou ao mundo -disse. - O pecado, a vergonha e a morte. Ele
surgiu no momento em que os daemons de Ado e Eva se tornaram imutveis.
#390 -Mas... -Lyra lutou para encontrar as palavras que queria. -Mas
isso no  verdade, ? No  como qumica ou engenharia, no  esse tipo
de verdade, ? Ado e Eva nunca existiram, no ? O Catedrtico de
cassington me disse que era s uma espcie de conto de fadas. -A ctedra
de cassington tradicionalmente  dada a um livre-pensador; a funo dele
 desafiar a f dos Catedrticos. Naturalmente ele tinha que dizer isso.
Mas pense em Ado e Eva como um nmero imaginrio, como a raiz quadrada
de menos um: agente nunca v uma prova concreta de que ele existe, mas
quando inclumos esse nmero nas nossas equaes, podemos calcular todo
tipo de coisa que seria impossvel imaginar sem ele. De qualquer
maneira, essa histria  o que a Igreja vem ensinando h milhares de
anos. E quando Rusakov descobriu o P, finalmente havia uma prova fsica
de que alguma coisa acontecia quando a inocncia se transformava em
experincia. Alis, a Bblia nos deu tambm o nome "P"; no princpio
chamava-se Partculas de Rusakov, mas logo algum observou um curioso
versculo no final do Captulo Terceiro do Gnesis, quando Deus
amaldioa Ado por ter comido o fruto. Ele tornou a abrir a Bblia e
mostrou a Lyra. Ela leu: "Comers o po com o suor do teu rosto at que
voltes  terra, de que foste tomado: porque tu s p, e em p te hs de
tornar... " Lorde Asriel continuou: -Os estudiosos da Igreja sempre
ficaram confusos com a traduo deste versculo. Alguns dizem que no
deveria ser "ao p retornars" mas sim "sers sujeito ao p", e outros
dizem que o versculo inteiro  uma espcie de trocadilho com as
palavras "terra" e "p" e que ele significa na verdade que Deus est
admitindo que sua prpria natureza  parcialmente pecaminosa. No h um
#391 consenso; no se consegue chegar a uma concluso, porque esse texto
foi modificado. Mas a palavra servia bem demais, e  por isso que as
partculas ficaram conhecidas como P. -E quanto aos Papes? -Lyra quis
saber. -O Conselho Geral de Oblao.. .A quadrilha da sua me. Foi muita
esperteza dela identificar a oportunidade de formar sua prpria base de
poder, mas ela  uma mulher esperta, como voc j deve ter percebido. 
vantajoso para o Magisterium permitir que floresa todo tipo de
diferentes organizaes. Podem jogar umas contra as outras; se uma der
certo, podem fingir que a apoiaram o tempo todo, e se ela fracassar,
eles podem fingir que era uma organizao clandestina que nunca foi
licenciada. Sabe, sua me sempre ambicionou o poder. No princpio,
tentou conseguir poder pela maneira normal, atravs do casamento, mas
isto no funcionou, como voc deve ter ouvido contar. De modo que ela
teve que recorrer  Igreja. Naturalmente ela no podia seguir o caminho
que um homem seguiria, ser padre e subir na hierarquia da Igreja, de
modo que teve que fazer uma coisa alternativa: teve que criar sua
prpria ordem, seus prprios canais de influncia, e trabalhar com isso.
Foi uma boa jogada especializar-se no P. Todo mundo tinha medo dele,
ningum sabia o que fazer; e quando ela se ofereceu para dirigir uma
investigao, o Magisterium ficou to aliviado que eles a apoiaram com
dinheiro e recursos de todo tipo. -Mas eles estavam cortando... -Lyra
no conseguiu dizer o resto; as palavras ficaram bloqueadas em sua
garganta. - O senhor sabe o que estavam fazendo! Por que a Igreja deixou
que fizessem uma coisa como essa? -Havia um precedente. J ocorrera uma
coisa parecida. Sabe o que significa a palavra "castrao"? Significa
remover os rgos sexuais de um menino para que ele nunca desenvolva as
caractersticas de um homem. Um castrato tem a voz fina pelo resto da
vida, e  por isto que a Igreja permitia isso: era til nos #392 coros
da Igreja. Alguns castrati tornaram-se grandes cantores, artistas
maravilhosos. Muitos tornaram-se apenas meio-homens, balofos e
temperamentais. Alguns morreram por causa da operao. Mas a Igreja no
se importou com a idia de um pequeno corte, entende? Havia um
precedente. E isso seria muito mais higinico do que os mtodos antigos,
quando no existia anestesia nem curativos esterilizados. Agora a
operao seria muito mais suave. -No , no! -Lyra exclamou com
ferocidade. -No  no! -No. Claro que no.  por isso que tiveram que
se esconder no Extremo Norte, na distncia e na escurido. E por isso a
Igreja ficou to contente em ter algum como a sua me tomando conta.
Quem iria duvidar de uma mulher to encantadora, to bem-relacionada,
to simptica e educada? Mas por se tratar de uma operao obscura e
clandestina, ela era algum que o Magisterium poderia negar conhecer, se
fosse necessrio. -Mas de quem foi a idia de fazer esse corte ? -Foi
dela. Ela adivinhou que as duas coisas que acontecem na adolescncia
poderiam estar ligadas: a mudana no daemon e o fato de que o P comea
a pousar. Talvez, se o daemon fosse separado do corpo, pudssemos no
ser sujeitos ao P, ao pecado original. A questo era se seria possvel
separar o daemon do corpo sem matar a pessoa. Mas ela viajou por muitos
lugares eviu muitas coisas. Viajou pela frica, por exemplo. Os
africanos conseguem criar um escravo chamado zumbi. Ele no tem vontade
prpria; trabalha dia e noi te sem fugir e sem reclamar. Parece um
cadver. .. - uma pessoa sem seu daemon! -Exatamente. Assim, ela
descobriu que era possvel separar os dois. -E... Tony Costa me contou
sobre os fantasmas horrveis que existem nas florestas do Norte. Imagino
que devem ser o mesmo tipo de coisa. #393 -Isso mesmo. De qualquer
maneira, o Conselho Geral de Oblao cresceu por causa de idias como
esta e da obsesso da Igreja com o pecado original. O daemon de Lorde
Asriel vibrou as orelhas, e ele pousou a mo na bela cabea do animal.
-Mais uma coisa acontecia quando faziam o corte, porm eles no
perceberam -ele continuou. -A energia que liga o corpo ao daemon 
imensamente poderosa; quando o corte  feito, toda essa energia se
dissipa numa frao de segundo. Eles no perceberam, pois confundiram
com choque, ou trauma, ou raiva, e treinaram-se para no sentir aquilo.
De modo que deixaram de ver o que essa energia podia fazer e nunca
pensaram em aproveit-la... Lyra no conseguia ficar quieta;
levantou-se, caminhou at a janela e ficou contemplando a escurido.
Eles eram cruis demais! Por mais que fosse importante descobrir sobre o
pecado original, era crueldade demais o que tinham feito a Tony Makarios
e todos os outros. Nada justificava isso. -E o que o senhor estava
fazendo? -ela perguntou. - Tambm cortou algum? -Estou interessado em
coisa completamente diferente. Acho que o Conselho de Oblao no avana
o suficiente; eu quero ir  prpria fonte do P. -A fonte? De onde ele
vem, ento? -Do outro universo que conseguimos ver atravs da Aurora
Boreal. Lyra virou-se outra vez para a sala. Seu pai estava recostado na
poltrona, relaxado e poderoso, os olhos to ferozes quanto os de seu
daemon. Ela no o amava, no conseguia confiar nele, mas no podia
deixar de admir-lo, admirar o luxo extravagante que ele reunira naquela
imensido desolada, admirar o poder da ambio dele. -O que  esse outro
universo? -perguntou. -Um dos incontveis bilhes de mundos paralelos.
As bruxas sabem sobre eles h sculos, mas os primeiros telogos a #394
provarem matematicamente a existncia deles foram excomungados, h uns
70 anos ou mais. No entanto,  verdade; no h como negar. Mas ningum
pensava que um dia seria possvel atravessar de um universo para outro.
Isso violaria leis fundamentais, ns achvamos. Bem, estvamos errados.
Aprendemos a enxergar o mundo l em cima; ora, se a luz consegue
atravessar, ns tambm conseguimos. E tivemos que aprender a enxergar
esse outro mundo, Lyra, assim como voc aprendeu a usar o aletmetro.
Ora, esse mundo e todos os outros universos surgiram como resultado da
possibilidade. Veja o exemplo de jogar uma moeda para o alto: pode cair
cara ou coroa, e antes que ela caia no sabemos como vai cair. Se cair
cara, isto significa que a possibilidade de cair coroa est destruda,
mas at aquele momento as duas possibilidades eram iguais. Ele silenciou
por um instante. -Mas em outro mundo ela cai coroa -prosseguiu. -E
quando isso acontece, os dois mundos se separam. Estou usando o exemplo
de uma moeda para tornar a coisa mais clara. Na verdade, essas
destruies de possibilidade acontecem do mesmo modo no nvel das
partculas elementares: em dado momento, vrias coisas so possveis; no
momento seguinte, apenas uma acontece e o resto no existe. Porm
surgiram outros mundos, onde elas acontecem. E eu pretendo ir a esse
mundo por trs da Aurora Boreal, porque acho que  de l que vem o P do
nosso universo. Voc viu aqueles slides que mostrei aos Catedrticos na
Sala Privativa; viu o P jorrando neste mundo, vindo da Aurora Boreal.
Voc mesma viu aquela cidade. Se a luz pode atravessar  a barreira entre
os universos, se o P pode, se ns conseguimos ver aquela cidade, ento
podemos construir uma ponte e atravessar.  preciso uma descarga de
energia fenomenal, mas tenho como fazer isso. Em algum lugar est a
origem de todo o P, toda morte, pecado, misria, destruio no mundo!
Os seres humanos no conseguem ver qualquer coisa sem querer destru-la,
Lyra. #395 Este  que  o pecado original. E eu vou acabar com ele. A
morte vai morrer. -Foi por isso que prenderam o senhor aqui? -. Esto
apavorados. E com razo. Ele ficou de p, imitado pelo seu prprio
daemon - orgulhoso, lindo e letal. Lyra ficou imvel. Tinha medo do pai,
admirava-o profundamente e achava que ele estava inteiramente louco, mas
quem era ela para julgar? -V para a cama -ele ordenou. -Thorold vai lhe
mostrar onde dormir. Ele virou-se para sair . -O senhor est esquecendo
o aletmetro -ela avisou. -Ah, . Na verdade, no preciso mais dele. De
qualquer maneira, no ia ser til sem os livros. Sabe, acho que o Reitor
da Jordan estava dando o aletmetro para voc. Ele pediu mesmo que voc
o trouxesse para mim? -Sim, ora! -ela exclamou. Mas parou para pensar e
concluiu que, na verdade, o Reitor no tinha lhe pedido para fazer isso;
ela imaginava que era o que ele pretendia. -No -corrigiu. -No sei.
Pensei que... -Bem, eu no o quero. Ele  seu, Lyra. -Mas... -Boa noite,
garota. Sem palavras, perplexa demais com isso para exprimir uma sequer
das dezenas de perguntas que lhe enchiam a mente, ela pegou o aletmetro
e embrulhou-o no veludo preto. Ento sentou-se perto do fogo e ficou
vendo Lorde Asriel retirar-se do aposento. #396 22 A TRAIO ELA
despertou com um homem sacudindo-lhe o brao. Ento Pantalaimon acordou
com um pulo e rosnou, e ela reconheceu Thorold. Ele segurava uma
lamparina a nafta na mo trmula. -Senhorita, senhorita, levante-se
depressa! Ele est quase delirando, desde que a senhorita foi dormir.
Nunca vi meu amo to descontrolado. Arrumou muitos instrumentos e vrias
baterias num tren, atrelou os cachorros e partiu. Mas levou o menino,
senhorita! -Roger? Ele levou o Roger? -Ele me disse para acordar e
vestir o menino, e nem pensei em discutir, nunca fiz isso. O menino
ficou perguntando pela senhorita, mas Lorde Asriel queria ele sozinho.
Sabe, quando a senhorita chegou? Quando ele viu quem era, no queria
acreditar, e ficou mandando a senhorita ir embora? A cabea de Lyra
estava to cheia de pensamentos e temores que ela mal conseguia pensar.
-Sei! Sei! -afirmou. #397 -Era porque ele precisava de uma criana para
terminar a experincia, senhorita! E Lorde Asriel tem um jeitinho todo
especial de conseguir o que quer;  s pedir e... Agora a cabea de Lyra
estava cheia de troves, como se ela estivesse tentando evitar que certa
informao chegasse ao seu consciente. Tinha sado da cama e ia vestir
suas roupas quando caiu no cho de repente. Um agudo grito de desespero
envolveu-a. O grito sara dela, mas era maior do que ela; era como se o
desespero  que estivesse gritando. Pois ela havia se lembrado das
palavras dele: a energia que une o corpo ao daemon  imensamente
poderosa; e para servir de ponte entre os dois mundos era preciso uma
descarga de energia fenomenal.. . Ela acabava de perceber o que fizera.
Tinha lutado para chegar at ali para trazer algo a Lorde Asriel,
pensando saber o que ele queria; e no era o aletmetro. Tudo que ele
queria era uma criana. E ela tinha trazido Roger para ele ! Por isto
ele tinha gritado quando viu Lyra: "No mandei busc-la!"; ele mandara
buscar uma criana, e o destino lhe trouxera sua prpria filha -era o
que ele havia pensado, at ver Roger . Ah, que angstia terrvel! Ela
pensava que estava salvando Roger e o tempo todo estava trabalhando para
trair o amigo... Lyra estremecia, aos soluos, num frenesi de emoo.
Aquilo no podia ser verdade! Thorold tentou acalm-la, mas no sabia o
motivo para tanto sofrimento, e tudo que podia fazer era dar-lhe
tapinhas nervosos no ombro. -Iorek... -ela soluou, afastando o criado.
-Onde est Iorek Byrnison? O urso? Ainda est l fora? O velho deu de
ombros, sem saber responder . #398 -Me ajude! -ela pediu, tremendo de
fraqueza e medo. -Traga meus agasalhos. Tenho que ir. Agora! Rpdo! Ele
pousou a lamparina e fez o que ela pedia. Quando dava ordens naquele tom
imperioso, ela ficava muito parecida com o pai, embora tivesse o rosto
molhado de lgrimas e os lbios trmulos. Enquanto Pantalaimon andava de
um lado para outro sacudindo a cauda com fora, a pelagem quase
faiscando, Thorold correu para trazer as peles dela, rgidas e
fedorentas, e ajudar Lyra a agasalhar-se. Assim que todos os botes
estavam fechados, ela correu para a porta, e sentiu o frio atingir sua
garganta como uma espada e congelar as lgrimas em seu rosto. -Iorek!
-ela se ps a gritar. -Iorek Byrnison! Venha, preciso de voc! Houve um
vulco de neve, um rudo de metal, e o urso apareceu a seu lado;
estivera dormindo tranqilamente sob a neve que caa. Na luz da
lamparina que Thorold segurava junto  janela, Lyra viu a cabea
comprida e sem rosto, as frestas escuras dos olhos, o brilho de plos
brancos sob o metal preto-avermelhado, e teve vontade de abra-lo,
procurando consolo no elmo de ferro, na pele de pontas de gelo. -Que
foi? -ele perguntou. -Temos que alcanar Lorde Asriel. Ele levou o Roger
e vai... no consigo nem pensar nisso... Ah, Iorek, eu lhe imploro, v
depressa, meu querido! -Ento venha- ele retrucou. Lyra saltou para as
costas do urso. No havia necessidade de perguntar o caminho; o rastro
do tren levava para a plancie, e Iorek lanou-se no encalo dele. Seu
movimento fazia agora parte de Lyra, de modo que equilibrar-se havia se
tornado uma coisa automtica para ela. Ele corria mais depressa do que
nunca pelo espesso manto de neve sobre o solo rochoso, e as placas da
sua armadura roavam umas nas outras num ritmo regular. #399 Atrs
deles, os outros ursos vinham mais devagar, puxando o lanador de fogo.
O caminho estava claro, pois a lua estava alta, e sua luz, derramando-se
sobre o mundo nevado, era to clara como tinha sido no balo: um mundo
de prata brilhante e negrume total. O rastro do tren de Lorde Asriel ia
direto para uma serra de picos pontiagudos, formas aguadas e estranhas
que sobressaam num cu to negro quanto o veludo que embrulhava o
aletmetro. No havia sinal do tren -ou havia um levssimo movimento na
encosta do pico mais alto? Lyra tentou enxergar, forando os olhos, e
Pantalaimon voou o mais alto que pde para espiar com sua viso clara de
coruja. - Lorde Asriel, sim, ele est chicoteando furiosamente os ces,
e tem uma criana com ele... Lyra sentiu Iorek Byrnison diminuir a
velocidade; alguma coisa tinha chamado sua ateno. Ele erguia a cabea,
virando-a para a esquerda e para a direita. -Que ? -ela quis saber. Ele
no disse. Estava escutando com ateno, mas ela nada conseguia ouvir.
Mas ento ouviu alguma coisa: um rudo misterioso e muito distante de
coisa roando e estalando. Era um som que ela j ouvira: o som da Aurora
Boreal. Um vu de brilho tinha cado do nada e pendia cintilante no cu
austral. Todos aqueles bilhes e trilhes de partculas carregadas
invisveis, e possivelmente tambm -ela pensou -de P, formavam uma
radincia descendo da atmosfera superior. Nessa noite, a Aurora Boreal
ia ser bem mais brilhante e extraordinria do que qualquer outra que
Lyra j vira, como se soubesse do drama que se desenrolava l embaixo e
quisesse ilumin-lo com os mais impressionantes efeitos especiais. Mas
nenhum dos ursos estava olhando para cima: tinham a ateno voltada para
a terra. Ento no havia sido a Aurora que atrara a ateno de Iorek! O
urso agora estava imvel, e Lyra escorregou das costas dele, sabendo que
ele precisava de liberdade #400 de movimentos para poder se orientar.
Alguma coisa o preocupava. Lyra olhou em volta e para trs, para a
vastido plana que levava  casa de Lorde Asriel, olhou para as
montanhas que tinham atravessado mais cedo, e nada viu. A Aurora Boreal
ficou mais intensa; os primeiros vus tremularam e deslizaram para um
lado, e cortinas irregulares dobraram-se e desdobraram-se acima deles,
aumentando em tamanho e brilho a cada minuto; espirais e arabescos
retorciam-se de um horizonte a outro, e tocavam o prprio znite com
arcos de luz. Ela escutava com mais clareza do que nunca o portentoso
canto sibilado de vastas foras intangveis. -As bruxas! -exclamou uma
voz de urso. Lyra virou-se, com alegria e alvio, mas um focinho pesado
empurrou-a pelas costas e jogou-a no cho; sem flego para levantar-se,
a menina ficou cada, ofegante e trmula, pois no lugar onde ela
estivera de p havia agora a pena verde de uma flecha; a ponta e o cabo
estavam enterrados na neve. "Impossvel!", ela pensou, mas era verdade,
pois outra flecha bateu ruidosamente na armadura de Iorek, que estava de
p acima dela. No eram as bruxas de Serafina Pekkala; eram de outro
cl. Ficaram voando em crculos, mais de uma dzia delas, dando rasantes
para atirar uma flecha e tornando a subir depressa, e Lyra praguejou,
dizendo todos os palavres que sabia. Iorek Byrnison deu ordens rpidas.
Era evidente que os ursos tinham prtica em lutar contra bruxas, pois no
mesmo instante eles se colocaram em posio defensiva, e as bruxas
passaram ao ataque. Elas s conseguiam acertar no alvo se atirassem de
perto, e para no desperdiar flechas, elas mergulhavam, atiravam a
flecha e no mesmo instante subiam. Mas quando chegavam ao ponto mais
baixo do mergulho, tendo as mos ocupadas com o arco e a flecha, elas
ficavam vulnerveis, e os #401 ursos saltavam para o alto com as garras
estendidas e puxavam as bruxas para o cho. Vrias foram derrubadas
assim, e logo liquidadas. Lyra agachou-se junto a uma rocha, observando.
Algumas bruxas atiraram nela, mas erraram o alvo; e ento Lyra, olhando
para cima, viu que a maior parte do grupo se destacava e ia embora. Se
ela ficou aliviada com isso, o alvio no durou mais que uns instantes:
da direo que as bruxas tinham tomado vinham muitas outras, e com elas
no cu havia um grupo de luzes brilhantes; e vindo do outro lado da
plancie de Svalbard, sob a radincia da Aurora Boreal, ela ouviu um som
que abominava: o pulsar de um motor a gs. O zepelim estava chegando,
trazendo a bordo a Sra. Coulter e sua tropa. Iorek rosnou uma ordem, e
os ursos tomaram outra formao. Lyra ficou observando enquanto eles
preparavam o lanador de fogo. A vanguarda da esquadrilha de bruxas
tambm viu isto e a saraivada de flechas recomeou, mas os ursos
confiavam em suas armaduras e trabalharam depressa para montar o
aparelho: um brao comprido que se estendia para o alto em ngulo e uma
cuia com um metro de dimetro; e um grande tanque de ferro coberto de
fumaa e vapor. Enquanto ela observava, surgiu uma labareda brilhante, e
uma equipe de ursos bem treinados ps-se em ao. Dois deles baixaram o
brao do lanador de fogo, outro jogou ps de fogo dentro da cuia e veio
a ordem de disparo; o enxofre flamejante foi lanado para o cu escuro.
As bruxas estavam to apinhadas no cu acima deles que trs delas caram
no primeiro tiro, mas logo ficou bvio que o verdadeiro alvo era o
zepelim. O piloto nunca tinha visto um lanador de fogo, ou ento
subestimava o poder da arma, pois continuou voando diretamente para os
ursos, sem subir ou desviar-se. #402 Ento ficou claro que eles tambm
tinham uma arma poderosa no zepelim: uma metralhadora montada no nariz
da gndola. Lyra viu centelhas voando da armadura de alguns ursos, e
viu-os enrodilhar-se para se protegerem, antes de ouvir o rudo das
balas. Ela gritou com medo. -Eles esto seguros -disse Iorek Byrnison.
-Essas balas de brinquedo no conseguem furar uma armadura. O lanador
de fogo funcionou de novo: desta vez uma massa de enxofre em chamas foi
jogada para o alto e atingiu a gndola, explodindo numa cascata de
brasas. O zepelim fez uma curva para a esquerda e afastou-se num grande
arco antes de voltar para o grupo de ursos que trabalhavam depressa
junto ao lanador de fogo. Enquanto o zepelim se aproximava, o brao da
arma descia; a metralhadora cuspiu balas, e dois ursos caram,
arrancando um rugido baixo de Iorek Byrnison; quando a aeronave estava
quase acima deles, um urso gritou uma ordem, e o brao do aparelho foi
erguido. Desta vez, o enxofre foi lanado contra o balo de gs do
zepelim. A estrutura rgida segurava uma cobertura de seda
impermeabilizada que continha o hidrognio, e, embora ela fosse
suficientemente forte para resistir a pequenos golpes, o peso de toda
aquela carga de mineral em chamas foi demais: a seda rasgou-se de um
lado a outro e o enxofre e o hidrognio encontraram-se, numa catstrofe
de chamas. No mesmo instante, a seda ficou transparente; todo o
esqueleto do zepelim ficou visvel, escuro contra o inferno vermelho e
amarelo, e flutuou no ar pelo que parecia ser um tempo impossivelmente
longo antes de cair devagar, quase com relutncia. Pequenas figuras,
escuras contra a neve e o fogo, saram dele cambaleando ou correndo, e
as bruxas desceram para ajudar a arrast-los das chamas. Em menos de um
minuto, o zepelim tinha se tornado uma massa de metais retorcidos,
fumaa e algumas chamas esparsas. #403 Mas os soldados a bordo, e os
outrOS tambm (embora Lyra estivesse distante demais para identificar a
Sra. Coulter, sabia que ela estava l), no perderam tempo; com a ajuda
das bruxas, eles arrastaram e armaram a metralhadora e continuaram o
combate em terra firme. -Vamos -disse Iorek. -Eles vo agUentar muito
tempo. Ele rugiu, e um grupo de ursos destacou-se e atacou o Banco
direito dos trtaros. Lyra sentia a vontade que ele tinha de estar l
tambm, mas os nervos dela gritavam para que partissem, e sua mente
estava cheia de imagens de Roger e Lorde Asriel; e Iorek Byrnison sabia,
pois deu as costas  luta e comeou a subir a montanha, deixando seus
ursos combatendo os trtaros. Enquanto subiam, Lyra forava os olhos
para enxergar  frente, mas nem mesmo o olhar de coruja de Pantalaimon
conseguia vislumbrar qualquer movimento no Banco da montanha que eles
estavam subindo. Porm as marcas do tren de Lorde Asriel estavam
claras, e Iorek seguia-as rapidamente, saltando atravs da neve,
fazendo-a subir atrs de si. O que acontecia atrs deles era exatamente
isto: algo que havia ficado para trs. Lyra sentia que estava deixando o
mundo para trs, de to distante e decidida que estava, de to alto que
estavam subindo, de to estranha e misteriosa a luz que os banhava.
-Iorek, voc vai encontrar Lee Scoresby? -Vivo ou morto, vou encontrar .
-E se vir Serafina Pekkala... -Eu conto a ela o que voc fez. -Obrigada,
Iorek -ela disse. Por algum tempo, ficaram em silncio. Lyra sentiu-se
cair numa espcie de transe que no era dormir nem estar acordada, quase
um estado de sonho consciente no qual ela sonhava que estava sendo
carregada por ursos para uma cidade nas estrelas. Ia contar isto a Iorek
Byrnison quando ele parou. #404 -Os rastros continuam em frente, mas eu
no posso - disse ele. Lyra saltou para o cho e parou ao lado dele.
Estavam de p na beira de um abismo. Era difcil dizer se se tratava de
uma fenda no gelo ou uma fissura na rocha, mas isto no fazia diferena.
O que importava era que o precipcio mergulhava na escurido insondvel.
E o rastro do tren de Lorde Asriel chegava at aborda... e ia em
frente, atravs de uma ponte de neve compactada. Era evidente que a
ponte tinha sentido o peso do tren, pois havia nela uma rachadura junto
 outra borda do abismo, e a superfcie da ponte perto da rachadura
tinha cedido quase meio metro. Poderia suportar o peso de uma criana,
mas nunca o de um urso de armadura. E o rastro de Lorde Asriel
atravessava aponte e subia a montanha do outro lado. Se Lyra
continuasse, teria que ir sozinha. Ela voltou-se para Iorek Byrnison.
-Tenho que atravessar-declarou. -Obrigada por tudo que fez por mim. No
sei o que vai acontecer quando eu alcanar Lorde Asriel. Podemos morrer
todos, mesmo que eu no chegue at l. Mas se eu voltar, virei fazer uma
visita para agradecer mais uma vez, Rei Iorek Byrnison. Ela colocou a
mo na cabea dele, e ele assentiu delicadamente. -Adeus, Lyra da Lngua
Mgica -disse. Com o corao apertado e dolorido, ela colocou um p na
ponte. A neve estalou sob seu peso, e Pantalaimon voou para pousar na
outra extremidade da ponte e encoraj-la a prosseguir . Ela deu um passo
aps outro, perguntando-se a cada passo se no seria melhor correr at o
outro lado e dar um pulo para a margem ou ir devagar como estava
fazendo, pisando de leve. Na metade do percurso, ela ouviu outro
estalido da neve; perto de seus ps, #405 um pedao de gelo despencou no
abismo, e a ponte cedeu mais alguns centmetros. Ela ficou imvel.
Pantalaimon, em forma de leopardo, estava agachado, pronto para saltar e
agarr-la. A ponte agUentou. Ela deu outro passo, mais outro, e ento
sentiu que alguma coisa cedia sob seus ps e saltou para a borda com
toda a fora que tinha. Aterrissou de barriga na neve e no mesmo
instante a ponte inteira caa no abismo. Pantalaimon tinha as garras
cravadas nas peles do agasalho da menina. Depois de um minuto, ela abriu
os olhos e rastejou para longe da borda. J no havia caminho de volta.
Ela ficou de p e levantou a mo para o urso que a observava. Iorek
Byrnison ergueu-se nas patas traseiras para despedir-se, e ento
virou-se e desceu a montanha correndo, para ir ajudar seus sditos na
batalha contra a Sra. Coulter e os soldados do zepelim. Lyra estava
sozinha. #406 23 A PONTE PARA AS ESTRELAS QUANDO O urso desapareceu de
vista, Lyra sentiu que uma grande fraqueza a dominava, e S cegas tateou
em busca de Pantalaimon. -Ah, meu querido Pan, no posso continuar!
Estou to apavorada, to cansada, viajei tanto, estou morrendo de medo!
Queria que outra pessoa estivesse no meu lugar, eu juro! O daemon
encostou-se ao pescoo dela, morno e reconfortante. -No sei o que
fazer- Lyra soluou. - demais para ns, Pan, ns no vamos conseguir...
Ela agarrou-se a ele, ninando-o e deixando os soluos ecoarem pela neve.
Pensava: mesmo se a... a Sra. Coulter chegasse primeiro, isto no ia
salvar Roger. Ela levaria o menino para Bolvangar ou coisa pior, e me
mataria por Vingana... -Por que eles fazem essas coisas, Pan? Ser que
todos eles odeiam tanto assim as crianas, aponto de querer fazer isso?
Por qu? #407 Mas Pantalaimon no sabia responder; tudo que podia fazer
era apert-la com fora. Aos poucos, enquanto a tempestade de medo se
acalmava, ela recuperou a confiana em si. Afinal, ela era Lyra! Podia
estar com frio e com medo, mas era Lyra! -Eu queria... -comeou a dizer,
mas parou; querer no levava a nada. Com um ltimo suspiro trmulo, ela
estava pronta para seguir em frente. A esta altura, a lua morrera, e o
cu ao sul estava profundamente escuro, embora milhes de estrelas ali
brilhassem como diamantes no veludo. A Aurora Boreal, porm, brilhava
100 vezes mais que elas. Lyra nunca a tinha visto to brilhante e
espetacular; a cada movimento, novos milagres de luz danavam pelo cu.
E por trs da inconstante cortina de luz, aquele outro mundo, a cidade
iluminada pelo sol, mostrava-se, clara e slida. Quanto mais Lyra e
Pantalaimon subiam, mais aterra rida estendia-se abaixo deles. Ao norte
estava o mar congelado, com rachaduras onde duas placas de gelo tinham
colidido, mas, exceto isto, plano e infinito, chegando at o prprio
Plo e indo alm dele, sem caractersticas, sem vida, sem cor, nu como
Lyra jamais poderia ter imaginado. Para o leste e para o oeste,
erguiam-se mais montanhas de picos altos e pontudos, as escarpas
cobertas de neve e cortadas pelo vento em lminas aguadas como
cimitarras. Para o sul, estava o caminho por onde tinham vindo, e Lyra
olhou para trs com emoo, esperando ver seu querido amigo Iorec
Byrnison e sua tropa; mas nada se movia na plancie. Ela nem sequer
podia ter certeza de estar enxergando os restos do zepelim ou a neve
manchada de vermelho em volta dos cadveres dos guerreiros. Pantalaimon
levantou vo e voltou para o pulso dela em forma de coruja. -Esto logo
atrs do pico! -disse. -Lorde Asriel preparou todos os seus
instrumentos, e Roger no consegue fugir... #408 Enquanto ele falava, a
Aurora Boreal piscou e perdeu intensidade, como uma lmpada anbrica no
fim do tempo de uso, e ento desapareceu de vez. Na penumbra, porm,Lyra
sentia a presena do P, pois o ar parecia cheio de ms intenes, como
formas de pensamentos ainda por nascer. Na escurido que a envolvia, ela
ouviu uma voz infantil: -Lyra! Lyra! -Estou indo! -ela gritou de volta,
e cambaleou para cima, caindo, levantando, lutando, esforando-se, j no
final de suas foras, porm avanando sem parar atravs da neve que
brilhava fantasmagoricamente. -Lyra! Lyra! -Estou quase chegando -ela
ofegou. -Quase chegando, Roger! Pantalaimon, em sua aflio,
transformava-se rapidamente: leo, arminho, guia, gato-do-mato,
salamandra, coruja, leopardo, todas as formas que ele j havia tomado,
um caleidoscpio de formas em meio ao P... -Lyra! Ela chegou ao topo e
viu o que estava acontecendo. A uns 50 metros de distncia, Lorde Asriel
estava torcendo juntos dois fios que levavam ao tren tombado de lado,
sobre o qual havia uma fila de baterias, vidros e peas de aparelhagem,
j cobertos de cristais de gelo. Ele vestia peles grossas e tinha o
rosto iluminado pela chama de uma lamparina de nafta. Deitada como a
Esfinge ao lado dele estava seu daemon, movimentando a cauda
preguiosamente sobre a neve, a linda pelagem brilhando. Em sua boca
estava o daemon de Roger. A pequena criatura lutava, arranhava, mordia,
passando de pssaro a cachorro, depois gato, rato, outra vez pssaro,
incessantemente chamando por Roger, a poucos metros de distncia, tambm
lutando, tentando dominar o pnico e a dor e gritando de sofrimento e de
frio. Ele chamava o nome de seu daemon e #409 chamava Lyra; ele correu
para Lorde Asriel e agarrou-lhe o brao, mas Lorde Asriel jogou-o longe.
Ele tornou a tentar, chorando e implorando, mas Lorde Asriel jogou-o no
cho outra vez. Estavam na beira de um abismo; atrs deles havia apenas
as trevas infinitas. Estavam mais de 300 metros acima do mar congelado.
Lyra enxergou tudo isso  luz das estrelas; mas ento, enquanto Lorde
Asriel ligava seus fios, a Aurora Boreal iluminou-se inteira outra vez,
como a centelha de poder mortal que brinca entre dois terminais, s que
neste caso um deles tinha mais de mil quilmetros de altura e 30 mil de
comprimento. A Aurora Boreal mergulhava e crescia, ondulando,
cintilando, uma gloriosa catarata de luz. E era controlada por ele... Ou
ento ele estava recebendo energia dela, pois havia um fio que saa de
um imenso carretel no tren e subia diretamente para o cu. Da escurido
surgiu um corvo, que Lyra identificou como o daemon de uma bruxa. Havia
uma bruxa ajudando Lorde Asriel, e ela levara ofio para as alturas. E a
Aurora brilhava outra vez. Ele estava quase pronto. Virou-se para Roger
e chamou-o, e Roger obedeceu, sacudindo a cabea, implorando, chorando,
mas sem nada poder fazer. -No! Fuja, correndo! -Lyra gritou,
lanando-se encosta abaixo. Pantalaimon saltou sobre a pantera branca e
arrancou o daemon de Roger dos dentes dela. O daemon-pantera saltou
sobre ele, e Pantalaimon soltou o outro daemon; ambos, mudando de forma
sem parar, viraram-se e deram combate ao enorme animal. Ele tentava
atingi-los com suas garras afiadas, e seu rugido encobriu at mesmo os
gritos de Lyra. As duas crianas tambm lutavam contra ele ou contra as
formas no ar, aquelas ms intenes que desciam pelos jorros de P...
#410 E l no alto a Aurora Boreal oscilava, e seu brilho iluminava ora
um prdio, ora um lago, ora uma fila de palmeiras, tudo to perto que
dava a impresso de que se podia passar caminhando de um mundo ao outro.
Lyra deu um pulo e agarrou a mo de Roger, puxando-o com fora. Os dois
se desvencilharam de Lorde Asriel e correram de mos dadas, mas Roger
caiu e contorceu-se, pois a pantera tornara a capturar seu daemon; Lyra
conhecia aquela dor e tentou parar... Mas no conseguiram parar. O
rochedo estava deslizando debaixo deles. Uma plataforma de neve,
deslizando inexoravelmente para o abismo... Para o mar congelado,
centenas de metros abaixo deles... -LYRA! Corao pulsando... Mos que a
agarravam com fora... E l no alto a maior maravilha: o domo celeste,
cravejado de estrelas, profundo, de repente foi perfurado como se por
uma espada. Um jato de luz, um jato de pura energia liberada como uma
flecha lanada por um arco imenso, disparou para cima. As cortinas de
luz e cor que eram a Aurora Boreal rasgaram-se com um som forte que
chegou s extremidades do universo; havia terra seca no cu... A luz do
sol! A luz do sol brilhando na pelagem de um macaco dourado... Pois a
descida da prateleira de neve havia cessado; talvez uma protuberncia na
encosta tivesse interrompido aqueda. Lyra avistou, na neve remexida do
topo da montanha, o macaco dourado surgir do ar ao lado da pantera e viu
os dois daemons se eriarem, fortes e atentos. O macaco tinha a cauda
ereta, e a pantera balanava a dela de um lado para outro. Ento o
macaco estendeu a pata hesitantemente, a pantera baixou a cabea em
gracioso reconhecimento, os dois se tocaram... #411 E quando Lyra
desviou o olhar deles, viu a prpria Sra. Coulter presa nos braos de
Lorde Asriel. A luz brincava em volta deles como raios e centelhas de
intensa energia anbrica. Lyra, impotente, s podia imaginar o que tinha
acontecido: a Sra. Coulter havia conseguido atravessar o abismo e chegar
at ali... Seu pai e sua me, juntos! E num abrao apaixonado: uma coisa
inimaginvel. Ela arregalou os olhos. O corpo de Roger estava morto em
seus braos, imvel, quieto, descansando. Ela ouviu os pais conversando.
A me disse: -Eles nunca vo permitir... -Permitir? -o pai repetiu. -Ns
j passamos da fase de pedir permisso como se fssemos crianas. Eu
tornei possvel que qualquer um atravesse se quiser. -Eles vo proibir!
Vo vedar a passagem e excomungar quem tentar! -Vai ter gente demais
querendo passar. Eles no vo conseguir impedir. Isso vai significar o
fim da Igreja, Marisa, o fim do Magisterium, o fim de todos esses
sculos de trevas! Olhe para aquela luz l no alto:  o sol de outro
mundo! Sinta o calor dele na sua pele, agora! -Eles so mais poderosos
que tudo, Asriel. Voc no conhece... -Eu no conheo? Ningum no mundo
conhece mais do que eu o poder da Igreja! Mas ela no  suficientemente
poderosa para isso. De qualquer maneira, o P vai mudar tudo. Agora 
impossvel impedir. -Era isso que voc queria? Sufocar todos ns, matar
todos ns com pecado e trevas? -Eu queria me libertar, Marisa! E
consegui. Olhe, veja as palmeiras balanando na praia! Est sentindo o
vento?  o vento de um outro mundo! Sinta nos cabelos, no rosto... #412
Lorde Asriel afastou o capuz do rosto da Sra. Coulter e virou a cabea
dela para o cu, deslizando os dedos pelos cabelos dela. Lyra observava
sem ousar mover um s msculo. A mulher agarrou-se a Lorde Asriel como
se estivesse tonta e sacudiu a cabea, aflita. -No, no... Eles esto
vindo, Asriel. Sabem para onde eu vinha... -Ento venha comigo para fora
deste mundo! -No tenho coragem... -Voc? Logo voc, no tem coragem?
At sua filha viria. Sua filha teria coragem para qualquer coisa,
envergonhando a me dela. -Ento v com ela, e boa viagem. Ela  mais
sua do que minha, Asriel. -No. Foi voc quem a levou; tentou mold-la.
Naquela poca, voc a queria. -Ela era rstica demais, teimosa demais.
Deixei passar tempo demais... Mas onde  que ela est? Segui as pegadas
dela at aqui... -Ainda quer ficar com ela? Duas vezes tentou prend-la
e duas vezes ela fugiu. Se eu fosse ela, ia sair correndo para no lhe
dar uma terceira oportunidade. As mos dele, ainda segurando a cabea
dela, de repente ficaram tensas e puxaram-na para ele num beijo
apaixonado. Para Lyra aquilo parecia mais crueldade do que amor. Olhando
para os daemons dos dois, viu uma cena estranha: a pantera tensa,
agachada, com as garras sobre a carne do macaco dourado, e o macaco
relaxado, feliz, cambaleando na neve. A Sra. Coulter desvencilhou-se do
beijo e disse: -No, Asriel, meu lugar  neste mundo, no no outro...
-Venha comigo! -ele disse, em tom urgente e autoritrio. -Venha
trabalhar comigo! -Voc e eu no podemos trabalhar juntos. #413 -No?
Voc e eu podemos desmontar o universo e tornar a montar, Marisa!
Podemos encontrar a fonte do P e destru-la para sempre! E voc
gostaria de fazer parte dessa grande obra, no minta. Pode mentir sobre
todo o resto: sobre o Conselho de Oblao, sobre os seus amantes... Sim,
eu sei de Boreal, e no me importo. Pode mentir sobre a Igreja, pode at
mentir sobre a menina, mas no minta sobre o que realmente deseja... E
suas bocas novamente se uniram com um desejo avassalador. Seus daemons
brincavam violentamente; a pantera deitou-se de costas, e o macaco
passou as garras na pele macia do pescoo dela, e ela ronronou de prazer
. -Se eu no for, voc vai tentar me destruir- disse a Sra. Coulter,
desvencilhando-se. -Por que eu iria querer destruir voc? -perguntou
ele, rindo, com a luz do outro mundo brilhando em volta da cabea. -Se
vier comigo, se trabalhar comigo, vou me preocupar com voc; se ficar
aqui, perderei todo o interesse. No pense que vou me lembrar de voc
por um segundo que seja. Agora: ou fique, para fazer suas maldades neste
mundo, ou venha comigo. A Sra. Coulter hesitou; fechou os olhos e
pareceu oscilar, como se fosse desmaiar; mas recuperou o equilbrio e
abriu os olhos, que mostravam uma tristeza bela e infinita. -No -disse.
-No vou. Os dois daemons estavam novamente separados. Lorde Asriel
baixou a mo e mergulhou os dedos fortes nos plos da pantera; ento
virou-se e afastou-se sem outra palavra. O macaco dourado saltou para os
braos da Sra. Coulter soltando pequenos gemidos de tristeza e
estendendo os braos para a pantera que se afastava; o rosto da Sra.
Coulter era uma mscara de lgrimas. Lyra as via brilhar: eram reais.
Ento a me dela virou-se, sacudida pelo pranto, e afastou-se montanha
abaixo, desaparecendo de vista. Lyra observou-a #414 friamente, depois
ergueu os olhos para o cu. Nunca tinha visto tamanha maravilha. A
cidade ali flutuando, to vazia e silenciosa, parecia recm-construda,
 espera de ser ocupada, ou adormecida,  espera de ser despertada. O
sol daquele mundo brilhava neste mundo, tornando douradas as mos de
Lyra, derretendo o gelo no capuz de pele de lobo que Roger estava
usando, tornando transparentes as faces plidas do menino, brilhando em
seus olhos abertos e cegos. Ela sentiu-se dilacerada de infelicidade. E
de raiva, tambm. Poderia ter matado o pai; se pudesse arrancar o
corao dele, teria feito isso, por causa do que ele fizera a Roger. E a
ela: ele tinha mentido. Ela ainda estava abraada ao corpo de Roger.
Pantalaimon dizia alguma coisa, mas ela estava com o crebro em tumulto
e no escutou at que ele enfiou suas garras de gato-do-mato na mo
dela. Ela pestanejou. -Que foi? -perguntou. -O P! -ele disse. -Que 
que voc est dizendo? -O P. Ele vai encontrar e destruir a fonte do
P, no ? -Foi o que ele disse. -E o Conselho de Oblao, a Igreja,
Bolvangar, a Sra. Coulter e o resto, todos querem a mesma coisa, no ?
-... Ou que ele pare de afetar as pessoas... Por qu? -Porque se eles
acham que o P  ruim, ele deve ser bom. Ela no respondeu; uma onda de
excitao crescia em seu peito. Pantalaimon continuou: -Ns ouvimos
todos falarem sobre o P, e eles tm muito medo dele, e sabe de uma
coisa? Ns acabamos acreditando neles, mesmo vendo que tudo que faziam
era errado, perverso e cruel... Pensamos que o P devia ser ruim, porque
eles eram adultos e diziam isso. Mas e se no for? E se ele for... #415
Ela o interrompeu: -! E se na verdade ele for bom... Lyra olhou para
Pantalaimon e viu seus olhos verdes de gato-do-mato cintilarem. Sentiu
uma vertigem, como se o mundo inteiro estivesse oscilando sob seus ps.
Se o P era uma coisa boa... Se fosse algo a ser procurado e
valorizado... -Ns tambm podemos procurar o P! -ela exclamou. Era o
que ele queria ouvir. -Podemos encontrar antes dele e... A enormidade
daquela misso silenciou-os. Lyra ergueu os olhos para o cu em chamas.
Tinha conscincia de como eram pequenos, ela e seu daemon, comparados
com a majestade e a vastido do universo; e de como sabiam pouco, em
comparao com os profundos mistrios acima deles. -Ns podemos, sim
-Pantalaimon insistiu. -Chegamos at aqui, no foi? Podemos conseguir.
-Ns estaremos sozinhos. Iorek Byrnison no vai estar l para nos
ajudar. Nem Farder Coram, nem Serafina Pekkala, ou Lee Scoresby,
ningum. -Ento s ns. No importa. De qualquer maneira, no estamos
sozinhos como... Ela sabia que ele estava querendo dizer: " Como Tony
Makarios, como aqueles pobres daemons perdidos em Bolvangar; ainda somos
um ser nico; ns dois somos um s." -E temos o aletmetro -ela
completou. -, acho que temos que fazer isso, Pan. Vamos subir l e
procurar o P, e quando encontrarmos, vamos saber o que fazer. O corpo
de Roger jazia imvel noS braos dela. Ela o colocou no cho
carinhosamente. -E faremos -finalizou. #416 Ela voltou-se para o outro
lado. Atrs deles, ficavam a dor, a morte e o medo;  frente deles, a
incerteza, o perigo e mistrios inimaginveis. Mas eles no estavam
sozinhos. Assim, Lyra e seu daemon deram as costas ao mundo em que
nasceram, virando-se na direo do sol, e caminharam para o cu. Final
do Livro Um #417
